Gilberto Dimenstein e a reescritura da história II

Deixei passar na minha nota anterior (Ver Gilberto Dimenstein e a reescritura da história), mas vale a pena voltar, à famosa questão da conjuntura internacional. Dimenstein evoca como parte da “sorte” de Lula o crescimento da economia mundial, com exceção dos últimos 12 meses. Os tucanos sempre argumentaram que FHC teve que enfrentar duas grandes crises econômicas mundiais e que Lula teve sorte porque o mundo tinha um grande crescimento.

A verdade é que Brasil enfrentou durante o governo FHC duas crises econômicas, verdadeiros “tsunamis”, porque junto com a Rússia, a Tailândia e o México, a sua fragilidade era tamanha que faziam do Brasil a “bola da vez” das crises financeiras.

A aplicação de uma boa parte do receituário do FMI, de ancora cambial populista, de déficit fiscais crescentes, de dívida galopante e de descontrole orçamentário (isto último o FMI não receitava), faziam do Brasil o “elo fraco” do sistema mundial. Por isso uma crise ou mesmo uma “marolinha” em algum recôndito lugar do planeta provocava uma corrida atingindo o Brasil.

O crescimento do PIB brasileiro na época de FHC esteve sempre abaixo do crescimento da economia mundial no mesmo período. “No período 1995-2004, o Brasil deverá apresentar crescimento médio de 2,2% (uma vez confirmada a taxa de 3,5% em 2004) contra 3,7% da economia global e 4,9% do grupo de mercados emergentes”, constatava em 2004, o jornal onde Dimenstein trabalha (Folha de S. Paulo, São Paulo, 27.jun.2004, Caderno Dinheiro). No período 1995-2002, cerca de 2,6 milhões de vagas de emprego foram fechadas, constatou também a Folha.

A ancora cambial populista, o cambio fixo a 1 real=1 dólar, sustentado em juros estratosféricos e dívida pública em espiral ascendente, levaram a esse impacto das crises. A política de FHC era insustentável e o mercado mundial sabia disto, por isso fugia com seus capitais para um lugar mais seguro.

Um dos criadores do Plano Real, Pérsio Arida, constatava, amargo: “Parte do aumento da dívida pública decorreu das altas taxas de juros necessárias para sustentar o câmbio fixo. Mas nosso desempenho fiscal no período de câmbio fixo foi longe do ideal e agravou o problema”, diz Arida.

“Adotamos uma política cambial determinadora de um custo muito caro. Eu defendia já em primórdios de 1995 a implantação de uma banda larga de câmbio e os limites dessa banda (superior e inferior) deveriam ir-se abrindo aceleradamente a ponto de atingir a plena flutuação em 1998, ano de eleição. O Brasil veio adotar o câmbio flutuante não por vontade própria, mas por circunstância.” (Valor, São Paulo, 30.jun.2004, p. F5).

“Só arrumamos as contas públicas em 1999, embora essa tenha sido a primeira promessa feita ao colocarmos o Plano Real na rua”, comenta Gustavo Franco (Folha de S. Paulo, São Paulo, 27.jun.2004, p. B7). Arrumamos, em termos, o mais apropriado seria dizer começamos a tentar arrumar.

“O Plano Real terminou brilhantemente sua tarefa em 1996, quando a inflação dentro do ano atingiu 9,6%”, observa Antonio Delfim Neto, economista, deputado federal (”O real”. Valor, São Paulo, 06.jul.2004, p. A2). “Depois foi uma sucessão de erros. Em 1997, quando os países sensatos deixaram flutuar sua taxa de câmbio para poder reduzir a taxa de juros e manter o crescimento, insistimos no caminho contrário. A desculpa do medo da volta da inflação é, no mínimo, patética. No primeiro mandato, com o câmbio supervalorizado graças ao uso abusivo de altíssimas taxas de juros, o governo FHC foi muito descuidado com a política fiscal. A carga tributária bruta e a dívida interna líquida aumentaram. No segundo mandato, as coisas melhoraram um pouco devido à intervenção do FMI na formulação da política econômica. O acordo de 1998 exigiu superávits primários e vários aperfeiçoamentos na administração. Talvez a maior contribuição do FMI tenha sido a inspiração para a aprovação da Lei de Responsabilidade Fiscal”, conclui Delfim Neto. (citado por Newton Freitas, em PLANO REAL, DÍVIDA PÚBLICA E CARGA TRIBUTÁRIA).

Dimenstein afirma que a história reparará a injustiça com FHC.

Depende de quem for escrever-la.

LF

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1 COMENTÁRIO PARA "Gilberto Dimenstein e a reescritura da história II":

Comentado por Gustavo Cherubine em 24/11/2009 - 15:30h:

Favre, o que está abaixo não é piada.
Está na página do yahoo.
É incrível, inacreditável.

A veja e a mídia toda está contra o Lula e tudo o que ele representa, já sabemos disso e a blogosfera tem reagido e demonstrado as diferentes farsas, mas eles se superam no falseamento da história.

Essa gente toda não tem vergonha na cara.

Gustavo Cherubine.

http://br.noticias.yahoo.com/s/24112009/48/manchetes-fernando-henrique-cardoso-concede-entrevista.html

Fernando Henrique Cardoso concede entrevista histórica
Ter, 24 Nov, 10h22
Por Redação Yahoo! Brasil
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Em entrevista exclusiva concedida ao jornalista Augusto Nunes, colunista da revista Veja, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) revisa os aspectos mais importantes de seus dois mandatos (1995-2003) e da transição para o governo petista comandado por Luis Inácio Lula da Silva.
O político relembra como o Plano Real foi criado, fala sobre as privatizações, principalmente as das telecomunicações, sobre a lei de responsabilidade fiscal, sobre programas de saneamento de bancos e de financiamento da agricultura familiar, sobre o fortalecimento da Petrobras durante seu governo, sobre corrupção e outros assuntos.
FHC não perde a oportunidade de alfinetar o governo petista federal por ter dado continuidade a projetos iniciados em sua gestão. Também aproveita para reafirmar que o partido do presidente Lula “empacava” os projetos de lei do governo tucano na Câmara e no Senado quando era oposição, de acordo com seus interesses políticos. Exatamente como faz a oposição atual, o que gera queixas do presidente Lula. FHC também classifica como “retrocesso institucional” o fato de o governo atual ter deixado a Agência Nacional do Petróleo de lado na regulamentação da exploração do petróleo do pré-sal.
O ex-presidente também fala sobre a criação de projetos educacionais e de alfabetização e de programas como o Bolsa-escola, Auxílio-gás e Cartão-alimentação, que foram fundidos em 2003, já no governo Lula, para gerar o Bolsa-família. É uma pena, contudo, que o clima de camaradagem entre entrevistado e entrevistador não tenha aberto espaço para uma discussão mais aprofundada das críticas que os opositores de FHC fazem justamente em relação aos projetos de desenvolvimento social e combate à desigualdade (ou a falta deles, segundo esses críticos) durante seu governo.
Assista à entrevista histórica de FHC, dividida em 15 partes:

@ Yahoo! Video

 

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