Ler

W. H. Auden

O livro é um espelho: se um asno o contempla,
não se pode esperar que reflita um apóstolo.

C. G. Lichtenberg

Só se lê bem aquilo que é lido com algum propósito pessoal.
Pode ser até com a intenção de adquirir poder.
Pode ser até mesmo com ódio do autor.

Paul Valéry

 

Os interesses do escritor e do leitor jamais são os mesmos e se ocasionalmente chegam a coincidir, trata-se de mero acaso.

No que tange ao desempenho do escritor, a maioria dos leitores adota critérios diferenciados: o leitor pode trair o escritor quanto desejar, mas o escritor não pode jamais, em hipótese alguma, trair o leitor.

Ler é traduzir, pois a experiência de cada pessoa com o texto é exclusiva. Um mau leitor é como um mau tradutor: interpreta literalmente quando deveria parafrasear, e adota a paráfrase quando deveria interpretar literalmente. Para aprendermos a ler de uma forma mais crítica, a erudição, embora bastante útil é menos importante que o instinto; há grandes eruditos que, como tradutores, mostram-se fracos.

Com freqüência enriquecemos com a leitura de um livro percorrendo caminhos diferentes daqueles que o autor previu, mas (uma vez ultrapassada a infância) tal enriquecimento ocorrerá apenas se tomarmos consciência desta discrepância.

Enquanto leitores, a maioria de nós, até certo ponto, é como aqueles moleques que desenham bigodes nos rostos das modelos fotografadas em anúncios.

Um sinal de que um livro tem valor literário é que o mesmo aceita diversas leituras. Em contrapartida, a prova de que a pornografia não tem valor literário é que, se tentarmos uma leitura por um ângulo que não seja o de estímulo sexual, por exemplo, se tentarmos abordar o texto como veículo de liberação psicológica das fantasias sexuais do autor, chegaremos a bocejar de tanto tédio.

Embora uma obra literária permita leituras diversas, o número de tais leituras é finito e pode ser organizado em ordem hierárquica; algumas leituras são obviamente mais “verdadeiras” que outras; algumas, duvidosas; algumas certamente falsas; e outras, como quem lê um romance de trás para frente, absurdas. É justamente por isso que, para uma ilha deserta, devemos levar um bom dicionário, em lugar da maior obra-prima literária que se possa imaginar, pois em relação ao leitor, o dicionário é totalmente passivo e pode legitimamente ser objeto de um número infinito de leituras possíveis.

Não podemos ler um escritor principiante da mesma forma que lemos o último livro de um autor já consagrado. Com relação a um escritor principiante, nossa tendência é perceber apenas as qualidades ou os defeitos e, mesmo que possamos enxergar a ambos, somos incapazes de perceber as devidas inter-relações. No caso de um autor consagrado, se é que ainda conseguimos ler sua obra, sabemos que não é possível apreciar as qualidades que nele admiramos sem tolerar-lhe os defeitos deploráveis. Além disso, nosso julgamento sobre um escritor renomado nunca é meramente estético. A despeito de qualquer mérito literário, um novo livro de tal escritor possui para nós um valor histórico, tratando-se de obra de autoria de um indivíduo pelo qual há muito nos interessamos. Tal autor não é apenas um poeta ou um romancista; é também um personagem em nossa biografia.

Um poeta não é capaz de ler a poesia de outro poeta, nem um romancista lê o trabalho de outro romancista, sem comparar a obra daquele com a sua. A avaliação que faz, à medida que lê a obra alheia, é expressada através de interjeições do tipo: “Meu Deus! Meu pai! Minha mãe!”

Em literatura, a vulgaridade é preferível à nulidade, assim como o vinho do porto é preferível à água destilada.

Bom gosto é mais uma questão de discriminação que de exclusão, e quando por razões de bom gosto somos levados a excluir, isso é feito com pesar, não com prazer.

No processo de seleção do que se lê, o prazer não constitui absolutamente um valor crítico infalível; contudo, é menos falível.

A leitura de uma criança é comandada pelo prazer, embora seu gosto não tenha capacidade discriminadora. A criança não consegue distinguir, por exemplo, entre o prazer estético e o prazer de aprender ou de sonhar acordada. Na adolescência damo-nos conta de que há diversos tipos de prazer, alguns dos quais não podem ser sentidos simultaneamente, e precisamos do auxílio de outras pessoas no processo de definição desses prazeres. No que tange a questões de gosto relativas à comida e à literatura, por exemplo, o adolescente busca um preceptor em cuja autoridade possa confiar. O jovem passa a comer ou a ler aquilo que o preceptor recomenda e inevitavelmente há ocasiões em que tem de enganar a si próprio; finge, por exemplo, que gosta de azeitonas ou de Guerra e Paz mais do que de fato gosta. Entre os 20 e os 40 anos vivemos o processo da descoberta do que somos, processo esse que envolve a percepção da diferença entre as limitações acidentais, as quais temos o dever de superar, e as limitações necessárias da nossa própria natureza, as quais não podemos superar impunemente. Poucos de nós chegam a tal percepção sem cometerem erros, sem tentar nos tornar mais universais do que nos é permissível. É exatamente durante esse período que um escritor pode facilmente ser desviado por outro escritor ou por alguma ideologia. Quando alguém na faixa dos 20 aos 40 anos diz com respeito a uma obra de arte: “Eu sei do que gosto”; está na verdade dizendo: “Não tenho um gosto pessoal mas aceito o gosto do meu meio cultural”; isto porque entre os 20 e os 40 anos a indicação mais precisa de que um indivíduo possui um gosto autêntico e pessoal é a própria incerteza a respeito do assunto. Após os 40 anos, caso não tenhamos perdido totalmente a autenticidade, o prazer pode voltar a funcionar como funcionava quando éramos crianças: como valor crítico que determina o que devemos ler.

Embora o prazer que obtemos da apreciação de obras-de-arte não deva ser confundido com outros tipos de prazer, ele está relacionado com todos os tipos pelo simples fato de constituir um prazer nosso e não de outra pessoa. Todas as avaliações estéticas e morais que fazemos, não importa quanto nos empenhemos em ser objetivos, são por um lado uma racionalização e por outro uma ação disciplinar imposta sobre nossas aspirações subjetivas. Enquanto um indivíduo escreve poesia ou ficção, seu sonho do que constitui o Éden é assunto que somente diz respeito a si próprio mas, no momento em que o mesmo passa a escrever crítica literária, por questões de honestidade deve descrever seu Éden para os leitores, de maneira que os mesmos tenham condições de julgar as avaliações do crítico. Com efeito, passo a responder um questionário, por mim mesmo elaborado, que fornece as informações que eu mesmo gostaria de ter antes de ler o trabalho de outros críticos.

W. H. Auden nasceu em York, Inglaterra, em 1907. Mudou-se para Birmingham na infância e estudou no Christ’s Church, em Oxford. Quando jovem, era influenciado pelas poesias de Thomas Hardy, Robert Frost, William Blake e Emily Dickinson.

Em 1928, Auden publicou seu primeiro livro de versos e sua coleção “Poemas”, publicada em 1930, o que o colocou no topo da nova geração de poetas. Era admirado pela sua técnica e habilidade em escrever poemas em todas as formas imagináveis, pela incorporação em suas obras de elementos cultura popular e eventos atuais e também por seu vasto intelecto. Sua poesia freqüentemente reconta, literal ou metaforicamente, uma jornada ou aventura, e suas viagens acabaram servindo como rico material para seus versos.

Visitou a Alemanha, China, serviu na guerra civil espanhola e em 1939 mudou-se para os Estados Unidos, tornando-se, mais tarde, cidadão americano. Manteve um relacionamento aberto com Chester Kallman, nada fazendo para ocultar sua homossexualidade.

Suas crenças mudaram muito entre o período de sua jovem carreira na Inglaterra (onde era adepto do socialismo e da psicanálise Freudiana) e sua fase posterior, na América, quando sua principal preocupação passou a ser o cristianismo e a teologia do protestantismo.

Auden era também dramaturgo, editor e ensaísta. Considerado o maior poeta inglês do século XX, seu trabalho influenciou as gerações seguintes, dos dois lados do Atlântico.

Foi Chancellor da Academia de Poetas Americanos de 1954 a 1973 e dividiu a segunda parte da sua vida nas residências de Nova York e Áustria. Faleceu em Viena, em 1973.

”Quando o processo histórico se interrompe… quando a necessidade se associa ao horror e a liberdade ao tédio, a hora é boa para se abrir um bar.” A citação de W. H. Auden pareceu apropriada a Antônio Callado para usar como epígrafe de seu livro “Bar Don Juan”, lançado em 1971.

Poesia:

Poems (1930)
The Orators prose and verse (1932)
Look, Stranger! in America: On This Island (1936)
Spain (1937)
Another Time (1940)
The Double Man (1941)
The Quest (1941)
For the Time Being (1944)
The Sea and the Mirror (1944)
Collected Poetry (1945)
The Age of Anxiety: A Baroque Eclogue (1947)
Collected Shorter Poems 1930-1944 (1950)
Nones (1952)
The Shield of Achilles (1955)
The Old Man’s Road (1956)
Selected Poetry (1956)
Homage to Clio (1960)
About the House About the House (1965)
Collected Shorter Poems 1927-1957 (1966)
Collected Longer Poems (1968)
City without Walls (1969)
Academic Graffiti (1971)
Epistle to a Godson (1972)
Thank You, Fog: Last Poems (1974)
Selected Poems (1979)
Collected Poems (1991)

Prosa:

Letters from Iceland (1937) com L. MacNiece.
Journey to a War (1939) com C. Isherwood.
Enchaféd Flood (1950)
The Dyer’s Hand (1962)
Selected Essays (1964)
Forewords and Afterwords (1973)

Antologia:

Selected Poems, por Gunnar Ekelöf (1972)

Drama:

Paid On Both Sides (1928)
The Dance of Death (1933)
The Dog Beneath the Skin: or, Where is Francis? (1935) com C. Isherwood.
The Ascent of F.6 (1936) com C. Isherwood.
On the Frontier (1938)


Ensaio publicado no livro “A mão do artista”, Editora Siciliano – São Paulo, 1993, pág.400, tradução de José Roberto O’Shea. Extraído da Revista Bibliográfica e Cultural, primorosa publicação da Oficina do Livro Rubens Borba de Morais, dezembro de 2002, pág. 3. Fonte Releituras

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