Eu rio sim… estou vivendo…
Com Era da inocência, o diretor Denis Arcand mantém o mesmo nível cômico dos seus filmes anteriores, O declínio do Império Americano e Invasões Bárbaras. É uma comédia brilhante, com um timig teatral da melhor qualidade, que conta a história de X, um funcionário público em crise de meia idade e suas fantasias absurdas.
Na Poética de Aristóteles, há algumas boas pistas sobre a estrutura da comédia. Segundo o pragmático filósofo, ela é “a imitação dos homens inferiores” e busca “aquela parte do torpe que é ridículo”, enquanto a “a epopéia e a tragédia concordam somente em serem, ambas, imitações de homens superiores.”
Fazer comédia, portanto, é escarnecer: mostrar o quanto somos risíveis, patéticos, ridículos. “Eu não sou besta pra tirar onda de herói”, já cantava o saudoso roqueiro baiano. E rimos. Rimos de nós mesmos, da nossa própria condição transitória, dos nossos dilemas banais.
Rir é um hábito extremamente saudável, como praticar esportes, fazer sexo ou ver o seu time ser campeão. Milan Kundera, em seu Livro do Riso e do Esquecimento, chega a dizer que riso é o último bastião do oprimido contra o opressor. Você pode me subjugar e cercear os meus direitos, mas eu posso rir da sua cara! Hahaha!
Há quem diga que existem seis ou sete piadas arquetípicas, das quais infinitas outras seriam simples variações. Tais piadas fariam parte do inconsciente coletivo, da gosma mental sobre a qual escreveram Freud, Jung e outros. Desde os tempos dos deuses, heróis e bestas mitológicas, já havia um gaiato que podia até perder a eternidade, mas não perdia uma brincadeira.
O bom humorista não segue regras e postulados e, como um músico experimental, tira do improviso as suas maiores intuições. Mas em um filme como a Era da Inocência podem-se catalogar algumas técnicas sobejamente utilizadas pelos piadistas de todos os continentes, como:
O exagero: técnica mais utilizada por aí, que tende a tornar tudo maior, mais escroto, mais grotesco e mais surreal. É também da pedra fundamental do desenho cômico, a caricatura.
A ironia: esta é mais sofisticada. Quando você diz uma coisa, na verdade está dizendo outra coisa. Sacou? Ou quer que eu desenhe?
O choque de realidades: você fantasia que é o ban-ban-ban, o magnata do petróleo, o intelectual do século, cercado de beldades, sendo devidamente bajulado e idolatrado. A realidade vem e te mostra o zé-ruela feio e burro que você é.
O exercício deliberado do anacronismo: inserir num contexto algo totalmente diverso, como o Papa dançando na boquinha da garrafa ou a Carla Perez lendo Heidegger em alemão.
O pastelão: alguém levando um estabaco ou tomando uma lapada no pé orelha. A mais antiga e bem sucedida forma de fazer rir.
Aquele que não ri é usualmente chamado de enfezado. Ou seja, cheio de fezes. O mau-humor, portanto, seria um fenômeno psicossomático que ocorre em virtude da prisão de ventre. Nessas horas, vale o provérbio aplicado aos futebolistas relapsos: pede pra cagar e sai.
posted by MakNamara
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estou no aguardo de sua resposta,
Bruno Lima / Bahia