“A política está reduzida ao noticiário policial”
Entrevista- Prof. Luiz Werneck Vianna - Iuperj
Agência Carta Maior
22/07/2008
Em entrevista à revista eletrônica IHU On-Line, o professor Luiz Werneck Vianna fala sobre o caso Daniel Dantas e critica o recuo da política e sua redução a uma agenda policial. O pesquisador acredita que “os piores instintos da sociedade estão sendo suscitados com tudo isso”. E que a solução virá “com mais política” e não com menos. Para Werneck Vianna, o caso Dantas virou um “affair” midiático, com cortinas de fumaça.
IHU On-Line
Ao analisar os recentes episódios de corrupção no Brasil, a partir da prisão (ou da tentativa de) do banqueiro Daniel Dantas, o professor Luiz Werneck Vianna, do Iuperj, em entrevista concedida por telefone à revista eletrônica IHU On-Line, identifica apenas “o capitalismo operando”. Para ele, o mal não está em figuras como a de Dantas ou de Eike Batista, “como se a sociedade fosse melhorar se nos livrássemos delas”.
Ele garante: “Não vai melhorar. A sociedade vai melhorar se organizando em torno das suas questões centrais”, que são, na sua opinião, o crescimento econômico, a reforma agrária e a democratização da propriedade. O pesquisador acredita que “os piores instintos da sociedade estão sendo suscitados com tudo isso”. E que a solução virá “com mais política”. “O que constatamos, ao longo desse episódio, é que a política recua. Não há política. Está faltando sociedade organizada, reflexiva. A política está reduzida ao noticiário policial”, explica.
Werneck Vianna é professor pesquisador do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj). Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo, é autor de, entre outros, A revolução passiva: iberismo e americanismo no Brasil (Rio de Janeiro: Revan, 1997), A judicialização da política e das relações sociais no Brasil (Rio de Janeiro: Revan, 1999) e Democracia e os três poderes no Brasil (Belo Horizonte: UFMG, 2002).
Confira a entrevista.
IHU On-Line - Personagens como Daniel Dantas e Eike Batista avançaram sobre nacos importantes do patrimônio do Estado brasileiro. Quais foram as condições políticas e econômicas que permitiram o surgimento desses personagens?
Luiz Werneck Vianna - O Brasil é um país capitalista. E esses são empresários audaciosos, jovens, e têm encontrado um terreno favorável a tratativas com o executivo no sentido de fazer negócios de interesse comum. E nisso ambos parecem que têm se complicado muito. No entanto, há uma zona de sombra que ainda precisa ser esclarecida. Meu problema em relação a tudo é essa sucessão de intervenções espetaculosas da Polícia Federal, a mobilização da mídia, do Ministério Público, do Judiciário e da opinião pública para esses fatos. As questões centrais não são essas.
Com essa cortina espetacular, o mundo continua como dantes. Nada muda no que se refere à questão agrária, às políticas sociais. A população anda desanimada, desencantada. Além disso, o que aparece aqui, que é muito perigoso, é um espírito salvacionista. Há um “Batman institucional” atuando sobre a nossa realidade. Esse “Batman” é a Polícia Federal associada ao Ministério Público. Há elementos muito perigosos aí, de índole messiânica, salvacionista, apolítica, que podem indicar a emergência de uma cultura política fascista entre nós. Todos esses escândalos e espetáculos atraem a opinião pública como se dependesse da salvação de todos apurar os negócios do Eike Batista e do Daniel Dantas. Não depende, isso é mentira!
Com isso, se mobiliza a classe média para um moralismo que não pára de se manifestar. A política cai fora do espaço de discussão. Enquanto isso, aparecem dois personagens institucionais, ambos vinculados ao Estado: o Ministério Público e a Polícia Federal. Este caminho é perigoso, e a sociedade não reage a ele faz tempo. A cultura do fascismo pode se manifestar com traços mais bem definidos, a partir da idéia de que nosso inimigo é a corrupção, especialmente aquela praticada pelas elites. Então, a sociedade acha que se resolve esse problema colocando a elite branca na cadeia. Desse modo, o país viveria numa sociedade justa. Não vai, mentira!
IHU On-Line - O que o senhor considera como as questões centrais na sociedade brasileira, que devem ser discutidas com mais ênfase?
Luiz Werneck Vianna - O tema do crescimento econômico, da reforma agrária, da democratização da propriedade. Para isso ninguém mobiliza ninguém.
IHU On-Line - Pode-se afirmar que os anos dourados do neoliberalismo brasileiro produziram uma nova burguesia nacional da qual Daniel Dantas e Eike Batista são hoje personagens centrais? O que distingue essa nova burguesia da “velha burguesia nacional” do período desenvolvimentista?
Luiz Werneck Vianna - Eike Batista não é um homem das finanças, e sim um homem da produção. O Daniel Dantas, não. Ele é um homem do setor financeiro. Este setor apresentou enormes possibilidades. Esses executivos do setor financeiro não têm 40 anos. Se examinarmos os currículos deles, veremos que são formados por boas universidades, com doutorado no exterior. Apareceu um novo mundo para esses setores médios e educados da população, especialmente os economistas. Se passa da posição de economista para a posição de banqueiro hoje muito facilmente.
IHU On-Line - Como o senhor interpreta essas relações aparentemente ambíguas que o banqueiro Dantas tinha, ao mesmo tempo, com o mercado financeiro internacional e os fundos de pensão do Estado do qual fazem parte sindicalistas? Acabou-se a velha contradição capital - trabalho?
Luiz Werneck Vianna - Essa questão dos fundos previdenciários existe em toda a parte, não apenas no Brasil. E o controle disso tem sido em boa parte corporativo. Quem mexeu com a questão e falou no surgimento de uma nova classe foi o Francisco de Oliveira. Não sei se devemos concordar inteiramente com o que ele diz, mas, pelo menos, é uma alusão importante. O capital hoje tem uma outra forma de circular, e isso não ajuda o mundo sindical a se reorganizar. O que vemos é um sindicalismo inteiramente cooptado pelo Estado. Dantas jogou com as oportunidades que viu. Até agora, as únicas coisas concretas pelas quais ele pode ser pego são o suborno ao policial e seu problema com o Imposto de Renda. Esse é o capitalismo operando. Daqui a pouco vão querer “prender” o capitalismo. E não creio que isso esteja na intenção da Polícia Federal. O mal não está nessas figuras, como se a sociedade fosse melhorar se nos livrássemos delas. Não vai melhorar. A sociedade vai melhorar se organizando em torno das suas questões centrais.
IHU On-Line - O banqueiro Dantas estabeleceu uma rede de conexões políticas tecida ao longo de três governos - Collor, FHC e Lula. Como entender o poder de Daniel Dantas, sua capacidade de manipulação e envolvimento de tantas pessoas, de diferentes governos, nessa malha de corrupção?
Luiz Werneck Vianna - Era necessário que nessa rede público-privada aparecessem personagens. Essa rede não podia se montar sem pessoas concretas. Dantas foi uma. O ponto da privatização estabeleceu um caminho para que esses homens encontrassem a sua oportunidade.
IHU On-Line - O senhor considera que o caso Dantas ameaça o conceito de República, ou se pode afirmar que efetivamente o Brasil nunca desfrutou do status de República?
Luiz Werneck Vianna - Não ameaça nada. Esse é um affair midiático, com cortinas de fumaça. Os piores instintos da sociedade estão sendo suscitados com tudo isso. Vejo as primeiras fumacinhas de uma síndrome fascista entre nós. E isso deve ser denunciado, combatido, e com política, com mais política. O que constatamos, ao longo desse episódio, é que a política recua. Está faltando sociedade organizada, reflexiva, e a política está reduzida ao noticiário policial.
IHU On-Line - Como o senhor analisa a postura do Supremo Tribunal Federal nesse caso? Como interpreta o comportamento do ministro Gilmar Mendes?
Luiz Werneck Vianna - Interpreto bem. O papel da Suprema Corte é defender a Constituição, as liberdades individuais, e também não deixa de incorporar essa preocupação com o testemunho do espetacular que essas operações policiais manifestam. Uma outra questão vinculada a isso é a escuta telefônica. Estamos indo para um estado policial? E a sociedade aprende a apontar como culpado o “malvado” lá da ponta, responsável por todos os males, que, caso preso e execrado, vai fazer com que a sociedade melhore.
Num ano eleitoral, tudo se discute, menos a política. Não podemos defender a idéia de que um grande inquérito, um grande processo pode resolver as máculas da nossa história, criar um novo tipo de um encaminhamento feliz para nós (e isso é feito pela polícia, pelos grampos telefônicos, pela repressão!). Isso não lembra a linguagem do regime militar, quando ele se impôs? De que o grande inimigo é a corrupção? Só que agora tudo está sendo feito numa escala nova, imensa, com um domínio total dos meios de comunicação. O próprio Congresso se tornou uma ampla comissão parlamentar de inquérito, apurando, investigando e não discutindo políticas e soluções para os problemas. Além do mais, temos um grupamento novo na sociedade: a Polícia Federal é nova. Ela foi extraída da classe média. Seu pessoal é concursado, bem formado, com curso superior. Seus integrantes estão autonomizados a ir para as ruas com esse sentimento messiânico, que aparece no relatório do delegado Protógenes, de que a Polícia pode salvar o mundo.
IHU On-Line - Qual é a sua opinião sobre o combate à corrupção no Brasil? Este episódio recente abre a possibilidade de mudanças?
Luiz Werneck Vianna - Nesse processo, a ordem racional legal avança, se aprimora, se aperfeiçoa. No entanto, o que tento combater é uma visão salvadora, justiceira, messiânica do papel policial para a erradicação dos nossos males, como se não devesse haver nenhum impedimento entre a ação da polícia e a sociedade, como se não devêssemos ter habeas corpus, como se as pessoas pudessem ser presas, retiradas das suas casas nas primeiras horas da manhã, algemadas, e tudo isso passando por câmeras de televisão… Não creio que isso seja um indicador de democracia.
IHU On-Line - Que tipo de sentimento esse episódio provoca na população brasileira? Revolta, descrédito nas instituições?
Luiz Werneck Vianna - Descrédito. E também aprofunda o fosso entre a sociedade e a política, mantém a sociedade fragmentada, isolada, esperando que a ação desses novos homens, dessas corporações novas, nos livre do mal. Talvez eu tenha dado muita ênfase à dimensão negativa de tudo isso, mas também vejo que esse processo pode ser corrigido se a ordem racional legal for defendida por recursos democráticos, sem violência, com respeito às leis, à dignidade da pessoa humana. É possível se avançar na ordem racional legal, investigando a corrupção, prendendo seus responsáveis, mas sem que isso assuma o caráter de escândalo, de espetáculo, no qual parece que temos um agente de salvação em defesa da sociedade. Isso sim é perigoso.
Tags: capitalismo, classes, Congresso, Constituição, Corrupção, dantas, Elites, empresários, fascismo, finanças, História, Liberdades, Lula, neoliberalismo, Polícia, privatização, repressão, sindicalismo, suborno, Tribunal, violência6 COMENTÁRIOS PARA "“A política está reduzida ao noticiário policial”":
Quero fazer uma reclamação, puchão de orelha, faço aqui e não no site oficial da campanha Marta porque aqui pelo menos tenho certeza que vou ser lido.
O que justifica a não presença da candidata Marta no programa CQC da Band em um quadro sobre as eleiçoes municipais? que segue
http://www.youtube.com/watch?v=bWNmCu6O3K0
tratava-se de um quadro onde perguntas sobre a cidade são feitas aos candidatos, perguntas cretinas diga-se, como a data de fundação da cidade e o preço da tarifa de onibus, se valia pouco para avaliar o conhecimento de cada postulante o quadro valeu muito para a proximar o candidato do eleitor torna-lo mais humano, construir uma imagem, e eu devo dizer a imagem da Marta não foi das melhores.
Foi a pior possível eu devo ser mais claro, não só foi a única a não participar da ”brincadeira” como ainda levou para o curriculo uma imagem bem feia em rede nacional da candidata entrando em um carro virando o rosto e deixando uma equipe de TV falando sozinha.
Para que isso? quem foi o brilhante marqueteiro da candidatura que tomou a genial decisão de não participar deste quadro, digo isso porque se o desafio desta campanha é atrair a classe média, começa muito mal em termos de imagem, começando pela própria imagem oficial de campanha da candidata que ao meu ver só reforça esteriotipos negativos tão solidificados no imaginário da classe média ”madame dos jardins” , e agora foge de um programa de tv o CQC de audiencia forte e que é basicamente consumido pela classe média. Podem aguardar, o CQC depois dessa vai ficar no pé da Marta sempre, acabaram de arrumar um inimigo e dos poderosos, (é até estranho ja que o senhor Favre deve chefiar a campanha da Marta e o CQC nasceu na Argentina onde os reportes de lá sempre tem acesso de forma bem humorada à presidenta Cristina que nunca mostra resistencia ao bom humor do programa).
até parece que eu estou ensinando missa ao vigario, mas em campanha não basta ’ser’ simpática é necessário principalmente parecer, e a Marta perdeu uma grande oportunidade, pelo contrário ganhou um grande carimbo de ARROGANTE para quem assistiu.
nesse aspecto Alckmim foi infinitamente mais INTELIGENTE ao comparecer no programa, talvez isso ajude a explicar porque é assim que ele é visto pela populaçaõ de acorodo com o data-folha, em matéria de imagem Alckmim da um banho em vocês.
No ano de 2004 o chefe da campanha de Marta, Duda mendonça foi pego pela policia federal participando de uma rinha clandestina de galos durante o período de campanha.
espero que ESTA aquipe de marketing não cometa outras modalidades de barbeiragem e amadorismo.
José Rocha, voce está sensacional,quer dizer que a OPINIÃO DO PROFESSOR COINCIDE COMA SUA, quanta arrogância, amigo, prá quê…..
Rafael, quer dizer que voce deu um Puchão de Orelhas, amigo assim sua candidata vai PU CHÃO, mesmo, eu entendi, voce queria dizer PUXÃO DE ORELHAS, não é?????
Pelo menos valeu a intenção ou seria intensão?????
Tony, você está sensacional no papel de grilo falante.
José Rocha, ainda bem que a minha opinião não coincide coma sua….
Estado policial? Estamos longe disso aqui. Aliás o que falta é justamente maior atuação dos orgãos de repressão ao crime. Estado policial existe na terra do Mr. Bush onde se pode ser investigado, detido e preso por ter aparencia ou sobrenome árabe.
Mais política? Como se não há idéias pra serem discutidas? Os grupos políticos degladeiam-se via mídia em acusasões e denuncias vide caso Dossiê de FHC e Denise “Varig” Abreu. O Brasil tem alto grau de corrupção e nosso judiciário é pródigo em ações humanas pra gente poderosa e desatenta pro que ocorre com pessoas comuns. Alguem se lembra da mocinha de menor q ficou numa cela com homens numa cidade do centro-oste? Não confio naqueles homens e mulheres vestidos de toga, a mim lembram os fariseus do Novo Testamento. Estão no topo da sociedade civíl e colocam-se a si próprios numa áurea de excelência e divindade. Sacerdotes da Lei, sábios e incontestáveis. Mas na verdade não prestam, são vis e corruptos. A Lei é pra quem pode pagar assim como a purificação no Templo pelas mãos dos vendilhões. Este juízes assim como os fariseus são hipócritas e não fazem nenhum bem ao povo, ao contrário sugam-lhes, vivem atraves deles. Seus salários altíssimos providos dos impostos.
Há alguns dias, manifestando-me sobre um post do Favre sobre o caso DD (na verdade sobre um dos comentários), externei que existe o perigo da PF tornar-se um fim em si mesma (ou chefe de si mesma), criando sua própria jurisprudência, acima da sociedade. Parece que a opinião do emérito professor coincide com a minha, neste (ou melhor, a minha coincide com a dele). No mais, acho que só podemos estar de acordo com ele em quase tudo. A corrupção e as negociatas, tal como existem no Brasil, são subprodutos do sistema vigente, mas não são nossos únicos problemas. Quem percorre a cidade de São Paulo, para não ir muito longe, sabe que os problemas estruturais do nosso país vão muito além da corrupção.