Ir além da aritmética eleitoral (I)
Concluídas as eleições municipais corresponde avaliar a situação política e as novas relações de força que emergiram do escrutínio.
Com a mesma ênfase com que pretendia que as eleições municipais eram essencialmente locais e não tinham qualquer relação com o plano federal, os jornais hoje procuram projetar os resultados em sentido inverso, procurando destacar uma suposta derrota eleitoral do governo e uma vitória da oposição.
Essencialmente os resultados das eleições municipais de 2008 (os números, tanto de votos, como de prefeituras) repetem o mapa das eleições de 2004, mas amplificando a votação e as conquistas dos partidos da base do governo, em detrimento dos partidos da oposição (DEM-PSDB-PPS).
Sem desprezar as vitórias obtidas pela oposição, sua força simbólica e seus desdobramentos políticos, a aritmética eleitoral mostra uma diminuição de sua influência e dos municípios por ela governados, particularmente nas cidades acima de 200 mil habitantes e nas capitais.
As eleições municipais confirmaram o quase desaparecimento do DEM-PFL das prefeituras. Perdeu Rio de Janeiro, onde contrariando a tendência que favoreceu a continuidade, Cesar Maia não fez seu sucessor. Afastou o “carlismo” de um retorno com ACM Neto em Salvador e ganhou sobrevida com a vitória de Kassab, porem estreitamente limitada as decisões de José Serra. O PPS virou pó e o PSDB conseguiu manter sua força, diminuída de muitas prefeituras, em cidades já governadas por eles. No plano nacional, a oposição e a mídia não podem sustentar na aritmética eleitoral uma vitória, de fato inexistente, ou uma derrota de Lula e do governo federal. O PT foi o segundo partido mais votado no país e passou a governar 566 prefeituras, 143 a mais que em 2004 . O PMDB, por sua vez, cresceu 54% em termos eleitorais em relação a 2004 (Fonte jornal VALOR).
Mas entre a aritmética eleitoral e a política, as percepções e suas repercussões nos partidos, não existe automaticamente equivalência ou identidade. Por isso não é suficiente constatar os ganhos e perdas, requer-se ir além e aprofundar a analise política sobre as projeções dos resultados eleitorais.
Vou tentar aportar minha opinião em várias notas sobre diversos elementos destas eleições, sem a pretensão de aportar respostas a uma série de problemas revelados nesta campanha. Em outras notas tratarei especificamente das eleições em São Paulo.
Se no plano geral do cômputo municipal, os partidos da base do governo federal obtiveram as maiores vitórias, um analise pormenorizado mostra que destes partidos, é o PMDB quem mais se fortalece e o crescimento dos municípios conquistados pelo PT não compensa este fato, diminuído assim o peso do partido do presidente, na disputa política no campo da base aliada.
A diminuição do voto e dos municípios controlados pela oposição, não deve ocultar a importância política da vitória de Serra na cidade de São Paulo. Não só por ter conseguido a reeleição de Kassab, mas por ter obtido este resultado derrotando ao mesmo tempo seu principal adversário no PSDB, o ex-governador Alckmin e impedido assim o crescimento em São Paulo de seu rival Aécio Neves. A vitória de Serra é por isso uma vitória política muito significativa, reforçada mais ainda pela derrota de Marta e do PT, por uma margem grande e significativa.
Ao mesmo tempo, os limites desta vitória inegável de José Serra é que ela não conseguiu se projetar fora do Estado, na vitória de Gabeira no Rio, candidato do Serra e maior esperança deste segundo turno, após Kassab, para a oposição e a mídia. A vitória do candidato de Aécio em BH também constituí um limitador da vitória do paulista e de suas pretensões para 2010.
O PT deverá proceder a uma avaliação aprofundada sobre sua situação. Ele não pode limitar sua avaliação dos resultados a constatar o simples crescimento em prefeituras e em votos obtido pela legenda, ou no crescimento dos partidos da base do governo. Em primeiro lugar porque o PMDB é um aliado muito dividido nos diferentes Estados (em São Paulo está na oposição). Em segundo lugar, porque o PT, como partido, não conseguiu resolver o divorcio com uma parte significativa do eleitorado, particularmente da região sudoeste e sul e nestas regiões, de seu afastamento de contingentes significativos de eleitores da classe média urbanizada. Isto é particularmente válido nas capitais, como em São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba, Florianópolis e Porto Alegre.
Luis Favre
Tags: , , ACM Neto, Alckmin, Favre, Gabeira, governo federal, José Serra, Kassab, Lula, Municipais, PMDB, PPS, prefeituras, PSDB, PT8 COMENTÁRIOS PARA "Ir além da aritmética eleitoral (I)":
“Tudo é uma questão de manter
A mente quieta,
A espinha ereta
E o coração tranqüilo”
(Walter Franco)
Valeu, Marta! Você lutou o bom combate. Enfrentou TODAS as forças políticas tradicionais, a grande imprensa, o poder econômico, a difamação, o machismo, o preconceito, a hipocrisia, com muita garra e coragem. Conquistou 2.452.527 votos, um importantíssimo patrimônio político que precisa ser zelado e cultivado com muito carinho e sabedoria (47,45% de toda a votação do PT no 2º turno). Se o PT de São Paulo conquistar com seus debates, projetos e realizações mais 10,73% de eleitores, já alcançaria a maioria matemática dos votos válidos desta eleição. Os vencedores são um saco de gatos bastante heterogêneo (demos, serristas, alckiministas, fernandistas, ppss, malufistas, quercistas, o escambáu) que não vão viver em eterna lua-de-mel. Na hora da “partilha dos bens” poderá rolar muito barraco. Veremos a consistência dessa aliança e a competência para fazer o que prometeu. Veremos quando a máscara cair e o lixo que foi varrido para baixo do tapete aparecer em todo o seu esplendor.
Não dá para esquecer que mesmo perdendo “a jóia da coroa”, Marta teve 39,28% dos votos válidos, um tesouro. É preciso enfatizar que o PT foi o grande vitorioso deste 2º turno (5.167.773 votos). E o Lula outro grande vencedor, pois NINGUÉM se elegeu atacando o presidente ou combatendo os projetos sociais de seu governo como ocorre no âmbito legislativo. Outro dado importante a considerar: na cidade de S.Paulo, onde o PT teve 39,28% dos votos do país, os eleitores que aprovam o governo Lula se dividiram: 48% declararam intenção de votar na Marta, ante 45% que pretendiam reeleger o Kassab” segundo o Datafolha, ou seja, por incrível que pareça, 45% dos eleitores de Kassab são, também, eleitores de Lula.
Portanto, mãos à obra. Vamos analisar os fatos, identificar os erros, corrigi-los, mudar, redefinir as estratégias, aprimorar as práticas, amadurecer, superar, recomeçar e seguir em frente. Democracia é assim mesmo: diversidade, divergência, aprendizado, conflito, altenância, respeito à vontade das urnas.
A luta continua… mas antes, o merecido descanso dos guerreiros e das guerreiras. Sem perder de vista que “vitória”, “derrota”, “sucesso” ,”fracasso”,”calmaria”, “bem-aventurança”, “consciência”, “experiência”… tudo isso é relativo, passageiro, impermanente. Isso também passará. O importante é dar o melhor de si, conhecer os limites e as possibilidades da realidade e ter sempre no coração e na ação a motivação de beneficiar , construir, humanizar, plantar boas sementes e fazer a diferença para melhor.
Para finalizar um bom toque do Eduardo Guimarães: “Cumpre-me informar que ainda irá demorar um tempo razoável para que vocês descubram se ganharam ou se perderam as eleições deste ano. Neste momento, só saberemos quem são os políticos que ajudamos a vencer ou que conseguimos derrotar.
Os processos eleitorais – que, no Brasil, infelizmente ainda se assemelham a disputas entre torcidas organizadas – costumam gerar nos eleitores a sensação de terem vencido ou perdido, fazendo com que se confundam com seus candidatos e partidos.
O eleitor, porém, jamais ganha ou perde nada até que seu candidato comece a governar. Aí, depois de algum tempo, ele saberá se com seu voto derrotou alguém ou apenas a si mesmo.
Será que o eleitor do presidente George Bush achou que tinha ganhado a eleição quando a vitória de seu candidato foi confirmada? Garanto que o “vitorioso” americano de quatro ou oito anos atrás descobriu agora que comemorou muito cedo.
Quantos serão os eleitores de Bush que perderam seus empregos, seus negócios, suas casas, seus carros e até amigos e família? E quantos terão se sentido vitoriosos quando as urnas anunciaram a vitória daquele que já dizem ser o pior presidente americano?
Por outro lado, quantos brasileiros que se sentiram derrotados com a vitória de Lula em 2002 ou em 2006 vêm colhendo frutos viçosos e suculentos da “derrota” eleitoral que então acharam que sofreram?
O que tento explicar é que, quando a maioria elege um político, ninguém ganha ou perde imediatamente – e não ganha nem perde sozinho. O conjunto da sociedade é que, bem depois da eleição, acaba colhendo os frutos do que plantou.”
Veremos.
Ops!Errata:”por incrível que pareça, 45% dos eleitores de Luls são, também, eleitores de Kassab” (e não o inverso, como está escrito acima.
É a malfadada taxa de rejeição da Marta, que precisará ser enfrentada com habilidade, na raíz do problema.
o povo não quer dialogo o povo quer ser manipulado, o Pt precisa parar de ser ingenuo , ganha quem for melhor pra convencer não interessa se for com verdades ou mentiras , a campanha de kassab provou o povo é manipulavel é só aprender o que eles pensão e se contar com a grande imprensa então a lavagem celebral e completa, e pior que igrejas evangelicas com a teologia da prosperidade. ou o pt poe musiquinhas cheias de demagogia pra se elogiar e outras pra atacar os adversarios utilizando ou criando suas fraquezas
Baste lucidas as colocações. No que tange as dificuldades de se obter confiança e votos na classe média dos grandes centros urbanos, não se pode descartar a influência de setores organizados de comunicação que se abrigam em uma suposta defesa da liberdade de expressão para despejar na sociedade sementes nada democraticas. Como a criminalização de movimentos sociais e a demonização de partidos e personalidades, que gera rejeições burras e artificiais.
Aqui em São Paulo, PT, Lula e Marta são os alvos prediletos desses Dórios midiáticos.
Não se pode deixar de fazer o enfrentamento político nesse caso. A imprensa é uma estrutura fortíssima e atua como partido político que, se em nível nacional não tem, ainda ,poder e capilaridade para eleger presidente da república em nivel locar tem poder sim para criar uma forte barreira separando valores e bandeiras de esquerda e setores médios da sociedade.
Ao menos hoje, temos janelas alternativas de comunicação, reflexão e informação. Essas janelas se encontra na internet, esse blog é uma janela especial.
Façamos então uma oposição inteligente a este governo Kassab.
Acho que o povo de São Paulo está cometendo o mesmo erro que cometeu ao eleger o Pitta, inclusive a porcentagem de votos é semelhante. Realmente o povo de São Paulo é facilmente influenciavel por personalidades artísticas, políticas e até por emissoras de televisão.
[...] Ir além da aritmética eleitoral (I) [...]
Eu gostaria de ter acesso e eler o discurso de posse de marta Suplicy em 2001.
Motivo: Pesqisas lingüística
Um abraço
Adilson Ferreira
Favre,
Porque não acompanhou a Marta na votação ?