Coerência (2)

serra1.jpg

Ontem conclui meu post Coerência assim:

“A mídia e a população tem direito sim de saber se tal ou qual ministro ou funcionário usou o cartão corporativo para pagar uma viagem privada, ou beneficiar indevidamente amigos, correligionários ou parentes. Como teria também o direito de saber se o governador de São Paulo, que foi pular o carnaval no camarote do governador de Rio e depois viajou para visitar sua filha em Trancoso, na Bahia, usou o jatinho do governo estadual ou avião de carreira pago pelo próprio bolso.

Trata-se de uma cobrança e fiscalização legitima, valida para qualquer governo, de qualquer partido, e que a mídia deve exercer com liberdade e sem cerceamento nenhum. Sempre com o mesmo rigor, com o mesmo equilíbrio e a mesma sobriedade.

Talvez esse rigor, equilibro e sobriedade faltem. Nosso dever como cidadãos é exigir esta conduta da própria mídia, se vier a falhar.

Vamos aguardar.”

Hoje a Folha de São Paulo, agindo com coerência, mostrou que a questão dos cartões concerne tanto o governo federal como o governo estadual de São Paulo. Confirmou o que Paulo Henrique Amorim tinha publicado. A Folha está de parabéns por transmitir a informação e com destaque.

Mas é dever do jornalismo ir além e investigar se há ilícito, erro, abuso ou não. Não basta dizer que é muito dinheiro e limitar-se a uma insinuação generalizada que leva descrédito aos políticos em geral e desmoraliza as instituições, reforçando um udenismo infantil.

O jornalista Josias de Souza disse no seu blog:

“Gestão Serra gastou R$ 108 milhões com ‘cartões’

Aos pouquinhos, a farra dos cartões governamentais vai se transformando numa encrenca suprapartidária. Iluminando-se os subterrâneos financeiros da gestão de José Serra no governo de São Paulo, descobre-se que o tucanato comparece à encrenca dos cartões em posição nada confortável.

Notícia veiculada pela Folha nesta sexta-feira (8) informa que, em 2007, o governo paulista torrou notáveis R$ 108.384.269,26 em dinheiro de plástico, chamado em São Paulo de “cartão de débito”. É uma quantia bem mais vistosa do que os R$ 78 milhões que os cartões corporativos federais despejaram no mercado durante o ano passado.

Há em São Paulo 42.315 cartões. De novo, muito mais do que o congênere federal: oficialmente, a CGU (Controladoria-Geral da República) diz que somam 7.145 os funcionários autorizados a portar os cartões federais. Extra-oficialmente, estima-se que o número de cartões passa de 11 mil.

Há mais: sob Serra, também se utiliza o cartão financiado com verba pública para efetuar saques na boca de caixas eletrônicos. Procedimento vivamente desaconselhado pelo TCU. Do total gasto em São Paulo no ano de 2007, 44,58% deixou o erário na forma de saques. Coisa de R$ 48,3 milhões. Na esfera federal, os saques somaram 75,26% do total.

Há pior: na administração tucana, a transparência é menor, muito menor, diminuta. As despesas com cartões só estão disponíveis no sistema informatizado que serve aos deputados na Assembléia Legislativa de São Paulo. Em Brasília, a maior parte dos dados encontra-se ao alcance de qualquer brasileiro no chamado Portal da Transparência.

O governo de São Paulo tampouco está imune aos gastos de aparência exótica. Por exemplo:

Em 28 de julho de 2007, um dos cartões da administração paulista deixou R$ 597 na Spicy, uma conhecida loja de acessórios chiques para cozinha. O que foi comprado? Os computadores da Assembléia não trazem a informação. Limita-se a anotar a saída do numerário, num item batizado de “despesas miúdas e de pronto pagamento”.

Em 4 de abril do ano passado, pagou-se com um cartão do governo de São Paulo R$ 977 na loja de presentes Mickey. De novo, “despesas miúdas e de pronto pagamento”.

Em 11 de maio de 2007, foram à caixa registradora de uma churrascaria paulistana R$ 6.500. Despesa realizada com um cartão da Secretaria de Segurança.”

Volto a repetir, existe ilícito no uso dos cartões do governo Serra? A mídia investigou?

Os autores de petições em favor de CPI em Brasilía vão agora exigir CPI em São Paulo? Vão dizer que não sabiam?

Faz duas semanas que se fala nos cartões e até o ombudsman da Folha dizia ontem que não sabia se os governos estaduais também tinham cartões com as mesmas características.

E todos aqueles que falavam que eram montanhas de dinheiro? Vão agora dizer que a montanha tucana de dinheiro é bem maior?

Aonde leva um debate público nesses termos?

Não compartilho da propagação de insinuações e não penso que ela contribua para aprimorar a democracia brasileira.

Luis Favre

Tags: , , , , ,

10 COMENTÁRIOS PARA "Coerência (2)":

Comentado por marcos em 08/02/2008 - 19:50h:

Realmente, é preciso coerência para ir além das aparências e apresentar para o debate todas as nuances da fato, e não uma versão capciosa e de má fé !!!!

Comentado por Ricardo em 08/02/2008 - 20:03h:

Facil justificar o erro do PT com o erro de outro partido… parece coisa de crianca: “se eles fazem eu tambem posso!”
Tipico do PT!

Comentado por daisy em 08/02/2008 - 20:06h:

O lula quando viaja vai de jegue?
Ora…vocês vão agora buscar o cartão de crédito do Pedro Alvares Cabral? Vocês não têm vargonha na cara?

Comentado por Jorge Generoso do Nascimento em 08/02/2008 - 21:13h:

Ufa, finalmente mais um companheiro com blog para enfrentar a ditadura do elitizado paulista/paulistano. Viva a Marta. Claro que eu gostaria de falar o que ela falou para aqueles moços lá que viveram 5 mil anos de história com o seres da idade da pedra e, depois que entraram na comunidade européia, se acham civilizados. Nunca vi tamanha estultice. Aliás, basta ver a televisã o de lá (ou as campanhias dos celulares quando há um atentado terrorista, aliás, diga-se de passagem, de um povo que eles teimam em não dar autonomia). Pena que não moro em São Paulo para votar na Marta. É realmente uma estrela chique. Nada dessas cruvineis da vida. Parabéns pelo blog.

Comentado por Renê em 08/02/2008 - 21:47h:

A diferença entre os cartões é enorme, o do Lula é de crédito, a cumpanheirada pode sacar a vontade. O do Serra é de débito, tem limite, só serve para uma coisa e tem alguém que responde pelo uso do cartão.
Começou mal em seu Favre, acha que somos burros?

Comentado por Fernando Soares em 08/02/2008 - 21:54h:

Pimenta no olho dos outros é refresco.

Comentado por Lima em 08/02/2008 - 21:56h:

Alô, Folha: São Paulo tem governador e o nome dele é José Serra!

É incrível o tratamento privilegiado que a Folha dá ao José Serra. O próprio ombudsman do jornal já vinha alertando para as relações suspeitas entre o jornal e o governador.

Mas, na edição de hoje foi demais. A Folha, premida pelos acontecimentos, finalmente trouxe a notícia de que em São Paulo os gastos com cartões corporativos são muito maiores que os da presidência e que em São Paulo mais de 40 mil servidores têm destes cartões, quatro vezes mais do que o Governo Federal.

Mas a Folha, em sua edição nacional, conseguiu a proeza de produzir uma manchete de capa e uma reportagem de aproximadamente uma página (página A4), sem citar o nome do governador José Serra uma única vez sequer.

A Folha faz qualquer coisa para preservar o Serra!

Comentado por Juju em 08/02/2008 - 22:04h:

rararararrara…
Se não fosse o Tio Rei, eu nunca iria entrar aqui…
Vocês acham que somos burros?
Não, nem todo mundo é analfa e petista.

Comentado por Jose Américo em 08/02/2008 - 22:09h:

Caro Favre,
Parabéns pelo novo visual e pela nova organização do seu blog. A história dos cartões é um bom teste para a nossa imprensa. Em relação ao governo federal, tem sido aquela pancadaria de um jeito preconceituoso, típico da luta política. Um funcionário que comenteu um erro ou um ministro é a mesma coisa. Um motivo para explodir manchetes. Mas, e agora? Como vão reagir os jornalistas e os jornais tucanófilos diante do uso intensivo dos cartões e dos saques diretos por parte do governo tucano de José Serra e de seu antecessor Geraldo Alkimin? Afinal, em 2007 os gastos foram de mais de 100 milhões de reais, ou seja, um número mais vistoso que o que foi gasto pelo governo federal. E não adianta tentar dourar a pípula! Em São Paulo também houve presentes comprados numa loja chamada Mickey, gastos numa churrascaria ( cerca de seis mil reais, o equivalente ao valor de uns cinco bois gordos) e daí para cima…. Bem. Vamos aguardar…( Gostei também de sua resposta para a Bárbara Gancia…). José Américo.

Comentado por Renê em 08/02/2008 - 22:17h:

Do blog do coronel:
José Serra está pagando pela sua omissão como opositor à Lula e ao PT. Virou a última vidraça para a petralha, que agora quer uma CPI nos cartões do Governo de São Paulo. Bem feito. Quem sabe Serra volte a ser um verdadeiro opositor, em vez de buscar uma convivência e uma conivência pacífica com a “cumpanherada”, de olho em 2010. Mas duvido que tenha peito de vir a público e perguntar se existe algum destes motivos para abrir uma CPI em São Paulo:

1. Eu tenho algum filho ou filha usando de forma suspeita o cartão do governo paulista, como o Lula tem?

2. Eu tenho algum secretário que fez compras pessoais no free shop, como o Lula teve?

3. O meu Secretário da Justiça passou a noite de Natal no Copacabana Palace, pagando a conta com cartão corporativo , como o ex-Ministro da Justiça do Lula?

4. Algum assessor do meu Secretário da Justiça de hospedou sucessivamente no Hotel Ca’D’oro, aos finais de semana, pagando com cartão do meu governo, como o assessor do atual Ministro da Justiça do Lula?

5. Algum militar da ativa está sendo usado como “laranja” para pagar despesas lançadas na rubrica de “pessoa jurídica”?

José Serra, com os seus arrulhos com Lula, já perdeu mais de 20 milhões de votos para 2010. Se continuar jogando com covardia, buscando conchavos com a petralha, vai perder muito mais. O Lula vai embora daqui dois anos. Não lhe custa nada levar o cadáver político de José Serra junto.

http://www.coturnonoturno.blogspot.com/

 

DEIXE SEU COMENTÁRIO: