Conto
Boto auréolas nos bolsos para caso de emergência. Carimbo as escadas com coturnos gastos de tanto parar. Chego à mesa do bar. Alguém fala entre aspas enormes que atrapalham o caminho da mão ao cinzeiro. A cinza não batida. Gota de química ao chão. A cor da cerveja. Vestígio de sol. A lembrança da manhã tão dourada com centeio e granola e agora a cerveja. A nuvem da cerveja. A frase embolada rouca da cerveja. E a tontura. Ao longe, a menina na porta do banheiro. O desenho da menina. O desenho da menina-palito na porta do banheiro. A bexiga cheia. As auréolas nos bolsos. Proteção é fazer cara de tudo sob controle. Ir até lá. Carimbar o espaço com olhos gastos de tanto duplo. Madrugada. A bexiga. A hora preta sem poente sem irmão. Baixar as calças em desequilíbrio. Filosofia imunda na parede. Dedos imensos na garganta. O medo. A pasta de beijo, cevada e batata frita. Água na nuca. Fadiga de sangue na garganta. Trago o ar. Mãos tremidas na maçaneta. Ao longe, alguém fala entre aspas minúsculas que enfeitam a xícara de café. A cor do café. Vestígio de manhã. A paisagem de tanta lembrança erguida no espelho do banheiro. As palavras salvas moles do café. E a dor. Um trago lúcido de regresso.
Lindsey Rocha é autora do livro Nervuras do silêncio (Editora 7Letras); professora de Língua Portuguesa; artista plástica e estudante de Artes Cênicas. Fonte Escritoras suicidas
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