Rio: Zona Sul, curral

Gabeira votou na zona sul, onde obteve 70% dos votos
O que o Rio precisa é de um movimento a favor das idéias divergentes
OCTAVIO GUEDES – O GLOBO
A definição é clara: curral eleitoral era um lugar nas cidades onde se mantinham eleitores do campo incomunicáveis até a hora da votação. Dali, guiados pelo chefe político, eles saíam levando a cédula já preenchida para depositar na urna. O resultado não trazia surpresa: o candidato abençoado recebia quase a unanimidade dos votos.
Se existe uma região na cidade do Rio que se aproxima desta descrição, ela se chama Zona Sul.
Quem afirma isso são os números objetivos dos mapas eleitorais. Foi ali que um dos candidatos a prefeito obteve 70% dos votos contra 30% do adversário.
Ou seja, de cada dez pessoas, sete seguiram a mesma orientação política. Em nenhuma outra parte da capital essa mesmice bovina ocorreu em tamanha proporção.
Nos currais, os eleitores tinham hospedagem, alimentação e recreação.
Uma agenda tão movimentada que não havia brecha para se discutir política. O objetivo era este mesmo: ficavam todos incomunicáveis.
O que isso tem a ver com a Zona Sul? Tudo.
O eleitor incomunicável é aquele que se encerra em si mesmo, não é afável, nem sociável quando o assunto é escolha eleitoral. Ele não quer ouvir. Está sempre aberto ao monólogo. Ele vê a eleição como uma disputa entre o bem e o mal; as luzes e as trevas, o progresso e o atraso. Não tem meio-termo, nem argumentos. Está decidido e ponto.
Quem pensa o contrário está errado.
Surge, então, o discurso mais perverso: a batalha eleitoral deve ser travada em outras bandas, sempre acima da linha do equador: na Zona Oeste e no subúrbio. Como se fosse necessária uma cruzada para levar esclarecimento a eleitores que, por puro preconceito, são considerados mais suscetíveis ao abuso do poder econômico, à corrupção e ao jogo sujo da política. Gente com pouca capacidade de reflexão, capaz de se impressionar com panfletos apócrifos de apelo moralista.
Este artigo, acreditem, não é contra a Zona Sul.
Mas a favor da diversidade do pensamento político que, nas últimas eleições, se expressou, principalmente, nas urnas da Zona Oeste (onde um candidato teve 57% dos votos e o outro, 42%) e do subúrbio (onde a divisão do bolo eleitoral ficou em 54% contra 45%). Nessas regiões, o equilíbrio eleitoral, muito distante da diferença de 70% x 30% da Zona Sul, prova que ali houve o debate, o confronto de idéias, o contraditório. Pode-se até não gostar do resultado, mas não dá para negar que a democracia foi exercida em sua plenitude.
E quando isso ocorre, não existem eleitores melhores ou piores. Existem escolhas, que devem ser respeitadas. O sambista Mauro Diniz tem uma tese que ajuda muito a explicar o Brasil: “Crioulo com fome é um país em guerra.” E são justamente esses eleitores com fome de saúde, transporte e educação os que votam com mais consciência. Não porque são melhores, mas por instinto de sobrevivência. Para eles, uma promessa não cumprida significa um filho numa escola que não ensina, um posto de saúde fechado na hora em que mais se precisa ou um transporte que, de tanto atraso, ameaça seu emprego. Durante quatro anos ele vai testar no seu dia-a-dia todas as promessas que ouviu. Mas, curiosamente, no discurso das milícias ideológicas e das passeatas que hoje clamam por revisão do resultado eleitoral esses eleitores são justamente os acusados de se deixarem levar pelo lado negro da política.
E mais: até quando o cidadão escolhe um candidato que oferece serviços públicos em seu centro social, ele está fazendo política. Seu voto é um recado claro do eleitor ao Estado ausente.
Se olharmos pelas lentes de Robin Hood, podemos radicalizar: os centros socais dos ricos são a escola particular, o plano de saúde e seu carro.
Afinal, somos todos crioulos com fome de bons serviços públicos. E cada um busca as alternativas a seu alcance para compensar o vazio do Estado. Se a saída pode ser o contracheque, por que não pode o voto? O que o Rio precisa é de um movimento a favor do respeito à idéia divergente. O resto é puro preconceito. Ou paixão política. Ou curral eleitoral mesmo!
OCTAVIO GUEDES é jornalista
2 COMENTÁRIOS PARA "Rio: Zona Sul, curral":
O que me dá raiva nesse Gabeira é que ele só participou do sequestro do embaixador, porque tinha uma casa alugada e já era conhecido no pedaço, então, pra não criar suspeita ficou combinado que o embaixador ficaria ali.
Por essa razão, ele achava que o Zé Dirceu, um dos presos políticos, que foram soltos por causa do sequestro, deveria eternamente beijar o chão onde ele passasse e quando teve que ficar esperando meia hora pra ser atendido nem lembro se pelo Zé Dirceu ou pelo Gil se sentiu ofendídissímo e deu no que deu.
Como a mídia sempre dá espaço enorme para os dissidentes do PT, ele , oportunista como sempre usou esse espaço até não mais poder e virou esse tipo asqueroso que hoje é.
ESSE ARTIGO DA DANUZA NA “fOLHA” ME ASSUSTOU, A CAMPANHA PARA GABEIRA GOVERNADOR ESTÁ A TODO VAPOR NO RIO DE JANEIRO.
SOUBE TAMBÉM QUE A MAITÊ PROENÇA NO programa “saia justa” quase chorou com a perda do Gabeira e que (outro assunto) a “grande” filósofa Márcia Tilburi no mesmo programa disse que a empregada dela ia votar na Marta, mas quando soube que a Marta tem preconceito contra os homossexuais, mudou de idéia.
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DANUZA LEÃO
A vitória de Gabeira
Nosso consolo é saber que ele, com um discurso limpo, claro, ético, tocou o coração dos cariocas
NA NOITE DO domingo da eleição, o Rio de Janeiro, que é uma cidade tão festeira, estava silenciosa e deserta. Poucos carros na rua, buzinas zero, e nos bares e restaurantes vazios, o clima era de um quase luto. Ok, estou falando da zona sul, onde Gabeira era o favorito, mas na zona norte não foi muito diferente -a não ser no comitê eleitoral de Eduardo Paes, é claro.
Mas a derrota de Gabeira teve sabor de vitória. Usando o que disse o grande Cony, Gabeira como prefeito seria um desperdício. Ele merece e tem capacidade para muito mais, pois sua visão do mundo é completa, não apenas municipal, a visão deste mundo ao qual pertencemos e pelo qual também somos responsáveis.
Talvez, depois de 16 anos de Cesar Maia, o Rio não merecesse ainda ter um prefeito como Gabeira.
Como as coisas, sobretudo em política, demoram a mudar, Eduardo Paes, que é a continuação perfeita de Cesar Maia -de quem, aliás, é cria-, foi eleito não por ele mesmo, mas pela máquina -e uma máquina pesada. E bem ajudado pelo feriadão de segunda-feira, quando alguns menos politizados aproveitaram para fazer um longo fim de semana, no lugar de votar. Mas, segundo “O Globo” da última terça-feira, Gabeira tem sido aclamado nas ruas e até na feira como se tivesse sido o candidato eleito.
Uma amiga me contou que para entrar no restaurante onde ele almoçava foi um tumulto, e que as pessoas se debruçavam nas janelas gritando seu nome.
Tendo oferecido sua vitória a Sergio Cabral e a Lula, Paes ficou refém dos dois -a não ser que daqui a algum tempo mude novamente de partido (seria o nono). Mas não só deles: também do vereador Babu, entre outros. Mas os 49,17% que não votaram nele estão de olho.
Eu adoro a minha cidade; mas Sergio Cabral com seu risinho simpático e “ishperto” de carioca que gosta de samba, futebol e praia, nunca me enganou. E o novo prefeito mauricinho tampouco. Torço para que a cidade melhore, mas só vejo Cabral viajando, e com a ambição de ser vice-presidente, e em Paes, a de ser governador.
Mas vamos supor, apenas supor, que Eduardo Paes tenha as condições para ser um prefeito maravilhoso; mas tive a visão clara do que vai ser essa prefeitura quando vi pela televisão a comemoração. No lugar de olhar para Paes e Cabral, fiquei observando os correligionários que os cercavam, e vi ali o que há de pior na política brasileira; uma gentalha que há anos consegue continuar no poder, e me pergunto como. Só de ver essa gente dá para saber que não vai dar certo, e que os três unidos -Lula, Cabral e Paes- vão fazer o que bem quiserem com o nosso Estado, com a nossa cidade, com os nossos impostos.
Nosso consolo é saber que Gabeira, sem dinheiro, sem partidos o apoiando, sem a famosa máquina administrativa, sem panfletos, sem camisetas, com um discurso limpo, claro, ético, tocou o coração dos cariocas, que já estão cansados de tanta politicalha e tanta falta de vergonha na nossa cidade e no nosso Estado.
Meu próximo voto será novamente para Gabeira -seja lá para o que for.
danuza.leao@uol.com.br