O mundo caminha para um novo Bretton Woods?
Premiê britânico defende nova arquitetura financeira. Para alguns economistas brasileiros, ainda não é hora

Gordon Brown, Primeiro-ministro británico defende um novo acordo para a economia mundial
Liana Melo* – O Globo
RIO e LONDRES. O primeiroministro britânico, Gordon Brown, pediu ontem que os líderes mundiais se encontrem para tentar estabelecer um novo acordo de Bretton Woods. A primeira vez em que o mundo se encontrou para discutir uma nova ordem monetária foi há 64 anos. Desta vez, é a Grã-Bretanha quem está liderando o pedido — em 1944, foi capitaneado pelos Estados Unidos. Ainda que alguns economistas brasileiros concordem com a gravidade da crise financeira global, muitos consideram que a idéia de Brown é precipitada.
— Às vezes, torna-se uma crise concordar com o que é óbvio e que o que deveria ter sido feito há anos não pode mais ser adiado. Mas, agora, nós devemos criar a nova arquitetura financeira para uma nova era global — defendeu Brown.
O primeiro-ministro pretende defender amanhã sua idéia junto aos líderes da União Européia (UE). Cada um dos 15 países da zona do euro se comprometeu a lançar, nesse dia, um pacote de medidas para enfrentar a crise financeira global. O acordo foi feito no último domingo, quando, numa reunião em Paris, os países da Comunidade Européia garantiram que não permitirão que os bancos europeus venham a quebrar.
Países mais preocupados em ‘apagar incêndio’
Reinaldo Gonçalves, do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), acredita que os países ainda estão mais preocupados em “apagar o incêndio” provocado pela crise do que em discutir um novo arranjo monetário mundial: — Pode ser que no futuro, mas não agora.
Quando o acordo de Bretton Woods foi assinado, o mundo tentava se reerguer da II Guerra Mundial. Liderados pelos Estados Unidos, os signatários do acordo concordaram que o dólar passaria a ser uma moeda forte e a principal referência do sistema financeiro mundial.
Hoje, segundo Gonçalves, o mundo está carecendo de uma moeda que tenha o mesmo poder que teve o dólar naquela época: — Os países mais industrializados não têm condições de estabelecer acordos internacionais, porque eles estão sendo obrigados a resolver problemas de curtíssimo prazo.
O economista Pedro Paulo Zaluth, do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), afirma que, hoje, ao contrário do ocorreu nos anos 40, o mundo dificilmente poderá contar com o apoio dos Estados Unidos para uma futura reedição do acordo de Bretton Woods. Em primeiro lugar, porque os Estados Unidos ainda são o principal centro financeiro internacional, além de um dos mais importantes exportadores de serviços financeiros da atualidade.
Eleições americanas vão deixar EUA fora do debate
A decisão sobre o tema, acredita o economista, somente terá condições de avançar depois que os Estados Unidos elegerem seu novo presidente.
Ele também tem certa dúvida quanto à adesão do democrata Barack Obama à idéia.
O historiador Márcio Scalécio, professor de História Econômica da Pontifícia Universidade Católica carioca (PUC-Rio) e da Cândido Mendes, acha que a proposta de Brown é totalmente “fora de propósito”. Ele não acredita que os países venham a concordam com a idéia de uma “regulação única”, como ocorreu no passado, porque é exatamente a falta dela que garante o “fluxo de capital internacionalmente”.
— Estamos vivendo o fim de uma onda liberalizante e devemos entrar num período mais intervencionista — acredita Scalécio, para quem o mundo vai até definir novos arranjos, mas não se submeter a uma regulação única.
O acordo de Bretton Woods vingou até o anos 70, quando a crescente pressão pelo ouro obrigou o então presidente americano Richard Nixon a suspender, unilateralmente, a conversibilidade direta do dólar em ouro. Além de definir regras para a política econômica internacional, o acordo criou o Banco Mundial (Bird) e o Fundo Monetário Internacional (FMI).
(*) Com agências internacionais
Medidas históricas contra crises
NEW DEAL
Foi um programa econômico criado pelo então presidente americano Franklin Delano Roosevelt para combater os efeitos da Grande Depressão, nos Estados Unidos. Lançando mão de um audacioso plano de obras públicas em 1933, o objetivo do governo era atingir o pleno emprego. É que a crise de 1929 levou um quarto da população americana a ficar desempregada.
A decisão era claramente intervencionista, o que contrariava a histórica tradição liberal dos Estados Unidos. Como definiu o próprio Roosevelt na época, ele queria enfrentar o problema da crise como se enfrenta uma guerra. A nova política estendeu-se a toda a atividade econômica, que significou, entre outras medidas, o controle do sistema financeiro do país, o embargo do ouro e a desvalorização do dólar para estimular as exportações. Os opositores do New Deal, que protestavam contra o crescimento dos gastos públicos, interromperam a expansão do programa em 1937 para definitivamente aboli-lo a partir de 1943. Os estudiosos de história econômica divergem se o New Deal de fato ajudou os Estados Unidos a saírem da crise. Outros consideram que várias das medidas já tinham sido adotadas pelo presidente anterior, Herbert Hoover.
ACORDO DE BRETTON WOODS
Foi uma tentativa de reconstruir o capitalismo mundial, antes do fim da II Guerra.
Reunidos no Mount Washington Hotel, na pequena cidade de Bretton Woods, no estado americano de New Hampshire, os 730 delegados de todas as 44 nações aliadas acertaram um novo gerenciamento econômico mundial. Era julho de 1944. Foi a primeira vez em que o mundo negociava uma nova ordem monetária. A acordo foi liderado pelos Estados Unidos, e ficou decidido no encontro que o dólar passaria a ser a moeda forte do sistema financeira mundial. Ficou definido também um conjunto de regras para regular a política econômica internacional, além da criação do Banco Mundial (Bird, que nasceu com o nome de Banco Internacional para a Reconstrução e Desenvolvimento) e do Fundo Monetário Internacional (FMI). Em 1971, diante de pressões crescentes na demanda global por ouro, o então presidente americano Richard Nixon suspendeu unilateralmente o sistema de Bretton Woods, cancelando a conversibilidade direta do dólar em ouro.
PLANO MARSHALL
Foi o programa criado pelo secretário de Estado americano George Marshall para recuperar a Europa, após o fim da II Guerra.
O objetivo era reconstruir, com a ajuda financeira dos Estados Unidos, a economia européia arruinada pela guerra. Aprovado durante a Conferência de Paris, em 1947, o plano contou com o apoio dos 16 países presentes ao encontro. No ano seguinte à reunião, foi criada a Organização para a Cooperação Econômica Européia. Os maiores beneficiados pelos US$ 11,5 bilhões liberados pelos Estados Unidos foram Inglaterra (24%) , França (20%), Alemanha Ocidental (11%) e Itália (10%). O socorro financeiro não foi apenas em empréstimos, mas também em equipamentos. A ajuda durou até 1952, mas mesmo depois disso os Estados Unidos continuaram a resolver problemas de balanço de pagamentos dos países e problemas de escassez de dólares mundo afora.
FONTE: Novíssimo Dicionário de Economia
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