No fim da história, a busca pela moral
Em Exit Ghost, Roth oferece coda à vida do personagem Nathan Zuckerman e medita sobre perdas provocadas pela velhice
Michiko Kakutani – O Estado de São Paulo
Já se vão quase três décadas desde que Philip Roth publicou Diário de Uma Ilusão (The Ghost Writer), o primeiro de seus muitos romances comentando as aventuras de seu mais conhecido alter ego, Nathan Zuckerman. No livro, ele era um jovem escritor, ansioso a conviver no altar da grande arte, convencido de ter encontrado seu modelo no escritor recluso E.I. Lonoff, que vivia uma vida pacata em Berkshire, longe das distrações do mundo literário.
Nos romances seguintes, descobrimos que Nathan passou a viver uma vida que pouco tinha a ver com a de Lonoff, publicando um best-seller escandaloso que o separou de sua família e de seu passado. Mais tarde, porém, após diversas relações problemáticas, ele acabou, enfim, replicando o modo de vida de Lonoff. Por mais de uma década, ele tem vivido em uma pequena casa em Berkshire. Seus dias são gastos burilando frases; e, suas noites, dedicadas à leitura dos mestres da literatura que ele descobriu décadas antes, quando era estudante.
Agora, em Exit Ghost, Nathan retorna a Nova York para se consultar com um médico e se vê tentado novamente pela vida agitada. Ele concorda em trocar de casa por um ano com dois jovens escritores, Jamie e seu marido, Billy, que viviam em um pequeno apartamento no Upper West Side. Mas ele se encanta por Jamie, esperando, contra todas as probabilidades, que essa jovem feliz de 30 anos largue seu marido por ele – um egocêntrico escritor de 71 anos, impotente e incontinente. Ele também reencontra Amy Bellette, ex-amante de Lonoff, apenas para descobrir que aquela bela mulher que observou em The Ghost Writer é agora uma inválida se recuperando de uma cirurgia no cérebro.
A partir desses elementos, Roth cria uma meditação melancólica, às vezes divertida, sobre o envelhecimento, a mortalidade, a solidão e as perdas que vêm com o passar do tempo. Comparado com sua trilogia do pós-guerra (Pastoral Americana, Casei Com Um Comunista e A Marca Humana), crônicas audaciosas da inocência e do desencanto na América, este é um volume definitivamente modesto; mas possui uma emoção que não encontramos em Homem Comum e O Animal Agonizante – e, para os fãs de Zuckerman, oferece uma coda precisa para sua história, colocando um ponto final em sua jornada desde o idealismo juvenil até a angústia perante a velhice.
Apesar de achar que abraçou a vida ascética, encontrando em sua solidão uma liberdade que diz agradar-lhe, Nathan tem vivido em uma bolha monástica que o separou do comércio e comunicação humanos. Não vê filmes ou programas de televisão, não tem celular, videocassete, DVD, computador. Continua a viver na era da máquina de escrever, sem saber o que é a internet e sem se dar ao trabalho de votar. Atraído por Jamie e impactado pela imagem de Amy Bellette, ele se encontra agora lidando com sentimentos que pensara ter banido de sua vida, experimentando “a amarga impotência de um velho que quer viver plenamente de novo”. As histórias das duas mulheres convergem em Richard Kilman, antigo namorado de Jamie, que está escrevendo uma biografia de Lonoff que Amy quer proibir. Kilman é outro daqueles personagens incômodos que infernizam os heróis de Roth e Nathan vê nele tudo o que detesta: um rival com relação a Jamie, um parasita literário ambicioso tentando derrubar Lonoff de seu pedestal, relevando um suposto caso incestuoso que ele teria tido na juventude. Ele também representa a juventude, perante a velhice de Nathan.
Não está claro quanto as intenções de Kilman são imaginadas por Nathan, que, em certo momento, transforma todas as conversas com Jamie em diálogos imaginários entre “Ele” e “Ela” – um diálogo que não aliviava nada, não levava a nada” e, ainda assim, “parecia terrivelmente necessário”. Este, claro, é o hábito de Nathan – complicar continuamente sua vida no papel, enquanto reclama continuamente sobre leitores que confundem fato e ficção, vida e arte. Como sempre, Nathan, como seu criador, antecipa a questão do leitor: “Será que o coeficiente de dor de uma pessoa já não é impactante demais sem a amplificação ficcional, dando às coisas uma intensidade que é efêmera na vida e, às vezes, invisível?” Sua resposta: “Não para algumas pessoas. Para alguns muito poucos, esta amplificação, envolvendo a dúvida despropositada, constitui a única segurança, e os retratos criados no papel são as vidas cujos significados mais importam.”
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