Matéria de 2002: Eleonora Mendes Caldeira, mulher do empresário Ivo Rosset, ela conta como ajudou a quebrar o preconceito da elite xiita contra Lula com dois jantares para o petista

Sociedade/Eleonora Mendes Caldeira – 11/11/2002


Mulher do empresário Ivo Rosset, ela conta como ajudou a quebrar o preconceito da elite xiita contra Lula com dois jantares para o petista

Juliana Lopes – ISTOÉ Gente

Arquivo Pessoal
Lula, Marisa, Eleonora e Ivo, dono da
Valisère, no jantar para 450 convidados

Um adesivo da campanha de Paulo Maluf à prefeitura colado na janela do carro causava arrepios a Eleonora Mendes Caldeira. Seu único filho, André, hoje com 25 anos, era então um pré-adolescente simpatizante do político símbolo da direita paulista. “Eu tinha que respeitar”, diz a psicóloga Eleonora, 56 anos. Doze anos depois, no dia 17 de outubro, André agradecia à mãe pelo inusitado presente de aniversário: um bolo do PT e um abraço de Luiz Inácio Lula da Silva. Embora o aniversário fosse de André, naquela data o homenageado era Lula. Eleonora e o marido, o empresário Ivo Rosset, dono da Valisère, haviam reunido no prédio onde moram 450 convidados da alta sociedade paulistana num jantar para o então candidato do PT à Presidência.

André é apenas um dos convertidos por Eleonora ao petismo. A locomotiva do PT que sacudiu a elite paulistana com dois jantares em prol de Lula na campanha conta, em seu consultório, em São Paulo, que teve agradáveis surpresas nessa eleição. O famoso bolo de três andares de pão-de-ló, doce-de-leite e morangos do jantar do dia 17 foi oferecido por Lali Mansur (mulher do empresário Carlos Alberto Mansur, dono da Vigor). “Pedi a Lali para fazer o bolo uma semana antes do jantar. Na véspera ele estava pronto, lindo, com estrelas do PT!”, conta ela, animada.

Empolgação mesmo aconteceu na residência dos Mansur. “As empregadas estão emocionadíssimas! Todas vão votar no Lula! Foram até o comitê do PT comprar as estrelinhas para fazerem a cobertura no mesmo formato!”, disse Lali a Eleonora. O bolo foi o primeiro assunto de Lula ao chegar para a festa em que estavam pesos pesados da indústria como Eugênio Staub, dono da Gradiente, Daniel Feffer, do Grupo Suzano, e Fernando Xavier, da Telefônica – evento muito mais grandioso do que o jantar para 126 pessoas do dia 4 de setembro. “Levamos o Lula até o bolo para contar a história. Ele achou o máximo”, lembra a anfitriã.

Antes da onda vermelha virar chiique, Eleonora sentia-se de escanteio em festas do high society quando o assunto era política. “A Regina Duarte acha que foi patrulhada. Patrulhada fui eu! Muito mais que ela!”, diz. “Muita gente da alta sociedade tinha preconceito. Agora melhorou muito.” Acostumada a lidar com quem não gosta do PT, Eleonora ficava cheia de dedos para convidar amigos para os eventos com Lula. Para a socialite Fátima Scarpa, ligou avisando logo que “ela não era obrigada a ir”. E também preveniu que ninguém ia pedir dinheiro. Ouviu de Fátima uma sonora risada: “Imagina! Vou votar no Lula!”.

Feliz com o que chama de “lulismo” – fenômeno que, segundo Eleonora, atingiu em cheio a elite paulistana agora bastante empolgada com o presidente eleito, ela conta que também converteu o marido, Ivo Rosset, um dos grandes empresários que apoiaram Lula. “Minha mulher é o maior cabo eleitoral do PT”, diz ele. “Acabei me tornando também”, afirma o dono da Valisère. “No meu caso ela não tem participação”, garante Rosset. A adesão do casal influenciou pessoas próximas. Além de amigos da comunidade judaica, os filhos de Ivo – três empresários entre 30 e 36 anos – também entraram na onda vermelha. “Esses votaram no Serra no primeiro turno”, segreda Eleonora. “Fiz tanta boca-de-urna que disseram que eu ia ser presa. Botei estrelinha em todo mundo.”

O bolo de pão-de-ló preparado para Lula

O envolvimento de Eleonora com a política começou cedo. Ela cursava Direito no começo dos anos 70 na Faculdade Mackenzie, região central de São Paulo, onde havia conflitos freqüentes entre polícia e estudantes. Amiga de Chico Buarque, com quem teve um namorico, ela não militou, mas
sempre esteve no meio do burburinho. Chegou ao PT por intermédio da prefeita de São Paulo Marta Suplicy, de
quem se tornou amiga na adolescência e até hoje é bem próxima. “Eu e meu marido, Luís Favre, temos convivido
muito com Ivo e Eleonora e nossas conversas certamente ajudaram Eleonora a levar Ivo para um partido pelo qual
ela tinha simpatia”, diz a prefeita. Favre fez a ponte entre Rosset e a cúpula do PT. “Os jantares foram importantes porque Ivo e Eleonora manifestaram de público apoio ao
Lula, o que muitos empresários fizeram depois”, diz Favre. “Foi uma atitude pioneira.”

O primeiro voto de Eleonora no PT foi na eleição de Luiza Erundina para a prefeitura de São Paulo em 1988. Para presidente, optou por Lula e não Collor um ano depois.
Depois escolheu duas vezes seguidas o tucano Fernando Henrique Cardoso porque o admirava como intelectual.
“Mas não votei em José Serra porque Lula é mais preparado como político e como pessoa”, diz.

Não era fácil ser petista em casa. Seu pai, Octávio Camillo Pereira de Almeida, de família quatrocentona do Vale do Paraíba, foi secretário de Obras e de Vias Públicas da prefeitura de São Paulo durante 12 anos. Entre os prefeitos, conviveu com Paulo Maluf, que era odiado pelos amigos da filha mais velha. “A briga maior que tivemos foi quando ele votou no Collor para presidente”, conta Eleonora, que não perdeu a piada quando o político alagoano sofreu impeachment. “Cheguei em casa dizendo: ‘Estão vendo como eu estava certa? Eu avisei, eu avisei!’”, disse. Octávio morreu em 1999. Depois de viver uma fase em que seus amigos eram de esquerda, Eleonora passou a estar cercada de socialites por todos os lados. Casou-se em 1972 com o banqueiro Victor Simonsen. Dois anos depois, uniu-se ao incorporador Wilson Mendes Caldeira, de quem herdou o sobrenome. O casamento durou 19 anos.

Por enquanto, Eleonora não pensa em outras festas para Lula. “Agora é hora de trabalhar, mas tenho certeza de que teremos muita coisa para comemorar nesses próximos quatro anos”, diz ela. “Espero que Lula faça um governo que dê dignidade para milhões de brasileiros, com emprego e educação. Que ele não pense em números, mas em gente.”

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