Mitologias: o trânsito
Daniel Piza – O Estado de São Paulo
O trânsito em São Paulo já não é há muito tempo uma coisa folclórica (”São Paulo não pode parar porque não tem onde estacionar”) nem um dos muitos problemas da cidade (que continua a multiplicá-los) nem tampouco exclusivo de abonados que têm carro. Ele se tornou um definidor cultural, um denominador comum, um sinal do cada vez pior estado de espírito da cidade. São Paulo pode ser capital de muitas coisas – da cultura, da gastronomia, das oportunidades profissionais, etc. -, mas é acima de tudo a capital do trânsito. Cada vez mais é feliz nesta cidade quem sofre menos com os congestionamentos: quem leva menos de meia hora para ir e voltar do trabalho, quem não precisa circular durante o rush – o qual nos anos 80 era das 8h às 8h30 e das 18h às 18h30 e agora se expandiu para das 7h às 10h e das 17h às 20h, se não estou sendo otimista.
Não espanta que, nos cálculos do urbanista Cândido Malta, seria necessário construir oito avenidas Faria Lima por ano para que a coisa não piorasse. “São Paulo vai parar”, diz ele. Já parou! O que não pára é o aumento do estresse do cidadão, que todo dia vê nas ruas ou lê nos jornais sobre brigas e desastres no trânsito. Quase todo mundo está igual a Michael Douglas naquele filme Um Dia de Fúria. Um gesto de gentileza motorizada é raro como flor no asfalto.
Especialistas vêm com uma série de soluções, na maioria sabidas (quadruplicar o metrô, em destaque), outras controversas (pedágio urbano para dar mais dinheiro para uma Prefeitura que não faz sua parte?). Seja como for, o “pedágio urbano” já é alto e cobrado todos os dias.
Não vou entrar no mérito das sugestões, mas não posso deixar de notar a ironia de algumas já exercidas. O rodízio, por exemplo. É certo que sem ele as coisas estariam piores, mas com ele continuam piorando. Isso porque não se tem transporte coletivo de qualidade, a engenharia de tráfego é burra e os nobres e preocupados cidadãos preferem comprar mais um carro (nunca antes neste país se venderam tantos carros) para driblar o rodízio. O que quero dizer é que o trânsito é um problema que transcende o pacote de soluções viárias. Envolve questões de mentalidade, como apontei, e envolve questões como habitação, emprego e economia.
Enquanto no centro da cidade, onde está a grande maioria dos entroncamentos, dos nós no fluxo de pessoas, há um déficit de moradores, em regiões como a zona leste e a zona sul a cidade cresce sem parar, numa periferização aflitiva. As pessoas moram no extremo leste e trabalham no centro e na região oeste; viajam até quatro horas de casa para o trabalho e de volta, em ônibus e metrôs cada vez mais lotados. Como o Estado não constrói metrô no ritmo necessário e a Prefeitura não fornece ônibus em número suficiente (basta passar num ponto de corredor e ver quantas pessoas esperam e o quanto), cada ano há piora para lá de sensível. A marginal Tietê em direção à zona leste, por exemplo, é quase um estacionamento a céu aberto… Até nos fins de semana há trânsito, também porque serviços e lazer estão centralizados.O mesmo vale para a região metropolitana. Cada vez mais pessoas moram nos arredores de São Paulo, em busca de paz, verde, etc. E cada vez mais elas enfrentam trânsito: todas as rodovias têm congestionamento nos últimos 20 ou 30 km até as marginais. Fiquei sabendo que uma construtora pretende dobrar a população de Caeiras, na via Anhangüera, que é, como se sabe, uma cidade dormitório. Essas pessoas não moram em São Paulo, mas transitam (ou tentam) por aqui. Isso também remete ao problema dos caminhões: boa parte da frota não tem São Paulo nem como origem nem como destino. Caminhão que sai do interior para o porto usa as marginais e algumas avenidas, incluindo acessos estreitos. Não conheço cidade no mundo que tenha tantos desses veículos grandes e poluidores em suas ruas.
Não dá para querer que as pessoas fiquem satisfeitas, ainda que nada justifique troca de agressões. O problema maior é que a perda da qualidade de vida, além de dar uma péssima idéia de progresso para o resto da nação, corrói as relações humanas de modos difíceis de mensurar, mas que são evidentes. Desde atrasos e cancelamentos cada vez mais freqüentes até os estragos à saúde causados pela irritação contínua, os danos vão muito além do desperdício de tempo. O que há é um desgaste de humanidade.
Tags: caminhões, carros, congestionamento, corredores, engenharia, estacionamento, estresse, Metro, ônibus, pedágio, Prefeitura SP, rodízio, Transporte5 COMENTÁRIOS PARA "Mitologias: o trânsito":
Hoje estive em São Paulo, fui na feira livre na Praça Benedito Calixto, como faço há muitos e muitos anos e senti um clima de volta Marta (ou foi fantasia da minha parte?) volta, Marta, volta. Me lembrei daquele filme muito antigo, mas que revi há pouco tempo: Hello Dolly. Tem uma cena muito bonita, quando a Dolly volta a frequentar um restaurante muito chic da época, que ela ia muito e por razões pessois deixou de ir. Todos muito contentes porque ela vai voltar e quando ela chega, desce a escadaria ao som da música Hello Dolly, cantada pelo Louis Armstrong, é uma coisa maravilhosa, inesquecivel. Fiquei imaginando na campanha gratuita pela televisão uma cena parecida. Primeiro apareceria o Viaduto do Chá, onde fica a prefeitura e depois a Marta chegando lá, todo mundo contente, ela descendo uma escadaria qualquer do prédio, o Lula e vários políticos do PT, dublando a música Hello Dolly, adaptada para Marta. O clima da volta da Marta é de muita alegria, eu vejo assim, se é que não estou sonhando de olhos abertos.
No primeiro momento da leitura tive a sensação parecida a que Humberto apresentou. No decorrer da leitura criei a mensagem como uma tela…E aí o comentário do Humberto já não me satisfez.
Durante todo o dia abrimos os blogs e afins e vimos todo tipo de indagação e indignação sobre a obra em ruínas.
Qualquer cidadão pensante nesta cidade percebe que este maldito momento que vive é FRUTO DO DESESPERO ELEITOREIRO, pois com contas em dia, projetos sociais em andamento, o que foi feito de REAL na administração da cidade de SÃO PAULO de 2005 até agora que não fosse apenas maquiagem?
Por que não programaram obras durante esses anos? Hei, que conversinha é essa de falta de dinheiro? Lembro-me do prefeito KASSAB enaltecer o feito de uma economia espantosa nos cofres da prefeitura. Porque guardou o dinheiro?
Esse dinheiro estaria mais bem aplicado se investido em obras no seu tempo certo, ou não?Saí hoje de minha casa, o trânsito da AV Vital Brasil, obra do metrô, depois mais trânsito no largo de Pinheiros, reforma na praça e mais obra do metrô. E se você observar bem; tem caçamba, maquinaria leve ou pesada, e todo o tipo de equipamento bem ao gosto dos engenheiros de todo o planeta POR TODA A CIDADE!
É pelo simples fato de ter iniciado o desmonte do processo de descentralização da máquina administrativa (implantado na gestão da Marta Suplicy com subprefeituras e etc) que PSDB-DEMO estão se descabelando pelos quatro pontos cardeais da cidade. As Secretarias Municipais não se falam, muito menos as subprefeituras (estaríamos neste caos se houvesse realmente um plano de desenvolvimento?)
E está aí A MAIOR PROVA DE INCAPACIDADE para ADMINISTRAR uma enorme e pulsante cidade como São Paulo. Sem investimento nas periferias a população continua no sonho de conseguir sobreviver mesmo que vendendo chocolate na praça da Sé…Mais um dentro do ônibus…
É, SÃO PAULO não pode parar pelos buracos do metrô, nem pelas pontes que caem… Mas muito menos,não pode parar pela FALTA DE ALEGRIA, de QUALIDADE DE VIDA E CALOR HUMANO.
Hummmm….vou à Praça Benedito Calixto todos os sábados e o tal clima “volta Marta” só pode mesmo ser, conforme você mesma afirmou, fantasia da sua cabeça.
[...] Administração PSDB-DEM em São Paulo: 92% em favor dos corredores de ônibus, 87% reprovam o trân… [...]

Favre,
Pensei que vc fosse falar de mais essa obra dos demo-tucanos que desaba em São Paulo. Não bastasse o metrô, que afundou levando muitas vidas há pouco mais de um ano, agora um viaduto que despenca. Já pensou se isso acontecesse na gestão Marta? Os sites de notícias do Estadão e da Folha já teria estampado: “Viaduto do PT cai”, “R$95 milhões dasabam no Tamanduatei”, “Prefeita queria inaugurar viaduto que caiu no dia 18 de maio”.
É óbvio que não dá pra esperear que eles façam a mesma coisa com o Kassab, sequer vão relacionar o desastre a incompetência administrativa da prefeitura, mas pelo menos esperamos um post inteligente seu sobre este assunto.
Não precisa publicar esse comentário, mas não deixe de falar sobre o assunto ainda hoje, enquanto ele está quente.
Cordialmente,
Humberto Araújo