Um ”Vale do Silício” para o pré-sal

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Petrobrás e UFRJ trabalham para transformar a Ilha do Fundão, no Rio, no ”Vale do Silício” das pesquisas de petróleo

Nicola Pamplona – O Estado SP

Inspirados no modelo que deu origem ao Vale do Silício, na Califórnia, Petrobrás e Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) trabalham para transformar a Ilha do Fundão no maior centro global de pesquisa tecnológica do setor de petróleo. O esforço já conseguiu a proeza de colocar lado a lado os três maiores prestadores de serviço de perfuração de poços do mundo. Ao todo, o projeto do Parque Tecnológico do Rio já atraiu 200 empresas dos mais variados portes e espera fazer do local um polo exportador de conhecimento.

“Isso aqui será um local único no mundo”, orgulha-se o diretor do Parque Tecnológico, Maurício Guedes, enquanto mostra as modernas instalações do centro de pesquisa em imagens em 3D e do Laboratório Oceânico, usado para simular as condições marítimas, ambos em operação. Sede do câmpus principal da UFRJ, a Ilha do Fundão já conta com o Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da Petrobrás (Cenpes). Além da Coppe, instituto de engenharia que é um dos maiores parceiros da estatal.

Com 350 mil metros quadrados, a área do parque é hoje um imenso canteiro de obras, com a construção de centros de pesquisa de variadas especialidades. A maior parte, porém, tem relação com o setor de petróleo, diante da necessidade de desenvolvimento de novas tecnologias para a exploração do pré-sal. Ao lado do Laboratório Oceânico, por exemplo, há um canteiro onde serão erguidos os laboratórios da gigante francesa Schlumberger, uma das três maiores prestadoras de serviço de perfuração de poços.

Sua concorrente Baker Hughes, com sede nos Estados Unidos, vai erguer seu centro na quadra vizinha. As duas empresas dividem com a Halliburton o mercado e foram convidadas pela Petrobrás para desenvolver ferramentas e materiais compatíveis com o tipo de rocha encontrada abaixo do sal.

“Não há, no mundo, tecnologia para essa rocha. Então resolvemos que a pesquisa deverá ser feita no Brasil, para nacionalizar também o desenvolvimento científico”, diz o diretor de exploração e produção da Petrobrás, Guilherme Estrella.

A Baker Hughes, por exemplo, vai investir cerca de US$ 50 milhões na construção de seus laboratórios, que devem empregar entre 100 e 110 pessoas, a maioria pesquisadores com alto grau de especialização. A empresa já iniciou a contratação de geólogos, geofísicos e engenheiros, entre outros, que passarão por treinamento em centros de pesquisa da empresa no exterior antes do início das atividades no País, previsto para o início do ano que vem.

A necessidade de reduzir prazos e custos de perfuração e a crescente importância do Brasil, em geral, e da Petrobrás, como cliente, motivaram o investimento, diz o vice-presidente de desenvolvimento de negócios da Baker Hughes no Brasil, Maurício Figueiredo. A proximidade com o centro de pesquisas da Petrobrás, reconhecido internacionalmente, é outro fator que atrai as companhias à Ilha do Fundão.

“Estar ali, a 500 metros do Cenpes, facilita a troca de informações”, comenta o diretor de Pesquisa e Inovação da Usiminas, Darcton Policarpo Damião. Em fevereiro, a companhia assinou convênio com a Coppe para desenvolver aços especiais para o pré-sal com o auxílio do Laboratório de Ensaios Não Destrutivos, Corrosão e Soldagem do instituto, um dos mais modernos do mundo. Os trabalhos serão desenvolvidos em um centro de pesquisas que a siderúrgica construirá no Parque Tecnológico.

A fabricante de equipamentos submarinos FMC é outra que já se comprometeu com a abertura de um laboratório no local, que terá ainda laboratórios de desenvolvimento de tecnologias de recuperação de ecossistemas e de automação industrial, entre outros. Segundo Guedes, toda a área do Parque do Rio já está negociada e há planos de ampliação do espaço para receber novas empresas. A expectativa da direção é que, em três a quatro anos, cinco mil pesquisadores trabalhem no local.

Muitos virão de fora do País, admite Figueiredo, da Baker Hughes. Para Guedes, porém, a interação com especialistas de locais diferentes é positiva, por permitir a troca de experiências. “A comunidade científica já trabalha de forma global”, aponta. No caso do Parque Tecnológico do Rio, diz, a grande vantagem é trazer as empresas para o convívio com a comunidade. “O problema é que ainda não conseguimos transformar o desenvolvimento científico em riqueza. Acho que agora conseguiremos.”

O parque já é sede de um exemplo de como a inovação pode ser transformada em negócio. Resultado de pesquisas no Laboratório de Métodos Computacionais de Engenharia da Coppe, a Virtually comercializa um simulador de operação de caminhões e guindastes de grande porte, como os usados em portos e plataformas petrolíferas. O equipamento, que custa entre R$ 800 mil e R$ 1,2 milhão, já está no mercado, inclusive internacional, com duas unidades operando na Itália.

A tecnologia recebeu Atestado de Exclusividade de Produção Nacional da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee). O software pode ser trabalhado para simular a operação em portos brasileiros. “É um exemplo de como a pesquisa pode se transformar em produto e depois retornar em benefício para a universidade”, diz Gerson Gomes Cunha, um dos sócios da Virtually. Parte da receita é devolvida ao laboratório, a título de royalties, para ser aplicada em novas pesquisas.

O projeto inicial do parque não tinha foco no petróleo, conta Guedes, mas a demanda por novas tecnologias para o setor alterou a ideia original. Ele destaca que a legislação brasileira, que destina 1% da receita com a produção de óleo e gás para pesquisa, deu impulso extra ao projeto. Só no ano passado, a rubrica rendeu mais de R$ 600 milhões em convênios com universidades no Brasil.

Para as grandes empresas, porém, ainda há questões a serem equacionadas antes que o parque deslanche, notadamente na área de infraestrutura. A Ilha do Fundão é um local de difícil acesso e com problemas de segurança, o que pode afugentar pesquisadores, ressalta o vice-presidente da Baker Hughes. “É preciso de apoio do poder público, com saneamento, iluminação e policiamento”, conclui.

Petrobrás investe quase R$ 1 bi em centro de pesquisa

Área será mais que duplicada, de 122 mil para 305 mil metros quadrados

Além do papel de atrair empresas para o Parque Tecnológico do Rio, a Petrobrás vem investindo na ampliação do próprio centro de pesquisa, reconhecido no mercado internacional pela especialização em águas profundas. O investimento, de R$ 900 milhões, mais do que duplicará a área, passando de 122 mil para 305 mil metros quadrados. Com arquitetura ousada, o edifício terá foco nas atividades do pré-sal e no desenvolvimento de energias renováveis.

Com a ampliação, o Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da Petrobrás (Cenpes) passará a ter 227 laboratórios. Um dos mais modernos será destinado à visualização em 3D de dados do subsolo e equipamentos. “Lá, o engenheiro poderá entrar na estrutura que estiver projetando”, conta o diretor de exploração e produção da estatal, Guilherme Estrella. Toda em estrutura metálica, a obra impressiona quem passa pelo câmpus da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

“Não há empresa no mundo investindo em pesquisa como a Petrobrás”, comenta o vice-presidente de desenvolvimento de negócios da Baker Hughes, Maurício Figueiredo. Os gastos nesse segmento são fruto da necessidade de ampliar a produção de petróleo em condições diferentes das principais bacias produtoras no mundo.

“A Petrobrás chegou aqui na década de 60 pensando em pesquisar refino, mas, com a descoberta da Bacia de Campos, precisou focar em tecnologias para águas profundas”, destaca o diretor do Parque Tecnológico do Rio, Maurício Guedes.

O Cenpes coleciona alguns prêmios internacionais pelas tecnologias desenvolvidas. Com a descoberta do pré-sal, a importância da pesquisa é ainda maior. Nenhuma região no mundo tem produção marítima em rochas semelhantes às encontradas abaixo do sal na costa brasileira. Além disso, as reservas estão a uma distância de 300 quilômetros da costa e a mais de 5 mil metros de profundidade, o que amplia o desafio.

Para os especialistas entrevistados pelo Estado, uma das grandes vantagens no crescimento dos investimentos em pesquisa petrolífera está na criação de empregos altamente qualificados. São pesquisadores com doutorado, pós-doutorado e cursos no exterior. A busca por esses profissionais, por sinal, é o principal desafio das empresas que querem se instalar no Brasil.

O aumento na circulação desse tipo de profissional já provoca mudanças no dia a dia da universidade. A área do Parque Tecnológico, por exemplo, recebeu o investimento na abertura de uma filial de um restaurante mais sofisticado da zona sul da cidade, que contrasta com os tradicionais trailers que garantem a alimentação da maior parte dos alunos.

Califórnia, o modelo para o Brasil

Resultado de um programa de fomento à pesquisa da Universidade Stanford, na Califórnia, o chamado Vale do Silício é hoje o mais emblemático parque tecnológico do mundo. O projeto começou por volta da década de 50, quando a universidade doou terras para empresas do setor de eletrônica, em esquema semelhante ao que ocorre agora com o Parque Tecnológico do Rio.

O desenvolvimento de tecnologias atraiu, anos mais tarde, empresas de informática e microeletrônica, que fizeram a fama mundial do lugar. Hoje, o Vale do Silício é um dos maiores exportadores de alta tecnologia do mundo.

A região abriga empresas do porte de Apple, Cisco Systems, Google, Hewlett-Packard e Intel. Outras gigantes, como Microsoft e Nokia, têm sedes em outras cidades, mas têm presença no vale. Ao todo existem hoje cerca de 1,5 mil parques tecnológicos espalhados pelo mundo. Nenhum deles, porém, com foco no setor de petróleo e gás.

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