Perto do alívio do Citi, o PIB vira fichinha

Daniele Camba – VALOR
O desempenho da economia brasileira ladeira abaixo no último trimestre do ano passado surpreendeu até os mais pessimistas. O Produto Interno Bruto (PIB) caiu 3,6% no quarto trimestre de 2008 na série com ajuste sazonal ante o terceiro trimestre do ano passado. Essa é a maior retração desde 1996, quando o levantamento começou a ser feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Era uma notícia mais do que suficiente para que a bolsa fosse ladeira abaixo. Mas para a felicidade dos investidores, a divulgação ocorreu exatamente no mesmo dia que, em carta enviada a funcionários, o presidente mundial do Citigroup, Vikram Pandit, informou que a instituição teve lucro no primeiro bimestre deste ano. Com uma informação tão alvissareira, de um dos bancos com as piores sequelas da crise de crédito internacional, o PIB brasileiro horrendo virou fichinha.
A Bovespa ignorou terminantemente a notícia local e, junto com as principais bolsas do mundo, subiu de forma acentuada. O Índice Bovespa passou o dia com alta significativa e fechou com valorização 5,59%, aos 38.794 pontos. Para se ter ideia de como o bom humor foi generalizado, dos 66 papéis que fazem parte do índice, apenas três caíram: as preferenciais (PN, sem direito a voto) da Gol, TAM e Votorantim Celulose e Papel (VCP). Faz todo sentido o mercado ignorar o desempenho ruim do PIB brasileiro num dia em que o cenário externo parece um pouco melhor. Essa crise é internacional e, à medida que ela se dissipar, aumentam as chances do mundo voltar aos trilhos com cada país refletindo seus próprios fundamentos. E nesse quesito, o Brasil vai bem, obrigada. Até o quadro internacional ficar feio, o PIB vinha crescendo de forma consistente e a estabilidade econômica se mostrava cada vez mais consolidada.
Em vez de o mercado olhar a retração do PIB como um copo meio vazio, resolveu olhá-lo como meio cheio. Com uma queda da economia nesta magnitude, cresceram as apostas de que o Comitê de Política Monetária (Copom) pode cortar em até dois pontos percentuais a taxa básica Selic na reunião de hoje
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“Até o começo da semana, os mais otimistas acreditavam numa redução de um ponto e meio de uma vez só, hoje (ontem) esses mesmos profissionais já defendem que o Copom pode, e deve, cortar dois pontos nesta reunião”, diz o gerente para pessoa física da Corretora Gradual, Evandro Soeiro Campos. Ele acredita que, com a alta de ontem, uma boa parte dessa expectativa de um corte mais generoso da Selic já está embutida nos preços das ações. No entanto, se isso de fato se consumar hoje, é possível que a Bovespa continue surfando na onda de valorização, pelo menos pelos próximos dias. Vale lembrar que todas essas possibilidades dependem do cenário externo, que continua sendo a variável mais importante. E o pregão de ontem é a maior prova disso. “Se as notícias internacionais voltarem a ser negativas, todas essas hipóteses vão por água abaixo e a bolsa retoma a toada de queda”, alerta o gerente da Gradual.
Em condições normais de temperatura e pressão, quedas de juros sempre favorecem a bolsa, tanto pelo lado da economia quanto pelo fluxo de investidores. Pelo lado da economia porque, entre outros motivos, as empresas passam a ter crédito mais barato e a roda da economia volta a funcionar melhor. Já pelo aspecto financeiro, ganhando menos na renda fixa, os investidores levam seus recursos para a renda variável. O volume financeiro da bolsa ontem, de R$ 4,5 bilhões, pode ser um sinal interessante de uma queda gradual de aversão ao risco. Nos últimos meses, com a deterioração da crise, o giro diário da bolsa tem oscilado entre R$ 3 bilhões e R$ 3,5 bilhões.
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