Do lado de dentro

Blog Onzepalavras

Eu tinha aquela força absoluta que transbordava de dentro de mim. Era muita até. Eu acreditava menos nos meus olhos e mais nos meus sentidos. Eu não sonhei, consciente de minha origem; mas planejei um futuro cheio de alegria, bem fundamentado. Um passo de cada vez. Planejei um correr de anos na mansidão, no equilíbrio. O meu eixo, inabalável, estrategicamente protegido das tormentas tão características da juventude. Mas aquele era o tempo de ser jovem.

Naquele tempo eu pensei que fosse conquistar mais que o necessário para viver, e pensei até em fazer parte dessa conquista um bom motivo para dividir com os outros e sentir um pouco de paz. Mas isso não seria o óbulo da viúva. Era um tempo em que as promessas eram convites excitantes, que o futuro era leve e estava a um braço de distância. Eram planos possíveis, que de extravagantes e urgentes não se podiam chamar. Planos simples, mas todos absolutamente sob o meu controle.

O coração também estava programado para aceitar só o que cabia no meu quadro, e encontrei alguns desenhos que se alinhavam bem a essa moldura. Era um tempo em que parecia certo determinar uma dimensão para haver encaixe. Mas o verdadeiro amor é livre. No tempo dessas idéias, me vi nos vários papéis de mulher, e para cada um já havia determinado quando e como seria. Projeções calculadas com exatidão que pareciam-me de todo exeqüíveis.

Com tantos planos, sobrou-me muito pouco tempo para ser mulher e para acreditar que o vento leva e traz as promessas de Deus, que tem seus próprios planos acerca do ser humano e de suas ilusões de controle. E veio o outono com sua força de transformação, e derrubou as folhas das árvores e levou meus planos no mesmo vento que mergulhou o ar na escuridão e no frio.

E eu cheguei na grande encruzilhada da vida. Quando todas os desejos sucumbem à verdade. Quando é inútil ao anjo bater as asas depois de caído. Quando descobri que o tempo todo não era a luz do sol, mas uma lâmpada de brilho fosco, que também se apagou no minguar da lua. Planejei uma vida tão diferente desse deserto que estou vivendo. Tão distante de como desejei que fosse, agora sem qualquer perspectiva. Bastando apenas saber que não controlo sequer meus pensamentos, quiçá a direção para o perfeito epílogo, e de novo no engano, já que na eternidade não cabem epílogos.

Era muita força que pulsava aqui dentro, excessiva. Faltou-me saber que pouco ou quase nada sabia ou sei. Agora acredito mais nos meus olhos e dou pouca importância aos meus sentidos, que de tão senhores de si, traíram-me às claras vistas me deixando em plena cegueira.

Precisava de mais leveza e menos maturidade naqueles anos que ficaram para trás com o frescor da juventude. Mas tive que ser provedora de mim mesma, na esperança de dar à minha semente essa chance de liberdade de ser, que não vivi na hora exata. Julgava-me muito adulta e destemida, mas na hora de prover outrem escondi-me por vezes numa covarde meninice. Onde Deus dentro de mim, tamanha fantasia de controle?

E que soberba julgar o amor pela moldura ideal. Se não sou eu passível de medição, como encontrar alguma que se ajuste ao meu tamanho? De que tamanho eu sou? Não digo, hoje, que cheguei a amar. Tranquei o pássaro na gaiola, e esperei pelo gorjeio, mas não ouvi a melodia. Deixei as gaiolas para trás, abertas, e tranquei a mim mesma para sentir na veia a privação da liberdade. E é verdade, fiquei muda.

Houve um tempo em que eu não confessaria as perdas, mas isso também ficou para trás. A verdade só começa a aparecer quando deixamos o esconderijo das nossas ilusões. E eu estou segura de que assim começo a me tratar com mais sinceridade, e que tenho lentamente caminhado para o primeiro encontro essencial comigo mesma. Ainda alimento algumas muitas ilusões, mas aquela de não parecer melancólica deixei para trás junto com a importância que dava às aparências. Não preciso mais delas, nem das ilusões e nem das aparências. Não quero aprovações mas aceito de bom grado as provações, já que elas têm me tornado mais humana. Só assim eu poderei sonhar novos sonhos, esses, Deus sabe, tão mais reais que os planos que não vingaram, justamente por estarem à revelia de meu controle.

Quando me deixava ver mais viva, eu já era putrefação. Agora que me tomam por morta, estou rompendo a placenta, buscando com sofreguidão a luz da vida que acabou de vingar.

Meu coração miserável, sangra em lágrimas, mas regozija-se ao refletir os epicentros das verdades que eclodem escaldantes e renovadoras. Sim, eu estou viva e nada, nada, nada tem sido em vão!
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Pintura: Narciso, Michelangelo Merisi Caravaggio 1571 – 1610 (óleo sobre tela, 1599)

Escrito por Ana Karina Bucciarelli

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