O risco

O artigo do Estadão procura esconder um fato singelo: com Dilma, continuando o trabalho sério iniciado por Lula com Palocci, a autonomia operacional do Banco Central, as metas de inflação e o prosseguimento da estabilidade é uma garantía aportada não só pela prática deste 7 anos. É a continuidade de uma política econômica responsável e de inclusão social, defendida hoje pela maioria do PT.

Já com Serra, que discorda da autonomia e da política do Banco Central, que é errático na sua política fiscal e tributária com autoritarismos visíveis, é a incerteza. Ele é questionado não só pelos empresários, mas também por uma boa parte dos próprios tucanos fora do eixo São Paulo – SP. Como diz um empresário citado no artigo “O governador diz, não é de hoje, que os juros deveriam ser mais baixos e o dólar, mais valorizado. Ora, todos os países que adotaram essa política tiveram um resultado: inflação.”

O que piora as incertezas do que começa a ser chamado do “risco Serra” é a desconfiança enquanto ao valor dos compromissos que o candidato possa assumir, já que várias vezes tem agido contrariando suas afirmações sobre suas intenções.

Como hoje o Brasil, diferentemente de 2002 exaurido pela política de FHC, está em rota ascendente, o risco de uma virada pode jogar a perder todo o caminho percorrido nestes sete anos. O risco é uma política dirigista e voluntarista na economia combinada com privatizações, assim como o agravamento dos conflitos sociais e com o funcionalismo.

A democracia brasileira e suas instituições são suficientemente fortes e solidas para assegurar, sem qualquer problema, a alternância democrática. Não é isso que está em discussão. O que 2010 irá definir é o rumo do Brasil. As alternativas não devem ser obscurecidas pelo oportunismo eleitoreiro tradicional, que consistirá a apresentar a candidata de Lula, Dilma Rousseff e o candidato tucano José Serra como semelhantes, para beneficiar uma mudança de rumo em favor do campo conservador e que implicará em retrocessos pesados para a população brasileira. LF

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Risco político já influencia juro futuro

Eleição de 2010 e possível troca no BC deixam o investidor cauteloso

Leandro Modé -O Estado SP

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) reúne-se terça e quarta-feira para definir o novo nível da taxa básica de juros (Selic), hoje em 9,25% ao ano. Nem analistas nem investidores estão lá muito preocupados com a decisão porque dão como certo um corte de 0,50 ou 0,25 ponto porcentual. A atenção deles está voltada para o futuro.

Pela primeira vez em muito tempo, mercado financeiro e Banco Central estão em lados opostos em relação às perspectivas de médio e longo prazos para a Selic. As explicações para a divergência vão além dos fatores técnicos. Se é verdade que o movimento não é exclusividade brasileira (leia texto nesta página), tampouco se pode negar que o risco político já afeta as expectativas para os juros.

Esse risco se divide em dois. Uma parte está relacionada à sucessão presidencial em 2010, uma vez que os dois principais candidatos, Dilma Rousseff e José Serra, são considerados “heterodoxos” demais pelos investidores. Ou seja, ambos tenderiam a ser menos conservadores na condução das políticas fiscal e monetária. A apreensão de mercado pode até se basear em especulações, mas ela influencia variáveis importantes da economia.

“Seja Serra ou seja Dilma, o fato é que o ministro da Fazenda será Luciano Coutinho (atual presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social)”, diz um economista, em tom jocoso. “O (atual ministro Guido) Mantega também é heterodoxo, mas tem uma diferença importante em relação a Coutinho: por ser maleável, segue a linha pragmática de Lula. Coutinho implementaria na prática o que pensa.”

Outro especialista, bastante respeitado pelos seus pares de mercado, centra fogo em Serra. “O governador diz, não é de hoje, que os juros deveriam ser mais baixos e o dólar, mais valorizado. Ora, todos os países que adotaram essa política tiveram um resultado: inflação.”

Outra parte do risco está ligada à indefinição sobre as ambições eleitorais do presidente do BC, Henrique Meirelles. Várias perguntas estão na cabeça dos investidores: Meirelles será ou não candidato ao governo de Goiás? Se sim, quando deixará o BC? Se deixar, quem será o substituto? O substituto terá força para aumentar os juros, caso necessário, levando-se em conta que 2010 é ano eleitoral? Procurado pelo Estado, o presidente do BC não se manifestou.

O próprio Meirelles atraiu os holofotes para a divergência com o mercado ao dizer, terça-feira, que “a curva de juros embute prêmios de risco em relação às projeções de inflação do BC, por exemplo, que talvez não sejam adequados à situação do Brasil”. Em linguagem mais clara, significa que as taxas expressas nas operações do mercado futuro não condizem com as expectativas para a inflação.

O BC já havia feito uma referência ao tema na ata da reunião do Copom de 28 e 29 de abril. Dizia o texto, no parágrafo 23: “O Comitê entende que a melhora do cenário prospectivo para a inflação em 2009 e em 2010 não foi, até o momento, incorporada na estrutura a termo da taxa de juros.” A frase foi retirada da ata da última reunião.

Sexta-feira, os contratos de juros negociados na BM&F projetavam taxa Selic de 8,65% em janeiro de 2010, 9,68% em janeiro de 2011 e 10,91% em janeiro de 2012. Comparadas a uma Selic de 8,75% (aposta majoritária do mercado para o Copom desta semana), as projeções da BM&F embutem uma alta de um ponto porcentual do juro ao longo de 2010.

De outro lado, em uma aparente contradição, as previsões para a inflação seguem dentro da meta de 4,5%. Segundo o mais recente boletim Focus, que resulta de uma pesquisa do BC com uma centena de instituições financeiras e consultorias, a expectativa para o IPCA é de 4,5% em 2009 e 4,40% em 2010. Portanto, ao menos em tese, a Selic entre 8,75% e 9% seria suficiente para manter a inflação na meta.

Essa discussão é relevante porque envolve as taxas de juros cobradas de empresas e cidadãos comuns já no presente. “Quando um banco empresta dinheiro, ele olha para os juros futuros para definir o custo desse crédito”, diz um analista. Juro futuro alto é igual a crédito mais caro no presente.

Outro especialista avalia que o mercado está fazendo muito barulho por nada – e lembra que muitos operadores aproveitam a situação para lucrar. “Não há chance de o Brasil passar em 2010 o que viveu em 2002 (antes da eleição de Lula). Os fundamentos são muito mais sólidos, a começar pelas reservas de quase US$ 210 bilhões, que reduzem a quase zero o risco de disparada do dólar.”

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