Volta de Paraty

http://lunettesrouges.blog.lemonde.fr/files/librarian_arcimboldo.jpg

CONTARDO CALLIGARIS - FOLHA SP


Um romance interior, diferente para cada um, responde às perguntas que surgem na infância


DE QUARTA a domingo passados, participei da Festa Literária Internacional de Paraty -a Flip.
De alguns escritores presentes, eu já tinha lido um livro ou mais. Quanto aos outros autores, nas últimas semanas, encurtei minhas noites para conhecer ao menos o sabor de sua ficção. A bancada de meu escritório se cobriu de volumes inchados pelas orelhas das capas, com as quais eu marcava o progresso da leitura, e, ao redor de minha cama, espalharam-se em permanência dez livros abertos.
A essas leituras fragmentárias, acrescentaram-se, ao longo da Flip, os trechos lidos por cada autor.
Não sei quantas dessas histórias acabarei lendo por inteiro. A vida continua, e novos livros me levarão consigo. Mas, até das obras que não terminarei de ler, algo permanecerá -sem que eu saiba necessariamente o quê.
Os livros folheados, sondados, lidos às pressas e apenas em parte, os trechos ouvidos e mesmo os relatos de quem me contou de suas leituras -tudo isso alimentará (já alimenta), de uma maneira ou de outra, meu “livro interior”. O que é meu “livro interior”? Um pouco de paciência.
Essa bonita expressão é de Pierre Bayard, cujo recente “Como Falar dos Livros que Não Lemos?” (Objetiva) foi o objeto de uma mesa da Flip, na qual, aliás, servi de mediador entre o próprio Bayard e Marcelo Coelho, colunista da Folha. O livro de Bayard é, à primeira vista, uma sátira (muito divertida) dos costumes (universitários e mundanos) pelos quais todos falamos de livros que não lemos como se os tivéssemos lido. Digo “à primeira vista”, porque, de fato, o livro de Bayard é muito mais do que isso: é uma investigação sobre os caminhos misteriosos pelos quais os livros passam a fazer parte da gente, mesmo que os tenhamos apenas folheado ou nem isso.
Há os livros dos quais só ouvimos falar; há os muitos que compramos e ficam para sempre virgens em cima do criado-mudo; há os que apenas iniciamos e os que lemos aos trancos. Sem contar aqueles dos quais não sabemos mais se os lemos ou apenas acreditamos conhecê-los à força de falar como se os conhecêssemos. Fragmentos, re- latos, resumos de ficções, de uma maneira ou de outra, passam a fazer parte de nós, tanto quanto nossas leituras exaustivas. Como assim?
Num capítulo de seu livro, Bayard faz uma distinção entre o livro interior de quem pertence a uma sociedade tradicional (que seria um livro coletivo, repleto de representações, lendas e histórias que são fundamentalmente as mesmas para todos) e o livro interior dos modernos, único e diferente para cada um. É o romance que vamos aprimorando a partir das primeiras ficções que inventamos para responder às perguntas que se colocam desde nossa infância.
Para nós modernos, por exemplo, o parentesco sem amor não é garantia de nada, e o berço não dita o destino; só podemos, portanto, tentar imaginar: “Somos amados ou não?”, “Será que nossos pais se amam?”, “Eles amam mais a gente ou o irmão e a irmã?”, “Qual será nosso futuro?”, e por aí vai nossa tarefa de romancistas.
Aos poucos, as histórias que lemos, que ouvimos ou às quais assistimos (no cinema ou na televisão) enriquecem nossa ficção originária. E, como escreve Bayard: “Os livros interiores individuais formam um sistema de recepção de outros textos (…) constituem uma grade de leitura do mundo e particularmente dos livros, dos quais organizam a descoberta”.
Ou seja, talvez nossa apreciação crítica seja isto: as exigências de nosso livro interior nos fazem gostar (ou não) de uma história porque ela pode (ou não) se enquadrar na ficção de nossa vida.
E as histórias que integramos à nossa ficção podem ser trechos, fragmentos, resumos, relatos de segunda mão.
Anos atrás, na Suíça, ensinando literatura a imigrantes italianos que preparavam o exame final do ensino básico, eu gostava de resumir os clássicos para eles. Eles escutavam, comentavam e liam pequenos trechos que eu tinha, quase sempre, simplificado. Os maiores sucessos eram a “Odisséia” e “Moby Dick” - o que não é surpreendente, tratando-se de homens que eram separados de suas famílias e corriam atrás de um sonho impossível.
Hoje, se alguém perguntasse a meus ex-alunos se eles leram esses dois livros, talvez eles dissessem que sim. Mentira? Pode ser. Mas aposto que Homero e Melville os reconheceriam como bons leitores de suas obras.

ccalligari@uol.com.br

Tags: , , , , , , , , ,

1 COMENTÁRIO PARA "Volta de Paraty":

Comentado por Maria Aparecida Torneros em 30/07/2008 - 01:09h:

A FLIP passou por mim como um vento de alegria. Era a tarde de sábado, um dia cheio de figuras à cata de entendimento das suas próprias emoções. Rostos questionadores da essência da vida, atrás dos escritores convidados, em meio a uma multidão de cidadãos deliciados pela beleza do lugar - a colonial Paraty - e por um veio semântico onde o mundo parece significar o grande acordo que é o intervalo entre o nascimento e a morte. Fui ver e ouvir o Contardo, entre outros.
Encontrei uma FLIP colorida,antenada, blogada, sintonizada com o futuro que chegou na terra centenária por onde passaram nossos ancestrais buscando o ouro. Ali estava o ouro das paixões, traduzidas em letras, em pensamentos modelados, com autores a tentar explicar até o inexplicável, pois sentir é muito mais profundo e bem mais gratificante, sempre. O Contardo tem razão, os livros interiores, expressão que ele “rouba”, carinhosamente, do Pierre Bayard, é que contam, no fundo.
A FLIP me pegou com seu clima de festa e carnaval. Os cataventos da praça me disseram o quanto ser humano é divino, como um paradoxo do crer ou não crer, eis a questão, Capitu traiu ou não traiu, isso é uma festa literária ou é a sede de viver a reunir criaturas em busca de si mesmas?
As pessoas famosas ou não circulavam em meu entorno, como bólidos de fé. Sorrisos, gritinhos, conversas, comentários, almoços no Margarida Café, os drinks, as canções, as nuvens teimosas passeando sobre nossas cabeças, enquanto as pedras velhas do caminho sentiam as pegadas de gente intensa a marcar-lhes de mais história.
Eu estava na FLIP, sim, consegui chegar e passar por ela, mas não consegui falar com o Contardo, ao passo que me vi cercada de personagens saídos de livros encantados, e a ficção misturou-se ao real, no meu coração poeta. Nada me escapou ao que pude observar. Vi olhos de ressaca, como os da Capitu, em cada mulher necessitada do amor eterno. Vi necessidade de abraços em cada homem circulante na passarela do tempo. Ali, na ponte, alguém prateado representava Machado de Assis, o mar como fundo, as letras como escudo, o anseio de sobreviver à dor, em todas as almas inquietas. Filas para autógrafos, conversas de bastidores, disses-me-disses pululantes, retratos em branco e preto, fotos coloridas, e os cataventos me transportando a um céu onde devem plainar os escritores quando criam seus textos.
Todos estavam ali em alma ou corpo, como se a reunião fosse de magos, de bruxas, a tentar exorcisar os porquês precisamos externar, escrever, compartilhar sentimentos e pensamentos, como um ato solitário e solidário, ao mesmo tempo.
A FLIP passou por nós, e, preciso concordar mais uma vez com o Contardo: a vida continua, e os livros, lidos ou não, seguirão sendo impressos…

 

DEIXE SEU COMENTÁRIO: