Governo Serra vai estimular “dedo-duro” na lei antifumo
Clientes poderão enviar até fotos para denunciar desrespeito à legislação
MÁRCIO PINHO – FOLHA SP
DA REPORTAGEM LOCAL
O governo José Serra (PSDB) incentivará que usuários de bares e restaurantes que presenciarem alguém fumando atuem como “dedos-duros” do estabelecimento a partir de 7 de agosto, quando passa a vigorar a proibição ao fumo em locais públicos e fechados no Estado.
Diversas ferramentas poderão ser usadas na denúncia, como a apresentação de testemunhas e o uso de máquinas fotográficas e até do celular. Fotos e vídeos serão um indicativo para a fiscalização visitar o estabelecimento -por si só, não garantem multa à casa.
As imagens poderão ser mandadas pela internet com um e-mail informando o local que está transgredindo a lei (possivelmente ao site do Procon). Os detalhes estão sendo fechados em uma instrução a ser concluída em breve.
Outra opção de denúncia será uma queixa formal por meio de uma ficha “padrão” na qual o usuário dará os dados do estabelecimento e poderá relatar se presenciou alguém fumando com a anuência do proprietário ou a falta de placas indicando a proibição ao fumo.
De acordo com o secretário de Justiça, Luiz Antonio Marrey, “serão admitidos todos os meios de prova lícitos em direito”. O objetivo do Estado é oferecer um conjunto de ferramentas para que o usuário possa reivindicar um ambiente livre do tabaco da forma que lhe parecer mais conveniente.
“É importante que as pessoas defendam os seus direitos e exijam que ninguém fume em locais fechados”, afirma.
O secretário admite que a possibilidade de enviar e-mails ou fotos estimularão denúncias. Isso porque a outra opção de – o preenchimento da ficha indicando as irregularidades- precisará ser assinada pelo denunciante, o que implicará que ele compareça pessoalmente.
“As reclamações informatizadas darão um indicativo para a fiscalização”, diz Marrey. A multa ao estabelecimento será de R$ 792,50, na primeira notificação. Após seguidas autuações, será fechado por 30 dias.
Os flagrantes prometem causar tanta polêmica quanto a lei. Para Anis Kfouri Junior, presidente da Comissão de Fiscalização da Qualidade do Serviço Público da OAB-SP (Ordem dos Advogados do Brasil), as fotos podem causar confusão.
“Imagine se a pessoa estiver em um local público e não quiser que ninguém mais saiba disso. Não vai gostar de ser fotografada e pode ter sua privacidade invadida”, diz Junior.
Crítico da lei antifumo, o advogado discorda da ideia do governo de que as pessoas ajudem a fiscalizar. “O fiscal da lei teria que ser o próprio Estado. Permitir esse tipo de denúncia gera uma insegurança jurídica grande. Se alguém quiser prejudicar determinado bar manda alguém ir lá fumar e fotografa.”
Na última quinta, a Folha visitou bares da rua Bela Cintra, região central, e encontrou opiniões diversas.
“Vou fotografar onde houver fumante. Fumaça na balada incomoda bastante”, disse a advogada Marisa Sant’Ana. Rose Hono, tradutora e fumante, disse que não gostaria de ser fotografada e que considera essa possibilidade uma hipocrisia. “Se tirarmos foto de lixo jogado na rua, não acontece nada”, diz.
Tirarei fotos da situação da educação, da saúde, da segurança pública, dos transportes públicos, etc. Quem sabe o governo Serra não fecha.