Agnès Jaouï fala de mulher e política
Enquanto o Sol Não Vem realiza sonho da autora de trabalhar com Jamel Debbouze e tratar a questão do imigrante
Luiz Carlos Merten – O Estado SP
Agnès Jaouï estava preparada para conversar, não para ser fotografada. Durante uma hora, no HSBC Belas Artes, a atriz, cantora, roteirista e diretora francesa conversou com o repórter do Estado, encastelada no banquinho do café. Volta e meia assustava-se com os estouros dos canos de escapamentos e as buzinadas que, lá fora, anunciavam um típico final de tarde paulistano. Também olhava vagamente para a TV, que exibia imagens do showneral de Michael Jackson. Agnès Jaouï veio ao Brasil para lançar Enquanto o Sol Não Vem, que estreia hoje com três cópias em São Paulo e uma no Rio.
É um lançamento pequeno, como o próprio filme. Mas é preciso dimensionar esse ‘pequeno’ – simpático, afetivo, rico em observações humanas e sociais. Ela sabe – Agnès já se havia encontrado com o repórter em Paris, no começo do ano, durante os Encontros do Cinema Francês. Nas vezes anteriores em que aqui esteve, para lançar O Gosto dos Outros e Questão de Imagem, ocorreram outros encontros. Qual é a diferença do novo filme em relação aos anteriores? “Havia, conscientemente, um programa de quatro pontos. Queríamos fazer uma comédia, um filme sobre política e um que fosse interpretado por nosso Jamel Debbouze.” Agnès está colocando tudo no plural – nós. Ela se refere a seu corroteirista e ator, Jean-Pierre Bacri. Todo mundo pensa que são casados. “Não somos. Cada um vive no seu canto, mas, no trabalho, precisamos estar juntos, trocando ideias, um e outro usando sua experiência de ator para dar entonação às palavras e criar os diálogos.”
Mas ela falou num programa de quatro pontos e citou apenas três – “Queríamos, e eu até mais, que o quarto ponto do filme fosse tratar também da culpa.” Essa culpa remete a uma questão irresolvida da França – sua relação com as antigas colônias. Você circula hoje por Paris e se surpreende com a quantidade cada vez maior de descendentes de árabes e negros. “Eles vão se integrando como podem à sociedade francesa.” Jamel Debbouze, que virou um astro na França – como comediante de TV -, é um exemplo dessa presença, mas sua ascensão não caracteriza a mobilidade social de todos os descendentes de imigrantes. No filme, ele faz um aspirante a documentarista que entrevista duas irmãs. Uma delas, Agnès, concorre a um cargo político. Durante o processo, afloram velhos ressentimentos. Debbouze não perdoa as irmãs, e Agnès, o que lhe parece o descaso em relação a sua mãe, doméstica na casa da família.”
A mulher na política? O filme começou a nascer em plena campanha da socialista Ségolène Royal, que concorreu à presidência com Nicolas Sarkozy. Agnès temia que o filme ficasse defasado, após a derrota da candidata (mas ela também não queria atrelar sua personagem a Ségolène). “Os franceses, principalmente as mulheres, são muito reacionários. Ségolène foi cobrada não por seu programa, mas por ser mulher. As eleitoras prendiam-se a questões mesquinhas. Quem ia cuidar de sua casa, de seus filhos, e olhem que os dela já eram bem crescidos.” O repórter arrisca uma observação – hoje em dia, a imprensa refere-se a Carla Bruni como a Pompadour do Eliseu, o palácio do governo francês. Ela trouxe o glamour para o governo de Sarkozy. “É um papel muito machista atribuído à mulher”, revida Agnès, feminista de carteirinha. “A presença da mulher na política não pode ser avaliada como um concurso de beleza.”
Um belo discurso racional, mas, como ninguém é perfeito, Agnès Jaouï, que não se achava adequadamente maquiada e penteada, recusou-se a ser fotografada, o que obriga a ilustrar a entrevista com cenas do filme. O título original, Parle-Moi de Pluie, Fale-me de Chuva, vem de uma canção. “Existe uma pesquisa, mas não vou citar os números, que diz que os franceses, e especialmente as mulheres, são muito suscetíveis aos dias de chuva. Falo por mim. Os longos dias cinzentos do inverno parisiense, a chuva, tudo isso tem um efeito depressivo muito forte. Como não pudemos contar com a canção como queríamos, Jean-Pierre e eu criamos uma cena de chuva para segurar o título.”
Agnès fala com carinho de Jamel Debbouze. “Ele se tornou uma unanimidade na França porque, ao contrário de seu personagem, não é ressentido. Jamel não quer nos impor seu sofrimento como quem cobra alguma coisa. Pelo contrário, é irônico e divertido e faz com que a sociedade francesa consiga rir dos próprios preconceitos.” Como sempre, o trabalho de som é muito importante. “Foi uma coisa que aprendi com (Alain) Resnais. Gosto de trabalhar com o mesmo engenheiro de som, que, por sinal, é casado com uma brasileira.” O assunto vira o Brasil, que Agnès tem visitado com frequência. Ela, inclusive, adotou duas crianças brasileiras. “Gosto tanto desse País que, se meus filhos um dia quiserem voltar para cá, terei imenso prazer em segui-los. É um país no qual conseguiria viver, embora exista aqui uma violência que me assuste. É essa exposição da desigualdade, da pobreza nas ruas, como se fosse uma coisa natural que não ofende mais ninguém.”
Esse amor pelo Brasil passa pela música. Agnès é cantora. Integra um grupo lírico e tem uma banda. Com a segunda, está lançando novo CD, incluindo uma canção que ama, de Chico Buarque. Ele consegue expressar o feminino com muita delicadeza, observa o repórter. “É maravilhoso”, ela retruca e cantarola Olhos nos Olhos – ?Quando você me deixou, meu bem…? Agnès canta e fala com sotaque português de Portugal, que aprendeu com a funcionária que ?manda? em sua casa. O assunto volta a Resnais, de quem foi atriz e roteirista em dois filmes – Smoking/No Smoking e Aquela Velha Canção. Resnais recebeu um prêmio especial de carreira no recente Festival de Cannes. Ele consegue ser autor sem escrever uma linha de seus roteiros. “Resnais estimula a gente a escrever, mas ele interfere tanto no processo que, no final, você se reconhece no texto e sabe, ao mesmo tempo, que é dele. Sei das minhas habilidades e limites. Gênio é ele.”
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