30/06/2010 - 22:00h Boa noite


Gustav Mahler – Sinfonia N° 4 em G maior – Primeiro movimento

Bedächtig, nicht eilen

Vienna Philharmonic Orchestra (Wiener Philharmoniker)

Regente Leonard Bernstein

30/06/2010 - 19:29h A trompa mágica


Gustav Mahler Sinfonia N° 4 in G major

4to. Movimento (1/1)
Sehr behaglich

Vienna Philharmonic Orchestra (Wiener Philharmoniker)

baseado em “Des Knaben Wunderhorn”
Soprano Edith Mathis

Regente: Leonard Bernstein

30/06/2010 - 17:29h Após o pastelão, a ressaca

Afilhado de Cesar Maia, Indio da Costa vira vice de José Serra.

Jovem parlamentar em primeiro mandato, mas experiente colaborador da gestão de Cesar Maia na Prefeitura do Rio, Indio da Costa foi escolhido como remendo do buraco provocado na relação com o DEM pela ação atordoada de um Serra acuado e sem perspectiva.

A reviravolta de Serra expõe os pequenos cálculos que o levaram a escolher Álvaro Dias e sua verdadeira dependência à chantagem dos Democratas.

Nem sequer deu tempo de secar a tinta dos artigos que doutamente explicavam o afastamento de Serra da “direita”, eis que o tucano sela um recuo público, inesperado para muitos desses mesmos analistas.

A decisão preserva a aliança com o DEM e seus minutos, mas o isolamento da candidatura fica bem mais exposta ainda. É uma coligação em frangalho que permanece unida pelo instinto de sobrevivência, após ter jogado a toalha de qualquer disfarce sobre suas reais motivações.

Ontem, Valdo Cruz, da Folha SP explicava assim a situação:
“Só que a possibilidade do candidato tucano à Presidência recuar é próxima de zero. E os democratas sabem muito bem disso. E sabem porque sabem que, desde sempre, Serra nunca morreu de amores pelo DEM. Pelo contrário. O ex-governador paulista vinha dizendo nas últimas semanas que não queria um nome dos democratas na sua chapa.” (Faltou carinho, falta opção!, Valdo Cruz aqui).

Poucas horas depois é bem um Serra com o rabo entre as pernas, cedendo ao DEM e içando a falta de opção ao posto de vice, que sorri amarelo. Talvez sem muito carinho, mas engolindo em seco, José Serra mostrou que é bem ele que não tem opção. O casamento com o DEM suporta qualquer acinte e tal um náufrago aferrado a uma bóia, assim deriva uma candidatura sem programa, sem discurso e sem perspectiva.

Ontem, respondendo a Valdo Cruz, entre outros, escrevi que “Serra ficou assim reduzido a escolher o que for, a condição de aportar alguma coisa, por mais pequena que fosse.” (O fracasso da estratégia política de José Serra).

Hoje o liliputiano Indio da Costa foi escolhido pelo DEM para acompanhar o Gulliver de pacotilha em que se transformou a esperança da oposição nestas eleições.

A menos que algum “salvador da pátria” vier a ser convocado para tentar consertar o estrago com uma nova cara para a oposição, os acontecimentos podem ter selado de vez a candidatura de José Serra ao Planalto.

Luis Favre

30/06/2010 - 17:02h Viagem ao universo íntimo feminino

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Cena do filme A mulher sem piano, de Javier Rebollo

Luiz Zanin Oricchio – O Estado de S.Paulo

FORTALEZA

Um Cine São Luiz cheio apenas pela metade depois da vitória do Brasil sobre o Chile, assistiu a uma ótima amostra do novo cinema espanhol – A Mulher Sem Piano, de Javier Rebollo. Filme de corte minimalista, fala sobre a solidão de uma mulher de meia-idade, depiladora profissional, e que vive com um marido que não lhe dá a mínima bola.

Essa obra de planos parados, lenta, reflexiva e cheia de melancolia talvez não se adapte bem ao clima de Copa do Mundo. Mas quem deixou de ir ao cinema perdeu uma experiência rara, dessas iguarias para cinéfilos de fino trato. A Mulher Sem Piano vale muito pelo rigor dos seus enquadramentos e sua decupagem. Vale pela utilização sempre surpreendente da música. Vale pela intensidade de sua personagem principal, Rosa (Carmem Machi). E vale ainda mais por aquilo que é sugerido e nunca dito diretamente. Quer dizer, exige do espectador participação para compreender aquele universo íntimo feminino.

Há um pano de fundo histórico, visível apenas por imagens de TV. O dia em que acontece a história é 16 de março de 2003, quando o primeiro-ministro de Portugal, José Manuel Durão Barroso, recebe Bush, e os então premiês Tony Blair, da Grã-Bretanha, e José Maria Aznar, da Espanha, para consertarem a aliança contra o Iraque. Fala-se das armas de destruição em massa (que, afinal, não foram encontradas) e no ultimato a Saddam Hussein. Os negócio escusos do grande mundo continuam enquanto Rosa dá seguimento à sua pequena vida.

Vida em crise, com marido indiferente, sexo limitado ao vibrador de estimação, conversas com as clientes. Rosa resolve mudar. Faz a mala e decide viajar, mas mesmo ela não poderia supor que tipo de viagem estaria iniciando no momento em que deixa a casa e se dirige à estação rodoviária de Madri. Lá encontra, por acaso, o polonês Rodek, minucioso, amante de consertar objetos quebrados, e que só espera ser preso pela polícia do seu país em função de uma dívida que não conseguiu pagar.

Se, com essa história, alguém espera ver um caso de amor convencional, pode desistir. Com seus planos parados e travellings lentos, Javier Rebollo recorta uma fatia de solidão urbana como há muito não se via. É filme que, por suas lacunas que falam muito, lembra o universo de Aki Kaurismaki em Um Homem Sem Passado. Rosa parece uma mulher sem futuro. Mas ela também dá a impressão de que pode muito bem inventar alguma coisa de diferente para si. Belo filme, já sério candidato ao troféu principal do Cine Ceará.

30/06/2010 - 16:16h Retrato de Frida de corpo inteiro

Livro de fotos complementa biografia de Le Clézio e ainda revela sua conturbada relação com o marido e os amantes

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Antonio Gonçalves Filho – O Estado de S.Paulo

Um dos mais conhecidos quadros de Frida Kahlo, de 1939, mostra duas irmãs siamesas sentadas de mãos dadas e com os dois corações unidos pela mesma artéria. Para o escritor francês J.M. Le Clézio, trata-se do mais sincero autorretrato feito pela pintora entre os muitos que pintou. As Duas Fridas seriam tanto a artista sonhadora que vivia nas nuvens como a mulher sofrida que aos 6 anos foi atingida por uma poliomielite e aos 18 teve a coluna vertebral fraturada num acidente de ônibus. Le Clézio se propõe, em seu livro, a contar a turbulenta história de amor dessa mulher dividida com o também pintor Diego Rivera, mas, discreto, evita outros casos – com homens e mulheres – que esclarecem muito sobre a vida da pintora surrealista – rótulo, aliás, que detestava. Assim, o livro Frida Kahlo – Fotos, com lançamento mundial no Brasil, Alemanha, Canadá, EUA, França e México, avança no ponto em que Le Clézio recua, mostrando como a garota precoce construiu sua autoimagem fazendo intervenções em alguns de seus retratos, seja melhorando seu rosto ou eliminando os de pessoas que, de algum modo, detestava, como a segunda mulher de Rivera, Lupe Marín, cujo rosto rasgou numa das fotos.

Embora negasse ser fotógrafa, Frida herdou do pai o talento e a mania dos autorretratos, gênero cuja presença na história da arte revela uma tentativa de autoconhecimento, mais do que pura vaidade. E ela produziu inúmeros deles, além de fotos experimentais como as de seu pai, fotógrafo profissional. A mais impressionante faz alusão ao acidente sofrido em 17 de setembro de 1925, em que o corrimão de um ônibus transpassou-lhe o ventre e saiu por sua vagina: trata-se de uma boneca de pano jogada ao lado de um cavalinho de madeira. Outra mórbida alusão à tragédia é a foto de uma caveira de arame largada num jardim. Não são fotos assinadas, como as do pai, mas a diretora do Museu Frida Kahlo, Hilda Trujillo Soto, que fez a catalogação do arquivo, garante serem ambas obras da pintora.

No acervo da Casa Azul onde morou Frida, foram encontradas, segundo a diretora, fotografias de Stalin que a pintora utilizou para fazer seu último quadro, inacabado, Frida e Stalin (1954). Foi um dos seus poucos quadros “revolucionários” em que pintou, por miopia ideológica, o retrato do sanguinário ditador morto um ano antes. Frida era comunista, mas fez de sua pintura um exercício intimista de autorretratos e naturezas-mortas, ao contrário de Rivera, que dividia com ela a mesma ideologia e pintou retratos de líderes comunistas russos – um deles o de Lenin, imiscuído num painel encomendado (e destruído) pelo milionário americano Rockefeller em 1933. Rivera, contraditório, também admirava profundamente o bilionário Henry Ford, de quem se tornou amigo.

Le Clézio diz que Frida, descendente de judeus, jamais entendeu a paixão do marido por Henry Ford, antissemita assumido. No entanto, cumpriu à risca o papel que lhe reservaram nessa encenação teatral em solo americano. Nela, “Diego fazia o papel de libertador e ela, o de princesa asteca”, segundo o Nobel francês. Foi lá o começo da derrocada amorosa do casal. Não sem razão, tanto Trotski como o líder do movimento surrealista André Breton entraram na vida dos dois no momento em que essa união se desfazia, em 1936. Le Clézio sustenta que Frida seduziu Trotski em 1937 por capricho, fazendo o revolucionário se comportar como um colegial, com direito a bilhetinhos e encontros secretos.

Já a pintora, segundo um dos ensaístas do livro de fotos, o curador Pablo Ortiz Monasterio, teria sido ao mesmo tempo a Blanche DuBois e o Stanley Kowalski da peça Um Bonde Chamado Desejo. Ou seja, “frágil e patética como ela e forte e sedutora como ele”. Confere. O biógrafo Le Clézio diz o mesmo de sua dividida personalidade: “Ele (Rivera) é o homem nela; ela (Frida), a mulher nele”, resume, definindo a relação do casal como um doentio ritual de interdependência, em que Frida seria uma Jocasta a cuidar de um gigante da arte mexicana como se fosse um menino perdido. Díspares, ambos foram criadores e revolucionários, mas a seu modo. O engajamento político de Frida, reforçado por sua relação com a fotógrafa Tina Modotti, não impediu que ela separasse arte e política – ela mesma dizia que sua pintura não era revolucionária. Tampouco que considerasse seus amigos surrealistas idiotas. Le Clézio afirma que ela passou a detestar Breton e sua turma de “estúpidos intelectuais”. O mesmo sentimento ambivalente ela conservou com relação à mãe, quase ignorada no livro do Nobel, mas analisada no livro de fotos por Masayo Nonaka: os trajes regionais e o gosto por chamar a atenção vieram dela. Sem Matilde Calderón (1876-1932) o mundo jamais teria conhecido a Frida de trajes indígenas e coque.

UMA VIDA EM IMAGENS
Obsessão
Ao fotografar brinquedos populares em 1929, Frida recria a cena de seu trágico acidente de 1925.

Paixão
Frida Kahlo ao lado de Tina Modotti (1928): fotógrafa foi mentora ideológica e a mulher que mais admirou

Moderna
A emancipada Frida fumando na Casa Azul, hábito que provocava a sociedade mexicana em 1930.

30/06/2010 - 15:40h Frida inédita

Livro de fotos com tiragem única revela a intimidade da pintora mexicana, também retratada em Diego e Frida, do Nobel Le Clézio

Antonio Gonçalves Filho – O Estado de S.Paulo


Olhar amoroso.
Frida Kahlo aos 39 anos, em Nova York, captada pelo fotógrafo americano de origem húngara Nicholas Muray (1892-1965), seu amante como foram Trotski e Tina Modotti.


Se o mundo tivesse acreditado nas inocentes mentiras da pintora mexicana Frida Kahlo, este ano seria comemorado seu centenário do nascimento (ela dizia ter nascido em 1910). Mas, como existem cartórios de registro civil, ele já foi comemorado três anos atrás. A mais popular entre as mulheres pintoras, nascida oficialmente em 1907 e morta em 1954, escondia outras coisas além da idade. Parte desse mistério é desvendado agora com o lançamento do livro Frida Kahlo – Suas Fotos (Cosac Naify) com mais de 400 fotografias do arquivo Museu Frida Kahlo sob a guarda do Banco do México, selecionadas pelo fotógrafo, editor e curador mexicano Pablo Ortiz Monasterio. Publicada simultaneamente com a Editorial RM, do México, a edição brasileira do livro, tiragem única com 7 mil exemplares, chega às livrarias neste fim de semana e mostra por meio de imagens a trajetória da pintora surrealista casada com o pintor Diego Rivera. E é justamente a relação dos dois o tema de outro livro, Diego e Frida, originalmente publicado em 1993 pelo Nobel francês J.M. Le Clézio e agora lançado pela Editora Record. Muitos fatos omitidos pelo autor em sua biografia são revelados no livro das fotos da artista, que durante muito tempo ficaram distante do olhar indiscreto do público.

São fotos que explicam sua obsessão por autorretratos herdada do pai, um fotógrafo judeu de origem alemã, e escancaram a liberdade sexual da artista, amante tanto de personagens históricos – o líder revolucionário Leon Trotski – como de mulheres emancipadas, entre elas a fotógrafa Tina Modotti e Tara Pandit, sobrinha do ex-primeiro ministro indiano Jawaharlal Nehru. Parece claro que Diego Rivera, que traía Frida com mais frequência, pretendia manter certa discrição sobre esses relacionamentos. Tanto que, ao fazer a doação do acervo fotográfico da mulher ao Banco do México, pediu que o material fosse guardado e só se tornasse público 15 anos depois de sua morte. A empresária, musicista e filantropa mexicana Dolores Olmedo, amiga do casal, guardou o acervo por 50 anos. Após sua morte, em 2002, ele foi finalmente aberto e catalogado.

30/06/2010 - 12:24h Doze municípios paulistas vão receber verba do PAC das Cidades Históricas

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O Estado de S.Paulo

Doze entre 135 municípios paulistas com bens tombados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) vão participar do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) das Cidades Históricas, lançado em outubro. São estimados R$ 222 milhões de investimento em criação ou recuperação de bens históricos, desenvolvimento do turismo e preservação da memória.

Entre os municípios beneficiados estão Santo André, São Bernardo do Campo, São Luís do Paraitinga e Cotia. “É um planejamento para quatro anos”, afirma o coordenador do PAC das Cidades Históricas em São Paulo, Leonardo Falangola. No total, serão realizadas 164 ações nesse período, com participação dos governos federal, estadual e municipal.

Cada projeto, depois de cadastrado e aprovado, poderá ser contemplado com verbas específicas de órgãos como os ministérios do Turismo ou das Cidades ou secretarias estaduais e municipais.

30/06/2010 - 11:55h Imóvel vazio no centro pagará mais IPTU

Se em cinco anos o dono não resolver a situação, além do imposto até 15% maior, poderá ter a casa ou o apartamento desapropriado

600 mil moradores a mais poderiam morar no centro se as zonas de habitação popular tivessem sido implementadas pela Prefeitura

Diego Zanchetta, Rodrigo Brancatelli – O Estado de S.Paulo

Após nove anos de discussões, a Câmara Municipal de São Paulo aprovou, por 45 votos – e nenhum contra -, em segunda discussão, uma lei que estabelece o Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) progressivo para imóveis ociosos. Pela proposta, o proprietário terá de comprovar o uso de seu apartamento ou casa na região central. Caso contrário, vai pagar um aumento sucessivo de até 15% do IPTU e ainda poderá ser desapropriado.

Apontado como um grande avanço para minorar o déficit habitacional de São Paulo e frear a especulação imobiliária, o projeto vale para todos os imóveis e terrenos localizados em zonas centrais voltadas para habitação social. Essas áreas, chamadas de Zona Especial de Interesse Social (Zeis 2 e 3) pelo Plano Diretor de 2002, estão espalhadas pela Sé, República, Santa Cecília, Barra Funda, Cambuci e Mooca. Segundo estudo da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU), 420.327 casas e apartamentos do centro estão atualmente ociosos.

Líder do governo na Câmara e autor da proposta, o vereador José Police Neto (PSDB) considera que a progressão do imposto sobre terrenos ociosos é um instrumento que pode ajudar a frear a explosão dos preços dos imóveis na capital, aumentar a oferta de residenciais no centro e melhorar a mobilidade – uma vez que os imóveis ociosos no centro estão em uma área com grande infraestrutura, servida por quatro estações do Metrô e quatro terminais de ônibus. “Com maior oferta de terrenos, a tendência daqui a dois ou três anos é o preço dos apartamentos diminuírem”, diz o vereador.

A partir do momento em que o prefeito Gilberto Kassab (DEM) sancionar a lei, o que deve ocorrer nos próximos 15 dias, os proprietários dos imóveis atingidos serão notificados pela Prefeitura para promover o adequado aproveitamento dos imóveis. Esses proprietários então terão um ano para comprovar o uso do terreno ou protocolar um alvará de aprovação de um novo imóvel – obras de parcelamento do solo ou de novas edificações podem durar no máximo cinco anos.

Em caso de descumprimento das condições e dos prazos impostos pela nova lei, será aplicado o IPTU progressivo, mediante o aumento anual e consecutivo da alíquota pelo prazo de 5 anos, até o limite máximo de 15%. Por fim, a Prefeitura poderá desapropriar o imóvel com o pagamento em títulos da dívida pública, que serão resgatados no prazo de até dez anos.

Na prática, o IPTU progressivo pressiona aquele proprietário que aguardava, por exemplo, uma mudança de zoneamento. “O tributo faz acelerar aquelas parcerias entre empreiteiras e construtoras que estavam em stand by, esperando um melhor momento de determinada região”, afirmou o vereador Milton Leite (DEM).
PERGUNTAS & RESPOSTAS
Imposto progressivo
1.
Quais imóveis poderão pagar mais IPTU?
Serão atingidos os imóveis e terrenos localizados em áreas da região central destinadas à moradia popular ou social. Essas regiões, chamadas de Zeis 2 e 3, estão previstas no Plano Diretor de 2002. Todos os proprietários serão notificados por carta ou por edital.

2.
Como o proprietário vai provar o uso do imóvel?
Ele poderá apresentar contrato de aluguel, contas de serviço público, como água ou luz, ou dar entrada com um projeto de aprovação e execução de nova edificação.

3.
Em caso de espólio, o IPTU progressivo vale?
A lei também prevê a aplicação do novo imposto sobre imóveis que estão na Justiça por brigas. Esses imóveis podem ser alugados para evitar a ociosidade.

4.
Em que caso o imóvel será desapropriado?
Se o proprietário não cumprir as determinações da nova lei, ele passará a ter aumentos progressivos do IPTU em um prazo de cinco anos, até o máximo de 15%. Se o terreno ou imóvel continuar ocioso, a Prefeitura poderá desapropriar o imóvel com pagamento em títulos da dívida pública. Esses títulos serão resgatados no prazo de até dez anos.


IPTU progressivo é instrumento de ação urbanística

Análise: Nestor Goulart Reis – O Estado de S.Paulo

O imposto progressivo sobre propriedades imobiliárias e não ocupadas, isto é, sem uso, é um instrumento fundamental de ação urbanística. Sua base legal é o reconhecimento da dimensão social da propriedade. O valor de edifícios e terrenos urbanos é determinado pela presença da infraestrutura e dos demais serviços oferecidos diretamente pelo poder público ou por concessão deste e pela demanda criada pelos usuários dos imóveis ao seu redor. Em qualquer caso, os proprietários beneficiam-se de investimentos de recursos públicos ou custeados por outros setores.

Há, portanto, uma forma de cooperação e uma forma de compensação. Quando o imóvel não é utilizado, o proprietário deixa de contribuir para o valor de sua área envoltória e deve perder em termos de compensação.

Nas áreas em renovação, cada proprietário tende a esperar a valorização de seu imóvel, mas poucos pensam em investir em ações conjuntas para promover seu desenvolvimento. Com o imposto progressivo, muitos deles deverão se interessar por projetos que superem esse impasse. Um processo semelhante deve concorrer com as áreas periféricas, hoje subaproveitadas.

Mas há um detalhe que deve ser lembrado. Um projeto imobiliário de maior porte exige hoje cerca de quatro anos para sua aprovação em todas as instâncias. A forma de aplicação do imposto deverá ter em vista essa dificuldade. Deverá ser um estímulo, não um impedimento.

É ARQUITETO, SOCIÓLOGO E PROFESSOR DA FAU-USP

30/06/2010 - 11:30h SP tem 6º trajeto mais difícil até o trabalho

Constatação é parte de pesquisa da IBM com motoristas de 20 cidades em 5 continentes que opinaram sobre deslocamentos que fazem diariamente

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Ana Bizzotto – O Estado de S.Paulo

São Paulo tem o sexto trajeto mais difícil entre a casa e o trabalho, quando comparada a outras 19 cidades dos cinco continentes. A constatação faz parte da pesquisa global IBM Commuter Pain, feita em maio, que ouviu 8.192 motoristas de 18 a 65 anos. Os dados foram compilados em um índice que avalia o custo econômico e emocional dos trajetos.

O estudo reúne informações de grandes metrópoles como Pequim, onde o trajeto apresentou menos obstáculos, e de cidades menores, como Estocolmo, que teve o percurso mais bem avaliado. Na capital paulista, dos 466 motoristas ouvidos, 35% disseram que o trânsito piorou nos últimos três anos, e 26% acham que piorou muito. “Com a economia indo bem, as pessoas querem viajar mais, se mover mais. É preciso tomar medidas urgentes para melhorar o trânsito”, diz o diretor de cidades inteligentes da IBM, Pedro Almeida. “Transporte e mobilidade urbana tem de ser prioridade no País, principalmente com a proximidade da Copa 2014.”

Sobre os efeitos do trânsito, 73% dos motoristas de São Paulo disseram que ele afeta negativamente a saúde. Desse total, 55% disseram que o estresse aumenta, 37% ficam com raiva, 17% têm problemas respiratórios, 7% sofreram acidentes e 20% tiveram o sono reduzido. O número de dias em que essas pessoas trabalham em casa também foi levantado: 60% trabalham pelo menos um dia por semana em casa.

Soluções. Segundo Almeida, a melhoria de fluidez está relacionada à adoção de tecnologias eficazes nos sistemas de transporte. São medidas como controle inteligente de semáforos, adotado em Curitiba e Cingapura, e cobrança de pedágio urbano por sensores, adotada em Estocolmo e em outras cidades. “O problema não é usar ou não o carro, e sim como tratar a questão. Em um sistema inteligente, a tecnologia ajuda a obter informações para entender e lidar com o padrão de trânsito da cidade.”

Para o professor de Transportes da Poli-USP, Jaime Waisman, um sistema de gestão ou pedágio urbano não resolve o problema em São Paulo. “Pedágio penaliza quem não pode pagar. Há muito a fazer na área de engenharia de tráfego, mas a solução não passa pelo automóvel. Nenhum sistema do mundo criará mais espaço. A solução passa por transporte público de qualidade.” Para o consultor Horácio Figueira, também contrário ao pedágio, a tecnologia pode ajudar, desde que colocada a serviço do transporte coletivo. “Não fizeram nada para melhorar a circulação de ônibus. Os investimentos em obras viárias (como a nova Marginal e o Rodoanel) deveriam ser direcionados a essa melhoria, à ampliação de corredores exclusivos. Do jeito que está, em um ano voltaremos a ter grandes congestionamentos na Marginal nas horas de pico.”

Os dados sobre foram enviados à Secretaria de Transportes. Em nota, a pasta diz que para comentar a pesquisa “precisaria de mais detalhes, bem como informações sobre a metodologia.” Segundo a nota, a política da Prefeitura “é a de investir cada vez mais no transporte público da capital”, e a SMT “está trabalhando constantemente para oferecer melhores condições de fluidez e segurança para o tráfego”.

30/06/2010 - 11:11h Mitos e verdades sobre o mercado de trabalho

ColunistaCristiano Romero – VALOR

O forte crescimento da economia antes e depois da recente crise mundial alimentou a tese de que, no atual estágio de desenvolvimento do país, já há escassez de mão de obra. As taxas de desemprego, nas regiões metropolitanas onde a economia é mais dinâmica, estão em níveis historicamente baixos e o rendimento médio real dos trabalhadores tem crescido de forma consistente desde 2006. Essa combinação poderia sugerir, de fato, a existência de problemas no mercado de trabalho, mas os números, olhados de perto, desmentem a ideia de escassez.

As notícias são boas. O economista-chefe do Credit Suisse, Nilson Teixeira, e sua equipe se debruçaram sobre a Pesquisa Mensal de Emprego (PME), feita pelo IBGE, e constataram que não há desequilíbrio no mercado de trabalho. De janeiro a março, o rendimento real efetivo do ocupados cresceu 2,3%, face a uma expansão de 2,4% em 2009 e de 3,9% em 2008. Teixeira acredita que esse indicador fechará 2010 com alta de 3,5%, ligeiramente abaixo do aumento médio de 3,6% entre 2006 e 2008.

Os números mostram recuperação no pós-crise, mas estão longe de revelar explosão. Se houvesse escassez de mão de obra, os rendimentos estariam subindo num ritmo muito mais forte. Um segundo mito cai por terra quando se verifica que, apesar do zunzunzum de alguns setores e empresas quanto à falta de trabalhadores de maior qualificação, o rendimento dos trabalhadores de nível superior está avançando numa velocidade menor que o dos outros profissionais.

Teixeira e sua equipe analisaram os microdados da PME, abrindo as estatísticas do mercado de trabalho de um número maior de setores que os oito grupos mencionados na pesquisa oficial. Eles verificaram 23 setores, representativos de 89% da população ocupada, e concluíram que quem ganha menos está tendo aumentos salariais mais generosos do que aqueles que ganham mais. “Enquanto o rendimento médio dos 11 principais setores que oferecem menor remuneração média aumentou 10% no acumulado do ano até abril, nos segmentos com maiores salários médios o aumento do rendimento foi de 8% no período”, diz o economista-chefe do Credit Suisse.

Quando se analisa por grau de escolaridade, observa-se que os trabalhadores com ensino fundamental (33% da população ocupada) dos 23 setores analisados tiveram, em média, aumento acumulado de 9,6% entre janeiro e abril. Já os que possuem segundo grau (37% do total) ganharam 7,7% no mesmo período e os que têm curso superior (19%), 4,2%. Os números mostram, ainda, que não tem havido discrepância significativa entre os ganhos salariais entre os setores, quando divididos por nível de escolaridade. Um exemplo: enquanto os trabalhadores com ensino superior dos setores com menores rendimentos tiveram ganho salarial de 4%, os de maior rendimento foram aquinhoados com 3,7%.

Em apenas seis, dos 23 setores, profissionais com diploma de ensino superior tiveram, de janeiro a abril, aumento real médio superior ao dos trabalhadores menos qualificados – edição, impressão e reprodução de gravações; fabricação de produtos de metal (com exceção de máquinas e equipamentos); comércio de veículos e combustíveis; móveis e indústrias diversas; alojamento e alimentação; e vestuário.

Apesar disso, a equipe do Credit Suisse constatou que, nesses seis setores, o crescimento da população ocupada entre janeiro e abril foi de 3,6%. Nos 23 setores, a expansão foi de 3,7%. Dessa forma, é possível concluir que os segmentos mais dinâmicos não estão elevando mais fortemente a demanda por profissionais qualificados, logo, os rendimentos também não estão subindo de maneira mais expressiva.

“No nosso entender, o crescimento do rendimento dos trabalhadores com ensino superior não supera o dos demais por conta de não haver desequilíbrio entre a demanda e a oferta por trabalhadores com qualificação relativamente mais elevada”, explica Nilson Teixeira. De fato, os números mostram que a população ocupada com ensino superior avançou no ano, até abril, 8,2%. No mesmo período, a população economicamente ativa (PEA) com educação superior cresceu 7,8%, enquanto a PEA total elevou-se 2%. Já a população desocupada do mesmo segmento encolheu 1,6%. “Esse resultado sugere que, apesar da forte elevação da demanda por trabalhadores mais qualificados, a oferta dos mesmos também cresce expressivamente.”

Na avaliação de Teixeira, o crescimento mais forte da força de trabalho escolarizada não reflete uma maior busca por emprego desses profissionais, mas uma tendência interessante: a qualificação da mão de obra. Dadas as exigências do mercado, os trabalhadores estão indo à luta para se qualificar mais. Os dados mostram isso – o crescimento da população em idade ativa (PIA) com ensino superior foi de 7,3% até abril, enquanto a PIA total subiu 1,5%.

Nos últimos anos, grandes empresas vêm se queixando, por exemplo, da falta de engenheiros no mercado de trabalho. Este é um desafio que o país terá que superar no futuro próximo. Escassez de mão de obra pressiona os custos de produção e, por consequência, a inflação, o que em última instância limita o crescimento da economia. O que a análise do Credit Suisse revela é que o problema, se já existe, não é generalizado, portanto, não deverá limitar a expansão brasileira no curto prazo.

Cristiano Romero é editor-executivo e escreve às quartas-feiras

E-mail: cristiano.romero@valor.com.br

30/06/2010 - 10:37h Mudar ou continuar

Marcos Coimbra – Correio Braziliense

Sociólogo e Presidente do Instituto vox Populi
marcoscoimbra.df@dabr.com.br

A democracia não está na ideia abstrata de alternância. Para o ideal democrático, o relevante não é o conteúdo da escolha. Tanto faz que os cidadãos prefiram continuar ou mudar. O que torna uma sociedade democrática é haver instituições que assegurem, a cada cidadão, a possibilidade real de escolher

Já faz algum tempo, começou a se generalizar no meio político a convicção de que Dilma vai ganhar as eleições. Embora nem todos admitam, é o que pensam até as principais lideranças da oposição, assim como a quase totalidade dos formadores de opinião e da imprensa. Para consumo externo, continuam a dizer que o processo está aberto, que nada está definido. Mas não é o que, no íntimo, acreditam que vai acontecer.

Do lado governista, nem se fala. Não é de agora que os principais estrategistas do Planalto e do PT trabalham com o cenário de crescimento e vitória da candidata de Lula. A rigor, é nisso que apostam desde 2008, quando o presidente deixou claras duas coisas: que ele próprio não tentaria mudar as regras do jogo para disputar um terceiro mandato; e que achava que conseguiria ganhar as eleições com alguém que o representasse.

Tudo que está acontecendo na sua sucessão, até o momento, confirma seu cálculo. Ele não se baseava no que diziam as pesquisas sobre as intenções de voto do conjunto do eleitorado. Ao contrário, o raciocínio sempre foi sobre o potencial de crescimento de uma candidatura identificada com ele e com o governo, avaliados, pela grande maioria da população, como ótimos ou bons.

Nunca foi relevante considerar os resultados agregados das pesquisas (normalmente os que a imprensa divulga), pois misturavam respostas de quem sabia e quem não sabia qual era a candidatura apoiada por Lula. Enquanto não aumentasse a proporção dos que tinham essa informação, a vantagem de Serra era ilusória e não preocupava quem, no PT, sabia fazer as contas.

É de se notar que, na oposição, as pessoas pensaram de maneira oposta. A opção por Serra, em detrimento de Aécio, mostrou que ela preferia escolher em função do desempenho presente dos pré-candidatos, deixando em segundo plano seu potencial de crescimento. Serra prevaleceu pelo patamar de largada, não pela perspectiva de chegada.

Há quem defenda que é cedo para decretar que a eleição está resolvida. De fato, é preciso admitir que muita água ainda pode rolar por baixo da ponte. Não é impossível que Dilma, sua campanha, seus apoiadores e o vasto conjunto de forças políticas mobilizadas para elegê-la cometam erros calamitosos. É, apenas, pouco provável.

Em função da possibilidade cada vez mais concreta de que Dilma venha a ganhar (talvez já no primeiro turno), alguns setores da oposição andam à cata de novos argumentos para tentar convencer os eleitores a mudar de ideia. Um dos mais engraçados tem a ver com o conceito de alternância do poder.

Trata-se da tese de que é bom, para a democracia, que as eleições ensejem a mudança do partido ou da coalizão que está no poder, assim permitindo que ocorra uma salutar alternância de pontos de vista e de prioridades. A continuidade seria ruim, ao impedir que novas agendas sejam discutidas e que outras políticas, mais adequadas a um novo momento, sejam formuladas.

O ápice dessa argumentação aconteceu outro dia, quando uma importante revista semanal entrevistou o candidato do PSDB e perguntou “por que é positivo” para “a democracia brasileira” experimentar “uma alternância de poder depois de oito anos de governo Lula”.

Difícil imaginar algo mais sem sentido, a começar pelo fato da pergunta ser feita ao candidato interessado na alternância. É o mesmo que perguntar ao macaco se quer banana. Ou alguém supõe que Serra diria que o melhor, para o país, é a continuidade?

Mas o importante não é isso. A democracia não está na ideia abstrata de alternância. Para o ideal democrático, o relevante não é o conteúdo da escolha. Tanto faz que os cidadãos prefiram continuar ou mudar. O que torna uma sociedade democrática é haver instituições que assegurem, a cada cidadão, a possibilidade real de escolher.

Se a maioria da sociedade brasileira quer a continuidade e votará em Dilma, é bom que todos se acostumem — incluindo os que querem a alternância. Em si, ela só é importante como uma possibilidade. Se não, nem seria preciso haver eleições. Bastaria trocar o governo a cada período estipulado. (O problema é que ninguém saberia como fazê-lo.)

30/06/2010 - 10:23h Com Osmar Dias ao lado do PT, tucanos não veem mais sentido em manter Álvaro Dias na chapa

Por Eugênia Lopes – Estado.com

A candidatura do senador Álvaro Dias (PSDB-PR) como vice na chapa do presidenciável tucano José Serra corria o risco nesta terça-feira, 29, à noite de não se concretizar. O motivo para o recuo do PSDB era a decisão do senador Osmar Dias (PDT-PR), irmão de Álvaro, de se candidatar ao governo do Paraná, numa aliança com o PMDB e o PT do Estado. A candidatura de Osmar pegou de surpresa a cúpula tucana, que nesta terça à noite se dizia estarrecida com a notícia.

A indicação de Álvaro como vice-presidente de Serra foi negociada com Osmar que, em troca, havia concordado com a retirada de sua candidatura ao governo do Paraná. A ideia era que Osmar disputasse a reeleição para o Senado.
A avaliação dos tucanos é que com a candidatura de Osmar ao governo do Paraná não há sentido na permanência de Álvaro na chapa de Serra. Afinal, Osmar vai disputar o governo paranaense com o tucano Beto Richa, além de dar palanque para a presidenciável petista Dilma Rousseff.

Osmar Dias teria mudado de ideia e resolvido concorrer ao governo depois de uma visita na terça ao Paraná do ministro e presidente do PDT, CArlos Lupi. No encontro teria ficado acertado ainda a aliança com o PMDB do atual governador Orlando Pessuti. Pelo acordo caberá a Pessuti indicar o vice na chapa de Osmar. Álvaro Dias garantiu a interlocutores que o irmão não o comunicou oficialmente da decisão de disputar o governo do Paraná.

Com a candidatura de Osmar Dias, o DEM vai pressionar ainda mais os tucanos para a retirada do nome de Álvaro da chapa presidencial. O DEM, que faz sua convenção nesta quarta-feira, 30, resiste a aceitar o nome de Álvaro Dias. Os democratas chegaram inclusive a ameaçar sair da aliança sob o argumento de que a vaga de vice era do partido.Para os tucanos, a decisão de Osmar Dias era “inacreditável”. Até a meia noite de terça, integrantes da campanha de Serra não haviam conseguido falar com Osmar Dias.

30/06/2010 - 09:54h Aldo altera 11 pontos do relatório

Mauro Zanatta, de Brasília – VALOR

Criticado por ambientalistas e ruralistas, o relator da reforma do Código Florestal Brasileiro, deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP), decidiu alterar ao menos 11 pontos de seu texto preliminar, apresentada na comissão especial da Câmara no início de junho.

Sob o novo lema “consolidação com preservação”, o relator informou ontem aos parlamentares que haverá apenas dispensa de recomposição da área de reserva legal para imóveis até quatro módulos fiscais – de 20 a 400 hectares, segundo a região do país. “Não haverá dispensa de manter a vegetação nativa remanescente em qualquer tipo de propriedade”, disse. “O desmatamento zero é para valer”. Rebelo afirmou que proporá o “agravamento” das punições por descumprimento da regra.

Em sessão tensa e recheada de críticas mútuas e manifestações contra o relatório, Rebelo afirmou que deve incorporar novas “contribuições” de ambos os lados por meio de votos em separado e estudos científicos da USP e da ONG Instituto Socioambiental (ISA). Os deputados Ivan Valente (PSol-SP), Sarney Filho (PV-MA) e Valdir Colatto (PMDB-SC) anunciaram que apresentarão alternativas ao texto do relator. “Meu relatório não pretende ser obra perfeita e acabada, mas quero solucionar problemas visíveis e concretos, além de aperfeiçoar para deixar mais claro”, afirmou. “Não é para beneficiar grandes produtores . A vítima maior é quem ocupou de forma mais abrangente a área. E são geralmente os pequenos que fizeram isso”.

Ao reclamar da “oposição muito dura” e de “interpretações equivocadas” sobre seu texto anterior, Rebelo também decidiu incluir em sua nova proposta a obrigação de declarar, registar em cartório e preservar as áreas de reserva legal em propriedades de qualquer tamanho. Rebelo rejeitou anistia aos desmatadores e afirmou que incluirá a suspensão dos prazos de prescrição das multas. “Não há anistia, apenas convertemos multas administrativas desde que haja regularização “, disse.

Em resposta ao que considera “ilação” de críticos “desavisados”, que apontavam potencial de destruição de 80 milhões de hectares em seu texto – o equivalente ao dobro da área cultivada com grãos no país -, Rebelo decidiu retirar a previsão de redução das áreas de preservação permanente (APPs) em matas ciliares. O texto anterior criava uma nova “banda” de 15 metros de APP que podia cair a 7,5 metros por decisão estadual. “Mesmo contrariado, farei se for esse o sacrifício que a proteção exige”, afirmou. “Mas vou manter a inclusão de veredas como APP”. Os ruralistas são contrários.

O relator também avisou à comissão que vai restaurar o conceito de florestas como “bens de interesse comum de todo o país” em razão da “crítica procedente”.

Para atender aos produtores, Aldo Rebelo afirmou que buscará a criação de uma “lista de espécies exóticas” que poderão ser usadas na recomposição de áreas devastadas. “Não vejo nada demais nisso. Também é preciso proteger as jaqueiras, as mangueiras e as seringueiras”, disse. Além disso, o relator alterará a regra para a compensação de reservas legais ao acrescentar a expressão “no mesmo bioma” para facilitar o movimento em regiões onde não há muita oferta de áreas. “Não tem estoque de áreas para esse compensação”, disse. Para ele, “não se pode obrigar a recompor a um custo de R$ 8 mil a R$ 15 mil por hectare”. O “melhor”, segundo Rebelo, “é preservar o que não está protegido”.

O relator informou, ainda, que reduzirá o prazo para recomposição da reserva legal, de 30 anos para 20 anos. “Isso porque haverá cinco anos para a regularização “, disse.

Ao defender a “preservação de um ativo ambiental fantástico de 522 milhões de hectares nativos”, Rebelo avisou que restaurará dispositivos do Código de Processo Civil de previsão de “processo sumário” contra práticas ambientais criminosas.

30/06/2010 - 09:32h Campanhas em espelho

ColunistaRosângela Bittar – VALOR

A análise que o governo vem fazendo da campanha de Aloizio Mercadante (PT) a governador de São Paulo, e a que seus adversários têm sobre a campanha para eleger Geraldo Alckmin (PSDB) apontam para um cenário de disputa que reproduz, com sinais absolutamente trocados, aquela que os dois partidos realizam no plano federal. Os pesos e medidas empregados na avaliação e na montagem da estratégia são os mesmos, bem como os critérios e o discurso.

Segundo dados em mãos de um ministro petista com responsabilidade de análise do quadro eleitoral para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o candidato a governador Aloizio Mercadante, apesar de as pesquisas de intenção de voto estarem dando vitória a Geraldo Alckmin no primeiro turno, tem muita chance de crescimento, a realização do segundo turno é praticamente uma certeza e pode realmente vencer se passar da primeira etapa.

As boas perspectivas seriam atestadas pela corrida em direção ao PT por parte de seus opositores mais ferrenhos em São Paulo, como políticos do Democratas, por exemplo. O apoio de Carlos Apolinário, é um caso, foi recebido como uma demonstração de viabilidade da candidatura por já estar atraindo o adesismo de contrários. Além de outras indicações.

Como o sucesso que poderão ter as demais candidaturas. O PT soma na lista positiva as candidaturas de Paulo Skaf (PSB) e Celso Russomano (PP). Dividiriam o eleitorado e entrariam na base eleitoral de Alckmin, forçando um segundo turno. Skaf, segundo essa análise, chegaria aos 12% (hoje está com 2, 3%), e Russomano poderia receber bem mais que isso, a depender da estratégia de campanha.

Outro argumento com que reforçam a confiança é que a campanha nem começou, o PSDB está há muitos anos no poder estadual e os eleitores estão cansados do partido: “O clima é de esgotamento, como o é para o PT em Porto Alegre”, assegura o analista.

Na análise do governo, Mercadante crescerá também na base de Alckmin, e em sua chapa há dois candidatos fortes ao Senado para puxar votos: Marta Suplicy e Netinho. Além disso, esperam o efeito em cascata Lula-Dilma-Mercadante, quando começar a propaganda em TV.

Segundo explica um dos profissionais encarregados de acompanhar o desenrolar da campanha em São Paulo, Mercadante teria mais chances agora do que teve há quatro anos, pois além de tudo está “mudado”. Citam, entre as atuais vantagens sobre o antigo Mercadante, o fato de ter superado a arrogância, estar mais partidário, com “um discurso redondo”.

O novo Mercadante levaria vantagem, inclusive, na comparação com Marta Suplicy, se fosse ela a candidata. “A Marta, está com um discurso despolitizado, ninguém sabe de onde tira o que divulga, como o Fernando Gabeira (candidato do PV ao governo do Rio) como encarregado de matar o embaixador americano, e está egocentrada”.

Este discurso de Mercadante, considerado “redondo” no PT, é o discurso que, na campanha presidencial, o PT considera “falta de discurso”. É o da continuidade, da promessa de fazer mais e melhor.

Os especialistas da campanha de Geraldo Alckmin, confrontados com as observações em curso na campanha do PT, acham que em eleições tudo é possível, inclusive a subida da candidata a presidente do PT nas pesquisas impulsionar as candidaturas estaduais do partido, mas, no momento, os dados de realidade só lhes permitem reagir para conter a euforia dos mais entusiasmados com a possibilidade de vitória no primeiro turno.

Nenhuma das campanhas adversárias têm pesquisas para demonstrar uma e outra argumentação, mas os critérios de análise, entre os tucanos, reproduzem os que o PT faz em nível nacional. “Alckmin é muito popular entre prefeitos de todas as regiões, Mercadante já é muito conhecido e tem sua votação sem possibilidade de crescimento. Sempre se poderá dizer que eles vão fazer mais, mas nossa gestão em São Paulo faz uma diferença significativa”.

Nessa avaliação, são incomparáveis as estradas estaduais com as federais, o que prejudicaria a crítica ao elevado pedágio; o Serra dobrou a capacidade de investimento do Estado; “há o Rodoanel, o metrô, e sempre poderão dizer que tem dinheiro federal, mas numa escala infinitamente inferior aos investimentos do Estado”, argumenta o analista da campanha do PSDB. “São Paulo é cada vez mais um Estado capitalista, empreendedor, é difícil para o Mercadante ter outro discurso que não seja o da continuidade”.

Se para Serra é um desafio enfrentar a força eleitoral de Lula para disputar votos com sua candidata à Presidência, Dilma Rousseff, para Mercadante é um desafio enfrentar os resultados da administração Serra, reconhecidos em gabinetes do governo federal, para tentar derrotar Alckmim. Mas a criatividade está curta e estão se espelhando um no outro.

O deputado José Carlos Aleluia (DEM-BA) era o candidato a vice presidente na chapa de José Serra melhor situado, o que tinha mais apoios no PSDB, contra ele não havia objeções por parte do candidato a presidente, é do Nordeste, e até dentro do DEM o que tinha menos arestas. Seus concorrentes nunca chegaram a figurar de fato numa lista de opções a serem apresentadas ao parceiro de aliança.

Credenciais numerosas, porém, não foram suficientes para mantê-lo no posto até a decisão final. Como não anunciavam nunca seu nome, apesar de todas as condições reunidas para o cargo, um dos integrantes da cúpula do PSDB, dos maiores, por sinal, justificou a um grupo de interlocutores que o problema de Aleluia era um veto do também baiano Jutahy Jr, do PSDB, um dos políticos mais ligados a José Serra que, desde o primeiro governo Fernando Henrique Cardoso, fez objeções fortes, e foi dissidente, à aliança com o DEM.

Ontem, diante das últimas e nervosas complicações na escolha do vice de Serra, descobriu-se que Aleluia realmente foi ceifado por peixeira de baiano, mas não do Jutahy. O veto teria partido do conterrâneo e correligionário ACM Neto (DEM-BA).

Rosângela Bittar é chefe da Redação, em Brasília. Escreve às quartas-feiras

E-mail: rosangela.bittar@valor.com.br

30/06/2010 - 08:59h TSE limita possibilidades de apoio no horário eleitoral gratuito. Gabeira não poderá colocar Serra no seu programa de TV

De acordo com os ministros do TSE, não pode ocorrer o uso da imagem e da voz de candidatos em programas que tenham coligações diferentes nas disputas nacionais e regionais

Eugênia Lopes/BRASÍLIA – O Estado de S.Paulo

Um dia antes do fim do prazo para a realização das convenções partidárias, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) limitou na terça-feira, 29, as possibilidades de apoio no horário eleitoral gratuito. De acordo com os ministros do TSE, não pode ocorrer o uso da imagem e da voz de candidatos em programas que tenham coligações diferentes nas disputas nacionais e regionais. O tribunal concluiu que não é possível o candidato a governador, por exemplo, contar com a participação na propaganda de um aspirante à Presidência se os partidos forem adversários na disputa nacional. Os ministros chegaram a essa conclusão ao analisarem uma consulta do PPS. De acordo com eles, a legislação eleitoral estabelece que podem participar da propaganda pessoas filiadas ao mesmo partido político ou à mesma coligação. Em outra decisão, o TSE concluiu que as coligações feitas pelos partidos para a disputa dos governos estaduais terão de ser reproduzidas na eleição para senador.

30/06/2010 - 08:55h Gasto da União com obras aumenta 80% no ano

VALOR

O investimento federal aumentou 80% nos primeiros cinco meses do ano em relação ao mesmo período do ano passado. Essa alta já foi maior nos meses anteriores (116% até março e 89% até abril), indicando que percentualmente o crescimento em relação a 2009 pode recuar até dezembro. Mesmo percentualmente menor, ele deve impactar o resultado primário do governo.

Entre janeiro e maio, o pagamento de obras de infraestrutura somou R$ 16,7 bilhões. O secretário do Tesouro, Arno Augustin, estima que no fim do ano o investimento feito pelo governo federal (exclui as estatais) deverá ficar entre 1,3% e 1,5% do Produto Interno Bruto (PIB), acima do pouco mais de 1% no ano passado.

A tendência, indicou Augustin, é que esse maior desembolso passe a pesar no resultado primário do governo central, provocando a redução da economia fiscal, embora sem risco de descumprimento da meta de economizar 3,3% do PIB. “O investimento maior agora influencia mais o primário, antes isso não ocorria porque era muito baixo”, explicou. Em maio, o governo central registrou déficit de R$ 509 milhões, no pior resultado para o mês desde 1999, influenciado por maior evolução dos gastos que das receitas.

Dos R$ 16,7 bilhões de investimentos pagos nos cinco primeiros meses do ano, R$ 12,6 bilhões referem-se a restos a pagar de 2009 que migraram para este ano. Com isso, dos R$ 65,7 bilhões que o orçamento estabeleceu para gastos com infraestrutura neste ano, foram usados R$ 4 bilhões de janeiro a maio. Esse desempenho evidencia que o maior ritmo de investimento ocorre graças à maior execução de obras iniciadas com recursos de orçamentos de anos anteriores. Os maiores desembolsos ocorreram em obras tocadas pelos ministérios dos Transportes (R$ 4 bilhões), Defesa (R$ 2,8 bilhões), Educação (R$ 2,1 bilhões) e Cidades (R$ 2 bilhões).

O ritmo mais dinâmico de obras públicas e o crescimento vigoroso neste ano estão distorcendo a comparação do investimento em proporção ao PIB entre 2009 e 2010. Nos cinco primeiros meses do ano passado, o aumento real desses desembolsos frente à expansão nominal do PIB foi de 21% e em igual período deste ano subiu para 58,3%.

Ao comentar o resultado fiscal de maio, Augustin informou que o Tesouro fará emissão de títulos brasileiros no exterior nas próximas semanas. A circunstância será definida quando o governo notar menor tensão nos mercados externos em meio à crise europeia. Ele avaliou como “muito positiva” a decisão da agência de classificação de risco Fitch de mudar a perspectiva de rating soberano do Brasil (nota de risco de crédito) de estável para positiva. (LO)

30/06/2010 - 08:22h BC comemora trajetória de queda do endividamento

O Estado de S.Paulo

O chefe do Departamento Econômico do Banco Central, Altamir Lopes, comemorou a evolução do indicador brasileiro de endividamento. Ontem, ele disse que o número apresenta evolução “benigna”, com firme trajetória de queda. Para sustentar o discurso, apresentou dados: no fim de 2009, a dívida líquida do setor público correspondia a 42,8% do Produto Interno Bruto (PIB). Em maio, já havia caído para 41,4%, ? R$ 1,37 trilhão.

Enquanto o endividamento brasileiro cai, outros países apresentam movimento contrário. Altamir citou os Estados Unidos, cuja dívida deve aumentar de 58,3% do PIB em 2009 para 66,2% neste ano. Na mesma base de comparação, o indicador alemão deve avançar de 64,3% para 68,6%. Na França, o índice deve saltar de 67,7% para 74,5% e na Itália, de 113,2% para 116% do PIB.

Relatório apresentado ontem mostra que o principal responsável pela queda de 1,4 ponto da dívida interna em 2010 é o crescimento da economia. Sozinha, a expansão do PIB diminuiu a relação entre a dívida e o tamanho da economia em 2,2 pontos entre janeiro e maio. A economia para pagar a dívida, o chamado superávit primário, contribuiu com outro 1,1 ponto de queda do número. Já o pagamento de juros aumentou a dívida em relação ao PIB em 2,3 pontos nos cinco meses de 2010. / F.N. e F.G.

30/06/2010 - 07:16h Tombo no esforço fiscal para o mês de maio, mas dívida liquida continua caindo

Gustavo Paul e Martha Beck – O GLOBO

BRASÍLIA

Com o governo central (Tesouro, INSS e o Banco Central) fazendo o mais baixo esforço fiscal em 18 anos para um mês de maio, o superávit primário do setor público despencou para R$ 1,430 bilhão, após a economia para pagar juros alcançar R$ 19,7 bilhões em abril. Foi o segundo pior resultado no mês, superado só pelos números de 2009.

Ainda assim, devido ao forte ritmo da economia e à valorização cambial, a dívida líquida do setor público continua em queda em relação ao Produto Interno Bruto (PIB, conjunto de bens e serviços produzidos no país), indicando situação fiscal confortável para o país a curto e médio prazos, mas mantendo o sinal de alerta.

Apesar de o endividamento ter crescido entre abril e maio, passando de R$ 1,370 trilhão para R$ 1,371 trilhão, a relação dívida/PIB caiu de 41,8% a 41,4% e deve chegar a 41,1% em junho, segundo o BC. Principal indicador da solvência do país, essa relação vem caindo ao longo dos anos e em 2010.

Em dezembro era de 42,8% do PIB e deve ficar abaixo de 40% no fim do ano.

O chefe do Departamento Econômico do BC, Altamir Lopes, lembrou que a retração nos últimos meses foi considerável.

Ele citou as economias industriais do planeta, cujo endividamento deve crescer entre 2009 e 2010: — A trajetória da dívida é benigna, mostra retração ao longo do tempo.

Sazonalmente os números são ruins, mas a dívida se mostra sob controle.

Dívida bruta cresce para 60,1% do PIB

A queda do indicador deve-se mais à reavaliação do PIB do primeiro trimestre do que à economia para pagar juros. Outro fator foi a alta do real, que reduziu a parcela da dívida externa.

Mas a dívida bruta do governo — que exclui ativos do setor público — continua subindo: de 59,9% do PIB em março para 60,1% em maio. Lopes estima 59,7% em junho.

Os dados devem servir de alerta ao governo, diz o economista-chefe do WestLB, Roberto Padovani. Ele frisa que, apesar de o Brasil ter situação fiscal confortável sem risco a curto prazo, a perspectiva é ruim. Os gastos públicos, diz, continuam em expansão, principalmente os permanentes, como custeio e pessoal: — A atual política fiscal estimula o crescimento a curto prazo mas o inibirá a médio e longo. Mais gastos correntes e de pessoal induzem a mais juros e câmbio valorizado.

Em maio, o governo central apresentou déficit primário de R$ 1,431 bilhão, pior número para maio desde 1992, início da série histórica do BC. O maior responsável pelo rombo foi o INSS. O resultado só não foi pior porque foi compensado pelos governos regionais, com superávit de R$ 1,469 bilhão, e estatais (R$ 1,392 bilhão).

O Tesouro, que divulgou os dados do governo central, atribuiu o desempenho ruim do governo central a despesas maiores e queda de receitas. Os principais gastos foram a alta de R$ 2,4 bilhões nas transferências da União para estados e municípios e o forte ritmo dos investimentos.

Do lado das receitas, caiu a arrecadação de tributos com recolhimento trimestral em abril, como Imposto de Renda e Contribuição Social sobre Lucro Líquido. Augustin frisou que os investimentos federais pegaram carona no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Em maio, somaram R$ 4 bilhões, e em 2010, R$ 16,7 bilhões, alta de 80% sobre maio de 2009 — 58% reais (descontada a inflação).

— (investimento) é uma despesa que queremos ter — disse ele.

Os repasses mais fortes da União para estados e municípios se explicam pela alta da arrecadação de tributos partilhados, como o IPI. O secretário ressaltou que o comportamento dos gastos com pessoal é positivo pois embora haja alta nominal de 8,5% de janeiro a maio de 2010, a queda real é de 4,6%. Para Augustin, as contas estão equilibradas e, por isso, agências de risco como a Fitch têm feito relatórios com análise positivas do país: — No Brasil temos visto analistas enxergando dificuldades fiscais. Nós sempre dissemos que isso não existe.

O economista da consultoria Tendências Felipe Salto pondera: — O investimento cresce fortemente, é bom. Mas outros gastos também e isso pode não ser sustentável.

O superávit fraco de maio impediu o setor público de cobrir os R$ 16,1 bilhões em gastos com juros da dívida, levando a um déficit nominal de R$ 14,7 bilhões. Em 12 meses, o indicador subiu de 3,21% a 3,28% do PIB.

O mesmo “efeito PIB” que reduz a dívida torna difícil cumprir a meta de superávit cheia no ano, de 3,3% do PIB. O superávit em 12 meses em proporção do PIB caiu de 2,15% para 2,13%. Altamir Lopes diz ser possível chegar à meta, pois a arrecadação está crescendo e a partir de junho a economia sentirá o contingenciamento de R$ 10 bilhões.

Segundo o economista-chefe do Banco Schahin, Silvio Campos Neto, o país não terá superávit acima de 2,6% do PIB. Ele alerta que a queda da dívida está baseada só em crescimento e não em medidas fiscais: — Não há trajetória sustentável.

29/06/2010 - 22:00h Boa noite

Balada n° 4 de Chopin – Krystian Zimerman

29/06/2010 - 19:58h O fracasso da estratégia política de José Serra

Deve ter origem no próprio Serra a lenda que começa a ganhar corpo entre alguns articulistas, sobre a suposta aversão do candidato tucano para com o DEM.

No Valor ou na Folha, jornalistas experientes* propagam o conto e daqui a pouco vão dizer que a escolha de Álvaro Dias e a maneira como o DEM foi posto perante o fato consumado, fazia parte de uma decisão friamente calculada por Serra.

O tucano estaria realizando uma ruptura com a “direita”, aproveitando o declínio acentuado do DEM após o “mensalão” do DF. Pesquisas “qualis” devem ter registrado, sem dúvida, que os aliados DEM e PPS nada aportam, fora o espaço na TV. Talvez até tenham registrado o “peso” de certas presenças na campanha do candidato e das quais faria melhor ficar afastado.

Mas, a bem da verdade, foi a estratégia escolhida por Serra pessoalmente que naufragou com estrondo, porque ao contrário da lenda, o tucano fez do DEM a pedra angular de toda sua estratégia política desde 2004 pelo menos, até muito recentemente.

Foi em parceria com Kassab, que Serra construiu a maioria interna necessária para derrotar Alckmin e isolar Aécio. Foi com seu respaldo e apoio que o DEM conquistou a prefeitura da maior cidade do país.

A conquista do governo estadual serviu para expulsar ou marginalizar os partidários de Alckmin, e Serra almejou a ideia de fazer de Aloysio Nunes seu sucessor, com o apoio do PMDB de Quercia e do próprio Kassab.

O DEM forneceria o seu vice, cargo para o qual o mais cotado era precisamente José Roberto Arruda, o administrador moderno e probo do Distrito Federal.

O projeto político de Serra começou a ruir com os panetones estragados de Arruda. O escândalo combinou-se no tempo, com a “marolinha” surfada com maestria pelo presidente Lula – contra o prognóstico de Serra – e com a resistência interna de Aécio e Alckmin, dos quais acabou dependendo para manter sua própria empreitada de candidato à presidente.

Aécio foi içado a condição do vice “salvador” e Alckmin, a candidato incontornável para obter um bom desempenho nas urnas, no seu próprio Estado. O mineiro fechou a porta na nariz do pretendente e as pesquisas fizeram o resto.

Serra ficou assim reduzido a escolher o que for, a condição de aportar alguma coisa, por mais pequena que fosse. Optou por um vice que desbaratasse, no seu pequeno calculo, o palanque petista, e isso podia ser feito aparentemente no Paraná. E assim agiu.

Pensou que a questão não traria maior problema, subestimando porem a capacidade de Roberto Jefferson a estragar uma escolha sem grandes atrativos e ignorando o crescente malestar dos Democratas, os tratou com a costumeira arrogância e autoritarismo que o caracteriza.

O resultado esta visível aos olhos de todo o país.

E suprema ironia do destino, tive que pedir para FHC, o exilado da campanha, para tentar consertar o estrago do seu próprio fracasso.

LF

* ver artigo de Raymundo Costa, no Valor e de Valdo Cruz, na Folha.com (Se trata de dois jornalistas pelos quais tenho o maior respeito)

29/06/2010 - 19:29h Do mundo me afastei…


Gustav Mahler – Ich bin der Welt abhanden gekommen, lieder de Rückter – Magdalena Kožená sob regência de Claudio Abbado

29/06/2010 - 18:58h Mostrai-me as anémonas

Mostrai-me as anémonas, as medusas e os corais
Do fundo do mar.
Eu nasci há um instante.


Sophia de Mello Breyner Andresen, Mar, Lisboa: Caminho, 2001, p.21

29/06/2010 - 18:33h Sensações liquidas

Martine Emdur – Uno de los nuestros


Martine Emdur ©



Martine Emdur©




Martine Emdur©



Martine Emdur©




Martine Emdur©




Martine Emdur©



Martine Emdur©



Martine Emdur©

29/06/2010 - 18:04h Queda que as mulheres têm para os tolos

Machado de Assis

ADVERTÊNCIA

Este livro é curto, talvez devera sê-lo mais.

Desejo que ele agrade, como me sai das mãos; mas é com pesar que me vanglorio por esta obra.

Falar do amor das mulheres pelos tolos, não é arriscar ter por inimigas a maioria de um e outro sexo?

Diz-se que a matéria é rica e fecunda; eu acrescento que ela tem sido tratada por muitos. Se tenho, pois, a pretensão de ser breve, não tenho a de ser original.

Contento-me em repetir o que se disse antes de mim; minhas páginas conscienciosas são um resumo de muitos e valiosos escritos. Propriamente falando, é uma comparação científica, e eu obteria a mais doce recompensa de meus esforços, como dizem os eruditos, se inspirasse aos leitores a idéia de aprofundar um tão importante exemplo.

Quanto à imparcialidade que presidiu à redação deste trabalho, creio que ninguém a porá em dúvida.

Exalto os tolos sem rancor, e se critico os homens de espírito, é com um desinteresse, cuja extensão facilmente se compreenderá.

I

Il est des noeuds secrets, il est des sympathies.

Passa em julgado que as mulheres lêem de cadeira em matéria de fazendas, pérolas e rendas, e que, desde que adotam uma fita, deve­-se crer que a essa escolha presidiram motivos plausíveis.

Partindo deste princípio, entraram os filósofos a indagar se elas mantinham o mesmo cuidado na escolha de um amante, ou de um marido.

Muitos duvidaram.

Alguns emitiram como axioma, que o que determinava as mulhe­res, neste ponto, não era, nem a razão, nem o amor, nem mesmo o capricho; que se um homem lhes agradava, era por se ter apre­sentado primeiro que os outros, e que sendo este substituído por outro, não tinha esse outro senão o mérito de ter chegado antes do terceiro.

Permaneceu por muito tempo este sistema irreverente.

Hoje, graças a Deus, a verdade se descobriu: veio a saber-se que as mulheres escolhem com pleno conhecimento do que fazem. Com­param, examinam, pesam, e só se decidem por um, depois de veri­ficar nele a preciosa qualidade que procuram.

Essa qualidade é… a toleima!

II

Desde a mais remota antiguidade, sempre as mulheres tiveram a sua queda para os tolos.

Alcibíades, Sócrates e Platão foram sacrificados por elas aos pre­sumidos do tempo. Turenne, La Rochefoucauld, Racine e Molière, foram traídos por suas amantes, que se entregaram a basbaques no­tórios. No século passado todas as boas fortunas foram reservadas aos pequenos abades. Estribadas nesses exemplos, as nossas contem­porâneas continuaram a idolatrar os descendentes dos ídolos das suas avós.

Não é nosso fim censurar uma tendência, que parece invencível; o que queremos é motivá-la.

Por menos observador e menos experiente que seja, qualquer pes­soa reconhece que a toleima é quase sempre um penhor de triunfo. Desgraçadamente ninguém pode por sua própria vontade gozar das vantagens da toleima. A toleima é mais do que uma superioridade ordinária: é um dom, é uma graça, é um selo divino.

“O tolo não se faz, nasce feito.”

Todavia, como o espírito e como o gênio, a toleima natural forti­fica-se e estende-se pelo uso que se faz dela. É estacionária no pobre-­diabo, que raramente pode aplicá-la; mas toma proporções desmar­cadas nos homens a quem a fortuna, ou a posição social cedo leva à prática do mundo. Este concurso da toleima inata e da toleima adquirida é que produz a mais temível espécie de tolos, os tolos que o acadêmico Trublet chamou “tolos completos, tolos integrais, tolos no apogeu da toleima.”

O tolo é abençoado do céu pelo fato de ser tolo, e é pelo fato de ser tolo, que lhe vem a certeza, de que, qualquer carreira que tome, há de chegar felizmente ao termo. Nunca solicita empregos, aceita­-os em virtude do direito que lhe é próprio: Nominor leo. Ignora o que é ser corrido ou desdenhado; onde quer que chegue, é feste­jado como um conviva que se espera.

O que opor-lhe como obstáculo? É tão enérgico no choque, tão igual nos esforços e tão seguro no resultado! É rocha despegada, que rola, corre, salta e avança caminho por si, precipitada pela sua própria massa.

Sorri-lhe a fortuna particularmente ao pé das mulheres. Mulher alguma resistiu nunca a um tolo. Nenhum homem de espírito teve ainda impunemente um parvo como rival. Por quê?… Há necessi­dade de perguntar por quê? Em questão de amor, o paralelo a esta­belecer entre o tolo e o homem de siso, não é para confusão do último?

III

Em matéria de amor, deixa-se o homem de espírito embalar por estranhas ilusões. As mulheres são para ele entes de mais elevada natureza que a sua, ou pelo menos ele empresta-lhes as próprias idéias, supõe-lhes um coração como o seu, imagina-as capazes, como ele, de generosidade, nobreza e grandeza. Imagina que para agradar-lhes é preciso ter qualidades acima do vulgar. Naturalmente tímido, exagera mais ao pé delas a sua insuficiência; o sentimento de que lhe falta muito, torna-o desconfiado, indeciso, atormentado. Respei­toso até à timidez, não ousa exprimir o seu amor em palavras; exala-o por meio de uma não interrompida série de meigos cuidados, ternos respeitos e atenções delicadas. Como nada quer à custa de uma indignidade, não se conserva continuamente ao pé daquela que ama, não a persegue, não a fatiga com a sua presença. Para interessá-la em suas mágoas, não toma ares sombrios e tristes; pelo contrário, esforça-se por ser sempre bom, afetuoso e alegre junto dela. Quando se retira da sua presença, é que mostra o que sofre, e derrama as suas lágrimas em segredo.

O tolo, porém, não tem desses escrúpulos. A intrépida opinião que ele tem de si próprio, o reveste de sangue frio e segurança.

Satisfeito de si, nada lhe paralisa a audácia. Mostra a todos que a ama, e solicita com instância provas de amor. Para fazer-se notar daquela que ama, importuna-a, acompanha-a nas ruas, vigia-a nas igrejas e espia-a nos espetáculos. Arma-lhe laços grosseiros. À mesa, oferece-lhe uma fruta para comerem ambos, ou passa-lhe misterio­samente, com muito jeito, um bilhete de amores. Aperta-lhe a mão a dançar e saca-lhe o ramalhete de flores no fim do baile. Numa noite de partida, diz-lhe dez vezes ao ouvido: “Como é bela!”, por­quanto revela-lhe o instinto, que pela adulação é que se alcançam as mulheres, bem como se as perde, tal como acontece com os reis. De resto, como nos tolos tudo é superficial e exterior, não é o amor um acontecimento que lhes mude a vida: continuam como antes a dissipá-la nos jogos, nos salões e nos passeios.

IV

O amor, disse alguém, é uma jornada, cujo ponto de partida é o sentimento, e cujo termo inevitável a sensação. Se é isto verdade, o que há a fazer, é embelecer a estrada e chegar o mais tarde possível ao fim. Ora, quem melhor do que o homem de espírito sabe parolar à beira do caminho, parar c colher flores, sentar-se às sombras frescas, recitar aventuras e procurar desvios e delongas? Um caracol de cabelos mal arranjado, um cumprimento menos apressado que de costume, um som de voz discordante, uma palavra mal escolhida, tudo lhe é pretexto para demorar os passos e prolongar os prazeres da viagem. Mas quantas mulheres apreciam esses castos manejos, e compreendem o encanto dessas paradas à borda de uma veia lím­pida que reflete o céu? Elas querem amor, qualquer que seja a sua natureza, e o que o tolo lhes oferece é-lhes bastante, por mais insípido que seja.

V

O homem de espírito, quando chega a fazer-se amar, não goza de uma felicidade completa. Atemorizado com a sua ventura, trata antes de saber por que é feliz! Pergunta por que e como é amado; se, para uma amante, é ele uma necessidade, ou um passatempo; se ela cedeu a um amor invencível; enfim, se é ele amado por si mesmo. Cria ele próprio e com engenho as suas mágoas e cuidados; é como o Sibarita que, deitado em um leito de flores, sentia-se incomodado pela dobra de uma folha de rosa. Num olhar, numa palavra, num gesto, acha ele mil nuanças imperceptíveis, desde que se trata de interpretá-las contra si. Esquece os encômios que levemente o tocam, para lembrar-se somente de uma observação feita ao menor dos seus defeitos e que bastante o tortura. Mas, em compensação desses tormentos, há no seu amor tanto encanto e delícias! Como estuda, como extrai, como saboreia as volúpias mais fugitivas até a última essência! Como a sua sensibilidade especial sabe descobrir o encanto das criancices frívolas, dos invisíveis atrativos, dos nadas adoráveis!

O tolo é um amante sempre contente e tranqüilo. Tem tão robusta confiança nos seus predicados, que antes de ter provas, já mostra a certeza de ser amado. E assim deve ser. Em sua opinião faz uma grande honra à mulher a quem dedica os seus eflúvios. Não lhe deve felicidade; ele é que lha dá; e como tudo o leva a exagerar o benefício, não lhe vem à idéia de que se possa ter para com ele ingratidões. Assim, no meio das alegrias do amor, saboreia ainda a embriaguez da fatuidade. Mas como, em definitivo, é ele próprio o objeto de seu culto, depressa o tolo se aborrece, e como o amor para ele não é mais que um entretenimento que passa, os últimos favores, longe de o engrandecerem mais, desligam-no pela sociedade.

VI

O homem de espírito vê no amor um grande e sério negócio, ocupa-se dele como do mais grave interesse de sua vida, sem distração, nem reserva. Pode perder nele algumas das suas qualidades viris, mas é para crescer em abnegação, em dedicação, em bondade. Suporta tudo daquela que ama sem nada exigir dela. Quando ela atende a alguns dos seus votos, quando previne alguns dos seus desejos, longe de ensoberbecer-se, agradece com uma efusão mes­clada de surpresa. Perdoa-lhe generosamente todos os males que lhe causa porque, muito orgulhoso para enraivecer-se ou lastimar-se, não sabe provocar, nem a piedade que enternece, nem o medo que faz calar. Oh! que inferno, se a má ventura lhe depara uma mulher bela e má, uma namoradeira fria de sentidos, ou uma moça de ra­bugice precoce!

Sofre então vivamente com a perfídia da mulher amada, mas des­culpa-a pela fragilidade do sexo. A sua indulgência pode então con­duzi-lo à degradação. Ele segue a olhos fechados o declive que o arrasta ao abismo, sem que a queixa, a ambição, a fortuna possam retê-lo.

O néscio escapa a estes perigos. Como não é ele quem ama, é ele quem domina. Para vencer uma mulher finge por alguns momentos o excesso de desespero e de paixão; mas isso não passa de um meio de guerra, tática de cerco para enganar e seduzir o inimigo. Logo depois recobra ele a tirania, e não a abdica mais. Para entreter-se nisso, tem o tolo o seu método, as suas regras, a sua linha de con­duta. É indiscreto por princípio, porquanto divulgando os favores que recebe, compromete a que lhe concede e ao mesmo tempo afasta as rivalidades nascentes. É suscetível pela razão, cioso por cálculo, a fim de promover estes proveitosos amuos, que lhe servem, a seu grado, para conduzir a uma ruptura definitiva, ou para exigir um novo sacrifício. Mostra uma cruel indiferença, indicando pouca con­fiança nas provas de simpatia que lhe dão. Num baile, proibindo à sua amante de dançar, não faz caso dela, de propósito. Aflige-a com aparências de infidelidade, falta à hora marcada para se encon­trarem, ou, depois de se ter feito esperar, vem, dando desculpas equívocas de sua demora. Hábil em semear a inquietação e o susto, faz-se obedecer à força de ser tirano, e acaba por inspirar uma afeição sincera à força de promovê-la.

VII

O homem de espírito, assustado com o vácuo imenso, que deixa no coração uma afeição que se perde, só rompe o laço que o prende à causa de dilacerações interiores.

Como bem se disse, sendo preciso um dia para conseguir, é preciso mil para se reconquistar.

Mesmo no momento em que volta a ser livre: quantas vezes um sorriso, um meneio de cabeça, uma maneira de puxar o vestido, ou de inclinar o chapelinho de sol, não o faz recair no seu antigo cati­veiro!

De resto, a mulher, a quem ele tiver revelado o segredo do seu coração, ficará sempre para ele como ser à parte. Não a esquece nunca.

Morta, ou separado, nutre por aquela que a perdeu longas sau­dades. Perseguido pela lembrança que dela conserva, descobre mui­tas vezes que as outras mulheres por quem se apaixona só têm o mérito de se parecerem com ela. Dá-se ele então a comparações que o desvairam, que o irritam, que o põem fora de si, exigindo no seu trajar, no seu andar e até no seu falar alguma coisa que lhe recorde o seu implacável ideal.

E se é ele o abandonado, que de torturas que sofre!

Viver sem ser amado parece-lhe intolerável. Nada pode consolá-lo ou distraí-lo.

No caso de tornar a ver os sítios que foram testemunhas da sua felicidade, evoca à sua memória mil circunstâncias perseverantes e cruéis. Ali está a cerca cheirosa, cujos espinhos rasgaram o véu da infiel; aqui, o rio que a medrosa só ousava atravessar amparada pela sua mão; além está a alameda, cuja areia fina parece ter ainda o molde de seus ligeiros passos. Contempla na janela as longas e alvas cortinas, no peitoril os arbustos em flor, na relva a mesa, o banco, as cadeiras em que outrora se sentaram.

É possível que ela tenha mudado tão de repente? Pois não foi ainda ontem que de volta de um passeio ao bosque, lhe enxugou o suor da testa, e que se prendia em doce e estranho amplexo?…

Hoje, nem mais doçuras, nem mais apertos de mão, nem mais dessas horas ébrias em que todo o passado ficava esquecido! Ele está só, entregue a si mesmo, sem força, sem alvo: é o delírio do desespero.

O tolo está acima dessas misérias. Não o assusta um futuro prenhe de qualquer inquietação aflitiva. Sempre acobertado pela bandeira da inconstância, desfaz-se de uma amante sem luta, nem remorsos; utiliza uma traição para voar a novas aventuras. Para ele nada há de terrível em uma separação, porque nunca supõe que se possa colocar a vida numa vida alheia, e que fazendo-se um hábito dessa comunidade de existência, faz-se pouco novamente sofrer, quando ela tiver de quebrar-se.

Da mulher, que deixa de amar, ele só conserva o nome, como o veterano conserva o nome de uma batalha para glorificar-se, ajun­tando-o ao número das suas campanhas.

VIII

Há uma época em que custa-se muito a amar. Tendo visto e estu­dado um pouco a mulher, adquire-se uma certa dureza que permite aproximar-se sem perigo das mais belas e sedutoras. Confessa-se sem rebuço a admiração que elas inspiram, mas é uma admiração de artista, um entusiasmo sem ternura. Além disso, ganha-se uma penetração cruel para ver, através de todos os artifícios de casquilha, o que vale a submissão que elas ostentam, a doçura que afetam, a ignorância que fingem. E prenda-se um homem nessas condições!

De ordinário, é entre trinta a trinta e cinco anos, que o coração do homem de espírito fecha-se assim à simpatia e começa a petri­ficar-se. É possível que nele tornem a aparecer os fogos da moci­dade, e que ele venha a sentir um amor tão puro, tão fervente, tão ingênuo como nos frescos anos da adolescência; longe de ter perdido as perturbações, as apreensões, os transportes da alma amorosa, sente-­os ele de novo com emoção mais profunda e dá-lhes um preço tanto mais elevado, quanto ele está certo de não os ver renascer.

Oh! então lastima-se o pobre insensato! Ei-lo obrigado a ajoelhar­-se aos pés de uma mulher para quem é nada o mérito de caminhar pouco e pouco atrás de sua sombra, de fazer exercício em torno aos seus vestidos, de se extasiar diante de seus bordados, de lisonjear os seus enfeites. Ai, triste! esses longos suplícios o revoltam, e, Pig­malião desesperado, afasta-se de Galatéia, cujo amor se não pode reanimar.

Esses sintomas de idade são desconhecidos ao tolo, porquanto cada dia que passa não lhe faz achar no amor um bem mais caro, ou mais difícil a conquistar. Não tendo sido, nem melhorado, nem en­durecido pelos reveses da vida, continuando a ver as mulheres com o mesmo olhar, exprime-lhes os seus amores com as mesmas lágrimas e os mesmos suspiros que lhes reserva para pintar os antigos tor­mentos. E como ele só exigiu sempre delas aparências de paixão, vem facilmente a persuadir-se que é amado. Longe de fugir, perse­vera e — triunfa.

IX

O homem de espírito é o menos hábil para escrever a uma mulher.

Quando se arrisca a escrever uma carta, sente dificuldades incríveis. Desprezando o vasconço da galanteria, não sabe como se há de fazer entender. Quer ser reservado e parece frio; quer dizer o que espera e indica receio; confessa que nada tem para agradar, e é apa­nhado pela palavra. Comete o crime de não ser comum ou vulgar. As suas cartas saem do coração e não da cabeça; têm o estilo sim­ples, claro e límpido, contendo apenas alguns detalhes tocantes. Mas é exatamente o que faz com que elas não sejam lidas, nem compre­endidas. São cartas decentes, quando as pedem estúpidas.

O tolo é fortíssimo em correspondência amorosa, e tem consciên­cia disso. Longe de recuar diante da remessa de uma carta, é muitas vezes por aí que ele começa. Tem uma coleção de cartas prontas para todos os graus de paixão. Alega nelas em linguagem brusca o ardor de sua chama; a cada palavra repete: meu anjo, eu vos adoro. As suas fórmulas são enfáticas e chatas; nada que indique uma per­sonalidade. Não faz suspeitar excentricidade ou poesia; é quanto basta; é medíocre e ridículo, tanto melhor. Efetivamente o estranho que ler as suas missivas, nada tem a dizer; na mocidade o pai da menina escrevia assim; a própria menina não esperava outra coisa. Todos estão satisfeitos, até os amigos. Que querem mais?

X

Enfim, o homem de espírito, em vista do que é, inspira às mulhe­res uma secreta repulsa. Elas se admiram com o ver tímido, aca­nham-se com o ver delicado, humilham-se com vê-lo distinto.

Por muito que ele faça para descer até elas, nunca consegue fazê-­las perder o acanhamento; choca-as, incomoda-as, e esse acanhamen­to, de que ele é causa, torna frias as conversações mais indiferentes, afasta a familiaridade e assusta a inclinação prestes a nascer.

Mas o tolo não atrapalha, nem ofusca as mulheres. Desde a pri­meira entrevista, ele as anima e fraterniza-se com elas. Eleva-se sem acanhamento nas conversas mais insulsas, palra e requebra-se como elas. Compreende-as e elas o compreendem. Longe de se sentirem deslocadas na sua companhia, elas a procuram, porque brilham nela. Podem diante dele absorver todos os assuntos e conversar sobre tudo, inocentemente, sem conseqüência. Na persuasão de que ele não pensa melhor, nem contrário a elas, auxiliam o triste, quando a idéia lhe falta, suprem-lhe a indigência. Como se fazem valer por ele, é justo que lhe paguem, e por isso consentem em ouvi-lo em tudo. Entre­gam-lhe assim os seus ouvidos, que é o caminho do seu coração, e um belo dia admiram-se de ter encontrado no amigo complacente um senhor imperioso!

XI

Compreende-se, por este curto esboço, como e quanto diferem os tolos e os homens de espírito nos seus meios de sedução. A conclu­são final é, que os tolos triunfam, e os homens de espírito falham, resultado importante e deplorável, nesta matéria sobretudo.

XII

Depois de ter indagado as causas da felicidade dos tolos, e da des­graça dos homens de espírito: perderemos tempo precioso em acusar as mulheres? Não hesitamos em deitar as culpas sobre os homens de espírito, como fez o profundo Champcenets.

Por que não estudam os tolos, diz-lhes este autor, para conseguir imitá-los? Há de custar-vos muito fazer um tal papel: mas há pro­veito sem desar? E depois, quando assim sois a isso obrigado, visto como não vos dão outro meio de solução, querer subtrair o belo sexo a império dos tolos, descortinando-lhe a perversidade do seu gosto, é coisa em que ninguém deve pensar, é uma loucura; fora o mesmo que querer mudar a natureza, ou contrariar a fatalidade.

Porquanto, ficai sabendo, continua Champcenets, que as mulheres não são senhoras de si próprias; que nelas tudo é instinto ou tempe­ramento, e que portanto elas não podem ser culpadas de suas pre­ferências. Só respondemos pelo que praticamos com intenção e dis­cernimento. Ora, qual delas pode dizer que predileção a impele, que paixão a obriga, que sentimento a faz ingrata, ou que vingança lhe dita as malignidades? Debalde procurareis delas tão cruel prodígio; nenhuma é cúmplice do mal que causa: a este respeito, o seu estou­vamento atesta-lhes a candura.

Por que vos obstinais em pedir-lhes o que a Providência não lhes deu? Elas se apresentam belas, apetitosas e cegas: não vos basta isto? Querê-las com juízo, penetrantes e sensíveis, é não conhecê-las.

Procurai as mulheres nas mulheres, admirai-lhes a figura elegante e flexível, afagai-lhes os cabelos, beijai-lhes as mãos mimosas; mas tomai como um brinquedo o seu desdém, aceitai os seus ultrajes sem azedume, e às suas cóleras mostrai indiferença. Para conquistar esses entes frágeis e ligeiros, é preciso atordoá-los pelo rumor dos vossos louvores, pelo fasto do vosso vestuário, pela publicidade das vossas homenagens.

XIII

Sim, sim, é mister ousar tudo para com as mulheres.

Texto-fonte:

Obra Completa, Machado de Assis,

Rio de Janeiro: Nova Aguilar, V.III, 1994.

Publicado originalmente em A Marmota, Rio de Janeiro, 19, 23, 26 e 30/04 e 03/05/1861.

29/06/2010 - 16:37h Vox Populi: Dilma Rousseff (PT) 40% x 35% José Serra (PSDB)

Pesquisa Vox Populi sobre a eleição presidencial indica que Dilma Rousseff (PT) tem 40% das intenções de voto. José Serra (PSDB) tem 35%. Marina Silva (PV), 8%. A sondagem foi feita de 24 a 26.jun.2010 e tem margem de erro de 1,8 ponto percentual. O Blog vai publicar mais resultados obtidos pelo Vox Populi assim que eles estiverem disponíveis.

Pela 1ª vez, Dilma passa a frente de Serra em pesquisa Vox Populi. A última sondagem do instituto (feita de 8 a 13.mai.2010) indicou empate técnico entre os candidatos, por conta da margem de erro – que era de 2,2 pontos percentuais, para mais ou para menos. Em maio, no cenário em que apenas os Dilma, Serra e Marina foram apresentados aos entrevistados , a petista teve 37% (podendo variar de 34,8% a 39,2%, por conta da margem de erro). O tucano teve 34% (variando de 31,8% a 36,2%).

Na semana passada (em 23.jun.2010), o Ibope também divulgou sua 1ª pesquisa em que Dilma ficou à frente de Serra. Por coincidência, o resultado foi 40% contra 35%.

O UOL disponibiliza todas as pesquisas de intenção de voto para o 1° turno e para o 2° turno da eleição presidencial.

Espontânea
Os resultados acima são da pesquisa estimulada (em que o entrevistador apresenta uma lista com nomes dos candidatos para o entrevistado). A pesquisa Vox Populi divulgada hoje (29.jun.2010) mostra ainda resultados obtidos na modalidade espontânea (em que o eleitor diz qual é seu candidato sem ver nenhuma lista de nomes): Dilma tem 26% e Serra tem 20%.

O Vox Populi entrevistou 3 mil eleitores, de 24 a 26.jun.2010. O registro da pesquisa no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) é o 16944/2010.

Por Fernando Rodrigues – UOL