Estimado cliente

Camila do Valle - Jornal do Brasil


Estimado cliente : você mesmo, digníssimo e nem sempre digníssimo leitor. Quem mais seria cliente em se tratando de um texto? E desde já saiba que aqui você nem sempre tem razão. Senhoras e senhores, aviso que o título da coluna é roubado e que vou fazer uma revelação bombástica: é possível construir outros cânones literários contemporâneos sem passar pela Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), embora também possamos passar por ali.

Não é que a vida literária no Brasil, a dita inteligente, salvo poucas exceções, pensa, se é que pensa nisso, que os escritores argentinos, mexicanos, uruguaios, paraguaios, peruanos, bolivianos, equatorianos, colombianos – ooops, deixei equatorianos e colombianos juntos logo agora que andam meio “apartados”… – guatemaltecos e chilenos são somente esses poucos e já requentados que aparecem nas livrarias?

Aparecem é modo de dizer para continuar o texto. Um leitor médio no Brasil sabe muito mais da antiga e da atual safra de escritores norte-americanos, ingleses, alemães, franceses, turcos e até japoneses do que sobre o que toca no programa de rádio do vizinho latino. Que dizer se o assunto em pauta é, em lugar de música, literatura? A parte que toca à intelligentsia brasileira é meio descuidada no que concerne à atualização e à aproximação “periferia-periferia” sem a necessidade de passar seja por que “centro” for, europeu ou norte-americano. Aviso que sigo tomando “periferia” e “centro” dentro do senso comum, sem transformar este texto num campo de batalha de idéias acerca de teorias literárias vigentes – até porque a idéia de vigência em teoria literária é uma mina de pólvora indesejável…

Entretanto, estimado cliente, você deve estar se perguntando, afinal, por que é que deveria saber o que toca nas rádios ou o que é produzido e publicado nesse canto geral de povos latino-americanos. Há razões simples e razões complexas, divertidas e sérias. São tantas as razões que você pode escolher sem susto: alguma será adequada para você: desde o prolífico mercado de livros para hispano-falantes até o romantismo de ser lido por um irmão que também está mal parado no que, equivocadamente, às vezes parece ser a “periferia”. A partir de uma chamada de atenção feita por Hobsbawm em um de seus livros, a respeito dos alimentos mais consumidos hoje no mundo globalizado, podemos nos dar conta de que uma simples história de alimentos centrais dessa globalização – Coca-cola, por exemplo – nos levaria à conclusão da “centralidade” da cultura sul-americana.

Sempre haverá aquele que fará um adendo: cultura gastronômica. Comentário do tipo “nada a ver” no lugar de uma propaganda entre um bloco e outro da novela: atenção, atenção! A vista da Amazônia, pelos documentários que passam nas tevês por aí, parece ser bem bonita lá de cima.

Mas eu queria mesmo é falar da Cristina Rivera Garza. Ou melhor, da Matilda, personagem central do romance mexicano Ninguém me verá chorar. Foi publicado no Brasil pela editora Francis, em 2005. Mas sem grande badalação. Embora conte ao leitor uma boa e interessante fatia da história do México no século passado.

Matilda é um desses personagens que sintetizam boa parte da história de um país em sua própria história. Trata das migrações de populações internas e agrárias para a cidade, das conseqüências catastróficas que vão do alcoolismo à prostituição dessas migrações não planejadas, não consideradas e relegadas a segundo plano – mas que acabam trazendo para as metrópoles, anos depois, para o primeiro plano, os problemas que são apontados como surgidos de um estado de subdesenvolvimento – dos períodos pré e pós revolução mexicana, de como isso se relaciona com o desenvolvimento das instituições psiquiátricas no México e de como tudo isso se relaciona profundamente com o desenvolvimento da subjetividade feminina numa dada sociedade.

Conversei sobre essa autora com alguns jovens escritores latino-americanos. Alguns deles mexicanos. Todos eles encontrados em encontros e festivais latino-americanos que se espalham, assiduamente, continente afora.

No fim do ano passado, um desses festivais, tentando tirar o Brasil do marco quase zero dessa prática de festivais de poesia latino-americana, realizou-se em São Paulo, sob as batutas de Cláudio Daniel e Virna Teixeira: o Tordesilhas, que eu queria que se chamasse Anti-Tordesilhas. E, apesar da prática de festivais de poesia latino-americanos se espalharem mais por outros países latino-americanos, um dos festivais mais bem organizados e com maior vibração entre os poetas foi justamente este, brasileiro.

Embora os festivais se multipliquem mesmo é nos países que falam castelhano. No Chile, em 2006, foi realizado um voltado somente para mulheres latino-americanas que escrevem, o Conrimel. Em Buenos Aires, algumas edições do festival Salida al Mar deram origem a outro festival latino-americano de poesia na… Alemanha: o Latinale, que já vai para sua terceira edição. E há outros: O Estoy Afuera, o Poquita Fe etc etc. O ambiente é sempre descontraído.

Voltando ao início do parágrafo: ao conversar com eles sobre Cristina Rivera Garza, uns gostaram, outros protestaram e foi tal a lista de considerações a serem feitas pela atual literatura mexicana que, mais do que buscar informações sobre a criadora de Matilda, fiquei pasmada com a riqueza de histórias paralelas de literatura acontecendo ao mesmo tempo em solo mexicano. Onde as editoras pequenas, como também ocorre na Argentina, desempenham um papel fundamental na alimentação e cultivo dos livros. Contudo, diferente da Argentina, em geral, contam com o apoio do Estado mexicano e sua política sistemática de livros.

Rodrigo Flores, Rocío Cerón e Mayra Inzunza são três personagens muito diferentes da cena literária mexicana e cada um deles apresenta sua versão dos textos que formam a biblioteca contemporânea da pátria que têm em comum. Os três também têm em comum a idade: todos às voltas com os 30 anos. Atuam como escritores e editores a partir de diferentes plataformas. Mayra, além de escritora, é editora de literatura da gigante Fondo de Cultura Económica e acaba de publicar, por outra editora, uma antologia de contos mexicanos. Rocío é poeta e dona de uma editora independente interessada em publicar cenas contemporâneas da América Latina. Rodrigo é, também, poeta e militante da poesia, que segue publicando revistas e congêneres numa linha que difere muito da proposta das duas anteriores, e esteve no Brasil participando do Tordesilhas, onde deixou pistas para o roubo do título dessa coluna. Não fosse a vinda dele e eu teria roubado algo da poeta peruana Roxana Crisólogo.

Estimado cliente, tantas vezes professor ou aluno universitário, invariavelmente consumidor de textos bem acima da média brasileira, esperemos que você contribua com a causa em sua próxima ida à livraria: comece cobrando o mais novo título traduzido de um poeta guatemalteco, que pode ser Alan Mills, ou o mais novo título de um dos mexicanos citados (parece que Cristina Rivera Garza não teve outro título traduzido no Brasil, apesar de seu romance ter sido assinalado por Carlos Fuentes como “uma das obras de ficção mais notáveis não só da literatura mexicana, como de toda a escrita em castelhano do século”. Ou peça qualquer outro título que tenha sido publicado, há pouco, da riquíssima tradição literária latino-americana. Que venha o próximo do Alan Pauls, Historia del llanto.

Agradecimentos às poetas brasileiras Ligia Dabul e Ana Rüsche, sempre tão atentas ao movimento do continente: terra ardente é terra adentro.

Tags: , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

1 COMENTÁRIO PARA "Estimado cliente":

Comentado por Anomalias e FLAP em São Paulo - Blog do Favre em 23/07/2008 - 18:10h:

[…] Hernández Montecinos, do Chile; Virginia Fuente, da Argentina; Ernesto Carrión, do Equador; Rodrigo Flores, do México, dentre outros), além dos convidados brasileiros, alguns deles já presentes em outros […]

 

DEIXE SEU COMENTÁRIO: