Quem será o primeiro a sair da crise?

Gilles Lapouge* – O Estado SP
A crise econômica vai evaporar como uma bolha de sabão, uma gripe suína? Ninguém acredita nisso e, no entanto, já está se começando a delinear um cenário de “saída da crise”. Na Europa, quem vai se recuperar primeiro? Como sempre, os prognósticos são dominados pela rivalidade entre os grandes países europeus.
Entre França, Itália, Inglaterra ou Alemanha, qual país será o mais dinâmico? Qual sairá mais estropiado, caolho, surdo ou capenga? Dois países se fiscalizam: França e Alemanha, os “amigos íntimos” que, na realidade, não param de se vigiar, às vezes até tentando colocar um pouco de veneno na sopa do outro. Até agora é a França que ganha as apostas. Ela deixaria a zona de risco daqui a um ano. Os outros estariam aos empurrões para ocupar o segundo lugar.
Foi Nicolas Sarkozy que pintou esse cenário, que considera justo, pois a França tem a chance de ter um presidente mais inteligente do que os outros presidentes europeus. Portanto, é normal que saia do pesadelo mais rápido do que os outros. E, como é uma boa menina, “ainda ajudaria os vizinhos a sair do buraco”.
O problema é que os especialistas da União Europeia não parecem ter compreendido muito bem esse raciocínio brilhante de Sarkozy. Seus prognósticos são diferentes. Para eles, será a Alemanha que vai sair primeiro da crise. No início de 2010, a França ainda estará em recessão (contração de 0,2% no Produto Interno Bruto), enquanto Alemanha, Inglaterra e Itália já estariam mostrando algum crescimento (de 0,1% a 0,3%).
Que humilhação: até a Itália deverá ter um desempenho melhor do que o da França! Que desgraça! A superioridade da Alemanha é explicada: o país dispõe de uma estrutura industrial mais forte e formada por muitas pequenas e médias empresas muito competentes. Mas, o pior de tudo, é que a França está tragicamente endividada.
E, depois de Sarkozy, a dívida explodiu. Antes mesmo da crise, ela já era profunda. E hoje se subvenciona a toda força. Os bancos são socorridos, como também as montadoras, com bilhões de euros. Entre 2008 e 2009, o déficit público francês dobrou, chegando a 100 bilhões.
No fim de 2008, a dívida pública francesa se elevou para 68% do Produto Interno Bruto, representando uma dívida de 52 mil para cada francês. O serviço da dívida absorve quase a soma total do imposto de renda. O governo, sem dúvida, será obrigado a aumentar a receita, o que significará aumentar impostos e, sobretudo, o valor das contribuições sociais. Não existe meio melhor para frear ou mesmo impedir o crescimento.
Moral da história: o importante não é ser mais inteligente do que todo o mundo (ou dizer isso), é preciso também ser responsável.
*Gilles Lapouge é correspondente em Paris
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