Na bacia das almas

Celso Ming – O Estado de São Paulo
Não se sabe o que provocou mais o estrago de ontem nos mercados, se o afundamento do Bear Stearns ou se as decisões extraordinárias e heterodoxas do maior banco central do mundo, o Federal Reserve (Fed, o banco central americano).
O Bear foi arrematado na bacia das almas pelo JP Morgan por US$ 2 por ação, a mesma que, no início de maio do ano passado, era cotada a US$ 156. O mercado entendeu como um banco pode virar pó em um par de dias e temeu que este possa ser o fim de um punhado deles. (Veja a tabela e o Confira.) Como sempre nessas ocasiões, deixou o medo comandar seus movimentos.
O Fed não está mais lendo manual de procedimentos. Partiu para o tudo ou nada, sem olhar para prejuízos colaterais nem para aqueles que ainda resmungam que todo “proer” é imoral. Seu objetivo é conter a epidemia.
Nesse fim de semana, criou uma linha especial de crédito de seis meses – renovável sabe-se lá por quanto tempo mais – para bancos de investimento, instituições que estão de fora de seu guarda-chuva institucional. E anunciou a decisão na noite de domingo, antes da abertura dos mercados da Ásia, mostrando que está olhando para muito além do seu território. Como garantia da nova linha de crédito, vai aceitar títulos hipotecários, cujo preço de mercado seu próprio presidente, Ben Bernanke, não tem condições de avaliar, conforme reconhece.
O parágrafo acima mostra o quanto os mais poderosos bancos centrais são vulneráveis. Fundos de hedge (como o Carlyle Capital), bancos de investimento (como o Bear) e companhias de crédito imobiliário (como o Northern Rock) podem provocar terremotos no sistema financeiro, mas não estão sob a tutela de bancos centrais.
O mercado funciona como um só rolo planetário. E, no entanto, a supervisão das finanças globais continua puramente paroquial. Apesar disso, o presidente da Comissão Européia, o português José Manuel Durão Barroso, reafirmou ontem sua convicção de que os bancos centrais saberão devolver a estabilidade dos mercados.
A capacidade de atuação do Fed parece próxima do limite sem que as duas pontas principais da megaencrenca tenham sido amarradas. Os mutuários estão devolvendo seus imóveis porque seu valor hoje é cada vez mais baixo do que o financiamento levantado para comprá-los, e não há remédio para isso. O investidor que forneceu recursos para o crédito hipotecário exige seu dinheiro de volta. Mas ele está aplicado em imóveis e tem de 20 a 30 anos para voltar. Também não há remédio para isso. Por enquanto, a cobertura contra os estragos provocados pela crise atinge apenas o segmento que está no meio do negócio: os bancos.
Parece cada vez mais inevitável a intervenção do Tesouro americano, como ocorreu na crise do crédito imobiliário em 1998. O presidente Bush está informado disso, mas ontem saiu da reunião com sua assessoria econômica na Casa Branca afirmando apenas que está atento e que os bancos americanos são sólidos.
Enquanto isso, o dólar vai derretendo nos mercados.
CONFIRA
Superalavancagem – O consultor Carlos Coradi analisou o último balanço anual (do exercício de 2006) do Bear Stearns e viu o seguinte: o banco tinha um patrimônio de US$ 12 bilhões, mas ativos de US$ 350 bilhões. Uma alavancagem de 29 vezes.
Entre esses ativos, US$ 43 bilhões correspondiam a hipotecas equivalentes a quase quatro vezes o seu patrimônio.
As receitas líquidas do Bear em 2006 alcançaram US$ 9,2 bilhões. No entanto, apenas na rubrica Compensações e Benefícios para seus funcionários foram distribuídos US$ 4,3 bilhões, ou 40% do total.
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