Encarcerado no PMDB
Maria Cristina Fernandes – VALOR
Só há dois tipos de políticos: aqueles que levantam grana para fazer política e os que fazem política para levantar grana. O senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) tem militado ao longo de seus 40 anos de vida pública na primeira categoria. Nesta militância tem companheiros egressos de quase todos os partidos. É compreensível que se sintam minoritários face ao portentoso exército que cerra fileiras do outro lado. Mas não é esta militância, de um lado ou do outro, que pavimenta a chegada ao poder. É a política. E não são visíveis hoje os rumos da oposição neste campo. É este o resumo da entrevista do senador à ‘Veja’.
Não é a primeira vez que Jarbas se rebela contra seu partido ou contra o poder. O que impressiona é como a oposição à qual hoje se filia tenha sido capaz de encarcerar um espírito como o seu nos limites das páginas de uma revista.
O senador pernambucano resistiu ao golpe militar abrindo diretórios do MDB pelo interior de seu Estado; rebelou-se contra a eleição indireta, ausentando-se do colégio eleitoral que escolheu Tancredo Neves; e segurou, como presidente do partido, a campanha de Ulysses Guimarães, quando a maioria de seus correligionários pulava para o barco de Fernando Collor de Mello.
Fez política nadando contra a maré dentro do PMDB, mas não se furtou a deixá-lo quando viu sua carreira ser ameaçada pela burocracia do partido que, em 1985, montou uma convenção municipal para derrotar suas pretensões de se candidatar a prefeito do Recife.
Jarbas saiu do PMDB e foi para o PSB, quando montou a chamada “Frente Popular do Recife”, reunindo PT e PCdoB, além do então deputado federal Miguel Arraes, com quem depois romperia. Elegeu-se prefeito do Recife derrotando um obscuro deputado lançado por seu partido. Passadas as eleições, Jarbas voltou para o PMDB e foi, paulatinamente, reconquistando a legenda.
A eleição que salvou a carreira política do então deputado federal, tendo sido determinante para a história do Estado naquele momento de retomada do poder pelos civis, só foi possível graças a uma infidelidade partidária.
Hoje a história não se repetiria face à decisão dos tribunais superiores de que o mandato é dos partidos, saudada como indício de moralização dos costumes políticos. Foi uma decisão ansiosamente aguardada pelos partidos de oposição, que nela viram a salvaguarda para a defecção de seus correligionários rumo ao curral governista. E teve entusiasmado apoio do próprio Jarbas.
Ainda é cedo para se concluir que o PMDB vai compor chapa com a ministra Dilma Rousseff, mas, para ser substantivo, um movimento pró-Serra no partido hoje teria que partir de posições que internamente detenham poder, como o presidente da Câmara, Michel Temer (SP).
Se a cacicada do PMDB, com os redobrados poderes da fidelidade partidária, limita seus movimentos na política nacional, o senador também enfrenta problemas no plano regional.
Ao contrário do senador Pedro Simon (PMDB-RS), que atira para o céu e preserva pontes na terra face a interesses do governo de sua aliada Yeda Crusius (PSDB), Jarbas hoje tem mitigadas chances de ver seu grupo retomar o poder em Pernambuco.
O governador do Estado, Eduardo Campos (PSB), está na faixa dos 80% de aprovação e conta com o apoio da quase totalidade dos 49 deputados da Assembleia Legislativa. Na última vez que foi ao Recife, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva avalizou publicamente sua candidatura à reeleição.
No início do primeiro governo Lula, quando o ex-ministro José Dirceu (PT) tentou fechar uma aliança com o PMDB que só viria a se concretizar anos mais tarde, o então governador Jarbas Vasconcelos foi a ponta de lança dessa aproximação, respaldada pela simpatia do presidente que nunca esqueceu da visita que o então emedebista lhe fez na prisão.
Dirceu chegou a almoçar no Palácio do Campo das Princesas com Jarbas. Comunicou ao então deputado Eduardo Campos que, em 2006, o lulismo juntaria o então governador e o prefeito do Recife à época, João Paulo (PT), numa única chapa como candidatos, respectivamente, ao Senado e ao governo do Estado.
Veio o mensalão, Dirceu caiu e Jarbas acabou se afastando da esfera petista. Eduardo Campos, que saiu do ministério da Ciência e Tecnologia para reforçar a retaguarda governista na Câmara no auge do mensalão, foi ganhando espaço até que, em 2006, derrotou o candidato jarbista à sua sucessão.
Na entrevista, o senador diz não ter mais pretensão de disputar cargos. Seus correligionários no Estado ficaram em polvorosa, mas não há motivos para desacreditar dele.
Maria Cristina Fernandes é editora de Política. Escreve às sextas-feiras
E-mail mcristina.fernandes@valor.com.br
Tags: , 2010, Dilma, Dirceu, Jarbas Vasconcelos, Lula, PCdoB, Pernambuco, petistas, PMDB, PSB, PSDB, Recife, temer, Veja6 COMENTÁRIOS PARA "Encarcerado no PMDB":
Falo apenas como eleitor e cidadão: nunca é tarde para se tornar um canalha.
Respeito a historia politica pregressa do senhor Jarbas, mas as posiçoes que ele tem defendido de uns tempos para cá, além da imensa hipocrisia dessa “denúncia” no panfleto ideologico da abril, são atos de um canalha.
Alias, o festival de pessoas publicas rasgando a propria bibliografia neste país tem se revelado um espetáculo de horror.
Professor Hariovaldo esta de volta.
Voltou ao ar um dos blogs mais engraçados sobre política, do Professor Hariovaldo, que usa da ironia para ridicularizar os conservadores principalmente o blogueiro Reinaldo Azevedo para quem ”tudo o que é bom para o PT é ruim para o Brasil”.
José Rocha, para desmoralizar mesmo, basta convidar alguem do Governo mesmo.Isso basta, mas o Jarbas não foi desmentido e nem punido pelo que falou, isto posto, é tudo verdade mesmo, não é???
Fernando Vugma, não são apenas pessoas que rasgam a biografia, Partidos que chegaram ao Poder, também já fizeram tudo diferente, mantiveram, o que estáva aí, ou não???
A história politica deste cidadão se confunde com os momentos mais obscuros da politíca nacional como a do norte e nordeste.
É com este perfil e com estas armas que o projeto de desqulificação do governo LULA, eles tentaram usar?
Vão ter que ser melhores e mais criativos para tentar ter um pouco mais de holofote.
Jarbas não disse nada,mesmo porquê para dizer algo é preciso saber pensar.Ele não sabe.Espero que este episódio abra as portas de sua nebulosa vida:(…)
Quem mais a Veja vai chamar para tentar desmoralizar o governo Lula? A Hebe Camargo?