Desemprego e fim dos pacotes de estímulo ameaçam retomada

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Gerrit Wiesmann, Financial Times, de Frankfurt – VALOR

A zona do euro poderá voltar a crescer neste trimestre, mas com que rapidez e sustentabilidade?

A mensagem trazida por dados divulgados ontem parece ser: o crescimento puxado por exportações parece estar voltando, mas será contido, por algum tempo, pelo desemprego em alta, pelos bancos ainda reticentes em emprestar e pelo fim dos pacotes de estímulo fiscal, enquanto governos buscam conter déficits orçamentários.

O crescimento na Alemanha e na França – que, reunidas, são responsáveis por quase 48% do Produto Interno Bruto (PIB) da zona do euro – por pouco não levaram a região como um todo para o território positivo. A recuperação deixou os economistas mais confiantes do que nunca em que a forte recessão na zona do euro esteja chegando ao fim quase exatamente dois anos depois de o aperto de crédito ter deflagrado a crise financeira mundial.

Mas, apesar da quase eufórica reação às inesperadas boas notícias, a maioria dos economistas mantém uma perspectiva cautelosa. O consenso é de que o crescimento na eurozona poderá se aproximar de taxas média históricas no fim do ano que vem.

Aurelia Maccario, economista do Unicredit em Milão, disse que o forte desempenho da zona do euro sugere um retorno a taxas de crescimento positivas no terceiro trimestre, com “provavelmente uma leve aceleração no fim do ano”. O crescimento poderá atingir uma taxa anualizada de 1% no segundo semestre de 2009 devido ao efeito combinado do ressurgimento da demanda mundial e de crescimento dos gastos públicos e privados, como resultado de diversos esquemas de estímulo.

Economistas disseram que as medidas de curto prazo provavelmente desempenharam um grande papel na evidente guinada rumo ao crescimento.

“Com base no que sabemos hoje, revisamos para cima nossas previsões para o terceiro trimestre – de situação praticamente inalterada para 0,5% positivo”, disse Erik Nielsen do Goldman Sachs em Londres. Para ele, outros fatores, além do estímulo, poderão começar a mostrar seu efeito.

A melhoria nas expectativas levou diversos bancos a revisarem para melhor suas previsões anuais para o PIB na zona do euro, embora a região tem um longo caminho a percorrer até retornar a níveis anteriores à crise.

O alemão Commerzbank disse que o PIB da zona do euro deverá encolher “apenas” 3,5% neste ano, em comparação com uma previsão anterior de queda de 3,8%. O Unicredit agora prevê que a economia encolherá 4%, em vez dos 4,6% projetados anteriormente.

Segundo a Eurostat, birô estatístico da União Europeia (UE), a taxa à qual a economia da zona do euro encolheu baixou para 0,1% no segundo trimestre, de calamitosos – 2,5% no primeiro.

Nielsen falou de “grande interrogações” pairando sobre o sistema bancário europeu.

Temores de que os bancos europeus sejam forçados a depreciar ativos relacionados com inadimplência devida à crise econômica e, em consequência, reduzir novas concessões de empréstimos têm preocupado políticos e o Banco Central Europeu (BCE) nas últimas semanas.

Jean-Claude Trichet, o presidente do BCE, implorou aos banco, na semana passada, que repassem as “medidas extraordinárias” que o BCE tomou para incrementar sua liquidez.

Outra razão para tratar os dados divulgados ontem com alguma cautela é o desemprego, para o qual a expectativa generalizada é de um salto de crescimento – que deprimiria o consumo – enquanto as companhias continuam a apertar os cintos.

Trichet advertiu na semana passada que “mesmo quando a economia reaquecer, o desemprego poderá continuar crescendo”. Ele ressaltou esse risco como “um dos pontos importantes que nos impõem sermos prudentes e cautelosos” durante algum tempo.

O perigo de que as verbas de estímulo – que parecem estar dando sustentação aos gastos públicos e privados – acabem antes que a zona do euro tenha superado os prenúncios de apertos de crédito e no mercado de trabalho é a razão pela qual os economistas continuam preocupados com o crescimento.

“O problema, para a zona do euro”, disse Nielsen, “é que os fatores positivos são, no momento, em larga medida de curto prazo, ao passo que os fatores negativos poderão se constituir em problemas de mais longo prazo”.

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