O “cadavre exquis” adiado; sugestão do “déjeuner exquis”
Blog Sai-te daqui – LdS
Para a deslocação ao Alto-Douro eu tinha preparado uma proposta de “cadavre exquis”, construção favorita dos surrealistas que alguns teimam em traduzir por “cadaver esquisito” mas a que eu preferiria chamar “cadáver requintado” [1]. O nome é tétrico, convenhamos, para um processo de grupo [1a] que de facto se mostra requintado e criativo e de que seriam de esperar resultados surpreendentemente ricos num grupo de 33 pessoas dos mais variados trajectos, como era o nosso. Mas nem o fiz sair da casca, ou seja, por me parecer não existir “mercado”, nem fiz consulta do “querem ou não querem”, nem distribuí sequer a proposta. A primeira razão foram os dois “derbies” futeboleiros, ontem e hoje – geradores de intranquilidade em dragões (estes com razão), panteras, águias e leões (estes dois também, aliviando a escamação dos preocupados anteriores). Outro compreensível causa foi a magnificência esmagadora da paisagem no ir-Rio-Douro-acima, da Régua a Barca de Alva, que implica uma admiração intensa – ainda que entrecortada de almoço – e que não deixa tempo para outros devaneios.
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Amanhã teremos o regresso e certamente o “Maria, donde vens? Venho da festa!” tão diferente do “Maria, para onde vais? Vou para a festa!”, pelo que melhor será arrecadar o texto i.e. “meter a viola no saco”, reservando-a para mais oportunas vivências de grupo.
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Mas como seria pena perder o trabalho feito, a ideia aí vai, as regras também (e até oferecendo duas modalidades mais) e, para terminar, a descrição de uma alternativa criativa, aliás já experimentada.
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O princípio: O princípio do “cadáver requintado” baseia-se na continuação estritamente pessoal de um trajecto colectivo em que cada um dos participantes, ignorando o exercício feito pelos intervenientes anteriores, recebe do que imediatamente o antecede apenas os elementos de ligação de entrada para poder construir em segredo o seu próprio exercício e, findo este, só entrega ao participante que se lhe segue os elementos de ligação de saída que resultam do seu próprio exercício. E assim sucessivamente… até que, no fim [2], se apresenta publicamente e com grande gáudio dos intervenientes o resultado global!Nada mais simples: poderão existir “cadavres exquis” em desenhos, em palavras e até em música! Dá-se seguidamente o exemplo de um “cadavre exquis” gráfico, obtido por colagem em 1928 e onde se encontram contributos atribuídos a André Breton, Max Morise, Pierre Naville, Benjamin Péret, Jacques Prévert e Jeannette e Yves Tanguy.
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As regras do caso concreto que eu pretendia levar ao grupo: Trata-se da construção de um “cadáver requintado” por palavras (ou conceitos) com o maior grau de liberdade. Alternativas mais e menos livres são dadas nas notas finais [3 & 5] , mas talvez não seja mau de todo – para grupos não iniciados – começar pela que se segue que é de carácter mediano.
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Trata-se de cada um escrever anonima e secretamente uma frase motivada por uma palavra que o parceiro transmite sem conhecer as frases anteriores e prosseguir assim até ao último do grupo. O conjunto no fim é lido em voz alta e todos escutam! [4] .
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COMO FAZER:
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1. O parceiro do lado passa-te um papel enrolado ou dobrado onde estão as frases deixadas pelos parceiros anteriores (NÃO AS PODES LER!) e diz-se EM SEGREDO a PALAVRA que é a última da frase que ele escreveu (e que tu. é claro, NÃO LÊS!).
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2.Fixando-te nessa palavra que recebes, passas a inventar uma FRASE que essa palavra de ligação te inspire. Não é necessário que nessa frase repitas a palavra [5] mas a tua frase deve POR QUALQUER FORMA inspirar-se nela: p.ex. se o teu parceiro te disse SAPATO, na tua frase a palavra SAPATO pode estar ou não presente [5] mas deve exprimir o que SAPATO te trouxe à ideia, seja FERRADURA, CHINELA, PÉ, PATO ou qualquer outra coisa que em forma de associação ou mesmo de oposição te brote expontaneamente dos neurónios em relação ao que te disseram. Gramaticamente a frase também é livre, bem como em extensão (embora não seja aceitável escrever longos testamentos pois que no máximo um alexandrino chega) [5a]. Entendido?
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3.Escreves então a tua frase em segredo e em segredo a deixas até à leitura final, enrolas ou dobras o papel para que ninguém ta leia e passas ao teu vizinho a seguir a quem anuncias também em segredo qual foi a última palavra da tua frase. 4. Ele fará o mesmo e assim sucessivamente até se completar a volta (ou as voltas) e todos escreverem frases. Segue-se a leitura! O resultado final é frequentemente hilariante e, por vezes, surpreendente. Esperemos que sim, também neste caso!”.
Uma versão muito cómica e embaraçadora deste processo criativo, noutros cenários, é o “déjeuner exquis” “almoço estranho” (aí já não lhe chamarei requintado pois esta acepção, num almoço, liga-se mais à qualidade das coisas como se anuncia no programa do que amanhã nos espera e já nos faz salivar!). Há que também avisar o local onde se realiza para não serem os convivas escorraçados por doidos varridos à medida que o processo se desenvolve. Para um almoço com aperitivo, sopa, dois pratos (carne e peixe, mesmo que já se não use!), sobremesa (doce e fruta) e café faz-se assim: cada conviva, em “papelinhos” A7 de papel de uma côr que escolhe (e a que chamaremos os “votos”) escreve exactamente as palavras “aperitivo”, “sopa”, “carne”, “peixe”, “doce”, “fruta” e “café” [6] e enrola os papelinhos cuidadosamente, por forma a que se não veja o escrito, e coloca-os num vaso aberto que permita visualizar a cor. Mistura-se tudo bem. Para iniciar o almoço, faz-se a primeira tiragem de votos e cada um come o que lhe sair: A pode iniciar com a sopa, B com a fruta, C com o café, etc. etc. Segue-se a segunda votação e assim sucessivamente até ao fim do almoço.
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Se num grupo de amigos o jogo já é pândego, em “tête à tête” amoroso ou quase e em simulacro de “cabinet particulier” (coisa que também já não existe, mas que teve a sua época!) o processo, mesmo que se mantendo prandial, pode permitir outros toques de criatividade, claro.
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[1] O assunto merece ser tratado seriamente! Veja-se
[1a] A designação de “jogo surrealista” ou de “um dos jogos dos surrealistas” (porque há mais) é relativamente comum; já a designação de “jogo de salão” levará qualquer surrealista a torcer o nariz.
[2] Este aviso prévio é útil para evitar que qualquer dos participantes possa enveredar por contribuições javardas em ambientes em que esse “grau de liberdade” (que certamente muitos surrealistas genuinos reclamariam) possa parecer deslocado. É uma cedência aos costumes, uma restrição à liberdade do processo, mas é prudente o aviso!
[4] Um bom “cadavre exquis” começa a ser obtido à volta de 10-15 pessoas. Pode fazer-se com menos (ver nota [5a]) e pode obter-se o número desejado de frases, ou “versos” dando várias voltas à mesa. Aqui, também, é uma questão de escolha.
[5] Uma modalidade mais rígida obriga o parceiro a voltar a usar a palavra que lhe é transmitida embora a palavra que passa ao seguinte possa já ser diferente. Há, de facto, multiplas variantes – mas as regras devem sempre ser combinadas antes para não dar “salada”.
[5a] Pode também acordar-se que cada frase tenha a extensão silábica de um dado verso, criando homogeneidade métrica na composição. A fonte de referência mencionada em [1a] descreve da seguinte forma o processo de génese do primeiro “cadavre exquis” histórico: “Cinco parceiros à volta de uma mesa. Cada um escreve, em segredo e até dissimulando a escrita, um substantivo que deverá ser o sujeito de uma frase. Passa-se essa folha dobrada ao vizinho da direita e recebe-se a folha dobrada do vizinho da esquerda, que a elaborou da mesma forma. Passa-se então ao adjectivo: cada um, na folha que tem à sua frente e sem saber o substantivo que lá está, escreve um adjectivo à sua inteira vontade. Tudo em segredo, claro. Nova passagem de folha dobrada, entre parceiros. Vem então o verbo, que deverá ser transitivo, para que, após nova passagem, se escreva outro substantivo (o complemento directo do meu tempo…) e, após a passagem final, o adjectivo que qualificará esse substantivo. Segue-se a leitura das cinco frases obtidas!“.
[6] Claro que se pode também usar em refeições mais aligeiradas. P.ex. fazer este jogo num “MacDonalds” oferece uma sequência incrivelmente restrita. Mas tudo é possível!
[7] Para quem esperava a homónima obra de Manet (ou de Picasso apud Manet), bastante mais picante (o que tem algum valor na altura em que até a pastilha elástica – seguindo o chocolate – adopta o piri-piri) fica para a próxima! Ciao, por agora!
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