EUA: governo precisará de ousadia

E. J. Dionne Jr. – Washington Post – O Globo
Quase todo mundo tem uma interpretação diferente para o que realmente significa a vitória de Barack Obama. Por isso, o presidente eleito deve tomar cuidado com os conselhos que recebe. Os piores virão de seus adversários conservadores, o pessoal que o chamou de socialista poucos dias antes da eleição e que, agora, passou a dizer que ele só ganhou porque se mostrara conservador.
Os mais velhos entre eles declararam após as eleições de 1980 que os 51% de votos de Ronald Reagan representavam uma revolução ideológica, mas argumentam agora que a ampla margem obtida por Obama não terá implicações filosóficas.
Esses conservadores estão tentando, na verdade, impedir Obama de cumprir algumas promessas de campanha: acesso universal à saúde, redistribuição da carga tributária, retirada americana do Iraque, e a criação de mecanismos mais robustos de regulação econômica. O argumento é que os EUA ainda são um país de “centro-direita”, porque há mais americanos que se consideram conservadores do que os que se acham liberais.
O que essas análises ignoram é que os americanos se voltaram ainda mais para a esquerda de onde estavam há quatro, oito ou dez anos.
O desejo da população por mais ações do governo na economia, na garantia do sistema de saúde, e o ceticismo em relação à desregulamentação do mercado sugerem que temos agora um país moderado e que sinaliza cuidadosamente para a esquerda. Mas, fundamentalmente, somos uma nação não-ideológica. Muitos dos que gostariam de ver o governo agindo com mais ousadia não se identificam com ideologias e ainda precisarão ser convencidos da capacidade deste novo governo.
Neste ponto, temos uma semelhança com o período Reagan.
Assim como o 40º -presidente, Obama recebeu autorização para se movimentar em uma outra direção. Se Reagan teve dos eleitores a permissão para se mover para o liberalismo, Obama tem agora o aval para se afastar das políticas mais conservadoras. Reagan foi julgado por suas escolhas, Obama também será.
Reagan também nos oferece uma outra lição: suas primeiras movimentações no governo foram ousadas, e Obama não deve ter medo de seguir esse exemplo.
Na verdade, timidez é um perigo bem maior que ousadia, porque é muito mais fácil ser cauteloso. E qualquer um que ache que os democratas são de extrema-esquerda não os têm observado nos últimos dois anos. Como disse a líder do partido na Casa, Nancy Pelosi, os democratas incluem esquerdistas empedernidos e moderados resolutos. Ela reconhece que o partido não cresceu em 2006 esposando idéias de extrema-esquerda.
Isto é verdade, e sublinha o fato de que para ser ousado não é preciso ser ideológico.
Isso é algo que o chefe de Gabinete do futuro governo, Rahm Emanuel, entende. Ele já disse ver Obama atuando especialmente em quatro grandes áreas que preocupam a classe média que “está trabalhando mais, aprendendo menos e pagando mais”: saúde, energia, reforma tributária e educação. Em todos esses temas, Obama não pode ter medo de ser audacioso.
Daqui para frente, Obama poderá passar seu tempo se perguntando como agir somente preocupado com erros, ou se ocupando das mudanças realmente necessárias.
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