Arthur Virgílio sem emprego em Dubai

Maria Cristina Fernandes – VALOR

Numa apoteótica semana para o circo do Senado Federal, a informação de que o Brasil pouco avançou no combate à corrupção passou como um apêndice no noticiário. Com a farta colheita da indústria de vazamentos em Brasília, de um lado, e o relatório do Banco Mundial, do outro, a conclusão decorrente seria de que o organismo internacional apenas constatou empiricamente a pasmaceira da política nacional.

Mas se o picadeiro de Brasília tem alguma serventia é precisamente a de mostrar que o selo de país mediano na corrupção internacional que o Bird, ano após ano, confere ao Brasil é tão confiável quanto uma rubrica de Agaciel Maia num ato secreto.

A lista do banco não resiste à mais leiga das lupas. Tome-se, por exemplo, os Emirados Árabes Unidos, país situado em 18º lugar entre os que melhor controlam a corrupção, 24 posições à frente do Brasil. A classificação não se baseia em ações de governo, mas em percepções.

O senador Arthur Virgílio (PSDB-AM) certamente não faria sucesso em Dubai. Não pela ausência de benesses ilícitas de denunciantes e denunciados. O que falta é denúncia.

O governo dos emires mescla poder hereditário e conselho consultivo de representantes escolhidos por um colégio eleitoral ampliado. A população convive com liberdades limitadas em troca de uma das maiores rendas per capita do mundo.

Não faz sentido algum comparar a percepção da corrupção num lugar desses com aquela advinda de um país que transmite as entranhas do Senado ao vivo.

Esse tipo de relatório ganha foro de publicação respeitável a despeito de seus critérios já terem sido exaustivamente desnudados. As críticas vão além da questionável metodologia de indicadores baseados nos interesses de grandes corporações e organizações não-governamentais com atuação nesses países.

Em abril o “Wall Street Journal” divulgou a conclusão dos trabalhos de um grupo de avaliação interno do banco que, em 690 páginas, enxovalhou seus próprios critérios para detecção de fraudes na concessão de empréstimos.

O relatório tem um trecho revelador: “Os tradicionais sistemas de controle do banco não foram projetados para resolver questões como fraude e corrupção. Eles foram criados para garantir a eficiência e integridade financeira do banco ao menor custo possível”.

Ou seja, a mesma instituição que se arvora na condição de classificar entre mais e menos corruptos 212 países do mundo inteiro não consegue ter governança sobre seus próprios empréstimos.

O cientista político americano Aaron Schneider já havia apontado as falhas das políticas de combate à corrupção do Bird nos países em desenvolvimento. Sua crítica se fundamenta no foco do banco sobre o que chama de “pequena corrupção” – privilégios do funcionalismo, suborno e propina – que ocupam, em grande parte, o jornalismo político nacional.

Não que a versão em miniatura da corrupção seja desimportante. Consome recursos públicos e prejudica a grande maioria que não pode se utilizar dessas benesses ilícitas do Estado.

O ponto é que se ignora a “grande corrupção”, aquela em que o Estado atua em favor de um setor particular da economia ou, com informações privilegiadas, baliza grandes fortunas no mercado financeiro.

Não é uma opção técnica a do combate à propina comezinha da burocracia. Ao fazê-lo, toma-se uma decisão política de não confrontar instâncias de poder cujas deliberações, em última instância, podem prejudicar os próprios interesses de instituições como o Banco Mundial. São esses interesses, como lembrou o relatório interno, que, em última instância, busca-se preservar.

Se o público pagante chegou a imaginar que as intrigas políticas são uma exclusividade do salão azul do Senado, Schneider traz algum conforto. Em artigo na coletânea “A corrupção: ensaios e críticas” (UFMG, 2008) conta que a indústria de relatórios internos no Banco Mundial foi fomentada em meio ao mal-estar produzido pela renúncia de um ex-presidente da instituição que favorecera funcionária com quem namorava.

O vazamento desses relatórios internos desvendou as contradições de uma instituição que tende a ignorar a corrupção em países que cresceram rapidamente graças à adoção de políticas preconizadas pelos credores, como abertura comercial, liberalização de mercados e achatamento de salários do funcionalismo.

Custa a crer que, depois da crise, cantada em verso e em prosa pela capacidade de abalar as diretrizes da ordem financeira global, esses anuários de corrupção mundial sigam ignorando seus próprios descaminhos.

E enquanto Ministério Público, Polícia Federal, Controladoria-Geral da União, Tribunal de Contas e Congresso Nacional – qual outra instituição tem sido capaz de sobreviver à reiterada exposição pública de suas entranhas? – continuarem funcionando à luz de uma imprensa que publica o que quer, a resposta a esse tipo de classificação é simples: “A corrupção no Brasil vai bem, obrigada”.

Maria Cristina Fernandes é editora de Política. Escreve às sextas-feiras

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1 COMENTÁRIO PARA "Arthur Virgílio sem emprego em Dubai":

Comentado por alex em 03/07/2009 - 20:43h:

SOBRE OS BLOGS:

Militantes partidários trocam as ruas pelos computadores

Matéria Valor Econômico – 03/07/2009
artigo de Yan Boechat

Íntegra das respostas dadas pelo BLOG Cloaca News ao questionário enviado pelo repórter Yan Boechat, do Valor Econômico. A nosso pedido, a “entrevista” foi feita por e-mail.
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Há quanto tempo o blog existe?
O Cloaca News estreou na blogosfera no dia 31 de outubro de 2008. Completará oito meses de existência dentro de alguns dias.
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Ele é feito apenas por uma pessoa ou há uma “equipe” envolvida na sua produção?

A equipe do Cloaca News é composta de um pauteiro, um repórter, um pesquisador de imagens, um redator, um editor, um “advogado” e um Diretor de Redação, sendo que todas essas atribuições estão delegadas a uma única pessoa – ninguém menos que este que lhe escreve – que acaba agora de acumular, também, a função de assessor de imprensa.
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Como surgiu a idéia de fazê-lo?
A idéia de fazer o Cloaca News adveio da profunda indignação de seu criador com as práticas desonestas de manipulação por parte dos principais conglomerados da informação brasileiros – e que, mui apropriadamente, o jornalista Luis Nassif denominou “jornalismo de esgoto”. O blog, nesse caso, surgiu como uma alternativa possível para denunciar e execrar esse comportamento da chamada imprensa corporativa, dentro de uma perspectiva muito particular, baseada na visão de mundo e na bagagem político-cultural de seu criador.
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Além do tempo dedicado, há algum gasto para produzi-lo?
Nenhum gasto.
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Há algum auxílio de terceiros para produzi-lo?
Nenhum auxílio. Trabalho solitário.
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Você tem formação jornalística?
Sim.
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Qual a média de visitas diárias à pagina?
Em maio, a média diária foi de 1848 visitantes. No mês em curso, a média se mantém. Ocasionalmente, temos alguns picos. No maior deles, há poucos dias, beiramos 4 mil visitas.
Seu blog tem como missão ´Desmascarar a máfia midiática que infesta nosso país. Dar nome aos ratos e aos sabujos”. Como você define essa “máfia midiática”?
Simples: é só juntar as pouquíssimas “famiglias” que controlam os meios de informação mais importantes deste país.

Você entende que toda a grande imprensa está comprometida com os partidos de oposição ao governo Lula?
Considerando que a “grande imprensa” é a que está nas mãos das “famiglias” acima, sim, ela está comprometida. A leitura e a análise do jornalismo que produzem diariamente não nos deixam mentir.

E a entrevista segue – vale a pena ler a íntegra
http://cloacanews.blogspot.com/

 

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