O ”autoritarismo popular” de Lula

Editorial O Estado SP

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O venezuelano Hugo Chávez é um tipo rudimentar. O brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva não é. Chávez, que impôs ao seu país a reeleição ilimitada, diz não entender por que um presidente “que governa bem e tem 80% de aprovação” não pode disputar um terceiro mandato consecutivo, como se as regras da ordem democrática devessem variar conforme o desempenho dos governantes e os seus índices de popularidade. Lula, que, em parte por convicção, em parte por um cálculo do custo-benefício da aventura reeleitoral, recusou a possibilidade, acredita que pode chegar aonde quer por outros meios, mais sofisticados do que é capaz de conceber a mentalidade tosca do coronel de Caracas. Trata-se da criação de um novo e presumivelmente duradouro bloco de controle da máquina estatal, da manipulação desabrida de um sistema político desvitalizado e da exploração incessante do culto à personalidade do líder, para que a adulação da massa legitime os seus desmandos e intimide a oposição.

É a construção do que o ex-presidente Fernando Henrique denomina “autoritarismo popular” – um acúmulo de transgressões e desvios que “vai minando o espírito da democracia constitucional”, como adverte no artigo Para onde vamos?, publicado domingo neste jornal. Esse processo de erosão das instituições e procedimentos é tão mais temível quanto menos ostensivo e menos expresso em atos de violência política crassa, à maneira do que Chávez faz na Venezuela para quebrar a espinha da democracia no seu país. A lógica dos objetivos não difere – “a do poder sem limites”, aponta Fernando Henrique -, mas o método, no Brasil do lulismo, é insidioso. Por isso mesmo, “pode levar o País, devagarzinho, quase sem que se perceba, a moldar-se a um estilo de política e a uma forma de relacionamento entre Estado, economia e sociedade que pouco têm que ver com nossos ideais democráticos”.

No interior do governo, Lula aninha uma burocracia sindical que se apropria sistematicamente do mando dos gigantescos fundos de pensão das estatais, os quais, por sua vez, têm assento nos conselhos das mais poderosas empresas brasileiras. Forma-se assim uma intrincada trama de interesses que se respaldam reciprocamente, não raro em parceria com empresários que conhecem o caminho das pedras – “nossos vorazes, mas ingênuos capitalistas”, diz Fernando Henrique -, fundindo-se “nos altos-fornos do Tesouro”. Isso dá ao presidente um poder formidável sobre o Estado nacional que extrapola de longe as suas atribuições constitucionais. É uma espécie de volta, em trajes civis, ao regime dos generais. No trato com o Congresso, Lula faz os pactos que lhe convierem com tantos Judas quantos estiverem dispostos a servi-lo para se servirem dos despojos da administração federal, enquanto a oposição balbucia objeções que dão a medida de sua irrelevância.

“Parece mais confortável”, acusa o ex-presidente, “fazer de conta que tudo vai bem e esquecer as transgressões cotidianas, o discricionarismo das decisões, o atropelo, se não da lei, dos bons costumes.” Mais confortável porque mais seguro. São raros os políticos oposicionistas que não se deixam acoelhar pelas pesquisas de opinião que mantêm Lula nas nuvens e que o aparato de comunicação do Planalto, sob a sua batuta, não cessa de exacerbar – daí a pertinência do termo “culto à personalidade”. Desde a derrota de 2006, o PSDB de Fernando Henrique praticamente desistiu de expor as responsabilidades pessoais do adversário vitorioso pela autocracia em marcha no País. Os pré-candidatos tucanos José Serra e Aécio Neves, por exemplo, medem as palavras quando falam de Lula, decerto receando que ele possa fazê-las se voltarem contra eles mesmos junto ao eleitorado que o venera. Mesmo na condenação à campanha antecipada da ministra Dilma Rousseff, a oposição parece comportar-se como se estivesse “cumprindo tabela”.

Lula não precisa tomar emprestada a borduna de Hugo Chávez para ditar os modos e os caminhos da evolução da política nacional. “Partidos fracos, sindicatos fortes, fundos de pensão convergindo com os interesses de um partido no governo e para eles atraindo sócios privados privilegiados”, descreve Fernando Henrique, “eis o bloco sobre o qual o subperonismo lulista se sustentará no futuro, se ganhar as eleições.”

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2 COMENTÁRIOS PARA "O ”autoritarismo popular” de Lula":

Comentado por rafael j em 04/11/2009 - 12:48h:

O artigo do ex-presidente e esse editorial de um importante veículo de comunicação constituem a base ideológica e argumentativa do que poderia ser o alvorecer de um movimento golpista.
A história do Brasil e da America Latina mostra a estreita relação de atentados contra a democracia em nome da garantia de uma suposta democracia, diante do sucesso político de governos de esquerda.
Sem condição de reocupar o poder via convencional apela-se para o eminente perigo de perpetuação no poder apoiado na estrutura do estado a serviço do governo em questão. Esse é o primeiro passo, depositar nos setores medios da sociedade o medo de uma guinada esquerdista, e mal uso do dinheiro público via corrupção ou aparelhamento do setor público.
Os mesmos argumentos que justificaram a pressão pelo fim ao Estado Novo getulista, seu posterior suicídio em um governo democrático, diversas ameaças de golpe durante os governos de Janio e João Goulard até o sucesso em 64.
FHC faz o mesmo ao plantar o medo de uma vitória petista em 2010 usando os velhos argumentos.

Olho neles.

Comentado por Evaristo Almeida em 04/11/2009 - 14:09h:

O grupo O Estado sabe muito bem o que é autoritarismo, afinal a família Mesquita apoiou o golpe de estado de 1964. Eles são cúmplices da prisão, tortura e morte de muito brasileiros. Os Mesquitas com esse editorial hediondo querem repercutir o cadáver insepulto chamado de Fernando henrique Cardoso. Esse o povo brasileiro nem se lembra mais o que foi. Está morto para a história política do país. Felizmente o Manifesto do dia dos mortos do fhc não teve a repercussão que ele e os Mesquitas desejavam. Estão a pregar no deserto. Afinal foram eles que defenderam o golpe em Honduras, é só ler o Estadão das última semanas para saber como pensam os Mesquitas. Esse país nunca viveu nos mais de 500 anos de história um período em que os direitos individuais e a democracia fossem tão respeitados. Os Mesquitas e o PSDB não estão acostumados a viver em democracia. São autoritários. Vão perder a eleição em 2010. Dilma vai ser eleita e o país vai avançar social e economicamente a despeito do déspotas que se locupletaram nesse país nesses 500 anos. A elite brasileira é corrupta e predadora. É ISSO.

 

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