A poesia de Bárbara Lia
Renée Magritte

PROFANA
A cor do amor é branca,
e o amor tem uma covinha do lado direito do rosto
e o amor me olha como alguém
que jamais vai tirar a minha calcinha
e gozar o céu dentro de mim.
O amor sempre vai me olhar
como se eu estivesse num altar de papel.
Para o amor, eu sou uma rima
e rima não tem vagina.
Para o amor, eu sou uma ode
com uma ode ninguém fode.
Eu sou um verso alexandrino
jamais tocado pelo herdeiro deste nome.
Eu sou a palavra, e a palavra, a palavra é Deus
Deus ninguém come, mas
será que beber
pode?
Fico equilibrando a vida, como seus dedos ontem — Equilibrando-se, brancos nas cordas, na mais bela dança. Foram eles que me puxaram para perto naquela noite no palco do Hermes. Foi brancura de luz que é só beleza. Eu sei que muito tempo vai passar, sem que eu veja algo mais belo que suas mãos e sem que eu deseje ser outra pessoa, que não ela, que te tirou o cabaço, baby… Pois soa no final com uma certeza lúdica, que você a amou.
Não só o corpo entende? Como se eu quisesse um fiapo da eternidade que ela teve. Que ela queria apenas como aconchego, e que eu quero como amor…
Estas luzes que são teus dedos, como um manto de mariposas, que eu fosse um mundo inteiro para elas valsarem quando você pousasse no corpo antigo, judiado, esquecido e triste, que te alisa em um travesseiro branco, teus dedos brancos, a primavera inteira.
BEIJA SUAVE A MINHA NUCA
…”demorei a entender que és mulher
e carregas outonos na nuca”
Luiz Felipe Leprevost, em Ode Mundana
Uma pinta de beleza
brotou sob o seio esquerdo,
para o menino
devorador de sinais de beleza.
Rito de oferta,
olhando este corpo mascavo com digitais
impressas,
buscando um poro virgem para plantar
a pétala,
e te oferecer depois
— rosa a ser desvirginada —
Um dia, li os versos epifânicos,
do amigo solar — profeta
sem saber —
que há em mim apenas outonos
para esfriar verões de acordes…
e o amigo do amigo solar
nem sabe,
do mantra que eu repeti meses a fio,
a caminhar por ruas e corredores e
antes de adormecer, recitando suave
como prece:
beija suave a minha nuca!
beija suave a minha nuca!
beija suave a minha nuca!…
de outonos adornada… e a pinta recém-nata,
gota de meu coração que vazou sobre a pele,
ou um prêmio extra que trouxe destas noites
em que adentro oceanos estranhos
e te procuro entre as estrelas naufragadas.
5 COMENTÁRIOS PARA "A poesia de Bárbara Lia":
Achei magníficos a composição dos poemas e da imagem. Mas os poemas são infinitamente superiores, entende?
Onde poderei comprar um livro dela?
Uma surpresa ver algumas poesias do meu livro Noir publicadas aqui no blog do Favre. Noir esgotou, Rubens, estas poesias são do Noir. Na Livraria Cultura de São Paulo tem o meu livro de poesias – O sal das rosas. E os outros livros meus estão aqui na minha cidade – Livrarias Curitiba.
http://www.livrariascuritiba.com.br
Grazzie!
Pelas palavras sobre minhas poesias,
abraços
Bárbara Lia
[...] Bárbara Lia é professora de História e escritora. Vive em Curitiba-PR. Publicou os livros de poesia O sorriso de Leonardo (Curitiba: Kafka Edições Baratas, 2004); Noir (Curitiba: Ed. independente, 2006) e O sal das rosas (São Paulo, Lumme Editor, 2007). Fonte Germina. Fonte Escritoras Suicidas. Tags: , arte, As pontes de madison, Bárbara Lia, escrita, Literatura, Poemas, poesias, poetas, sonhos em preto e branco [...]
Magníficos os poemas e a composição com Magrite, um brinde.