O transporte público em questão
Um dos post mais comentados foi sobre o transporte público na cidade de São Paulo. O artigo Quem o pariu, que o embale suscitou muitas reações.
Gostaria comentar a nota do leitor Sérgio, que reproduzo a seguir:
Comentado por Sérgio em 04 Abril 2008 às 10:12 am:
Esse comentário do Favre só é aceitável se entendido como um desabafo de um marido. Jamais como de um cidadão normal.
1) A sra. Marta, durante o seu governo, destinou no orçamento da prefeitura exatamente R$ 1,00 por ano para ajudar nas obras do metro, não dando a menor importância para os convênios entre os governo municipal, estadual e federal para ampliação da linha. E o pior não dando a menor importância para uma população enorme que a elegeu.
2)Corredor de ônibus é um lixão, especialmente os últimos que foram feitos.
É só dar uma olhada na Av. Rebouças. Corredor de ônibus pode ser bom para país africano mas para uma das maiores cidades do mundo a solução é metro e isso não se constrói com R$ 1,00 por ano ouviu dona Marta.
3)O Sr. Favre fala como se fosse um ignorante (qualidade de quem ignora alguma coisa) mas na verdade é uma roposa velha. A construção do Rodoanel se daria através de um convênio entre município, estado e União, com participação financeira de todos, tendo em vista o alto custo da obra e os diversos benefícios que seriam obtidos (escoamento melhor da produção ajudando inclusive as EXPORTAÇÕES, melhoria do trânsito na cidade de são Paulo, etc… Até 2002 esse convênio funcionou muito bem. Basta passar pelo Rodoanel e ver o que foi construido. Mas a partir de 2003 o governo federal simplesmente cortou do orçamento da União sua participação no projeto.
Em resumo: É TUDO FARINHA DO MESMO SACO SIM…
E para encerrar: A globo é do governo. Em troca o governo dá para a Globo anunciantes como a Petrobrás, Caixa, Banco do Brasil, Correios ….só não enxerga os manipulados pela nova elite do Brasil, instalada no poder em 2002.
Evidentemente todos os leitores estão convidados a participar desta discussão. Vou limitar minhas ponderações a itens que me parecem importantes. Deixarei de lado a deselegância de considerar que minhas opiniões seriam o “desabafo do marido” e não uma convicção, certa ou errada, produto do meu discernimento. Mesmo nisto vejo um progresso, no machismo é geralmente a opinião da mulher que está determinada por seu marido e aqui é o contrário. Um avanço em certa maneira.
Mas vamos aos argumentos. No primeiro ponto o Sr. Sérgio investe contra os corredores e defende o metrô, en passant acusa a gestão Marta Suplicy de ter dado R$ 1 para a construção da rede de metrô.
Conheço alguns países da África e nenhum deles comporta corredores de ônibus nas suas cidades (pelo menos os que eu conheço). Já Paris, cidade onde vivi durante 35 anos e onde nasceram meus filhos, já tinha corredores de ônibus quando pela primeira vez a vi em 1969. A novidade é que o atual prefeito, reeleito faz poucos dias, transformou a capital da França em canteiro de obras de… corredores.
Fiz algumas fotos para vocês perceberem que a escolha em Paris tem sido por corredores segregados fisicamente. Eles cortam as avenidas quase no meio. Tem em quase toda a cidade, o atual prefeito generalizou esses corredores em quase todas as principais avenidas.
Outro aspecto interessante é que Paris, primeira cidade a construir o metrô no mundo há mais de 100 anos, conta hoje com uma das melhores redes de metrô cobrindo toda a cidade e interligada com as cidades vizinhas com o metrô RER. Mesmo assim, ela conta com uma extensa rede de ônibus que cobre toda Paris.
A opção das autoridades municipais tem sido hoje privilegiar os corredores para tirar os carros das ruas, dificultando ao máximo transitar com carro (a ampliação dos corredores visa a permitir fluidez no transporte público e ao mesmo tempo “travar” a circulação dos carros para obrigar os motoristas a usar o “bus” ou o metrô).
O metrô de Paris, como o de São Paulo, não é de responsabilidade da prefeitura. A empresa do metrô (RATP) é uma autarquia dirigida pela região Ile de France, a qual investe com aporte do governo central na modernização do sistema em permanência.
Já o metrô de São Paulo foi retirado da alçada municipal e passou sob controle do governo estadual desde a época do prefeito Mário Covas. O argumento, não sem justificativa, é que o município não tinha condições financeiras para guardar o controle acionário, além de passar ao PMDB, na época de Franco Montoro, o controle de um elemento chave dos investimentos federais em transporte. Formalmente, porem, a prefeitura é detentora de uma pequena participação acionária, mas nunca é consultada sobre nada a respeito do metrô. Nem para o traçado das linhas projetadas na própria cidade ela é associada a qualquer definição.
O Sr. Sergio destacou que na rubrica do orçamento figurava R$ 1 simbólico, para permitir eventual remanejamento de verbas para contribuir com obras do metrô, para mostrar o descaso com o assunto. É de bom guerra. Seria fácil retorquir que no atual orçamento de Kassab esse valor é de R$ 1.000, ou seja sensivelmente igual pelo menos para construção de metrô. Mas não é esta a questão.
A questão é que o endividamento da cidade de São Paulo e a destruição da quase totalidade dos seus serviços durante a administração Pitta, deixou um legado particularmente pesado em matéria de transporte público sob responsabilidade direta e exclusiva do município: o sistema de ônibus estava destruído. Para não falar na falência do PAS e a situação nas demais áreas.
Em paralelo, o governo estadual e o governo federal, dominados pela mesma força política, o PSDB, nada se dispôs a fazer para ajudar financeiramente a cidade. Não tinha obrigação legal a faze-lo, mas seguramente que se Mário Covas, que apoiou Marta Suplicy, não tivesse falecido prematuramente está colaboração solicitada na época pela própria prefeita, teria prevalecido.
De seu lado, responsável pela venda de quase todo o patrimônio estadual nas privatizações, e diretamente responsável pelo metrô, o governo Geraldo Alckmin quase nada fez para expandir ou melhorar a rede do metrô de São Paulo. O PSDB no governo estadual com Alckmin e no governo federal com FHC, construíram o equivalente a 800 metros por ano, sucatearam os investimentos em manutenção e deixaram para o governador Serra uma rede em quase colapso, com apenas 63 km de extensão e hiper-lotada.
Em quatro anos, Marta Suplicy eliminou as peruas clandestinas, regularizou o sistema de ônibus, crio o Bilhete-Único, impôs a renovação da frota e construiu mais de 100 km de corredores permitindo uma diminuição real do tempo de transporte dos cidadãos. Nos últimos quatro anos a cidade foi administrada pelo PSDB junto com o DEM, os corredores foram abandonados, a CET foi sucateada, os semáforos inteligentes prometidos, ficaram burros ou ausentes, a desorganização voltou a imperar, particularmente na zona sul. O tempo do transporte acabou reduzindo o impacto do Bilhete-Único que só dura 2 horas e a revolta da população é palpável. Não vai ser a quatro ou cinco meses do fim, que o anuncio de novas, e virtuais linhas de metrô ou de um cheque de contribuição financeira, que vão apagar esta realidade (o valor do cheque é inferior a contribuição do governo Lula para o transporte público da cidade).
Deixei por enquanto de lado a questão do rodoanel e também da contribuição do governo federal, que merecem um tópico a parte. Evidentemente que todos são convidados a este debate. Quando este tema tem aparecido nos jornais, tenho reproduzido os artigo aqui, pois considero uma questão crucial para a cidade de São Paulo e para a qualidade de vida dos seus cidadãos a questão do transporte público.
Luis Favre
Tags: Alckmin, carros, congestionamento, corredores, Covas, DEM, Favre, FHC, investimentos, José Serra, Kassab, Marta Suplicy, Metro, Municipais, ônibus, Orçamento, peruas, Pitta, Prefeitura SP, privatizações, PSDB, RATP, Rodoanel, sporte público, tran, Tránsito, Transporte4 COMENTÁRIOS PARA "O transporte público em questão":
O PT sempre se preocupou com o transporte público, desde a Luiza Erundina que fez muito pelo transporte, depois veio o maluf e pita, que acabaram com tudo.A Marta teve que começar praticamente do zero, para mais uma vez a turma do psdemob tentar acabar de novo.Só não vê quem não quer, sem falar na turma da gestão do estado que não conseguem fazer nada.A “elíte branca” tem que assumir esse filho que é o caos do transporte público, e entender que sem transporte decente São Paulo vai continuar parado.
Imaginem se depois da Erundina tivesse continuado com o PT no comando, hoje São Paulo seria muito melhor.
Corredor é lixão?? Não deve utilizar a Rebouças, ou melhor, utiliza, mas dentro de um carro que fica no trânsito enquanto os ônibus passam livremente pelo corredor. Existem problemas que precisam ser concertados, mas sem sombra de dúvida auxiliam imensamente o transporte da cidade de São Paulo. Infelizmente os projetos não foram seguidos nesta gestão. O sistema de ônibus é responsabilidade da prefeitura e apóio a Prefeita Marta em investir primeiramente nele. O Metrô é responsabilidade do Estado e é ele que precisa investir pesado e se possível com ajuda da Prefeitura. Do que adianta o Kassab anunciar investimento em Metrô se deteriora o sistema de ônibus?? Além disso é preciso considerar o tempo de construção de uma linha de metrô. A linha 4 está a vários anos sendo construída, teve problema com o buraco do metrô e a previsão mais otimista é que metade dela seja inaugurada em 2010. Só em 2004 a Marta conseguiu inaugurar todo o corredor no eixo Francisco Morato-Rebouças-Consolação que com certeza foi um ganho para a população que utiliza os ônibus, mesmo que algo “definitivo”, como o o metrô ainda não tenha aberto suas estações.
[…] acompanhado o debate sobre transporte no seu blog e me impressionaram muito as afirmações do leitor Sérgio. Ele desconhece as questões centrais que envolveram nossa administração no setor e faz várias […]



Uma parcela da população insiste em desqualificar os corredores de onibus em são paulo, vejo nisso resquício da velha mentalidade pró-carro em oposição a qualquer medida que extimule o cidadão ao uso do transporte público. De maneira que os passa rapidos, ao invés de colaboradores para uma cidade mais humanizada, de melhor aspecto urbanistico e mais eficientes para o cidadão que dispõe do transporte público é visto como um obstaculo para aqueles acostumados com o domínio na cidade de suas latarias bebedoras de petroleo, os corredores são vistos por muitos como inimigos, concorrentes no espaço público.
é facil compreender o porque do metro, para essas pessoas não serem alvos de iguais ataques, não porque essa parcela da população realmente pense em abandonar o seu carro para se misturar no mesmo transporte de seus funcionarios, mas sim porque este passa por debaixo da terra não incomoda nem ”impede”.
é compreenssivel mas não toleravel que para muitos corredores de onibus seja algo agressívo, moralmente invertido. O mesmo sentimento que aflora quando um abastado sente o aeroporto mais cheio destino inédito de toda uma nova parcela da população ascendente, se aplica no transito da cidade. Deve ser mesmo desconfortaval para dizer o mínimo, se sentir mais freiado pelo transito enquando a dona maria passa ao lado livre e sorrateira, portando os seus contado $2,30 (antes 1,70 para bem dizer)
É lastimavel perceber o tamanho da hipocrisia de alguns, se a tradicional classe media de são paulo fosse mesmo militante do transporte publico e defensora do metro (fazendo jus a sua superioridade moral e intelectual), hoje teriamos uma grande rede do mesmo, ao contrario da realidade, isso porque seria o metro, a grande peça publicitaria eleitoral por todo esse tempo e não a velha politica do ”pontes e viadutos” que tanto seduziu a paulisteia desvairada que hoje se ve enforcada com a própria corda.
resultado? ”JOGA PEDRA NA MARTA! ELA É FEITA PARA APANHAR ELA É BOA DE CUSPIR!”