ABC e D: em expansão, região já dispensa o título de “Detroit brasileira”


De São Paulo - VALOR
Houve um tempo em que todas as previsões seguiam na mesma direção: com características semelhantes às da cidade do Estado de Michigan onde nasceu a linha montagem, a região que abriga o pólo automotivo do ABC estaria igualmente fadada ao lento e doloroso processo de esvaziamento por que passa a cidade onde estão os fabricantes de veículos americanos. Seria, no entanto, injusto hoje chamar o ABC de “Detroit brasileira”.
Resultado ou não do fim da guerra fiscal ou da mudança da conduta sindical na região, uma significativa parcela dos investimentos da poderosa indústria automobilística se voltou para o lugar que a fez surgir, na década de 50. No último ano, Volkswagen, Ford e General Motors, três dos quatro maiores fabricantes de automóveis do país, reforçaram investimentos e anunciaram novos modelos de carros nas fábricas da região. No caso da Volks e da Ford, os anúncios vieram acompanhados de acordos com o sindicato de São Bernardo autorizando flexibilidade em benefícios trabalhistas e na carga horária para ajudar na redução dos custos.
Somente no ano passado, a Volks abriu 1.216 vagas em São Bernardo, pondo um ponto final no desgastante episódio que um ano antes quase levou a empresa a encerrar atividades naquela unidade. No início deste ano, a Mercedes-Benz, anunciou a contratação de 500 trabalhadores para sua fábrica de caminhões, também em São Bernardo, nos primeiros sete meses do ano. Desde maio de 2007, foram mil novas vagas somente nessa empresa.
No mês passado, foi a vez da Ford anunciar a contratação de 400 empregados, o que representa um crescimento de cerca de 50% na força produtiva da fábrica de caminhões, também em São Bernardo, para conseguir dar início ao segundo turno de produção a partir do início do próximo ano.
Segundo o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos (Dieese), 53% dos metalúrgicos da base que abrange São Bernardo, Diadema, Rio Grande da Serra e Ribeirão Pires, trabalham em montadoras e empresas de autopeças.
O ABC chegou a ter 228,8 mil metalúrgicos, quase 40% mais do que hoje. E é certo dizer que a região quase seguiu mesmo o caminho de Detroit. Há uma década, bairros que no passado abrigavam uma pujante indústria de autopeças, exibiam galpões vazios.
No início da década de 90, tornou-se uma rotina comum na região a saída de fábricas de áreas que, na seqüência foram ocupadas por supermercados ou shopping centers, incluindo aí o espaço da unidade da Villares em que o presidente Lula trabalhou.
Os investimentos que montadoras e seus fornecedores fazem hoje na região ajudam a incrementar os níveis de emprego. Mas, ao mesmo tempo, há uma parcela significativa de filiais dessas mesmas empresas no interior paulista. Se no passado, o movimento do ABC para o interior acontecia como resultado de relações trabalhistas menos cordiais, hoje as expansões nas fábricas do interior decorrem da falta de espaço no ABC paulista.
Isso já se reflete nos números de emprego. Segundo o Sindicato Nacional da Indústria de Componentes Automotivos (Sindipeças), a participação do interior paulista no efetivo do setor subiu de 25,5% há uma década para 34,7% no ano passado. Ainda assim, o cenário do ABC está muito distante do que se vê na sombria Detroit. (MO)
Tags: ABC, automóveis, caminhões, carros, Crescimento, Diadema, DIEESE, emprego, fábrica, Indústria, investimentos, Lula, metalúrgicos, montadoras, sindicatos