Antonio Candido, entre livros, tarefas e amigos

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Walnice Nogueira Galvão, ESPECIAL PARA O ESTADO

Há meio século, Antonio Candido, então com 41 anos de idade, lançava uma obra que se tornaria um clássico dos estudos acadêmicos no País: Formação da Literatura Brasileira. Sua 12ª edição, publicada pela editora Ouro sobre Azul e Fapesp (800 págs., R$ 90), chega às livrarias esta semana em um único volume – nas últimas décadas, vinha sendo editado em dois ou quatro tomos.
Voltado para o exame do arcadismo e do romantismo brasileiros, o livro combina a análise formal de cada obra com seu lugar no sistema literário nacional e sua relação com as literaturas matrizes – uma abordagem pioneira, que considerava ainda o público leitor. No artigo a seguir, Walnice Nogueira Galvão, da USP, parte do cinquentenário de Formação da Literatura Brasileira para traçar a trajetória intelectual de seu autor.

O lugar que Antonio Candido ocupa em nosso panorama intelectual é múltiplo. De saída, há que destacar seu papel como autor de uma reflexão básica para a criação de uma consciência sobre o País, de que é pedra angular, nas 800 páginas de sua mais recente edição, a Formação da Literatura Brasileira.

É nesse livro que Antonio Candido esmiúça o itinerário pelo qual, num país periférico como o nosso, a criação de uma literatura própria e “nacional” se faz através de um processo de adaptação de modelos. Depois do período inicial, e ainda colonial, em que os escritores tentam copiar ao pé da letra o que se faz na metrópole, eles superam a imitação, passando a criar obra própria e original, embora referida ao modelo importado.

A partir daí, o argumento se desenvolve no sentido de que tal formação pode ser vista como se, a certa altura, fosse comandada pelo desejo dos brasileiros de construir uma literatura que expressasse o País. Ao mesmo tempo, essa literatura deveria marcar sua diferença em relação à matriz, o que se faria mediante a adaptação. Até atingir tal maturidade, os escritores vão-se impregnando dos paradigmas que vêm da Europa e ajustando-os às condições locais, o que, paradoxalmente, vai dar resultados de extrema originalidade. Quando a literatura brasileira deixa de se referir a eles e passa a autoreferir-se, é que chegou ao ponto de maturidade. E o argumento seria depois estendido por outros estudiosos a diferentes ramos da cultura, como as artes visuais e cênicas.

Seus muitos livros analisam infatigavelmente esse processo, do ponto de vista da literatura comparada. Constante atenção à alta literatura e à alta cultura traz à baila outras literaturas nacionais, como a francesa, a inglesa, a italiana, a russa, a alemã. Não se pode elogiar demais o alcance de seu pensamento e a finura de sua erudição. Uma de suas grandes conquistas é a clareza da escrita, que sempre fez questão que fosse de máxima acessibilidade. Sendo autor de algumas das mais belas análises formais em estudos literários, é também aquele que erigiu em princípio condutor a meta de identificar no interior das obras o traço exterior reelaborado.

Sempre cuidou do que há de intrinsecamente literário nas obras, ou seja, seu cunho estético e sua especificidade enquanto arte, que não pode ser confundida com elucubração filosófica nem com documento histórico. Literatura é outra coisa, com instrumentos de investigação e domínio próprios: a linguagem e a forma a definem, não o conteúdo nem a referencialidade. Apesar disso, nunca cancelou o contexto, procurando mostrar, já que literatura não é mero reflexo da realidade, como ele é filtrado em vários níveis de transfiguração.

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Dotado de forte senso cívico, na vida de Antonio Candido figuram atividades tão variadas quanto as que vão enumeradas a seguir. A criação do Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada na Universidade de São Paulo. A atuação na comissão de literatura do 4º Centenário de São Paulo, que integrou juntamente com Carlos Drummond de Andrade e Paulo Mendes de Almeida, premiando um poeta desconhecido que apresentou sob pseudônimo um poema intitulado O Rio: era João Cabral de Melo Neto. A presidência da Cinemateca Brasileira em mais de uma gestão. O planejamento do renomado Suplemento Literário de O Estado de S. Paulo. A criação e coordenação do Instituto de Estudos da Linguagem, na Universidade Estadual de Campinas. O exercício de um mandato na Comissão de Justiça e Paz. Tudo isso, afora inúmeros outros cargos, conselhos de fundações e postos em várias comissões.

Com tanto trabalho, tantos alunos que formou e tantos milhares de páginas que escreveu, ainda achou tempo, desde cedo, para fazer militância política. Primeiro quando era estudante durante a ditadura Vargas, cujo término abriu-lhe a ocasião de entrar para a Esquerda Democrática, que dois anos depois se tornaria o Partido Socialista, sua arena de atuação por vários anos.

Com o advento da nova ditadura em 1964, Antonio Candido não mais cessaria seu ativismo. Concorreu para o salvamento de arquivos particulares de intelectuais de esquerda perseguidos. Escreveu sistematicamente para a imprensa de oposição e lutou pela anistia, pela reintegração dos cassados e pela redemocratização. Ajudou a criar a Associação dos Docentes da Universidade de São Paulo, de que foi o primeiro vice-presidente. Foi durante a Abertura política que Antonio Candido se tornou membro da Comissão de Justiça e Paz, criada por d. Paulo Evaristo Arns. Compareceu nesses anos a inúmeros comícios e atos públicos. Posteriormente, escreveria vários prefácios a livros de memórias de militantes políticos, ex-presos e exilados, dando seu testemunho.

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Antonio Candido e Marilena Chauí

Como em certa fotografia, aliás célebre, a amizade entre Antonio Candido e seu grupo da revista Clima tornou-se proverbial. Sabe-se das alianças fraternas e de projeto intelectual de Antonio Candido com seus companheiros de geração na Faculdade de Filosofia da USP. Nos 16 números que a revista, produzida por jovens no verdor dos 20 anos, tirou entre 1941 e 1944, definiram-se vocações e perfilaram-se carreiras. Futuros professores da USP e socialistas, ninguém ignora quem são eles; e seus livros foram amplamente lidos. Antonio Candido veio a ser crítico literário; Paulo Emílio Salles Gomes, estudioso de cinema; Decio de Almeida Prado, analista de teatro; Gilda Rocha de Mello e Souza sobressaiu na estética; Rui Coelho, na antropologia. E Lourival Gomes Machado, no campo das artes plásticas, seria um dos reveladores do barroco brasileiro e idealizador tanto da Bienal de Arte de São Paulo quanto do Museu de Arte Moderna.

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Fora do cenáculo de Clima, dois de seus particulares amigos seriam Sérgio Buarque de Holanda e Florestan Fernandes. O primeiro é autor de Raízes do Brasil, que Antonio Candido prefaciaria em futura edição. É ali que o equipara a Casa-Grande & Senzala, de Gilberto Freyre, e a Formação do Brasil Contemporâneo, de Caio Prado Jr., integrando uma trindade que, segundo ele, fez sua geração adquirir uma noção de Brasil, vincando os anos 30. Coisa que todo mundo passaria a repetir. Logo assinariam juntos a ata de fundação do Partido dos Trabalhadores (PT), em 1980. Depois, editaria Capítulos de Literatura Colonial (1991), a partir de inéditos deixados inconclusos pelo historiador. Organizaria um seminário póstumo, do qual resultou um livro preparado sob sua coordenação, Sérgio Buarque de Holanda e o Brasil (1998).

Quanto a Florestan, aproximou-os, inicialmente, a posição em que ambos se encontraram como assistentes de Fernando de Azevedo, na cadeira de Sociologia. Sendo ambos de convicções socialistas, a amizade passou por muitos percalços, como a perseguição da ditadura a Florestan, o qual, expulso de seu cargo na Faculdade de Filosofia, teve que sair do País. Quando da abertura do final dos anos 70, participariam conjuntamente de várias atividades. Mais tarde, Antonio Candido trabalharia para a candidatura, afinal vitoriosa, de Florestan a deputado federal pelo PT, de que resultou uma esplêndida atuação do novo parlamentar, coerente com sua índole combativa, em dois mandatos sucessivos. Uma tal amizade consubstanciou-se em vários estudos que Antonio Candido escreveria sobre o amigo, os quais, reunidos, renderiam um livro inteiro, com o singelo título de Florestan Fernandes (2001).

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Assim, entre o trabalho da escrita, tarefas cívicas e amigos têm transcorrido os 91 anos de vida deste intelectual ímpar, autor de um clássico cujos 50 anos celebramos.

Walnice Nogueira Galvão, professora titular de Teoria
Literária e Literatura Comparada na USP, foi aluna e depois primeira assistente de Antonio Candido durante toda a carreira. É autora de Euclidiana: Ensaios Sobre
Euclides da Cunha (2009), entre outros títulos

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