O congelamento de Gilberto Kassab

A Folha e o jornal Agora publicam entrevista com o prefeito Gilberto Kassab. Uma boa entrevista que permite medir a capacidade de Kassab de fugir de suas responsabilidades.

Por exemplo, porque o número de crianças sem creche aumentou nos quatro anos do mandato? A pergunta não foi assim formulada, mas esta realidade denunciada durante a campanha eleitoral pelo candidato tucano Geraldo Alckmin, encontra como resposta a cantilena do descaso anterior. Mas na gestão anterior o número de crianças fora das creches foi diminuindo ao longo dos quatro anos.

Outro exemplo, porque a avaliação do transporte público passou de uma aprovação de 61% em 2004 a uma desaprovação de 60% hoje? Para Kassab -sem rir-, é porque “herdou políticas equivocadas em matéria de transporte”. Ou seja, a população aprovava o “erro” da gestão anterior e desaprova o “acerto” da atual política. Mas qual sería esse “erro” e qual é o “acerto”? Não ter construído um único corredor em quatro anos pode ser um ” acerto”? Ter construído mais de 100 Km de corredor, renovar a frota e criar o Bilhete-Único foi o “erro” da Marta? Mas mesmo assim, porque caiu 11% a avaliação nos principais corredores da cidade entre o ano passado e hoje? O que piorou em um ano? porque? A questão não foi tocada, mas o silêncio de Kassab é eloqüente.

E as enchentes? Porque com R$10 bilhões de reais a mais foram construidos nos últimos quatro anos muito menos piscinões que na gestão anterior? A pergunta não foi feita, mas o entrevistador não deixou passar o assunto. Kassab não consegue dar nenhuma indicação do que foi feito na área. Diz que o fundamental é salvar vidas. Vários já morreram nos últimos 4 anos como conseqüência das enchentes. Ainda hoje três crianças estão desaparecidas. Os mapas estão desatualizados (o último é de 2003). As obras projetadas não foram realizadas. Sem rir, Kassab diz que a coisa melhora e melhorará se a cidade continuar elegendo administrações como a dele. Mas para continuar fazendo o que, no combate as enchentes?

Para concluir, o prefeito recusa a idéia que a criação de novas secretarias implique qualquer “inchaço” da máquina pública. A criação de mais de 170 cargos decorrente deste inchaço é só eficiência administrativa.

O verdadeiramente curioso desta entrevista é que Kassab não expõe qualquer objetivo, plano, programa ou proposta que possa ser objeto de um acompanhamento da população ou da mídia. O vazio das propostas é o eco da mediocridade dos resultados. Como se vê o congelamento não é só do orçamento.

O resultado eleitoral foi uma indiscutível vitória para Gilberto Kassab, ela não é um cheque em branco para premiar essa mediocridade.

A seguir a entrevista de Kassab publicada na Folha SP de hoje. LF

Orçamento será congelado em 2009, anuncia Kassab

Prefeito reeleito de São Paulo diz que corte será amplo, mas não atingirá áreas sociais

O DISCURSO DO PREFEITO de São Paulo, Gilberto Kassab (DEM), 48, está menos otimista dois meses após ter sido reeleito.
Às vésperas de tomar posse para seu segundo mandato, ele agora declara que a crise econômica “adquiriu uma dimensão grande” e que ela vai reduzir a arrecadação. Já anuncia para 2009 um congelamento do Orçamento da capital paulista.
Embora a extensão do congelamento ainda não seja revelada, Kassab já adianta que ele “será bastante amplo”. O prefeito paulistano se compromete a preservar somente as áreas sociais.

Eduardo Knapp/Folha Imagem

O prefeito Gilberto Kassab em sala de reuniões do edifício onde mora

 

ALENCAR IZIDORO – FOLHA SP

DA REPORTAGEM LOCAL

O anúncio do congelamento de verbas se dá depois do corte de R$ 1,9 bilhão feito pelos vereadores no Orçamento recém-aprovado pela Câmara Municipal -da previsão de R$ 29,4 bilhões para R$ 27,5 bilhões. O objetivo da medida, diz Kassab, é ter “tranqüilidade para enfrentar uma eventual redução de receitas que ainda não identificamos qual será”.
Na prática, significa que a contratação de novos projetos e de novas despesas deverá ficar bastante limitada. O congelamento poderá ser flexibilizado no decorrer do ano -para evitar que vire um corte definitivo- se a arrecadação não for muito afetada pela crise.
Em entrevista concedida à Folha ontem, Kassab disse que, mesmo a prefeitura sabendo dos pontos crônicos de alagamento de vias públicas na época de chuva, “seria uma leviandade” dizer que fará obras para resolvê-los dentro de quatro anos. Para ele, a prioridade deve ser as áreas de risco onde vivem “famílias que podem morrer se forem atingidas”.
Leia trechos da entrevista:

FOLHA – Qual será a principal mudança no segundo mandato?
GILBERTO KASSAB
- O que a cidade pode esperar é a continuidade da melhora da eficiência do uso do recurso público.

FOLHA – O Cidade Limpa foi no primeiro mandato uma das marcas principais da administração…
KASSAB
- Não. O principal foi saúde e educação. De longe, essa é a nossa marca.

FOLHA – Mas na campanha de 2004 uma das promessas era zerar o déficit de creches…
KASSAB
- E vamos, nessa nossa gestão, que é de oito anos, zerar. Criamos 60 mil vagas em creche. É um número extraordinário. O compromisso assumido está sendo cumprido.

FOLHA – Por que não foi possível cumprir em quatro anos?
KASSAB
- Não é que não foi possível. É lamentável o descaso das administrações anteriores.

FOLHA – Por que alguns secretários mais próximos do governador José Serra (PSDB), como Andrea Matarazzo (Subprefeituras) e Manuelito Pereira Magalhães (Planejamento), estão perdendo poder agora?
KASSAB
- Eles são também muito próximos a mim. Por que estariam [perdendo poder]? Não houve alteração, todos continuam motivados.

FOLHA – O novo mandato vai ter mais a cara do sr.?
KASSAB
- Vai continuar com a mesma cara. Se tinha a minha cara antes, vai continuar. Se não tinha, vai continuar. Não muda nada.

FOLHA – A cidade já começa a sofrer mais uma vez com as enchentes. A própria prefeitura sabe de 30 pontos crônicos de alagamento há mais de dois anos e, mesmo assim, eles voltam a alagar. A gestão se preparou?
KASSAB
- Sim, principalmente em relação às áreas de risco. Quando se fala em enchentes, antes de mais nada tem que pensar em proteger as pessoas que correm risco de vida. Os paulistanos vão entender que essa é a prioridade.
Quanto aos pontos sujeitos a alagamento, estamos atuando em várias frentes, construindo com o Estado o piscinão do Pirajuçara, encerrando as obras do Aricanduva, canalização, limpeza de bueiros, como nunca teve na cidade de São Paulo. E também obras de dimensão pequena ou média que contribuem para que a gente não tenha outros pontos de alagamento. Administrar é estabelecer prioridades. Não há cidade do porte de São Paulo, com seus problemas e seu Orçamento, que consiga resolver todos os problemas em quatro anos.

FOLHA – O CGE (Centro de Gerenciamento de Emergência) listou há dois anos 30 pontos que eram considerados mais sérios, que costumavam alagar com mais freqüência…
KASSAB
- Ele apresentou 30 que estavam em observação, mas havia outros. Senão fica parecendo que, quando assumimos, só havia os 30 pontos e que não fizemos nada nesses 30.

FOLHA – Os pontos de alagamento são de conhecimento do poder público. Daqui a quatro anos terão sido realizadas obras em todos?
KASSAB
- Seria uma leviandade. Sempre digo que na vida pública se trabalha com metas, não com prazos. A meta é avançar o máximo possível.

FOLHA – Algum dia São Paulo vai se livrar dos terríveis alagamentos?
KASSAB
- Tenho certeza. Basta continuar tendo administrações como a nossa. E sempre preocupado em primeiro lugar com as áreas de risco, que envolvem famílias que podem morrer se forem atingidas.

FOLHA – O mapeamento das áreas de risco está cinco anos desatualizado. Por quê?
KASSAB
- Tem vários mapeamentos na cidade, da Secretaria da Habitação, Polícia Militar,Defesa Civil. Não tem nenhum sentido fazer um mapeamento todos os anos de todas as áreas.

FOLHA – Que impacto a crise econômica pode ter nas promessas de campanha do sr. e nas demais atividades da prefeitura?
KASSAB
- A crise existe, adquiriu uma dimensão grande. Hoje é globalizada. Temos uma preocupação grande. Vamos procurar, através de criatividade, criar novas fontes de receita, como analisar a criação de novas operações urbanas, a concessão de serviços. Mas é evidente que a crise afeta. As receitas serão reduzidas. O próprio governo federal já informou que suas receitas estão diminuindo. O governo do Estado também já nos transmitiu que está reduzindo suas receitas. E a prefeitura tem seu Orçamento baseado também no repasse de receitas de verbas do governo federal e estadual. Nossas receitas [de impostos municipais] ainda não diminuíram. Serviços são sempre osúltimos da fila a terem queda. Mas vamos ter com certeza e estamos trabalhando com essa expectativa.

FOLHA – Se não for possível conseguir novas receitas, que medida…
KASSAB
- Já determinei ao secretário de Planejamento para que, no início do ano, congele recursos. Vamos ter um congelamento do Orçamento. Ainda não foi definida a extensão. Depois vamos definir as áreas que terão cortes. Mas com certeza não serão na área social.

FOLHA – A dimensão só será definida nos próximos dias?
KASSAB
- Exatamente. Mas será bastante amplo. É mais do que correto que seja assim para nos dar tranqüilidade para enfrentar uma eventual redução de receitas que ainda não identificamos qual será.

FOLHA – Algumas obras terão um ritmo menor no começo de 2009?
KASSAB
- Seria prematuro fazer uma afirmação antes de definir o contingenciamento.

FOLHA – O Serra, em 2004, criticava o inchaço da prefeitura. O sr. criou novos cargos e secretarias, como a da Segurança. Não é uma contradição numa situação de crise?
KASSAB
- Não. Em relação à Secretaria da Segurança, ela adquiriu uma dimensão muito maior. São cargos que foram ou teriam sido criados independentemente de ser secretaria ou não. Ao longo dos quatro anos tivemos vários cortes e vamos continuar a ter, porque nossa meta é enxugar. Mas diminuir não significa não ter preocupação em dar mais eficiência. Não criamos novas secretarias, só transformamos o cargo do coordenador em cargode secretário. Não posso concordar com a afirmação de que foi criada uma nova estrutura.

FOLHA – A crise econômica não põe em xeque a promessa de campanha de manter a tarifa de ônibus de R$ 2,30 congelada no ano que vem?
KASSAB
- Não. É nossa prioridade. Tarifa é social. Ainda mais num momento em que há expectativa de aumento do desemprego.

FOLHA – O reajuste em 2010 será inevitável?
KASSAB
- Não é que é inevitável. É natural. Temos a felicidade de ficar três anos sem aumentar a tarifa. Vamos dar um aumento mínimo possível.

FOLHA – Que áreas prejudicariam menos a cidade se sofressem cortes?
KASSAB
- Tem áreas que já foram apartadas de qualquer corte que são as sociais. Agora vamos aguardar se haverá queda nas receitas, se conseguiremos ou não novas fontes de receitas, para depois definir eventuais cortes. Até porque o Orçamento estará contingenciado desde o primeiro dia da gestão.

FOLHA – Pesquisa recente mostrou que a aprovação aos ônibus é a mais baixa da década. Qual é a razão?
KASSAB
- É importante apartar da pesquisa o nosso corredor Expresso Tiradentes, onde 90% aprovam e estão felizes [pelos dados divulgados, foram 76% de excelente ou bom]. Mostra que a prioridade da minha administração de fazer transporte público de qualidade está correta. Herdamos políticas equivocadas em transporte. A população hoje paga o preço dessa falta de investimento.

FOLHA – A aprovação aos ônibus era maior. Por que piorou?
KASSAB
- O importante é que melhorou a qualidade dos investimentos.

FOLHA – Mas então os usuários de ônibus não perceberam?
KASSAB
- É natural que, numa cidade que cada vez cresce mais e que não tivemos investimento em transporte público nas administrações anteriores, enquanto não tivermos os resultados dos investimentos que agora acontecem você não tem essa expectativa.

FOLHA – A cidade ganha mil carros por dia. O trânsito vai estar pior do que hoje no final do seu mandato?
KASSAB
- Daqui a quatro anos vamos ter os primeiros resultados da ação do poder público municipal e estadual, a ampliação da malha metroviária, dosnossos corredores de ônibus. Acredito que estará melhor.

FOLHA – O sr. pode sair candidato ao governo estadual em 2010?
KASSAB
- Não. É o primeiro cargo majoritário que ocupo tendo sido eleito. Ficarei os quatro anos.

FOLHA – Quem são os bons nomes para o governo em 2010?
KASSAB
- Em São Paulo nós temos uma aliança. Meu esforço é para manter essa aliança já no primeiro turno. Meu partido tem bons quadros. Destaco entre eles o Guilherme Afif Domingos. Mas essa aliança vai ser conduzida pelo Serra.

FOLHA – O sr. apoiaria o Alckmin?
KASSAB
- Não gostaria de falar de nomes. É muito prematuro.

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11 COMENTÁRIOS PARA "O congelamento de Gilberto Kassab":

Comentado por Sylvia Manzano em 27/12/2008 - 12:46h:

Diz velho ditado, que quem fala o que quer, ouve o que não quer.
Não no caso do Kassab, né?
Fala absurdos da gestão anterior e fica por isso mesmo.
Justo a gestão anterior, que fez o bilhete único e só por isso, apenas por isso, a Marta deveria ter sido reeleita já no primeiro turno.
O resto, todo o resto que a Marta fez, estruturou de tal forma a cidade, que até hoje, Kassab é que recebe os louros, depois de 4 anos de nada ou pouco fazer.

Comentado por Maria em 27/12/2008 - 13:39h:

São Paulo merece. Bem Feito!!!

Comentado por rafael j em 27/12/2008 - 13:42h:

Boa entrevista. A Folha ter abordado as enchentes e os cortes no orçamento ao invés da dieta do prefeito ja é um avanço notável.

Mas enfim, o Kassab foi o Kassab, já conhecemos a figura. Sobre o déficit de creches na cidade, ele diz, ”Não é que não foi possível. É lamentável o descaso das administrações anteriores”

Será que ai ele inclue a administração Maluf que ele deu suporte e em sabatina na Folha ele diz considerar ter sido um bom prefeito? E a administração Pitta da qual ele fez parte? Siguinifica os 4 mandatos consecutivos do PSDB no governo do estado? Ou ”administraçoes anteriores” siguinifica o único mandato da Marta que obteve maiores avanços com menor orçamento?

A respeito das enchentes surpresa! Ele declara, ”Não há cidade do porte de São Paulo, com seus problemas e seu Orçamento, que consiga resolver todos os problemas em quatro anos.”

Ta aí uma verdade. Infelizmente José Serra, uma dentista barraqueira, e o grosso da mídia pulistana não tiveram essa percepção ao final do governo Marta.

O tempo ensina muita coisa, nem sempre corrige.

Comentado por rafael j em 27/12/2008 - 13:49h:

”O principal foi saúde e educação. De longe, essa é a nossa marca.”

”É lamentável o descaso das administrações anteriores.”

”antes de mais nada tem que pensar em proteger as pessoas que correm risco de vida”

”Administrar é estabelecer prioridades”

”Seria prematuro fazer uma afirmação ”

”há expectativa de aumento do desemprego.”

”Daqui a quatro anos vamos ter os primeiros resultados ”

é ou não é um tucaninho com número de série e tudo?

Comentado por José Rocha em 27/12/2008 - 13:53h:

Também fiquei indignado quando li a entrevista. Será que a Folha a analisará em editorial? As vozes responsáveis desta cidade deveriam se levantar cobrando do prefeito soluções reais para os nossos problemas, a começar das enchentes, transporte,creches etc, etc.

Comentado por EDY AQUINO em 28/12/2008 - 00:12h:

QUE BELO PREFEITO E ESSE QUE SAO PAULO ARRUMOU,VCS JA REPARARAM QUE A LENGA LENGA DELE E SEMPRE A MESMA , E UM MESTRE EM MANIPULAÇAO IGUAL AO LIXO DO JORNAL QUE O ENTREVISTOU . TANA HORA DE LANÇAR O BONEQUINHO KASSABINHO PARA O CARNAVAL DE RECIFE , LA E UM OTIMO LUGAR PRA ELE BRINCAR O CARNAVAL NAO ACHAM???

Comentado por antonio barbosa filho em 28/12/2008 - 07:15h:

Sob qualquer aspecto, é uma administração medíocre, que nem sinaliza soluções para a metrópole que cresce descontroladamente. Até nas finanças, que o Kassab dizia ter fortalecido, durante a campanha recente, a situação é crítica. E não é devido a uma queda de erracadação que ainda não aconteceu, mas a má gestão mesmo.
Agora é tarde, vamos aguentar mais quatro anos de um descaso que já vem do mandato interrompido de Serra.

Comentado por Guilherme Freitas em 28/12/2008 - 21:38h:

Ah, em 2010, quando o trânsito estiver totalmente parado, e os prejuízos na casa dos bilhões, e a qualidade do ensino continuar péssima, e a revolta das periferias aumentar, e quando as pessoas perceberem que não recebem remédio em casa coisa nenhuma e que a as consultas ainda tem fila de espera de meses, então talvez São Paulo decida dar um passo à frente. Até lá, é aguentar isso aí.

Comentado por Guilherme Freitas em 28/12/2008 - 21:39h:

2012, quero dizer.

Comentado por RUI EDU DE ALMEIDA BITTAR em 09/02/2009 - 12:46h:

FOI PROMESSA DE CAMPANHA O NAO AUMENTO DE TARIFAS DE ONIBUS EM 2009,NO ENTANTO HOJE DIA 09/02/09 TERCEIRA QUINZENA DO ANO,VEIO O AUMETO….ISSO É ESTELIONATO ELEITORAL….171

Comentado por Jeca Tatu em 27/02/2009 - 20:15h:

Bem, como é isso de melhorou a educação?
Recebo um monte de alunos da prefeitura que nem professor tiveram. Isso é que é melhorar a educação?
Como dizia o Mazaropi, “sartei de banda”.

 

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