Uma jóia de jornalismo. A Folha está de parabéns

Eis uma maneira séria, objetiva, informativa de tratar a notícia. Leia a matéria após esta nota. Seu conteúdo é claro, com o destaque adequado à gravidade e importância dos fatos e de suas implicações. Ela está na Folha de São Paulo de hoje, na página A10 do principal caderno, embaixo à esquerda. Matéria sem foto, até para não prejulgar, nem escolher entre os denunciados pelos desvios.

O título da matéria é sóbrio, sem ilações. O fato de vários dos acusados serem filiados a partidos políticos é registrado, mas sem tentar induzir o leitor à falsa idéia que todos os membros deste partido, ou pelo menos suas figuras mais conhecidas, são culpados ou acusados e muito menos corruptos.

Teria sido muito fácil cair na tentação manipuladora, alheia ao verdadeiro jornalismo, de tentar incentivar um sentimento antitucano a partir deste escândalo do Detran de Rio Grande do Sul. Bastaria colocar o artigo na página 5 do principal caderno, ilustrado com uma foto mostrando um dos principais acusados, Lair Ferst, junto com a governadora tucana Yeda Crusius, da campanha da qual participou ativamente ao ponto de ser o avalista do local alugado pelo comitê eleitoral da governadora. Poderia se acrescentar como sublide “PSDB sob suspeita”. Perguntar para os tucanos mais emplumados se sabiam do desvio de recursos no Detran e se o dinheiro poderia ter irrigado o caixa partidário. Dedicar uma semana, dia após dia a alimentar este assunto, inclusive cobrando se os tucanos implicados nos desvios foram expulsos ou não. Em fim fazer do caso um elemento maior da desestabilização do governo gaúcho e por tabela condenar o conjunto do PSDB como falsos moralistas, hipócritas nas suas posturas éticas e demagogos sem escrúpulos quando se trata de dinheiro público, de loteamento de cargos por interesses espúrios.

Esta injustiça não será cometida, pois a mídia zela pelo equilíbrio da cobertura e não se deixa levar pelo udenismo manipulador. Os articulistas, desta vez, contribuíram para que esta sabedoria do bom jornalismo aparecesse com toda sua força, se abstendo de opiniões adjetivadoras, generalizadoras e abusivas. Quase nenhum articulista se prestou ao jogo do massacre, nem o próprio Clóvis Rossi (salvo talvez uma pequena menção feita por Elio Gaspari, mas ele tem esse jeito de não respeitar conveniências, pelo menos às mais grosseiras e evidentes).

Do conjunto do episódio fica uma moral: a mídia pode ser um fator que contribui ao debate nacional e à defesa da ética e da democracia quando se pauta com esta adequada e necessária isenção.

Luis Favre

Justiça aceita denúncia contra 40 acusados de desvio no Detran-RS

Empresário tucano e ex-reitor estão entre os suspeitos de desviarem R$ 44 mi

GRACILIANO ROCHA
DA AGÊNCIA FOLHA, EM PORTO ALEGRE

A Justiça Federal aceitou ontem a denúncia (acusação formal) contra 40 pessoas investigadas por fazer parte de uma suposta quadrilha que desviou R$ 44 milhões do Detran do Rio Grande do Sul. Entre os que viraram réus estão o empresário tucano Lair Ferst, o ex-reitor da UFSM (Universidade Federal de Santa Maria) Paulo Jorge Sarkis e dois ex-presidentes do órgão.
Segundo a denúncia, a fraude foi operada por duas fundações ligadas à UFSM, contratadas pelo Detran sem licitação e a preços superfaturados para fazer a avaliação dos candidatos a motoristas entre os anos de 2003 e 2007. Essas fundações subcontrataram empresas de consultoria e tecnologia para executar o serviço.
A Procuradoria afirma que se tratava de uma organização criminosa, que muitas vezes recebia sem prestar os serviços. O dinheiro do suposto desvio, segundo a denúncia, servia para enriquecer os donos das empresas envolvidas e para pagar propina a funcionários públicos. A fraude veio à tona em novembro no ano passado, quando a Polícia Federal deflagrou a Operação Rodin, prendendo temporariamente 13 pessoas.
O Ministério Público Federal denunciou 44 pessoas. Mas a juíza Simone Barbisan Fortes, da 3ª Vara Federal de Santa Maria, não viu indícios de crime na conduta de quatro pessoas -Ronaldo Etchechurry Morales, que presidiu a Fatec, uma das fundações citadas no escândalo, e três pessoas apontadas como laranjas que figuravam como sócios dos familiares de Ferst em duas empresas.
Os 40 réus serão interrogados entre 19 e 29 de novembro. Entre os denunciados estão pessoas ligadas a partidos políticos que integraram a base política do governo do peemedebista Germano Rigotto (2003-2006) e de sua sucessora, Yeda Crusius (PSDB). No loteamento político dos cargos dos dois governos, o comando do Detran coube ao PP. Agora réus, os ex-presidentes Carlos Ubiratan dos Santos (2003-2006) e Flávio Vaz Netto (2007) são filiados ao partido.
Ferst, que já integrou o diretório estadual do PSDB, foi apontado pela PF como o dono de fato da Rio Del Sur Ltda. e da Newmark Tecnologia, empresas que receberam juntas R$ 21 milhões do suposto esquema. Ele responderá por seis crimes. Dentre eles extorsão, peculato e formação de quadrilha.
Outro núcleo do suposto desvio, diz a PF, era a Pensant Consultoria, dirigida por familiares de José Antônio Fernandes, acusado de cinco crimes. O ex-reitor da UFSM Paulo Sarkis responderá por quatro crimes.
O porta-voz do governo gaúcho, Paulo Fona, disse que os funcionários do Detran na gestão de Yeda Crusius já haviam sido exonerados em 2007. “A decisão da juíza vai ao encontro das providências que a governadora adotou tão logo foi deflagrada a operação Rodin.”

outro lado

Para advogado, houve “excesso na acusação”

DA AGÊNCIA FOLHA, EM PORTO ALEGRE

O advogado de Lair Ferst, Alexandre Wunderlich, disse que o fato de a Justiça Federal não ter acolhido as denúncias contra 4 dos 44 denunciados pela Procuradoria demonstra que houve “excesso na acusação”. Luiz Felipe Tonelli de Oliveira e Sérgio de Moraes Trindade, sócios de empresas controladas por familiares de Ferst, foram denunciados, mas não serão réus do processo.
“Ao não aceitar a denúncia contra eles, a juíza foi cautelosa e deu uma demonstração do excesso na acusação”, disse Wunderlich. Ele disse que não tomou conhecimento dos fatos contidos na denúncia do MPF, mas que a linha de defesa deverá se basear nos argumentos dados por Ferst em depoimento à CPI da Assembléia.
No depoimento que durou mais de nove horas entre a tarde de terça e a madrugada de ontem, o empresário tucano refutou a acusação de que seria um dos líderes de uma organização responsável pelo suposto desvio no Detran-RS. Ferst também negou que controlava a Rio Del Sur e a Newmark e afirmou que não arrecadou fundos para a campanha de Yeda Crusius em 2006.
Os advogados dos ex-presidentes do Detran Santos e Flávio Vaz Netto disseram ontem que não comentariam as acusações porque não tiveram acesso à íntegra da denúncia feita pelo MPF.
O advogado de José Antônio Fernandes, Cyro Schimitz, disse que “será demonstrado no curso do processo que a Pensant Consultoria prestou os serviços contratados pelo Detran”. Nem o ex-reitor Paulo Jorge Sarkis nem seu advogado foram localizados ontem. (GR)

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8 COMENTÁRIOS PARA "Uma jóia de jornalismo. A Folha está de parabéns":

Comentado por José Rocha em 28/05/2008 - 13:16h:

Caro Favre, o bom jornalismo não se aplica a “essa raça”, que precisa ser extirpada do Brasil para que a (social) democracia progrida.
Contribuindo com sua análise, eu diria que a Folha também agiu com ética neste caso, ao não criar rótulos como “mensaleiros”, “vazador”, “aloprados” e outros. Mas, repito, isto vale para cidadãos de bem, da mais fina elite, e não para “essa raça”.

Comentado por rafael j em 28/05/2008 - 13:48h:

com direito a ”outro lado”!!, que maravilha!, vou voltar a ler Folha amanha mesmo.

e viva o jornalismo serio! (aliás muito boa a nota introdutoria)

Comentado por Julio Cesar em 28/05/2008 - 13:53h:

O seu comentário antes da matéria é ótimo!!!! Parabéns

Comentado por Sylvia Manzano em 28/05/2008 - 14:28h:

LF, seu comentário é excelente e me fez lembrar aquela vez em que a Marta ainda prefeita teve um bate boca com uma dentista. Era ligar a televisão, em qualquer canal e qualquer hora e lá estavam as duas brigando. Até as pedras do calçamento viram e ouviram. Ai, meus sais.

Comentado por Pedro em 28/05/2008 - 15:39h:

Sylvia,
Bem lembrado esse episódio do bate boca, ou melhor, a repercussão exagerada desse episódio. Não exageraram tanto assim quando o Kassab, espumando de raiva, expulsou um cidadão de um posto de saúde, aos gritos de: “VAGABUNDO, VAGABUNDO”.
Favre,
Quanta ironia. Quem diria que a Folha voltaria a se comportar de forma tão equilibrada e coerente, com direito a ouvir o “outro lado” e tudo mais. Parabéns. Assim como a Folha se acostumou a mentir dizendo meias-verdades, vc está aprendendo a ser irônico até qundo tece elogios sinceros.

Comentado por cid elias em 28/05/2008 - 20:50h:

Nas categorias “Como Dar Um Tapa De Luvas De Pelica No Imprensalão & Ironizar Com Inteligência”, considero este artigo do Favre o melhor dos últimos tempos!

Comentado por Carlos Esteves em 29/05/2008 - 09:24h:

Ah, se fosse com o PT… Porque a coisa é assim: se um sujeito barbudo e de camiseta vermelha ‘afana’ um paliteiro num restaurante de estrada, a manchete de primeira página é - ‘Petista assalta restaurante’; se pessoas ligadas ao PSDB estão envolvidas num esquema de desvio de dinheiro público, a chamada na página A-10, sem direito a fotos é: “PSDB sob suspeita”…

Comentado por rafael j em 29/05/2008 - 12:00h:

discordo Carlos, a manchete na realidade seria ”PT ORQUESTRA ESQUEMA DE PILHAGEM EM REDE RESTAURANTES”-lula sabia?

”Marta Suplicy declara desconhecer os acusados. analistas ja prevem derrota petista em são paulo”

leia mais:
”lucia hipolito, preve crise institucional sem presedentes”

”escutas telefonicas captam esquema de trafico de palitos do pt para lideres das Farc”

e por ai vai.

 

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