Debate Band: “treino”, com pouca audiência e polarização Serra-Dilma marca o primeiro debate


5/08/2010. São Paulo – SP. Debate dos Candidatos à Presidência da República 2010, promovido pela TV Bandeirantes. Foto: Roberto Stuckert Filho.


IBOPE

DEBATE TEVE SÓ 3 PONTOS DE AUDIÊNCIA

A média do debate, segundo estimativa a partir de números prévios do Ibope, ficou em três pontos (cada ponto representa 60 mil domicílios na Grande SP).
No início do penúltimo bloco, a Band chegou a ficar em penúltimo lugar no ranking das TVs, com apenas um ponto. O pico foi às 22h56, com cinco pontos. (Folha SP)

Polarização Serra-Dilma marca o primeiro debate

FOLHA SP

TUCANO REFUTA “OLHO NO RETROVISOR”
PETISTA DIZ QUE É “CONFORTÁVEL” PARA ADVERSÁRIO ESQUECER PASSADO
MARINA SE APRESENTA COMO 3ª VIA
PLÍNIO FAZ PAPEL DE PROVOCADOR

No primeiro confronto na TV da campanha à Presidência da República, os dois candidatos que ocupam a dianteira nas pesquisas, José Serra (PSDB) e Dilma Rousseff (PT), polarizaram ontem o debate da Band. Apesar do embate direto, ambos não tocaram em temas espinhosos da campanha.
O tucano adotou tom mais duro, mas evitou citar o nome do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Do outro lado, a petista explorou realizações do governo petista e insistiu numa comparação entre a atual gestão e a de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002).
Serra protestou: “Não devemos fazer campanha com o olho no retrovisor”. Na réplica, ela devolveu: “Acho muito confortável que a gente esqueça o passado, mas não acho prudente”.
Marina Silva (PV) apostou em se apresentar como “terceira via”. Lembrou do passado no PT e disse hoje ser “capaz de esquecer as divergências que muitas vezes são da oposição pela oposição”.
Plínio de Arruda Sampaio (PSOL) fez o papel de provocador e foi quem mais gerou reações da plateia, com seu tom irônico.
No início do debate, a petista demonstrou nervosismo, estourou várias vezes seu tempo e teve o microfone cortado. No intervalo, foi alertada pelo marqueteiro João Santana a responder olhando para as câmeras -apareceu várias vezes de lado- e se soltou um pouco.
Serra também deu sinais de irritação ao longo do debate, caminhando com os braços cruzados, bufando e fazendo careta ao ouvi-la. Assim como Dilma, extrapolou seguidas vezes o tempo.
O tucano direcionou o embate para os gargalos de infraestrutura em aeroportos, estradas e portos.
Dilma citou índices recordes de geração de emprego, segundo ela de 14 milhões de carteiras assinadas, e programas com alto índice de aprovação, como o Bolsa Família.
Os dois se confrontaram com propostas na saúde. Serra criticou a interrupção dos mutirões. Dilma disse que eles eram emergenciais.
Na sequência, Serra tentou emparedá-la questionando sobre o que chamou de “crueldade” do governo com as Apaes (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais).
Surpreendida, ela só retomou o tema no final do bloco para dizer que as entidades seriam abastecidas pelo Fundeb (fundo de educação do ensino básico).
Nas considerações finais, tanto Serra quanto Dilma se mostraram emocionados e embargaram a voz. O tucano citou a filha, Verônica, os “pais modestos” e falou da biografia. A petista enalteceu a passagem pela Casa Civil, disse que sua candidatura não é um “projeto pessoal” e concluiu afirmando que “as mulheres” estão preparadas para a Presidência.
Segundo o último Datafolha, Serra aparece com 37% das intenções de voto contra 36% de Dilma. Marina tem 10%. Plínio marca 1%.

Para analistas, confronto foi só ‘treino’

Cientistas políticos convidados pelo ‘Estado’ consideraram nível do primeiro debate fraco, em que ninguém saiu vencedor ou derrotado

Roldão Arruda – O Estado de S.Paulo

Na avaliação de três cientistas políticos convidados pelo Estado para acompanhar e analisar o debate, o nível foi fraco, em termos de propostas para vencer os desafios políticos e econômicos dos próximos anos. Eles também consideraram que não houve vencedor em termos definitivos. Para Carlos Melo, do Instituto Insper, a melhor forma de definir o encontro de ontem seria como um treino inicial.

“Serviu para esquentar os motores, desenferrujar os candidatos”, disse Melo. “Dilma, que estava debutando, cometeu erros primários, especialmente no primeiro bloco. Mas não chegou a nenhum erro grave e comprometedor. Ninguém saiu vencedor ou derrotado.”

Ainda segundo Melo, a petista vai precisar passar por demorados treinos, se quiser mostrar um desempenho melhor. “Ela ficou muito nervosa. Vai requerer muito media training.”

Para Humberto Dantas, conselheiro do Movimento Voto Consciente, a expectativa de partidários do PSDB de que Dilma tropeçasse, permitindo a Serra mostrar uma possível superioridade, não se confirmou. “Ninguém teve uma larga vantagem”, disse.

Gilberto Palma, do Instituto Ágora, observou que o modelo de debate da TV, cada vez mais engessado pelos marqueteiros dos candidatos, parece esgotado. “Ninguém empolga o eleitor. Os candidatos atuam rigorosamente dentro de scripts determinados pelos marqueteiros, permanecendo o tempo todo dentro dos temas que lhes são mais confortáveis, utilizando truques para tentar travar o outro.”

Marina eclipsada. Os três chamaram a atenção para o desempenho do candidato do PSOL, Plínio de Arruda Sampaio. Ele teria eclipsado Marina Silva, do PV, que chegou ao debate com o intuito de se apresentar como candidata alternativa. “Experiente, sem nada a perder, ele agiu como um franco-atirador”, disse Melo.

“O Plínio atuou muito com consciência do espetáculo televisivo e soube usar bem a impunidade da idade”, comentou Dantas. “Mas quem prestou atenção no que ele dizia certamente não vai votar nele. Ele mora num apartamento de um milhão de reais e fala para a câmara se dirigindo a um camponês que, certamente, não está assistindo à TV naquele horário. Há uma enorme contradição em tudo que disse.”

Os três observaram que Serra mostrou mais experiência que Dilma. Ele teria controlado melhor os temas, puxando a concorrente para o terreno em que se sentia mais confortável, como o debate sobre saúde. Em alguns momentos Dilma entrou no jogo dele, sem perceber. Na parte final, porém, ela já estava conseguindo reagir melhor.

“Um dos melhores exemplos disso ocorreu quando a Dilma fez a pergunta sobre a indústria naval”, disse Melo. “Ele tratou brevemente do assunto e logo começou a falar de temas da saúde. Dilma tinha uma boa oportunidade de reagir, lembrando que na campanha de 2002, quando Lula falou em retomada da indústria naval, o então candidato Serra disse que não era uma iniciativa das mais recomendáveis, por causa dos custos da indústria naval brasileira. Em vez disso, porém, ela foi rebater a questão dos mutirões.”

O fato de Serra ter se sentido mais à vontade que sua principal concorrente, porém, não significa que vá sempre manter vantagem. “Os erros de Dilma foram caracterizados sobretudo pela inexperiência. Isso não quer dizer que ela será jantada nos próximos encontros.”

Do ponto de vista plástico e controle do tom do debate, Serra e Plínio tiveram as melhores performances.

O candidato tucano mostrou habilidade nos momentos em que Dilma tentou levar o debate para o confronto entre os governos de Lula e Fernando Henrique. “Ele agiu como quem está preocupado em olhar para o futuro, não para o passado”, observou Dantas.

Ele também destacou a preocupação dos debatedores, especialmente Serra e Dilma, em não citar o nome de Lula.

Uma das escorregadas de Serra, na avaliação de Melo, foi ter se demorado demasiadamente na resposta sobre a questão do tamanho da propriedade rural. “Ele poderia ter usado aquele momento para falar mais de propostas de política agrícola.”

ANÁLISE

Em ritmo frenético, quatro candidatos tentavam explicar tudo em 2 minutos

DILMA E MARINA VACILARAM BEM MAIS VEZES DO QUE SERRA E PLÍNIO, MAS NINGUÉM FOI AO CHÃO

MARCELO COELHO COLUNISTA DA FOLHA

Numa espécie de autoespetáculo, a Band começou com uma orquestra ao vivo, tocando sua vinheta. Mas o conjunto clássico era bem modesto, e o quarteto dos candidatos tratou logo de se adaptar a um ritmo frenético.
Como dizer algo consistente sobre educação, saúde ou segurança em dois minutos? E como apontar qual desses temas é o mais importante? Os candidatos falaram de tudo, ou pelo menos de tudo o que cabia no tempo, quando não se esqueciam do que lhes tinha sido perguntado.
Acredita-se que a atenção do espectador só se fixa por um minuto e meio de cada vez; daí a picotagem do tempo na TV. Mas um autor francês, Christian Morel, lembra que nos “reality shows” passam-se horas sem que nada aconteça. Até que seria uma boa ideia: em vez de debates tensos e artificiais, em que temas se embolam até ninguém entender mais nada, poderíamos internar Dilma, Serra, Marina e Plínio numa mansão, durante uns dias.
A internet transmitiria tudo em tempo real. Cada partido editaria, depois, as cenas como bem quisesse. Seria instrutivo, e os candidatos não são de fazer baixaria.
Serra parecia o único a acertar o passo com a própria respiração, e esperou os momentos certos para atacar. Dilma, nervosa, engasga muito e fala complicado; perdeu tempo demais, levando Plínio a aclarar, ou caricaturar, o que ela tentava dizer.
O candidato do PSOL não correu tanto, até porque sua mensagem era mais sumária e radical. Marina também se ressentiu da falta de prática: enquanto a sintaxe se estendia, voz e corpo davam pulinhos, como querendo saltar acima das pesquisas.
À medida que se polarizava entre Dilma e Serra, o debate entrou num embrulho de siglas e detalhes, com insuficiente discussão política. Parecia uma daquelas lutas de sumô, ao mesmo tempo rapidíssimas e pesadas, feitas de imobilidade e pressa, que só se decidem quando um dos participantes vacila e perde o equilíbrio. Dilma e Marina vacilaram bem mais vezes do que Serra e Plínio; mas ninguém se estatelou espetacularmente no chão.

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4 COMENTÁRIOS PARA "Debate Band: “treino”, com pouca audiência e polarização Serra-Dilma marca o primeiro debate":

Comentado por mel em 06/08/2010 - 09:58h:

o que mais me impressiona nessa estória é o Plínio nos TT World. galëre está mais querendo fazer piada do que ouvir o que o canditado têm a falar.
sim, esse debate foi apenas um aquecimento… espero outros para vermos se o nervosismo dos canditatos atrapalhou mesmo.
a propósito, quem é o menino Dado, do poeminha de Marina??
beijos para quem fica.

Comentado por rafael j em 06/08/2010 - 12:39h:

http://www.youtube.com/watch?v=VcAHF0gEhpw&feature=player_embedded

Ja viram esse vídeo? A honestidade da infância e o time do Serra usando crianças da rede pública em horário de aula para fazer campanha.

Comentado por rafael j em 06/08/2010 - 12:45h:

A Dilma se mostrou preparada, não deixou pergunta sem resposta e tinha bastante conteúdo, mas precisa melhorar muito. Falta criatividade na fala, ímpeto na defesa do governo, carisma de uma forma geral. Um pouco de Marta ou Ciro dentro dela ia bem.

Comentado por Wellington Santana em 07/08/2010 - 00:23h:

Assisti ao “Debate” completo e ao vivo, sem edição. Contradizendo os comentaristas de política das Redes de TV, o debate ideológico ainda repercute entre os brasileiros, como demonstra a receptividade das intervenções de Plínio.

Embora não seja possível se apresentar um Programa de Governo em somente algumas intervenções de, no máximo, dois minutos cada, deu pra perceber qual a linha político-programática de cada um dos candidatos e do(s) partido(s) vinculados às suas candidaturas.

Lamento que este debate tenha sido realizado tão tarde (no sentido mais amplo da palavra) – tarde no horário e tarde por se realizar a apenas dois meses das eleições. Plínio tem razão. A grande mídia nacional embora diga que é importante apresentar todas as propostas políticas, econômicas, sociais… para o Brasil, escondeu o tempo todo, do povo brasileiro, que além de Dilma, Serra e Marina existem mais. Que existem outras forças políticas e pessoas que vêem e pensam o Brasil numa perspectiva dos “de baixo” e, portanto, tem propostas de Governo e de Nação bem diferentes das apresentadas o ano inteiro pelos principais meios de comunicação de massa, que “oferecem” o triunvirato Dilma-Serra-Marina, como as únicas “opções” possíveis.

Se o debate de projetos pela grande mídia fosse permanente, franco e aberto, e sem a manipulação dos institutos de pesquisa (que também apresentaram o triunvirato como únicas opções de voto), certamente o candidato Plínio de Arruda Sampaio estaria no páreo com grande chance de vir a ser o Presidente do Brasil e, com certeza, a agenda política que estaria em debate na sociedade seria outra.

Parabéns Plínio! Seu “marqueteiro” é a sua longa história de vida coerente com suas idéias. Por isso não titubeou, foi claro e deu o recado “sem ódio e sem medo”. Em outubro eu já sei, vou digitar 50 e confirmarei!

Wellington Santana
wellingsant@gmail.com
Sertânia – Pernambuco

 

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