O sapo

Ana Karina Bucciarelli

Nossos cotovelos se esbarravam enquanto ele ajeitava os pratos na pia. Era geralmente nessa hora que ele percebia minha irritação, e então fingia ir para a sala, e voltava de súbito me abraçando pelas costas, enquanto eu lavava a louça do jantar. Meu pescoço se esgueirava em sua barba como um gato se esgueira aos pés de humanos. As vezes falava alguma bobagem para me fazer rir, mas sempre perguntava, nesses momentos, aonde eu tinha escondido o sapo com o nome dele na boca. Sabia como ninguém se fazer faceiro.

Daí se distanciava, sentava-se na banqueta do balcão da cozinha e ficava me olhando, com o pensamento longe, e os ouvidos atentos ao som da televisão. Os minutos se perdiam lentos no nosso silêncio, e quando me dava conta, ele já estava deitado no sofá. Sozinho. Iluminado pela penumbra do abajur, e pelo colorido inquieto da televisão.

Minha irritação voltava com a mesma rapidez que momentos antes havia desaparecido. Não entendia porque durante o dia todo ele me cercava, me sufocava, e à noite quando eu estava a um braço de distância, parecia haver um enorme abismo entre nós dois. Nossos rios seguiam seus cursos, pacificamente, na superfície.

Eu voltava à pia, de costas para o sofá, para a televisão, para a vida, vendo tudo escorrer pelo ralo. E ele submergia inteiro em uma dimensão desconhecida para mim, ainda que estivesse todo ali no sofá da sala, fazendo a digestão. Depois tomava seu banho, e se deitava a me esperar. E eu a esperar também pelos parcos minutos em que me concentraria em uma boa leitura antes de dormir.

Meu lado da cama era o esquerdo, que ficava mais perto da porta. Era mais fácil para buscar água no meio da noite e para levantar nas manhãs ainda escuras sem acordá-lo. E era assim na maioria das vezes, eu saía com pés de lã, mas ainda cansada, indigesta. Ou talvez fosse só o sapo, que engoli.

Fonte ONZEPALAVRAS

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