“Pragmatismo despolitiza as campanhas”
Heloisa Magalhães, do Rio – VALOR
Renato Lessa: “O PT tem teto em SPaulo.
Só ganhou com o apoio de Covas”. Nelson Perez/Valor

“A política está sendo varrida . Existe uma cultura há anos no Brasil repetindo a idéia de que o bom candidato é aquele que responde a problemas práticos. Esquerda e direita acabaram. O eleitor pensa nas questões práticas, escola do filho, transporte e esgoto”, diz o cientista político Renato Lessa.
Ele critica o cenário que levou ao que atribuiu a um certo “enfado” com relação aos políticos e critica a “tendência crescente do eleitor pragmático, aquele que vota com foco na administração o que, na sua avaliação, vem se repetido à exaustão em todos os níveis do Executivo.
O professor do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj) diz que neste universo do voto racional, “outra coisa terrível é a idéia de que esse eleitor vota no candidato que é amigo do prefeito, governador e do presidente”. diz. E frisa que há tendência de um corte deste processo com a provável vitória de Gilberto Kassab, em São Paulo, e a disputa acirrada no Rio e Belo Horizonte, mostrando o questionamento do eleitor à força do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e dos governadores Sérgio Cabral e Aécio Neves
Em conversa com o Valor, o professor falou do perfil do eleitor que cresceu mas pouco se politizou depois do golpe de 1964.
Abaixo os principais trechos da entrevista:
Valor: As prefeituras hoje com mais recursos financeiros permitindo maiores realizações estão influenciando a reeleição? O eleitor está cada vez mais deixando a política de lado?
Renato Lessa: Primeiro, acho que se trata de uma hipótese com tinturas mitológicas, que por todo o Brasil os prefeitos que tiveram mais dinheiro foram bem avaliados e o eleitor votou neles. Não acredito que as coisas funcionam desse jeito. Política é mais complicada. E também não acredito que exista um eleitor médio. Tenho colegas que acreditam nessas ficções estatísticas. Eu acredito em eleitores reais. E os casos são diferentes. A mesma motivação que podem levar os eleitores de Salvador (João Henrique, PMDB) a reeleger um prefeito não são necessariamente as mesmas motivações que levam os paulistas a reeleger o (Gilberto) Kassab (DEM), embora em ambos os casos você tenha um prefeito bem avaliado. Há fatores locais que não podem deixar de ser levados em conta porque as eleições não são coordenadas nacionalmente.
Valor: Mas o senhor concorda que os eleitores estão partindo para o voto mais pragmático?
Lessa: A hipótese do eleitor pragmático está posta. Merece algum tipo de atenção. Pode também estar decantando na cabeça do eleitor a maneira correta de votar diante de um certo enfado com relação a questões de política. Há décadas vem sendo repetido que política é uma coisa ruim, horrorosa, que só interessa a gente corrupta e que tem relações escusas. Então política é tudo aquilo de que devemos nos afastar e a gestão é tudo aquilo que devemos apreciar.
Valor: Mas ao mesmo tempo o número de candidatos a cada eleição só cresce…
Lessa: No Brasil, dois em cada três brasileiros votam. É um eleitorado imenso. São 138 milhões de eleitores para 183 milhões de habitantes. Na última, foram 350 mil candidatos a vereador, 17 mil a 18 mil para prefeito. O tamanho disso não é brincadeira de dois em dois anos temos uma multidão incalculável que se mobiliza e vai às urnas. Esse eleitorado teve dois piques de crescimento na fabricação de um eleitor mas despolitizado. Depois do golpe de 64, foram dois momentos de expansão forte. O eleitorado disparou mais de 180%. É uma coisa extraordinária que é um caso de crescimento eleitoral sem política. Foi a única ditadura do mundo com aumento exponencial do eleitorado.
Valor: Por que cresceu tanto?
Lessa: A população cresceu mas entre as razões estão o aumento da alfabetização e da urbanização. E aumentou nesse eleitorado o número imenso de eleitores desqualificados em termos educacionais, com os analfabetos funcionais que entraram nisso. Outro espasmo se deu depois da Nova República.
Valor: E a redemocratização de 1988?
Lessa: Se pegarmos a Carta de 1998 duas grandes novidades institucionais vamos ver uma mudança de papeis. Uma é do Ministério Público e do Judiciário. O MP deixou de de ter as funções tradicionais do promotor, acusador e passou a defensor da cidadania. E a partir daí toda uma difusão de uma ideologia, uma mentalidade, um imaginário de que os brasileiros são portadores de direitos.
Valor: Foi a busca dos cidadãos em fazer prevalecer seus direitos que diferenciou as instituições?
Lessa: Os direitos dos brasileiros não são expressos através dos partidos. E não é apenas porque o Legislativo está asfixiado e insulado pelas medidas provisórias do Executivo. O eleitor hoje vai buscar os direitos no Judiciário. O Congresso hoje é um conjunto de pessoas eleitas que ficam à disposição do presidente para fazer maiorias, para compor maiorias de governo, muito distante da população aqui em baixo. E a população está aprendendo, cada vez, a mobilizar o Judiciário e o sistema de Justiça para defender suas causas.
Valor: O senhor fala em um eleitor focado em questões práticas. A candidatura Gabeira, no Rio, se enquadra neste perfil?
Lessa: O Gabeira nessa eleição no Rio está tentando animar a questão da grande política. O Rio é uma cidade global, uma das maiores metrópoles do mundo, não pode ser pensada como um problema local tem a ver com o pais e o mundo. A candidatura dele é teste interessante para ver se há espaço na cidade do Rio para quem se apresenta de uma maneira mais politizada no sentido mais amplo. Diz que vai pensar a cidade, as milícias ilegais, o meio ambiente. Contrapõe o estilo completamente asséptico sem política, do gestor, do prefeitinho da Barra (função que foi ocupada pelo opositor a Gaberia, Eduardo Paes, do PMDB, no início da trajetória política) contra a idéia que uma cidade dessa complexidade tem que ter estadista.
Valor: Em São Paulo não está sendo posto em questão a capacidade de Lula tranferir voto?
Lessa: O que está acontecendo em São Paulo é o que sempre aconteceu. Não está acontecendo nada novo. O PT em São Paulo tem o que a Marta (Suplicy) tem. Não é que Kassab é o administrador bem sucedido e admirado. É que o PT tem teto eleitoral. A Marta só ganhou quando disputou com o (Paulo) Maluf. Só ganhou quando Mario Covas desembarcou do consultório médico, quando estava proibido de sair, e foi fazer campanha para ela, colocou o PSDB ao seu lado. Marta com Covas ganhou do Maluf, mas sozinha não ganhou do (José) Serra e não ganha do Kassab. É questão do tamanho eleitoral que o PT tem em São Paulo. É imenso mas é menor do que a metade. Pode até existir transferência de voto em tese, mas em São Paulo o que está acontecendo é a repetição de um padrão eleitoral que está consolidado.
Valor: E para presidente da República, transfere?
Lessa: Depende muito, é totalmente circunstancial. Depende de quem é a pessoa e de quem é o inimigo. Não há uma teoria geral. Mario Covas transferiu para Marta porque o inimigo era o Maluf. (Leonel Brizola) transferiu voto no Rio para Lula quando o inimigo era (Fernando) Collor. Se o candidato que disputasse contra Lula fosse Mario Covas ou Ulysses Guimarães dava para transferir aquela quantidade toda de votos? Não sei, a ver. É muito circunstancial.
Valor: O que sai dessa eleição agora já permite projetar a tendência do quadro partidário para 2010?
Lessa: Tendência para 2010 é complicado mas força é algo a considerar. É força partidária para disputar eleições que virão. Três grandes partidos PT, PSDB e PMDB. Pegando a distribuição de votos nas cidades com mais de 200 mil votos no primeiro turno esses três partidos são os campeões. Mais abaixo vem o DEM. Nas 80 cidades maiores, o DEM teve desempenho quase de pequeno partido, ficou lá em baixo. Perdeu as lideranças e o palanque. O partido foi comido no interior pelo PT que entrou nos grotões e o PSDB se consolida como o principal partido de oposição. Mesmo com a vitória do Kassab, em São Paulo, ninguém vai acreditar que será uma vitória do DEM. Os três maiores partidos com escala nacional são o PMDB, PSDB e PT tem base e densidade eleitoral. O Lula não sai enfraquecido. Há uma teoria que com uma derrota da Marta elimina a Dilma (Rousseff). Eu não entendi essa dialética.
Tags: campanhas, cidadania, DEM, Dilma, direita, eleições, entrevistas, esquerda, Gabeira, IUPERJ, Kassab, Lula, Maluf, Marta, Municipais, Paes, Partidos, pesquisas, PMDB, prefeituras, PSDB, Renato Lessa, Vereadores4 COMENTÁRIOS PARA "“Pragmatismo despolitiza as campanhas”":
(dascartar primeira mensagem)
Muito lúcida algumas colocações do professor, mas eu ainda não concordo com a teoria do teto petista em São Paulo.
Fosse assim, o PT deveria parar de disputar eleição majoritaria, de fato 35% não elege ninguém, ainda mais com uma campanha desastrada.
Houve sim erro de avaliação da conjuntura nacional. Quando se acreditava que a grande popularidade do governo federal iria provocar uma onda vermelha pelo país, essa onda de lugar a uma onda continuísta dos prefeitos que ja estavam sentados na máquina. O povo esta satisfeito, não existe felicidade federal ou felicidade municipal, existe estado de satisfação que pode provocar um distencionamento político o que favorece o continuísmo. O bem estar da populaçaõ favoreceu Kassab que não tem marcas próprias a apresentar muito menos um governo ótimo.
No caso de São Paulo, na minha modesta opinião houve uma enorme ”comida de bola”, se existe uma corrente tucana na cidade que é forte, Kassab certamente era o gomo mais fraco dela, era a oportunidade de suplantar um governo de DNA tucano que amargou índices muito baixos de popularidade nos ultimos três anos. Uma crítica bem pontuada e uma nova costura de comunicação que pudesse colocar os pingos nos Ís certamente levaria a uma vitória acachapante (se houver vitória será no aperto).
A teoria do teto petista na cidade e de predomínio ideológico conservador em São Paulo como fosse algo determinado e intransponível , cai por terra quando se observa que um governo de DNA tucano apoiado explicitamente pelo governador Serra amargava popularidade muito baixa, ou seja, talvez o que interesse ao eleitor não seja o partido em sí, mas a avaliação pessoal que o cidadão faz de cada governante, nesse aspecto o PT perdeu uma deliciosa oportunidade quando optou por não emparedar o atual governo, ou contrário deixou que o mesmo se vendesse livremente.
Não se pode esquecer também que a petista Marta Suplicy assumiu a liderança nessa disputa antes do inicio do horário eleitoral, chegando a índices bem superiores aos 30% cativos do PT, em projeções de segundo turno chegava a 55% contra Kassab, e empatava com o mais do que conhecido Alckmin. Por que? parte do eleitorado se tornou petista da noite para o dia?
Não, mas existia um sentimento na cidade de que talvez Marta não tenha sido tão mal prefeita quanto se acreditava.Não souberam vender bem as conquistas do seu primeiro governo, assim como não souberam trabalhar a imagem da candidata como foi preciso trabalhar a imagem pessoal de Lula em 2002 para torna-lo mais confiável e próximo. Lula teve que ceder ao pragmatismo para chegar ao poder, eu não vi esse esforço neste ano, pelo contrário, a candidata aparecia no programa eleitoral trocando a oratória simples pelo discurso quase didático sobre a função de prefeito, quanto a imagem, as vezes tão arrumada e elegante, DISTANTE, que se criava uma obstrução na comunicação semelhante a que o Lula barbudo sem gravata de antigamente tinha que enfrentar perante o eleitor médio.
Daria para fazer uma lista com todos os erros cometidos nessa campanha e esse post ja esta grande demais.
Se 30% votam no PT de qualquer maneira e 30% não vota no PT de maneira nenhuma, então a chave talvez esteja no saber chegar nos 40% de eleitor pragmatico que quer antes de mais nada um bom governante e um bom governo (o PT de BH ja aprendeu isso). É facil detectar um sotaque esquerdista na propaganda do Kassab, eu não vi no outro lado esse esforço para conquistar São Paulo como todo, que é bem mais fácil que tornar petista, 50% mais um dos eleitores.
Deveria ser assim: em disputas proporcionais o PT briga para garantir 30% da assembléia e assegurar uma base ideológica em um governo aliado ou assegurar uma oposição coerente. Já em disputas majoritárias o que deve prevalecar na comunicação é o pragmatismo.
Tirando o aspecto de ocasião, talvez o partido tenha que parar para refletir o seu futuro, São Paulo esta passando por transformações, a cidade industrial do sindicato forte e politizado esta dando lugar a uma cidade dos serviços, de populaçaõ com mais informação porêm menos conhecimento. Outros desafios.
RJ
A divisão tão explícita entre esquerda e direita nesta eleição e a clara face da direita que esta cidade construiu (o trânsito DELES é o que mais está na boca e nas mentes da elite paulistana) tornavam necessários esclarecimentos e alertas ao eleitor sobre o que significa continuar a votar nela e no individualismo exacerbado.
Não se tentou trabalhar a memória histórica negativa da direita e a consciência ou o constrangimento de muitos diante deste voto.
Tentei dar esta humilde contribuição escrevendo para o site da campanha da Marta, mas parece que preferiram se valer da mesma linguagem e da mesma estratégia – e tática – que a campanha da direita, como se houvesse proporcionalidade de forças. Ficou disputando com a direita tudo aquilo que Marta fez e que lhe tomaram, com ajuda desta mesma população. Assim, na minha opinião a campanha se fixou no passado, e pior, correndo atrás de uma figura tão provinciana quanto Kassab, um tipo oligarca.
Por fim, acho que houve muito preconceito por parte da campanha da Marta:
há esquerda esclarecida e nem tanto nas elites e na classe média, mas TODA a região central da cidade foi desprezada pela campanha do PT, e acho eu que por preconceito, e preconceito tosco.
Agora se vê ali alguns agitadores de bandeira, só de bandeira.
Ainda tenho alguma esperança, mas acho que se deixou ficar muito fácil para uma direita tão reacionária.
“Cêbesta!”: um jeito mineiro de dizer a gíria
“não marque bobeira”
Não é de hoje que recebemos e-mails com piadas e histórias sobre os jecas mineiros (ou seriam mineiros jecas?). Vira e mexe, o “mineirim” aparece. E quem de nós não ri? São poucos. Há também o “mineirês”, dialeto regional facilmente reconhecido pelas contrações, supressões, neologismos (“badapia” = embaixo da pia, “mezzz” = mesmo, “óia” = olha, “cesvai?” = vocês vão?). Conhecemos personagens memoráveis como o Nerso da Capitinga do Pedro Bismarck, o Ceguinho do Geraldo Magela, a Maria Gorette com a sua Filó, as encenações do Kaquinho Big Dog e por aí vai. Rimos de nós mesmos. Dos nossos trejeitos, sotaque e manias. E constatamos que esse estilo mineiro de ser, que faz parte da nossa “mineiridade” existe, inclusive, na Grande Belo Horizonte. Quem vai dizer que não? A nossa elite financeira, política e intelectual é, na sua maioria, jeca. Muito jeca. Só tem um problema, e as eleições de 2008 comprovam isso com clareza: nós podemos rir e falar de nós mesmos, mas não gostamos que os outros façam chacotas sobre o nosso “jeitinho”. Aquela coisa de “eu posso falar da minha família, você não!”. Muito mineiro isso.
Quando o Leonardo “Jeca” Quintão aparece no primeiro turno das eleições para a prefeitura de Belo Horizonte, ele, como vários outros novos personagens políticos, apresenta muitos atributos favoráveis: jovem, bonito, com proposta própria e um estilo “gracioso” e firme de falar. Diferente dos velhos caciques. E, com tantas qualidades e contando com a displicência antropológica da campanha do Márcio, conseguiu derrubar o curral preparado por Aécio e Pimentel.
O povo belo-horizontino – ou deveria falar de “Belzonte”? – mostrou-se aguerrido contra o voto de cabresto. O erro estratégico da campanha de Márcio é simples de entender: faltou conhecimento sobre a tão falada mineiridade. No sentido mais restrito e tacanho do termo. Mesmo elegendo sucessivas prefeituras de esquerda (boa referência ao Patrus em 1993), tendo apoiado fortemente o neto do saudoso Tancredo Neves e aprovado a questionável continuidade da gestão de Célio de Castro pelas mãos do Pimentel, o resultado: Marcio Lacerda (PSB) – 43,59% – 549.131 – votos e Leonardo Quintão (PMDB) – 41,26% – 519.787 – votos faz muito sentido para quem conhece essa terrinha.
Aliás, isso de “mineiro ser de esquerda” não é bem assim. Acho que está mais para a postura de “hay gobierno, soy contra”. E, para não ser favorável ao candidato do governo, o povo votou contra. Desde quando Leonardo Quintão faz oposição ao governo? Ele nunca foi o candidato da mudança, da oposição. Ele, assim como Márcio, posicionou-se como o candidato da continuidade. Só que, no jargão mineiro, ele teve “sorte”. Sem a pressão do governador e do prefeito, contou com as bênçãos de Deus, a simpatia mineira e a juventude. Que virada!
Por essa rebeldia questionável o marqueteiro do Márcio não esperava. Faltou a ele conhecer a essência mineira. O mineiro não quer se sentir obrigado e forçado a nada. Suas aspirações, no geral, são simples: passar em um concurso público, viver de rendas, bem tranqüilo, e ir ao sítio no final de semana. E, se possível, passar as férias no Espírito Santo. Com mais sorte e mais dinheiro, na Bahia. Uma grande classe média.
O povo mineiro, que adora ver o circo pegar fogo, na sua maioria, é acomodado e defende a máxima de que “política, futebol e religião não se discutem”. Os debates, que nunca representam a ágora, mas a arena da rinha, pouco ajudam. Mas, no fundo, no quieto do coração, o que acontece é bem diferente. Foi aí, na compreensão de como funciona a cabeça de muitos mineiros, que o Jeca Quintão conquistou seus eleitores. Assim, no primeiro turno, tendo a vitória com sabor de derrota do Márcio, mostramos quem é que manda neste quintal.
Contudo, a disputa que vemos agora, no segundo turno, não é de propostas ou de lisura política, mas de quem vai nos representar melhor perante os outros Estados. Seria uma releitura de práticas comuns em vários lares mineiros. Aquilo de guardar o melhor biscoito para a visita, deixar a sala sempre arrumada porque alguém pode chegar, ter um jogo de roupa de cama novo para aquele parente que vai aparecer. Enfim, algo próximo a “ficar bem na fita”. E é aí que o Jeca Quintão corre risco de perder a eleição. Ele é bonitinho, mas continua ordinário. É uma pessoa que conheceu vários países, é de família abastada, freqüenta altas rodas, mas continua sendo Jeca. E, assim como pobre gosta de luxo, e quem gosta de pobreza é intelectual, mineiro gosta é de parecer in. Brincar de jeca é só para o foro íntimo.Tudo o que estamos vendo até agora é, de fato, uma grande brincadeira de política. E tudo pode ser bem diferente nos resultados do segundo turno.
Por exemplos: a juventude do candidato Quintão, que foi muito bem vista no primeiro turno, pode passar a ser percebida como imaturidade. A beleza do candidato pode remeter a uma forte lembrança do ex-Presidente Fernando Collor. Não há muita segurança na dita amizade com os governos estadual e federal. A simploriedade da fala e o uso do mineirês já cansaram, vide as brincadeiras que rodam pela web. O coloquialismo pode desagradar aos que já não são mais tão afeitos ao Presidente Lula. E, como mineiro não gosta muito de mudanças, pode valer a máxima “em time que está ganhando não se mexe”. Por fim, tendo já demonstrando o poder do eleitor mineiro no primeiro turno, agora é hora de votar pra valer. Essas são apenas algumas das desculpas para, mineiramente, mudar o voto de Quintão para Márcio e manter tudo como está.
E a religião? Se não discutimos religião, qual o problema de o candidato ser protestante e ter vice-católico carismático? Na teoria, nenhum. Mas, na prática… Além disso, todo mundo tem um amigo que tem um parente que tem um conhecido que já passou por Ipatinga. E, em Ipatinga, o pai do Leonardo… Só Deus sabe. Até quando vamos perpetuar a máxima de que filho de peixe peixinho é? E comparar Belo Horizonte com Ipatinga é assinar embaixo que somos uma grande cidade interiorana. Ou não? Não dá para aceitar que aqui, com os órgãos de representação que temos e a população mobilizada que formamos, ele vai fazer o que o pai dele supostamente fez por lá. Ou será que o nosso medo é porque sabemos que somos uma grande roça e que não temos poder de mobilização coisa alguma?
E “a gente vai levando, a gente vai levando, a gente vai levando essa vida…” Viva o Chico! Não o Chico Mineiro. Não o Chico Bento.
A questão é: nos sites da Câmara e da Assembléia – quando não estão fora do ar – não há grave condenação contra o Leonardo em nenhum processo. Mas contra o Márcio há! O Marcos Valério – ex-DNA Propaganda e que, inclusive, estava até ontem preso no mesmo estabelecimento que o seqüestrador de Santo André – confirmou publicamente o envolvimento do Márcio no escândalo do mensalão.
Não dá para aceitar mais a política velha em BH do “rouba, mas faz”, “estupra, mas não mata”, “votar no menos pior”. Só porque o candidato é mais “ajeitado”. Estamos entre o Jeca Quintão e o Márcio Mensalão. Se correr, o bicho pega, se ficar, o bicho come.
Chego à conclusão óbvia, enfim, de que não temos um bom candidato para o segundo turno. Se havia algum no primeiro turno, já era. O que sobrou é lastimável. Solução constitucional: anular a eleição (Lei 4.737/1965 – Código Eleitoral 15/07/1965). Contudo, para mineiro, votar nulo é quase um pecado. Como ninguém quer discutir religião, não dá para fazer política com culpa. Isso demanda mobilização e não há ninguém interessado em sair do seu cantinho. “Roda mundo, roda gigante. Roda moinho, roda peão.”
Escrevi este texto faz um bom tempo, como ele continua atual. http://blogdobriguilino.blogspot.com/2007/11/zeitgeist-esprito-do-tempo.html