Seja feliz, menina!, por Miriam Leitão

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Miriam Leitão – Blog do Globo

Anoitece no dia da Mulher e este silêncio do blog não é falta do que dizer. É tristeza. O caso da menina de Recife foi devastador. Não, ninguém ignora quantas meninas são vitimas da violência em suas próprias casas. Os algozes são os pais, padrastos, pessoas que deveriam estar ensinando e protegendo. Os números são muitos, os casos que aparecem na imprensa são frequentes. Mas a menina de Pernambuco doeu mais.

Talvez por ter apenas nove anos, por estar sendo estuprada desde os seis, ou porque a chantagem do padrasto era que mataria a mãe. Ou talvez porque ela é bem pequena, menor do que deveria ser para a sua idade. A menina passou anos vendo a irmã também abusada. Só a mãe das duas nada via. O que acontece que cega as mães?

A menina de Recife lembra o quanto a luta da mulher será longa. Recentemente a Sharia, um código tribal brutalmente contra a mulher, foi restabelecida em todo o Paquistão. Acaba qualquer chance de que não aconteçam casos como a da escritora do livro Desonrada, Mukhtar Mai, que foi condenada a ser estuprada publicamente porque seu irmão de 12 anos teria olhado para uma mulher de casta “superior”. O suplicio de Mukhtar, com estupro público e múltiplo, só não foi mais intenso que sua força de superação. A história dessa paquistanesa choca e emociona, mas a notícia de que a Sharia, que tinha começado a ser suprimida no Paquistão, volta a ser usada em todo o país é um choque. Penso em Mukhtar naquela pequena aldeia onde ela decidiu morar e resistir com uma escola para meninas e meninos.

Normalmente eu gosto de escrever nos dias oito de março, de quanto avançamos, mostrando estatísticas de conquistas, e de quanto falta avançar, mostrando as diferenças salariais, o pequeno percentual de mulheres no poder em qualquer país, as discriminações, mas aí… veio a menina de Recife.

Ela simplesmente me enfraquece. Que números de avanços levantar para compensar essa violência?

Eu penso nela diariamente desde o dia da notícia. Não pela polêmica da Igreja Católica, porque a Igreja não me espanta. Que ela excomungue o médico, as enfermeiras, a mãe pela decisão de interrupção da gravidez e que nada diga sobre o estuprador, não me surpreende. É apenas bizarro! Medieval.

Eu penso na menina de Recife e nos debates que tenho participado nos últimos anos, sempre em março. Nesses debates sempre discordo das mulheres bem sucedidas que dizem que a luta está ganha, que o feminismo é um movimento ultrapassado, ou outros equívocos assim. Eu, feminista, confesso, minha luta e meu espanto diante da incapacidade de ver o óbvio: que cinco mil anos de opressão não se acabam em poucas décadas, que há muito a fazer, a construir, a vigiar, para que haja algum dia respeito igual. Falta tanto para o dia em que poderemos dizer que o feministro está superado!

Mas hoje, na verdade, eu penso apenas no futuro dela: a menina curará suas feridas? Conseguirá entender e processar a violência de que foi vítima? Vai estudar, ter carreira, filhos? Vai conseguir amar um dia? Escapará das teias da reprodução da pobreza? Vai simplesmente reaprender a brincar, como deve fazer uma menina de nove anos?.

Eu podia dizer que ela desperta em mim uma fúria feminista. E é verdade, mas é uma verdade incompleta. Ela desperta em mim o o sonho de protegê-la de algum modo. De embalá-la docemente e contar uma história cheia de aventuras e graça. De cantar para ela uma cantiga de roda, de brincar de pique esconde em volta da casa. De ir com ela ao cinema e comer pipoca sentada no degrau de uma escadaria. Que tal um sorvete para resfrescar o calorão?

Não sei o que é. Mas por alguma razão eu penso insistemente na menina de Recife neste dia da mulher. Penso com o coração. Eu apenas sonho que suas feridas se cicatrizem um dia.

O discurso feminista, com estatísticas e fatos eloquentes, eu o farei outro dia. Hoje eu apenas quero sonhar que a menina de Recife um dia, apesar de tudo, após tanta violência, será feliz.

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7 COMENTÁRIOS PARA "Seja feliz, menina!, por Miriam Leitão":

Comentado por José Rocha em 09/03/2009 - 15:15h:

Não gosto da Miriam Leitão, mas este texto dela é bom, sensível e aponta a dura realidade: a luta das mulheres pelos seus direitos ainda será longa.

Comentado por Gisélia em 11/03/2009 - 12:31h:

Eu poderia imaginar tudo, menos que um dia a Miriam Leitão me faria chorar copiosamente. Sou tão acostumada a vê-la comentando sobre crise econômica, PIB, bolsa de valores, IPCA… Mas não posso esquecer que quem nos fala tem vida, tem sentimentos, é humana! E fico feliz em saber que não se abstém de demonstrar a sua infelicidade perante acontecimentos como o da MENINA DE RECIFE. Afinal, quantas pessoas se sensibilizam, mas nada fazem… Vivem suas vidas com a naturalidade de sempre, céticas de que é possível melhorar o mundo em que vivemos e que não há mesmo o que fazer para melhorar.

A MENINA DE RECIFE…. Que tristeza nos dá sabermos que, como disse Bertold Brecht “Se fôssemos infinitos tudo mudaria. Como somos finitos muito permanece”. Que Deus a proteja!

Comentado por Gisélia em 11/03/2009 - 12:34h:

Fico impressionada com a quantidade de monstros que habitam o planeta terra fantasiados de seres humanos!

Comentado por ribeiro em 12/03/2009 - 09:33h:

NÃO ME SURPREENDO A jornalista economica miriam leitão escrevendo esse texto da vida real, afinal ela é um ser humano, sensível e MULHER, E QUE MULHER. É MUITO TRISTE , MAIS CONFESSO NAS ALTURAS DOS 60 ANOS DE VIDA E NUMERÓLOGO DE PROFISSÃO, ISSO VEM DE LONGE. NOS MEUS 9 PARA 10 ANOS, 1958/59..FUI MOLESTADO SEXUALMENTE POR UM JOVEM DE 15 NAOS. ME DEIXOU LEMBRANÇAS, SEM MAIORES MALES NA ESTRADA DE MINHA VIDA. ISSO VEM DE LONGE, SÃO DESVIOS DE UMA MENTE DOENTE, OU DOENTIA. É CASO MÉDICO E NÃO CRIMINAL SÓMENTE. RIBEIRO.

Comentado por marilene de azevedo ribeiro em 15/03/2009 - 20:44h:

parabens mIRIN ADORA AS SUAS COLOCAÇÕES É SENSIVEL NO MOMENTO CERTO E FIRME NA HORA DE SER , CONTINUE ASSIM , VOCÊ NOS ORGULHA COMO MULHER . você é amulher que nós da decada de 60 sonhavamos hoje você é anossa realidade´. parabens seja feliz
com cainho
marilene

Comentado por adilia em 22/03/2009 - 14:34h:

Comovente o texto de Miriam! Ela mostrou-se sensível ao sofrimento «do outro», do seu semelhante; em contrapartida o arcebispo apenas se preocupu com a pureza dos princípios e a exigência dos preceitos religiosos. Faz-me lembrar um pouco a parábola do Bom Samaritano.

Comentado por Valéria Geremia em 29/03/2009 - 19:57h:

É um texto lindo. Acabei de ler… E senti arrepios na alma.
O texto diz coisas que precisam ser ditas. Essa menina foi transformada em espetáculo, estatística, até em bode expiatório pela Igreja!(escancarando suas idéias ainda medievais, o que foi muito bem colocado). O que choca mais nessa postura da Igreja, a meu ver, é que é dela que se esperaria a compaixão pelo sofrimento de um inocente (parece que só é permitido escolher UM INOCENTE em cada caso!!!?? A compaixão está em extinção?), ou ainda: o amor por todo e qualquer ser humano, ou ainda: a busca por uma humanização da sociedade. Fica claro para mim que a Igreja Católica não representa mais o amor de Deus, o que deveria ser o seu papel, cada vez mais importante nesse mundo mais e mais desumano em que vivemos…

Muita gente esqueceu que essa menina é um ser humano e… acima de tudo, apenas uma menina. E como ela existem outras/outros. É preciso, a partir dessa leitura, olhar ao nosso redor e lembrar de pagar um sorvete ou apenas sentar ao lado daquelas meninas e meninos que podem estar sofrendo com as agressões dessa sociedade desumana e, pior ainda, daqueles que deveriam estar lhes dando compreensão e carinho…

 

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