No ponto do ônibus

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Matthew Shirts – O Estado SP

Dá uma satisfação sair de casa a pé pela manhã. Moro numa ruazinha escondida, habitada em boa parte por cachorros, mas próxima do bochincho de Pinheiros e da Vila Madalena. A meio quarteirão do meu portão encontro trânsito. Tudo travado logo cedo.

Atravesso a rua com certa leveza no passo, negociando os espaços entre os automóveis parados. Tenho a sensação de levar vantagem. Sinto-me quase malandro por estar a pé.

Antigamente, quem estava de carro tinha pena dos pedestres. Monteiro Lobato escreve a respeito no Presidente Negro. Hoje, a equação se inverteu, pelo menos em São Paulo. Vou avançando a pé pelo trânsito. Deixo os veículos para trás. No primeiro farol costuma haver brigas e buzinaços. Às vezes faço gestos pedindo uma trégua nas buzinadas enquanto espero a iluminação do homenzinho ficar verde. Os motoristas detestam minha gesticulação, que me confere um ar de maluco, reconheço. Gesticulam de volta solicitando compreensão para o desespero da sua situação. Compreendo. Não é fácil o trânsito.

Busco o ponto de ônibus na Cardeal. Há algum tempo pesquiso a sociologia desse marcador geográfico. De onde vêm os passageiros? Para onde vão? O papel do vendedor de balas, águas e porcarias ali. Meu olhar de estrangeiro é fisgado pela falta de sinalização. Não há placas explicativas no ponto, apenas aquele pau descascado e solitário. Nenhuma instrução por escrito. Como as pessoas sabem qual ônibus tomar?

Desde que voltei a andar de busão, faz um ano ou dois, estou com bronca dos condutores. Eles dirigem sem levar em conta o conforto dos seus passageiros. São apressados. Trocam de marcha com agressividade. Ultrapassam sem necessidade. Há exceções que comprovam a regra. Peguei um, dia desses, com longo rabo-de-cavalo, zen, calmo, na linha Butantã-USP, claro. Foi uma delícia. Deu para ler meu livro tranquilamente.

Mas por outro lado, mesmo os motoristas broncos revelam paciência surpreendente para fornecer informações de itinerários. Aí está o segredo, pensei um dia desses. É assim que os passageiros se informam. Ficam parados ali na porta da frente do veículo, três ou quatro pessoas trocando ideias com o condutor. Quanto mais vivo no Brasil, mais me chama a atenção a oralidade da cultura. É na conversa e no contato pessoal que se aprende e se vive.

Nisso, o Brasil é diferente dos Estados Unidos, quase uma imagem invertida (para variar). Lá, os motoristas de ônibus dirigem mais tranquilos, auxiliados, é verdade, por asfalto liso, câmbios automáticos e equipamentos mais novos. Mas eles têm pouca paciência para explicar trajetos. Nesse quesito, seus colegas brasileiros são mais prestativos.

Ensina Sérgio Buarque de Holanda, em seu insuperável Raízes do Brasil: “Já se disse, numa expressão feliz, que a contribuição brasileira para a civilização será de cordialidade – daremos ao mundo o ‘homem cordial’. A lhaneza no trato, a hospitalidade, a generosidade, virtudes tão gabadas por estrangeiros que nos visitam, representam, com efeito, um traço definido do caráter brasileiro, na medida, ao menos, em que permanece ativa e fecunda a influência ancestral dos padrões de convívio humano, informados no meio rural e patriarcal.”

Minha tese é a de que tal cordialidade é apagada pela impessoalidade do trânsito. Daí a agressividade dos condutores. Entre veículos não há lhaneza no trato, para repetir a ótima expressão de Sérgio Buarque. Descobri, aliás, ao procurar a palavra no dicionário, que “lhaneza” é de origem tibetana. Lhano, pelo que entendo, é sinônimo de afável. Poderia render uma campanha publicitária: “Lhaneza no trânsito.

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5 COMENTÁRIOS PARA "No ponto do ônibus":

Comentado por alex em 16/03/2009 - 18:53h:

“Lá, os motoristas de ônibus dirigem mais tranquilos, auxiliados, é verdade, por asfalto liso, câmbios automáticos e equipamentos mais novos”

Aqui Shirts vem governo saí governo (prefeitos e governadores) e niunguém resolve o problema do Tranporte Urbano. Os corredores continuam uma verdadeira “merda”. Ondulados, esburacados. Eles, os governos, Shirts, não andam de ônibus. Só de carrão preto blindado, com ar condicionado. Se o Serra ou alguyém de sua família, o Kassab ou alguém de sua família andassem de “buzú” a coisa seria diferente. Mandariam concretar todos os corredores desta cidade e exigiriam: de agora em diante só ônibus novos, com ar, e num concreto lisinho.
Mas vai demorar Shirts. Políticos aqui neste país não andam de “buzú” e nem querem experimentar essa coisa de Pobre. Portanto, se o povão chacoalha que nem gado nos buzú da vida, “problema é deles”

Comentado por alex em 16/03/2009 - 18:56h:

KASSAB… SERRA…
SE DISFARCEM E PEGUEM UM “BUZÚ” PARA VER A MERDA QUE É. QUE TAL VCS CHACOALHAREM O BARRIGÃO NUM “BUZÚ” QUE PULA. SERRA, KASSAB PQ VCS NÃO FAZEM O TESTE?

E PQ BUZÚ É COISA DE POBRE NÉ?

ENTENDO… SHIRTS, PELO JEITO, O ASFALTO LISINHO SÓ NA OUTRA ENCARNAÇÃO.

HI, MAS NA OUTRA ENCARNAÇÃO KASSAB E SERRA NÃO SERÃO POLÍTICOS.

CARAMBA O QUE SERÁ QUE ESTARÁ RESERVADO PARA OS DOIS HEIN!

Comentado por alex em 16/03/2009 - 19:00h:

AHAHAHAHA
QUÁQUÁQUÁ

AÍ Ó SHIRTS, NO POST ABAIXO, TÁ LÁ O KASSAB CORTANDO A VERBA DO TRANSPORTE LÁ DE CIMA, DE UM HELICÓPTERO…

KASSAB: VC ACREDITA EM REENCARNAÇÃO? NÃO?AINDA BEM…

Comentado por José Marcos em 29/03/2009 - 16:31h:

Caros colegas!somos enganados a todo momento,porque infelizmente,o analfabetismo funcional está crescendo assustadoramente no Brasil.E uma das estratégias dos políticos,é deixar o povo na ignorância,pois é fácil manipular um povo cordial…traduzindo;sem conhecimento.

Comentado por José Marcos em 29/03/2009 - 16:33h:

somos enganados a todos os momentos…não é mesmo!..

 

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