31/01/2011 - 22:00h Boa noite


I vespri siciliani de Verdi – Abertura. Regente Claudio Abbado

31/01/2011 - 19:24h Vogliatemi bene


Madama Butterfly – Vogliatemi bene – Jonas Kaufmann e Angela Gheorghiu

31/01/2011 - 17:00h Barriga de tanquinho

Matthew Shirts – O Estado de S.Paulo

Ganhei no fim do ano passado a biografia de Adolf Hitler escrita por Ian Kershaw e publicada pela Companhia das Letras. Chegou com um bilhete simpático da minha amiga Maria Emília, que trabalha na editora. Disse que era um livro grande para um leitor voraz. E, de fato, são mais de mil páginas. Capa dura. Um quilo, imagino.

A biografia ficou ali na mesinha da entrada da minha casa, na capa o rosto sádico do ditador com o braço envolto em um cachorro, os dois a me olharem. Sabia que estava ferrado. Não teria como escapar do livro. Mil páginas de crueldade, húbris, ódio, tortura, genocídio e a civilização enlouquecida.

Digeri histórias da 2.ª Guerra durante minha infância toda nos Estados Unidos junto com aqueles cereais carnavalescos feitos para aparecerem em destaque na recém-lançada televisão em cores. Montava pequenos modelos em plástico de Spitfires e Zeros – aviões estrelas das batalhas aéreas – com uma cola de cheiro forte e bom. Assistia a documentários dedicados à guerra na escola desde pequeno. Conhecia batalhas. Não teria como resistir à leitura.

Comecei o livrão de Hitler na fazenda do meu cunhado, onde passei uma semana no início do ano. Estou na página 631. Todo dia leio um pouco. A qualidade da reconstrução histórica impressiona. Kershaw chega a descrever os gestos feitos pelo Führer ao tomar conhecimento de notícias chaves da guerra. Mas não levo a obra no ônibus para não assustar os outros passageiros. (Você se sentaria ao lado de alguém perdido em um livro de sete centímetros de grossura com a cara de Hitler na capa?) Ainda bem que sei como acaba. Caso contrário, estaria mais assustado até com a ruindade dos nazistas. A narrativa é irresistível. É o mal em estado puro.

Por sorte, tenho um personal especialista na 2.ª Guerra na figura do meu amigo professor Antônio Pedro Tota. Voltei a praticar o pedestrianismo com ele na Avenida Sumaré, acompanhado do filósofo e designer gráfico Marcão Sismotto. É um trio de fácil reconhecimento para quem passa de automóvel. Três senhores de uma certa idade, com as marcas das décadas de 60 e 70 nos corpos e nos estilos de vestuário esportivo. Embora, verdade seja dita, apesar de seus 60 e tantos anos, o professor esteja em forma. De tanto fazer o pedestrianismo, como diz o Marcão, está com a “barriga de tanquinho”.

Nesse trio, o professor faz o papel do pessimista. Reclama que a civilização está em declínio, que ninguém mais ouve Thelonious Monk (jazzista americano), a internet é um engodo e há automóveis demais, sem nem falar da televisão. Isso quando está de bom humor.

Tenho discutido com ele a biografia de Hitler na Avenida Sumaré. O professor sabe tudo sobre a 2.ª Guerra. Escreveu livros sobre o assunto. Consegue explicar a conexão feita nas mentes doentias dos nazistas entre o antissemitismo e o anticomunismo, para dar apenas um exemplo.

Semana passada, montei uma armadilha intelectual para o professor Tota. Ponderei que diante da minha leitura ficava evidente como a civilização se aprimorou de 70 anos para cá. Apesar dos problemas atuais, a miséria, o aquecimento global, o declínio no gosto musical, não é possível imaginar a repetição da barbárie do Hitler nos dias de hoje. O mundo é outro. Melhorou. Aquela violência profunda, fundada no mito de raça, não é mais possível, não na escala nazista.

Passávamos, juro, debaixo da estação Sumaré de metrô, aquela decorada com fotos de desaparecidos políticos do tempo da ditadura. O professor andou uns 20 metros em silêncio. Pensava. Depois respondeu: “Melhorou, sim, pelo menos para alguns”.

A caminhada prosseguiu. Mudamos de assunto. Marcão explicou para o professor o que é uma barriga de tanquinho.

31/01/2011 - 09:55h Dilma diz a jornais argentinos que rejeita quebra de contratos

Presidente, que faz hoje o primeiro roteiro oficial no exterior, mandou recado a países vizinhos em entrevista

Leonencio Nossa e Ariel Palacios – O Estado de S.Paulo

Em sua primeira viagem internacional como presidente, Dilma Rousseff terá encontro hoje com a argentina Cristina Kirchner para demonstrar apoio à parceria “estratégica” entre os dois países e mandar recado aos vizinhos Bolívia, Equador e Paraguai. Antes mesmo de embarcar, ela sinalizou, em entrevista publicada ontem pelos principais jornais de Buenos Aires, que não aceitará quebras de contratos empresariais e comerciais.

Dilma afirmou a jornalistas argentinos que é preciso respeitar contratos para garantir um marco regulatório estável. Ela disse que entende os problemas e as condições históricas enfrentadas pelos países do continente e avaliou que o respeito aos contratos firmados é o método mais eficaz para uma região com “grande horizonte” de desenvolvimento.

Diplomatas brasileiros avaliam que a presidente decidiu se antecipar a novas investidas de mudanças de contrato por parte dos vizinhos. Sem a influência e a popularidade do antecessor, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Dilma não pretende ficar refém de parceiros tradicionais. Durante o governo Lula, o Planalto sofreu uma série de constrangimentos por queixas públicas e rompimentos de contrato de grandes empresas brasileiras por parte de governos aliados do continente.

O boliviano Evo Morales chegou a ocupar uma refinaria da Petrobrás. Rafael Correa, do Equador, suspendeu contratos com empreiteiras brasileiras. Já Fernando Lugo, do Paraguai, quer mudar o acordo do uso da energia de Itaipu.

Na entrevista aos jornais, Dilma foi questionada sobre uma possível desvalorização do real, uma preocupação de autoridades e empresários argentinos. Ela afirmou que, no Brasil, o câmbio não tem oscilado muito. “Não tem havido nenhum derretimento.” A presidente lembrou que sua formação é de economista e, por isso, não poderia dar garantias de que não haverá desvalorização de uma moeda.

Ineditismo. A viagem de Dilma a Buenos Aires será carregada pelo simbolismo. Pela primeira vez uma presidente argentina recebe uma brasileira.

De 1974 a 1976, a Argentina foi governada por María Estela Martínez de Perón, mais conhecida como Isabelita, mulher e vice do presidente Juan Domingo Perón, que tomou posse após a morte do marido.

31/01/2011 - 09:23h Crescimento em ritmo chinês

Carlos Bremer – O Estado de S.Paulo

O Brasil passa por um período de aceleração no seu crescimento. Enquanto as previsões do Banco Central (BC) mostram que o Produto Interno Bruto (PIB) nacional deve ter alcançado um incremento de 7,6% em 2010, batendo ao mesmo tempo um recorde de investimento externo com um valor de US$ 48 bilhões em 2010, muitos segmentos começam a se descolar desse cenário e crescem acima dos dois dígitos, algo que pode ser considerado semelhante ao crescimento em ritmo chinês. Só que o crescimento brasileiro não é somente de volumes. Ele envolve toda uma mudança de perfil de comportamento do consumidor.

A mobilidade social e de consumo das classes E e D para as C e B e até mesmo para a A pode ser considerada um movimento sem paralelo em nossa história. A participação de classe C pulou de 44,9% em 2006 para 50,5% em 2009. Essa mesma classe dobrou seu acesso à internet em três anos e 31% deles já compraram pelo menos uma vez pela internet.

Outra característica é o acesso crescente a crédito. Cerca de 68% dos consumidores da classe C, por exemplo, compraram usando cartão de crédito. Esse contexto muda drasticamente o perfil da demanda a que as organizações têm de atender. Como e o que esses consumidores em mobilidade social irão comprar? Quais características eles valorizam e, portanto, serão diferenciais entre uma cadeia de valor a outra?

Vimos no último Natal o grande número de vendas de televisores de tela plana, LCD ou plasma. Todos com parcelamentos populares. Isso mexeu com toda uma logística de produção ou importação de peças, produção, espaço em pontos de venda, distribuição e entrega. Setores como os de linha branca, automotivo e de construção civil também são claros casos dessa indagação, fazendo mudanças significativas em seus produtos, serviços e modelos de atendimento com relação a referenciais mundiais – afinal, além de abastecer o mercado interno, muitas companhias passam pelo processo de internacionalização, levando seus produtos e serviços para além de nossas fronteiras físicas, basicamente como faz há algum tempo a China.

Estamos, assim, criando nosso referencial de valor e o desafio é construir e gerir cadeias de valor alinhadas, capazes de entregar essa nova e dinâmica realidade de propostas de valor.

Gestão. Algumas empresas, entretanto, não entendem que, para crescer nesse ritmo e ser competitivo, é preciso adaptar seu sistema de gestão para que todos os envolvidos consigam atuar da mesma forma, dentro de uma visão de cadeia de valor. Um dos problemas de gestão mais frequentes que essas empresas enfrentam é não quebrar velhos paradigmas e culturas de gerenciamento.

Um exemplo: quando é implantado um novo sistema integrado de processos, todos devem utilizá-lo de maneira horizontalizada, ou seja, todos vendo e trabalhando para todos, o que nem sempre acontece, pois as companhias ainda têm uma visão verticalizada e departamentalizada, ou seja, cada um em sua função. Esse sistema, oriundo das instituições militares, é quase que como um patenteamento de funções. Não pode ser considerado errado, mas é certamente incompleto, pois só alinha a visão de cima para baixo da organização e vice-versa. O todo e o alinhamento entre proposta e entrega de valor não é levado em conta.

A solução das empresas que realmente alcançaram o sucesso e transformaram o crescimento chinês em resultado está justamente em descobrir as falhas e gerar uma nova cultura, adaptada à realidade do futuro – no presente -, criando, com isso, novos valores que não necessariamente podem ser vistos e avaliados como novidades, mas devem levar em consideração a visão de um todo, de um sistema, de um processo maior que as simples divisórias departamentais. Só que nem sempre é tão simples, pois as corporações que veem seus resultados crescerem de forma robusta enxergam apenas o lucro imediato e não como manter a perenidade dos negócios de forma homogênea e sustentável para todos os stakeholders envolvidos.

Muitas vezes, para que a ideia saia do papel, é necessária uma visão externa. Só com um olhar realmente diferenciado dos verdadeiros gestores, que se preocupam e querem ver o negócio prosperar como um todo e muitas vezes acima de suas atribuições e responsabilidades funcionais, é possível gerar um novo conceito empresarial e alinhar desde sua proposta de valor aos mercados até sua entrega, passando por todos seus departamentos para avaliar a construção e amarração dessa cadeia.

Se observarmos as empresas mais perenes, veremos que elas se destacam porque evoluíram seu modo de pensar e agir ao longo do tempo. O Brasil está crescendo e isso é bom para todas as empresas, desde que elas percebam que, em um ambiente extremamente competitivo, cresce mais e com melhor qualidade quem se propõe a adaptar ou até se reinventar junto com as outras empresas de sua cadeia de valor.

Foco. De nada adianta crescer de maneira acelerada se a geração de valores fica em segundo plano. É justamente neste momento que precisamos refletir quais os passos primordiais para o sucesso. Precisamos mudar o foco dos recursos para as relações, tendo em mente o conceito de gestão que chamamos de “value chain”, uma rede de relações que concebe, propõe e entrega valor à sociedade de forma colaborativa e sustentável.

Relações são muito mais dinâmicas e adaptáveis do que recursos. É preciso que todos cresçam construindo relações. Uma empresa não é só a venda de produtos. É o processo, é a marca, suas verdades e principalmente suas pessoas e sua capacidade de colaboração. Em tempos de crescimento com mobilidade, isso fica ainda mais forte.

FUNDADOR E DIRETOR DE INOVAÇÃO DA AXIA VALUE CHAIN

31/01/2011 - 09:09h Desemprego cai a níveis recordes, mas impõe desafios

Editorial do jornal VALOR

A taxa de desemprego caiu, em dezembro, para 5,3%, a mais baixa da série histórica. Em regiões metropolitanas como as de Porto Alegre (3%), Belo Horizonte (4,3%) e Rio de Janeiro (4,9%), os índices revelam uma possível situação de pleno emprego.

A notícia é alvissareira. Afinal, o objetivo precípuo de toda política econômica é gerar empregos e, de preferência, empregos de boa qualidade. Todavia, como simultaneamente o país vive um momento de aceleração inflacionária, os números trazem algumas preocupações.

Em novembro, a taxa de desemprego foi de 5,7%. A queda para 5,3% no mês seguinte mostra, portanto, uma economia a plenos pulmões. Confirma, por exemplo, que o Brasil já se recuperou inteiramente da grave crise financeira de 2008 e 2009. Analisado em perspectiva, o índice de desemprego também revela o dinamismo desenvolvido pela economia nacional nos anos recentes.

Em 2003, a taxa de desemprego média mensal chegou a 12,4%. No ano passado, caiu a 6,7%. Ao anunciar os números, o gerente da Pesquisa Mensal de Emprego (PME) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Cimar Azeredo, procurou esclarecer que, a rigor, o Brasil ainda não vive o pleno emprego. Apesar da forte queda do desemprego nas seis principais regiões metropolitanas, explicou Azeredo, os índices entre elas são desiguais.

De fato, enquanto a taxa de desemprego média mensal de Porto Alegre em 2010 foi de 4,5%, a de São Paulo bateu em 7%, a de Recife em 8,7% e a de Salvador, em 11%. Portanto, não se pode falar em pleno emprego em relação às últimas três capitais. “É muito cedo para se falar em pleno emprego. Temos um país com diferenças regionais bastante precisas”, ponderou Azeredo.

Essas diferenças regionais mostram que, à exceção de São Paulo – cujo fenômeno do desemprego mais elevado que o de outras áreas desenvolvidas do país precisa ser mais bem estudado -, o grau de desenvolvimento das principais regiões do Brasil ainda é muito desigual. As distinções estão presentes também nos quesitos percentual de trabalhadores com carteira assinada e renda real média, bastante desfavoráveis nas duas capitais nordestinas.

De toda forma, se não é possível afirmar que exista pleno emprego em todo o país, é razoável admitir que se tenha uma situação-limite em regiões e setores dinâmicos da economia brasileira, como bem alertou em entrevista ao Valor o economista Luiz Carlos Mendonça de Barros. O ex-ministro mencionou alguns locais onde a mão de obra já é escassa, como Caxias do Sul (RS), segundo maior polo industrial metal-mecânico do país; e Ribeirão Preto (SP), meca do agronegócio brasileiro.

Mendonça de Barros lembrou que, ao contrário do último período de aceleração inflacionária vivido pela economia brasileira, em 2008, desta vez o mercado de trabalho aquecido representa um desafio para o controle da escalada dos preços. Em 2008, a taxa de desemprego estava em torno de 8%, face aos 6,7% do momento atual. A escassez de trabalhadores, em meio a uma economia que funciona a todo o vapor, pode, portanto, pressionar a inflação e limitar a manutenção do atual ciclo de crescimento.

Na ata da primeira reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), o Banco Central (BC) expressou preocupação com esse fato ao afirmar que existe uma “estreita margem de ociosidade dos fatores de produção, especialmente de mão de obra”. “Em tais circunstâncias”, observa a ata, “um risco importante reside na possibilidade de concessão de aumentos nominais de salários incompatíveis com o crescimento da produtividade.” A propósito, por causa da inflação, o rendimento médio real do trabalhador cresceu apenas 3,8% em 2010.

Embora mostre exuberância, o mercado de trabalho nacional tem muito o que evoluir. Afinal, cerca de metade dos trabalhadores ainda atua no lado informal da economia, sem os benefícios assegurados pela Consolidação das Leis do Trabalho. Já passou da hora de as autoridades darem prioridade a medidas que ajudem a formalizar esses trabalhadores, bem como a educá-los, qualificá-los e, quando for o caso, requalificá-los. A dificuldade trazida pela escassez de empregados em alguns setores e regiões apenas torna urgente essa agenda.

31/01/2011 - 08:40h A classe C vai ao resort

José Roberto de Toledo – O Estado de S.Paulo

Sonolento balneário do sul da Bahia, Santo André vive do turismo. São duas ruas apenas: a da praia é dominada por pousadas e restaurantes cujos donos falam português com sotaque. Os cardápios dão a volta ao mundo, mas é preciso rodar para encontrar uma moqueca.

O vilarejo tinha tudo para ser um destino privilegiado e exclusivo de VIPs internacionais. Privilegiado ainda é. Exclusivo, nem tanto. Quem tem movimentado a economia local são os turistas de outra sigla, a CVC.

Os “barões”, como os nativos chamam os viajantes endinheirados, só passeiam por lá durante os meses de verão. No resto do ano, grande parte dos estabelecimentos fecha as portas, seus donos voltam para a Europa, seus chefs vão destrinchar peitos de pato em outras cozinhas.

Um dos poucos abertos 365 dias é o maior empreendimento turístico da praia, o Costa Brasilis. Resort com arquitetura e decoração para agradar ao baronato, passou a oferecer pacotes de uma semana por dez parcelas de R$ 130 (”aéreo” incluído). O preço mal paga duas faxinas em São Paulo.

Os comerciantes locais descobriram que, ao contrário do turista nobre, vale a pena investir no ex-pobre. Enquanto os primeiros ficavam entocados e intocados no resort, os novos viajantes se dispõem a explorar pratos além do buffet – desde que se ofereça táxi grátis na ida e volta do restaurante.

O neoturista desce no aeroporto de Porto Seguro, sobe em um ônibus amarelo ovo de janelas panorâmicas e 38 quilômetros, 29 quebra-molas, duas aldeias indígenas e uma balsa depois desembarca no seu hotel de luxo. Piscinas, jacuzzis e praias semi-virgens (sic) o aguardam, promete a propaganda.

O trecho menos glamouroso é entre o avião e o ônibus. O aeródromo de Porto Seguro é o único no Brasil que recebe voos internacionais a ser administrado por uma empresa privada. O feito é anunciado com orgulho no site da Sinart. A propósito, a sigla vem de Sociedade Nacional de Apoio Rodoviário Turístico. Seu forte são as rodoviárias.

A convivência no veraneio é pacífica entre descolados e deslocados. A praia é grande e demarcada. Na ponta de areia formada pelo encontro das águas doce e salgada há uma pororoca diária. Nada a ver com as marés. A onda é humana e corre do rio para o mar.

Uma vez por dia, outra parte da “família CVC” desce desde Cabrália a bordo de duas chalanas. Centenas de alegres turistas vão passar algumas horas nos guarda-sóis e barracas que os esperam na barra. Muitas caipirinhas e águas de coco depois, voltam ao seu porto seguro.

À distância, a cena da prancha caindo sobre a praia, seguida do aglomerado deixando a chalana em ordem unida, poderia lembrar o movimento das balsas que povoaram as fazendas de pecuária da região do Araguaia, no sul do Pará, nos anos 70. Mas boi não dança axé.

A rotina silenciosa de Santo André é quebrada momentaneamente por uma terceira vaga diária. São as escunas que descem o rio e passam ao largo da costa até Coroa Grande. A cada rajada de vento ouvem-se, na praia, trechos entrecortados da música de bordo: “muito assanhada (…) lapada (…) rachada”.

Na maré baixa, o horizonte divisa um ilhote de areia avermelhada e o que parecem centenas de gravetos espetados n”água. São, na verdade, os passageiros das escunas, passeando pelas faces descobertas de uma extensa barreira de coral, a quilômetros da costa. Na volta, eles param para almoçar em um restaurante à beira-rio.

Nenhum morador dá pistas de estar ficando milionário, mas o dinheiro circula. E assim, graças cada vez mais ao turismo de massa e cada vez menos ao exclusivismo da classe A gargalhada (A-A-A…), Santo André vai passando seus verões, sem perder a tranquilidade.

Não foi preciso reivindicar um policial permanente para a vila. Se alguém rouba algo, dizem os andreenses, avisa-se os operadores da balsa, e a cana aguarda o imprevidente larápio do outro lado da travessia.

Para muitos. O Costa Brasilis em Santo André está longe de ser único. Dezenas de milhares de brasileiros têm, cada vez mais, comprado seu lugar ao sol em resorts, sempre em módicas prestações.

Leia mais, no blog, e saiba quais são os aeroportos que ganharam mais passageiros nos últimos anos: http://voxpublica.com.br.

30/01/2011 - 22:00h Boa noite


Placido Domingo e Dame Margaret Price -Già nella notte densa da opera Otello de Verdi.

30/01/2011 - 19:12h In memoriam

Margaret Price faleceu em 28 de janeiro 2011 de uma parada cardíaca.


Margaret Price “Tu che le vanita”, da opera Don Carlo


Margaret Price – Ave Maria da opera Otello de Verdi.

30/01/2011 - 18:57h Rostos e corpos para Chéreau

Le Boxeur. Óleo (1931) de Bonnard, vindo do D’Orsay
Reprodução

Diretor francês seleciona no acervo do Louvre, em Paris, obras para compor Les Visages et Corps


Luiz Carlos Merten / PARIS – O Estado de S.Paulo

Patrice Chéreau, o grande diretor de teatro e cinema, foi o convidado de outono do Museu do Louvre. Todo ano, o festival convida um artista de ponta para realizar uma exposição. Chéreau sucedeu a Pierre Boulez e Umberto Eco, que realizaram mostras temporárias no mais tradicional museu do mundo. A de Chéreau termina amanhã no Louvre. Vale a pena fazer o recorrido do museu para chegar ao espaço em que se localiza Les Visages et Corps, até mesmo uma visita virtual.

Rostos e Corpos. Na carta de intenções da mostra, Chéreau confessa: “Não sei viver nem fabricar, seja um objeto, um espetáculo ou filme, se não for na primeira pessoa. Sinto que me divido entre todos os personagens e, quando eles não são eu, se assemelham a pessoas que conheci e amei. É o que me dá energia para trabalhar. Alimenta o prazer e a necessidade de me dirigir aos outros.”

Filho de um pintor e uma desenhista, Chéreau conta que o Louvre foi fundamental na sua formação, que sempre gostou de percorrer seus corredores e galerias impregnando-se da arte universal. Na porta da Salle Restout, Chéreau define o conceito de Les Visages et Corps. O Louvre lhe deu carta branca para buscar, em seu imenso acervo, quadros e esculturas que quisesse reunir. Como eles não bastavam, foi necessário recorrer aos acervos de outros museus. Um dos choques da exposição é a obra-prima de Gustave Courbet, L”Origine Du Monde. Aquela mulher de pernas abertas, com sua vagina exposta, é uma das obras-primas da arte. Chéreau a expõe numa parede com outras obras e, principalmente, com fotografias de Nan Goldin.

Se você não sabe quem é, é bom se atualizar. Nan é reputada como autora de fotos que ilustram o amor, a morte, a doença, justamente os maiores temas da condição humana. Ela clica rostos e corpos em movimento em festas, por exemplo. São trabalhos magníficos. Uma das imagens emblemáticas é de sua velha mãe numa explosão de riso. De volta ao conceito da mostra, Chéreau escreve que, no cinema e no teatro, para criar emoção ou estimular reflexão ele precisa se valer do corpo do ator. É a mais preciosa das ferramentas para o diretor, basta lembrar de A Rainha Margot.

Na adaptação do romance de Alexandre Dumas, Chéreau seguiu uma lição de Visconti, a do cinema antropomórfico, dirigindo sua câmera basicamente para o corpo dos atores, como representação do humano. Da mesma forma, ele quis se valer de rostos e corpos buscados na imensa galeria do Louvre, em pinturas de grandes mestres, para compor uma reflexão sobre o homem no mundo, não muito diferente de suas peças e livros. Há aqui um Ticiano, ali um Rembrandt, mais adiante um Bacon e um Picasso. São obras famosas ou estudos. Um rosto de Bacon, um dorso de Géricault, o enigma daquela vulva por Courbet.

Belo e desconhecido. Um dos mais belos é também um dos menos conhecidos, São Sebastião Tratado por Santa Irene, de Francesco del Cairo. Todo mundo conhece a imagem de São Sebastião crivado de flechas e o próprio cinema se apropriou dela na versão de Derek Jarman. O São Sebastião de Chéreau assemelha-se ao Cristo de Mantegna, mas a construção da imagem remete à Pietà. Como o Cristo acolhido pela mãe, Sebastião repousa nos braços de Santa Irene.

Esses rostos e corpos transmitem não só o belo, transmitem a graça, a revelação, a ascese. São explosões de luminosidade em meio às sombras. O visitante percorre a mostra como se assistisse às imagens paradas de um filme. O movimento, quem faz ali, é o olhar do observador. Para complementar, paralelo à Sala Restout está o Corredor des Poules, que abriga, digamos assim, o making of da exposição. Sebastien Allard e Vincent Hught fizeram a curadoria de Derrière les Images. São desenhos e estudos cenográficos do próprio Chéreau e, depois que ele parou de desenhar, nos anos 1970, feitos por seu cenógrafo de sempre, Thierry Thieû Niang.

30/01/2011 - 18:00h Instante

Ceesepe©

30/01/2011 - 17:00h Centenário de nascimento de Claude Debussy (1862 – 1918)

R. Schnorrenberg – O Estado SP edição do 29/01/2011

Divulgação
Debussy retratado por Gibran

Claude Achille Debussy nasceu a 22 de agosto de 1862 em St. Germain-en-Laye. Nada o destinava á musica e ninguém em sua família – seus pais eram pequenos comerciantes – possua dotes artísticos. Destinado pelos pais á carreira maritima, foi numa visita a Cannes que conheceu o mar e teve suas primeiras aulas de piano com um certo Cerutti.

Pouco mais tarde passou a tomar aulas com uma professora italiana, Mme. Mauté de Fleurville, que tinha sido aluna de Chopin e era sogra de Paul Verlaine. Essa senhora fê-lo realizar tais progressos que pôde ingressar em 1873 no Consérvatoire, inicialmente na classe de solfejo (1) de Lavignac (2) e dois anos mais tarde na classe de piano de Marmontel (3). Lavignac muito o encorajou, até que Debussy obteve a primeira medalha de solfejo em 1876. As aulas com Marmontel foram já mais dificeis. O talento pianistico de Debussy era grande mas seu temperamento não se adaptava ás necessidades disciplinares do estudo puramente instrumental. Preferiria muito mais ler novas partituras a passar horas praticando escalas e arpejos, tanto assim que Marmontel, que não era insensível ás suas qualidades excepcionais, disse certa vez a outro aluno: “Esse diabo de Debussy não gosta nada de piano mas muito de musica”. Apesar dessas dificuldades Debussy conseguiu um “segundo premio” de piano em 1877.

Debussy seguiu depois o curso de harmonia de Emile Durand, homem severo e professor academico e reacionario, com quem manteve relações dificeis apesar de ter-lhe mais tarde dedicado um trio (1876-1879, inedito).

Em 1879, Debussy foi recomendado por Marmontel a Nadezhda von Meck que procurava um pianista para ler com ela novas musicas (4). Era ela a protetora de Tschaikovsky, possibilitando ao compositor uma vida sem dificuldades, desde que não travassem relações pessoais (5). Em sua companhia, Debussy visitou a Suiça, Italia e Russia. E’ então que ouve em Viena, pela primeira vez, “Tristão e Isolda”. Essa revelação ia marcá-lo por toda a vida. Na Russia, que visitou em 1881 e 1882, tomou conhecimento da musica russa, cuja influencia sobre sua carreira é muito discutida e sobre a qual voltarei em proximo artigo.

Também em 1880, Debussy obteve um “premier prix” em acompanhamento, na classe de Bazille. Ingressou ainda na classe de composição de Ernest Guiraud, preferindo-a á mais conhecida de Massenet (6). Tornou-se grande amigo de Guiraud que o auxiliou grandemente, impressionado pelos pontos de vista já originais do futuro compositor.

Na mesma epoca, tornou-se intimo da familia Vasnier, ele, arquiteto, amador de arte, ela, cantora. Datam de então as primeiras canções de Debussy, inclusive a famosa Mandoline. Encorajado por Vasnier, Debussy tentou obter o Prix de Rome, então essencial para uma carreira de compositor. Obteve em 1883 o segundo lugar com uma cantata Le Gladiateur (7) e em 1884 ganhou o Grand Prix com a cantata L’Enfant Prodigue, sobre um texto de Edouard Guinaud, obra ecletica, fortemente influenciada por Lalo e Massenet (8).

A estada de Debussy na Villa Medici, pensionato dos premiados, foi para ele um suplicio. Sentiu falta dos seus amigos de Paris, não teve nenhum contacto com seus colegas, queixando-se constantemente de seu alojamento, o “tumulo etrusco” (9). Compôs, no entanto, varias obras (10), se bem que geralmente incompletas: a ode sinfonica Zuleima (11), Diane au Bois (12), a suite Printemps (13) e  La Demoiselle Élue (14). Tais peças foram apreciadas pelos membros da Academia de Beaux-Arts, em cujo relatorio se encontram as primeiras referencias criticas desfavoraveis a Debussy. A proposito da “Demoiselle Élue, por exemplo, consta: “obra impregnada desse impressionismo vago que é dos mais perigosos… numa obra de arte” (15). Esta foi provavelmente a primeira vez em que o termo “impressionista” foi usado em relação á musica de Debussy (16).

Pouco se sabe sobre os primeiros anos que se seguiram ao regresso de Debussy de Roma. Começou uma opera, Chimène, sobre um libreto de Catulle Mendès, nunca terminada. Em 1887 conheceu Stéphane Mallarmé e tornou-se logo assiduo frequentador das terças-feiras literarias que este ultimo organizava em sua casa (17). Foi por sinal um dos poucos musicos a travar contacto com Mallarmé que, entretanto, como quase todos os simbolistas, tinha verdadeiro culto por Wagner.

Em 1888 e 1889 Debussy visitou Beirute para assistir ao festival wagneriano (18). Essas visitas caracterizaram uma epoca de grande evolução e maturidade intelectual de Debussy. De 1888 são as seis arietas mais tarde intituladas Ariettes Oubliés. De 1890 são os “5 Poémes de Baudelaire”. Em 1889 durante a exposição universal, Debussy assistiu a algumas representações de teatro javanês que mencionaria frequentemente a partir dessa época.

É também, então, que Debussy conheceu Erik Satie, cuja influencia sobre seu estilo é ponto violentamente controvertido. Sem duvida antes de Debussy, Satie tinha já adquirido certo vocabulario harmonico muito semelhante ao que ia desenvolver Debussy. Entretanto, Satie nunca produziu o que dele se esperava, enquanto que Debussy é um dos polos principais da musica contemporânea.

Em 1893 executou-se pela primeira vez (19) o Quatuor, pessimamente recebido. Com efeito, apesar de sua forma cíclica, grande coqueluche da epoca, a sua harmonia original, a sua escrita nova, a sua independencia em relação a quaisquer modelos, fizeram que mesmo Chausson, amigo intimo do compositor, não conseguisse aceitar plenamente a obra. Quase que apenas Paul Dukas elogiou imediatamente a composição.

Em 1894, nova estréia rumorosa: primeira execução do Prélude á l’après-midi d’un faune sobre o poema de Mallarmé. Desta vez, não se sabe exatamente por que, a primeira execução foi muito bem recebida, tanto assim que a peça foi bisada, tendo-se mantido até hoje como a mais popular de Debussy, aliás com ampla justiça, pois é “com flauta do fauno que começa uma nova respiração de arte musical” (20).

O proprio Mallarmé reconheceu o merito do compositor dedicando-lhe um exemplar do poema com as seguintes linhas:

“Sylvain d’haleine première
Si la flute a reussi
Ouis toute la lumière
Qu’y soufflera Debussy” (21)

(1) No Consérvatoire de Paris o solfejo tem sido sempre uma disciplina preliminar, tratada com o maximo cuidado e á qual é dada extrema importancia.

(2) Albert Lavignac (1846-1916), professor do conservatorio de Paris, conhecido principalmente por varios livros didaticos e de reminiscencias e como editor juntamente com Lionel de La Laurenele da famosa “Encyclopédie de la musique et dictionnaire du Consérvatoire”.

(3) Antoine-François Marmontal (1816-1898), famoso professor de piano no conservatorio de Paris de 1848 a 1887. Contam-se entre seus alunos Alneniz, Bizet, d’Indy, Guiraud, Planté e outros.

(4) Outras versões dizem que Debussy foi contratado como professor dos filhos de Mme. von Meck.

(5) Há varias referencias ao jovem “Bussy” na volumosa correspondencia entre Mme. von Meck e Tschaikovsky.

(6) Ernest Guiraude (1837-1892) foi pianista e mais tarde professor de composição do conservatorio de Paris, onde teve Debussy e Dukas como alunos. Deixou varias operetas e um estimavel tratado pratico de instrumentação, ainda hoje usado.

(7) Texto de Emile Moreau. A partitura mantém-se inedita.

(8) Uma famosa anedota conta que, algum tempo antes, Debussy tinha mostrado a Guiraud uma partitura semi-revolucionaria sobre Diane au bois de T. de Banville, e que o professor, elogiando a peça, acrescentara porém: Será necessario guardar isso para mais tarde senão nunca ganharás o Prix de Rome.

(9) C. Debussy: Monsieur Croche, Antidilettante

(10) Os pensionistas do Prix de Rome eram obrigados a compor varias obras justificando sua estada em Roma.

(11) Segundo o Almanzor, de Heine. Partitura perdida.

(12) Texto de T. de Banville.

(13) Originalmente para coro e orquestra, da qual só resta uma partitura, coral com redução de piano. A suite sinfonica desse nome, publicada muito mais tarde, não orquestrada por Debussy.

(14) Poema Lirico, de Dante Gabriel Rossetti, traduzido por G. Sarrazin, partitura terminada em 1888 e executada pela primeira vez em 1893.

(15) Citado por Pierre Boulez em Debussy – Encyclopédie de Musique Fasquelle.

(16) Da mesma epoca data também uma Fantasia para piano e orquestra.

(17) André Billy: L’époque 1900. (Histoire de la Vie Littéraire).

(18) Em 1887 visitara Brahms, com quem almoçou e assistiu a Carmen.

(19) Pelo quarteto (Ysaye, Criekboom, Van Hout, Jacob).

(20) Pierre Boulez: op. cit. De inicio, Debussy pretendia escrever um preludio, um interludio e uma parafrase final para o mesmo poema.

(21) Vers de Circonstance: dedicatorias do Prélude. (Obras Completas – Pléiade).

30/01/2011 - 11:59h ‘Preciso desencarnar da Presidência’, diz Lula

Na primeira viagem com evento público após deixar o cargo, ex-presidente evita fazer manifestações políticas e afirma que silêncio é ‘melhor para todos’

Eduardo Kattah – O Estado de S.Paulo

Empenhado em não fazer declarações de conteúdo político, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou neste sábado que precisa “desencarnar da Presidência” e “reencarnar como cidadão brasileiro”.

Depois de receber o título de doutor honoris causa na Universidade Federal de Viçosa (UFV), na noite de sexta-feira, o ex-presidente foi agraciado neste sábado com uma comenda oferecida pela prefeitura de Ubá, em Minas.

Durante uma rápida cerimônia no aeroporto da cidade, Lula evitou responder às abordagens de jornalistas e reiterou que pretende se manter em “férias” até o fim do carnaval.

“É a minha primeira atividade depois que eu deixei a Presidência. Eu, na verdade, não quero ter atividade até março, vou esperar o carnaval. A companheira Dilma (Rousseff) está montando seu time e eu preciso desencarnar da Presidência. Então, quanto mais quieto eu ficar, quanto menos falar, melhor será para todos nós”, disse o ex-presidente.

Questionado pelo Estado, ele não quis fazer nenhum prognóstico em relação ao caso do ex-ativista italiano Cesare Battisti. No seu último dia de mandato, o ex-presidente negou a extradição pedida pela Itália. A defesa de Battisti, condenado por assassinatos em seu país, já pediu sua libertação, o que deverá ser decidido pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em fevereiro. Lula também evitou falar sobre o governo de sua sucessora.

Críticas. Menos comedido que o ex-presidente, a quem acompanhou na visita a Minas, o ministro da Educação, Fernando Haddad, reagiu às recentes críticas do ex-governador de São Paulo José Serra (PSDB), que usou o Twitter para criticar o “vexame” do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e os problemas verificados no portal do Sistema de Seleção Unificada (Sisu).

Haddad não escondeu a irritação com o ataque feito na rede de microblogs pelo ex-candidato do PSDB à Presidência. “Serra tem de responder pela administração dele”, rebateu o ministro da Educação. “Acho pequeno a pessoa que pretendeu governar o País se aliar ao que tem de menor para fazer uma crítica desse tipo. Está havendo enchente em São Paulo, as pessoas estão morrendo na zona leste (da capital) há anos. Acho que é muito mais grave isso.”

30/01/2011 - 09:21h DEM ainda luta por Kassab

JOÃO BOSCO RABELLO – O Estado de S.Paulo

Embora só a convenção, em março, aponte que facção sairá vitoriosa na guerra intestina do DEM, a disputa amanhã pela liderança da Câmara aumentará necessariamente a temperatura interna. De um lado, o deputado ACM Neto (BA), de outro, Eduardo Sciarra (PR). O primeiro, candidato do presidente do partido, Rodrigo Maia(RJ); o segundo, do presidente de honra, Jorge Bornhausen (SC).

Espectador interessadíssimo na disputa, o PMDB torce pela vitória da ala Rodrigo Maia para consolidar a filiação do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, dada como certa, mas ainda incerta.

Quem perguntar ao vice-presidente da República, Michel Temer, como andam as negociações com o prefeito ouvirá que a filiação está consumada. Mas Kassab tem acordo com Temer e Bornhausen para que a definição só ocorra após a convenção em março.

Uma vitória de Maia na convenção selaria a saída de Kassab. O contrário pode lhe devolver lugar no comando do DEM que perdeu a partir de uma grosseira falsificação de ata da Convenção Nacional que delegava ao Conselho Político os poderes para decidir sobre linha partidária, coligações nas eleições nacional e estaduais e de indicar os candidatos à Presidência da República, entre outros.

Integrante do Conselho, Kassab começou ali a traçar seu caminho em direção ao PMDB informado de que o autor da modificação da ata fora o presidente Rodrigo Maia. O partido ficou pequeno para os dois.

Jogo pesado

Os adversários de Rodrigo Maia guardaram o original da ata da convenção nacional e a versão alterada que transforma “decidir” por “recomendar” e “indicar” por “propor” no artigo que delega plenos poderes ao Conselho Nacional em relação às coligações e escolha de candidatos. Divulgar o fato prejudicaria a campanha de José Serra e também tornaria público o trunfo jurídico de Gilberto Kassab para deixar o partido sem risco de punição por infidelidade partidária. Sua divulgação agora tem o objetivo de derrotar ACM Neto amanhã e criar condições para a permanência do prefeito de São Paulo.

Efeito cascata

A eleição do líder da Câmara influi na escolha do futuro presidente do partido. O ex-senador Marco Maciel (PE), candidato de Bornhausen, não se disporia a disputar o cargo com o partido em chamas. O senador José Agripino (RN), candidato de Rodrigo Maia, ao contrário, já admitiu disputar. Com Maciel fora, há quem sugira a Bornhausen que pense seriamente na senadora Kátia Abreu (TO) como candidata. A senadora é próxima de Bornhausen e Kassab.Disputa acirrada

Fernando Collor (PTB-AL), atual ocupante do cargo, Eduardo Braga (PMDB-AM)e Lindberg Farias (PT-RJ) disputam a presidência da Comissão de Infraestrutura do Senado. A briga é acirrada porque o PMDB quer o critério de maior bancada para a escolha e o PT, o de maior bloco, o que lhe daria supremacia no processo. Para o PMDB, a comissão é inegociável porque Braga, preterido para o Ministério dos Transportes, ocupado pelo seu adversário regional, Alfredo Nascimento (PR), quer usar o poder de fiscalização da comissão para infernizar o ministro. Além disso, é a comissão de infraestrutura que sabatina os diretores das agências reguladoras.

Chega de férias

Na homenagem ao ex-vice-presidente José Alencar, o ex-presidente Lula disse a um aliado que não aguenta mais as férias e quer voltar à lida.



30/01/2011 - 08:54h Sobrevivência política afasta Serra de Kassab


Provável ida do prefeito para o governista PMDB o distancia do padrinho, agora interessado em se aproximar de Alckmin

Julia Duailibi – O Estado de S.Paulo

A aliança entre o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (DEM), e o ex-governador José Serra (PSDB), forjada na eleição municipal de 2004 e repetida com sucesso na disputa de 2008, começa a dar os primeiros sinais de esgarçamento.

Com “os dois pés no PMDB”, segundo definiu um aliado, o prefeito paulistano tem se aproximado cada vez mais do governo federal e está prestes a integrar a base governista da presidente Dilma Rousseff (PT).

O movimento de Kassab acontece no momento em que Serra aumenta o tom das críticas à gestão Dilma, até como forma de se cacifar na condição de principal liderança da oposição, e tenta uma parceria estratégica com o governador tucano Geraldo Alckmin para fazer frente ao senador eleito Aécio Neves na disputa pelo controle do PSDB.

Herdeiro político de Serra ao assumir a prefeitura de São Paulo em 2006, quando o tucano renunciou ao cargo para disputar o Palácio dos Bandeirantes, Kassab articula a ida para o PMDB pelas mãos do vice-presidente da República, Michel Temer. “Ele vem com o apoio total e irrestrito do governo Dilma”, afirma um peemedebista. “A única dificuldade é tocar isso com o Serra”, desabafou o prefeito a um interlocutor.

Empecilho. Embora Kassab tenha se mantido até agora leal ao padrinho político, inclusive abrigando em seu secretariado serristas “expatriados” do governo paulista por Alckmin, e o mantenha informado sobre a ida para o PMDB, a fidelidade do prefeito ao projeto tucano no Estado se tornou um empecilho ao futuro político de Serra.

No PMDB, Kassab pretende disputar o Palácio dos Bandeirantes em 2014. Ocorre que Alckmin é candidato natural à reeleição e não pretende ver o afilhado de Serra disputando espaço com ele nos próximos quatro anos.

De seu lado, em busca da sobrevivência política, num momento em que os aliados de Aécio tentam isolá-lo no partido, Serra procura jogar alinhado com Alckmin. Serristas mais exaltados já falam em uma aliança Serra-Alckmin em 2014 para derrotar o grupo mineiro.

Por essa composição, qualquer um dos dois poderia encabeçar a chapa presidencial. O outro ficaria com a disputa pelo Bandeirantes. Para Kassab, alegam, haveria vaga como candidato a vice-governador ou a uma cadeira no Senado.

De acordo com essa lógica, para manter a aliança com os tucanos, Kassab teria de enterrar o sonho de disputar o governo paulista em 2014. Lideranças do PSDB, no entanto, veem com desconfiança uma aliança Serra-Alckmin. “Alckmin é de escorpião, não dá para saber nunca o que ele está pensando”, diz um dos principais nomes do partido, para quem o governador atua “com um pé em cada canoa”.

29/01/2011 - 22:00h Boa noite


Werther recitation of a portion of Ossian – “Pourquoi me réveiller?”

Werther
Lyric drama in four acts and five scenes (1892)
Music by Jules Massenet (1842-1912)

Jonas Kaufmann: Werther
Sophie Koch: Charlotte

Michel Plasson, conductor
Orchestre de lOpéra national de Paris

Benoît Jacquot and Louise Narboni, director

29/01/2011 - 19:26h é tarde…


La Traviata – Final

Angela Gheorghiu, Frank Lopardo, Leo Nucci, Regente: Sir Georg Solti

29/01/2011 - 17:00h A volta dos tigres da Malásia

SERGIO AUGUSTO – O Estado de S.Paulo

Um asturiano criado no México, com nome de rei medieval, Paco Ignacio Taibo II, inaugurou de forma sui-generis os festejos pelo centenário de morte do escritor italiano Emilio Salgari. Pegou o mais aclamado herói salgariano, o exótico príncipe malaio Sandokan, defensor dos fracos e oprimidos do Sudeste Asiático, e o expôs a novos desafios, na mesma latitude de antanho (os mares do Oriente), com o mesmo parceiro (Yáñez de Gomara) de outras refregas contra os parasitas do colonialismo europeu. Por enquanto, El Retorno de los Tigres de la Malasia só pode ser lido em espanhol, editado pela Planeta.

Conhecido por alguns romances policiais e duas biografias (Che Guevara e Pancho Villa), Taibo, de 61 anos, não quis simplesmente pegar carona num secular fenômeno literário – por sinal, ainda de pé, inclusive no Brasil, onde a farta galeria de heróis salgarianos reluz nos catálogos da Ediouro e da Iluminuras -, mas apenas quitar sua dívida com o criador de Sandokan. Foi através das aventuras do Tigre da Malásia, do Leão de Damasco, do Capitão Tormenta, do Corsário Negro, de Tremal-Naik e outras míticas figuras da literatura infanto-juvenil criadas por Salgari no final do século 19 que Taibo descobriu o prazer da leitura e tomou suas primeiras lições sobre o valor moral da coragem, a cupidez dos poderosos e as nefastas ações ultramarinas dos impérios europeus.

Umberto Eco já prestara sua homenagem ao mestre veronês, por intermédio de um alter ego, Yambo, o reminiscente protagonista de A Misteriosa Chama da Rainha Loana. Taibo foi mais audacioso: não só reincorporou o universo ficcional de Salgari, como o revitalizou, modernizando-o, problematizando-o, politizando-o, pero sin perder la bravura. Alguns roteiristas da antiga Warner fizeram mais ou menos a mesma coisa com as peripécias (reais, legendárias ou imaginárias) de arqueiros, corsários e espadachins formidáveis, muito antes de Robin Hood receber de Eric Hobsbawm a fidalga insígnia de “bandido social”.

Já que uma parcela das sagas salgarianas foi escrita por mãos anônimas, a pedido do próprio filho do escritor, dispensam-se as objeções dos puristas. Salgari inventou e modelou todos os personagens, produziu a maior parte dos romances (a bem dizer, novelas), deu-lhes o espírito aventureiro e a tônica anticolonialista; Taibo soube aproveitar-se bem do que não ouso chamar de franquia, esquivando-se de injetar antígenos revisionistas nas façanhas do “pirata do bem”. Nenhum vilão de outrora virou mocinho em seu atualizado pasticho, narrado de uma “perspectiva marxista”, salienta o autor, para quem, esclareça-se, Os Três Mosqueteiros era (ou é) uma aventura marxista. O avant lettre não é facultativo.

Sessentões e de cabelos brancos, mas ainda vigorosos e intrépidos, Sandokan e Yáñez viajam até a ilha de Bornéu para desvendar a conspiração de uma sociedade secreta chinesa (o Clube da Serpente) que inferniza os pobres ilhéus asiáticos. Tornaram-se homens de ação e reflexão. Yáñez virou um justiceiro filosofante, que sabe de cor provérbios chineses e cita Calderón de la Barca e Quevedo. Como envelhecer com vigor e dignidade é um dos temas subjacentes da novela, em cuja trama se intrometem outras obsessões de Taibo, como Friedrich Engels (coautor do Manifesto Comunista), o professor Moriarty (o arquirrival de Sherlock Holmes), o escritor Rudyard Kipling (no papel de um jornalista) e Old Shatterhand (parceiro de Winnetou, o totêmico pele-vermelha inventado pelo alemão Karl May, outra estrela da ficção juvenil, contemporâneo de Salgari).

A inserção de Kipling é um achado. Jornalista de profissão, era nessa condição que ele narrava o conto O Homem Que Queria Ser Rei, adaptado ao cinema por John Huston e parcialmente inspirado nas proezas do britânico James Brooke, o primeiro rajá branco de Sarawak, no Bornéu, e o mais graduado rival de Sandokan. É quase um ciclo que se fecha; ou melhor, continua – infelizmente ad infinitum, ao que tudo leva a crer.

O viés marxista adotado por Taibo é uma licença poética, não de todo descabida. Ao contrário de Jules Verne, a quem chegou a ser comparado por conta de uma fantasia futurista ambientada no ano 2000, Salgari não via chances na utopia socialista, a seu ver, disse-o com outras palavras, um dinossauro ideológico. “Era uma bela utopia, que na prática não funcionou, resultando numa espécie de escravidão”, esclarece o guia dos visitantes do passado em As Maravilhas do Ano 2000, acrescentando: “Assim, voltamos à antiga e hoje há pobres e ricos, patrões e empregados, como sempre aconteceu desde que o mundo começou a ser povoado”.

Salgari tinha apenas 21 anos quando publicou seu primeiro folhetim, O Tigre da Malásia, em 1883, num jornal de Verona. Era uma máquina de produzir histórias, menos por gosto e vocação do que por pressão de um editor sanguessuga, que o obrigava a entregar vinte páginas de texto por dia e, no fim, o deixou de pires na mão. Desesperado, tentou em vão matar-se em 1909. Em 25 de abril de 1911, com uma faca de cozinha, praticou um haraquiri. Deixou três cartas: uma para os filhos, outra para um jornal de Turim, onde vivia, e outra para seus editores. Nesta escreveu: “De vocês, que enriqueceram à custa do meu suor, mantendo a mim e minha família na miséria, o mínimo que espero é que paguem o meu funeral. Saúdo-os quebrando a minha pena. Emilio Salgari”.

29/01/2011 - 12:39h Gays são agredidos em novo caso na região da Paulista

Rapaz de 27 anos foi atingido no olho e amigo levou um soco no peito;vítima relata falta de socorro em posto e acusa Polícia Militar de omissão

Márcio Pinho – O Estado de S.Paulo

Um estudante de 27 anos afirmou que ele e um amigo foram vítimas de mais um ataque homofóbico na região da Avenida Paulista, na madrugada de terça-feira, aniversário de São Paulo. Com esse, são pelo menos cinco casos desde 14 de novembro, quando quatro adolescentes e um jovem de 19 anos cometeram agressões na mesma avenida.

Por volta das 4 horas, Fábio (nome fictício) e o amigo caminhavam na Rua Peixoto Gomide, quase na esquina com a Rua Frei Caneca, quando ele levou uma garrafada no olho direito. O estudante conta que não viu os agressores se aproximarem. Ao tomar a garrafada, ouviu o amigo que o acompanhava gritando para que corresse. O outro rapaz levou um soco no peito e notou que um dos agressores tinha a cabeça raspada, outro tinha tatuagens, e que todo o grupo vestia roupas pretas – seriam skinheads.

Fábio é homossexual e mora na zona oeste. Seu marido está na Alemanha, onde casaram – o país permite a união entre pessoas do mesmo sexo. Ele diz estar convicto de que o ataque teve motivação homofóbica porque as roupas que usa e a entonação da voz indicariam sua orientação sexual.

Ele lamenta o fato e diz não compreender a motivação para agressões gratuitas como as que têm acontecido na região da Paulista. “Não sei se isso é estimulado por comportamento familiar, programas na TV… Não sei interpretar o que acontece na cabeça da pessoa para ter um comportamento desse tipo”, afirma.

Sem socorro. Após a agressão, Fábio correu para um posto de gasolina com sangramento no olho e no rosto. Foi nesse momento que o estudante teria, pela primeira vez naquele dia, o sentimento de desamparo. Não foi atendido pelos funcionários do posto quando pediu água e um pano para limpar a ferida.

O amigo tentou ligar para a polícia, mas não foi atendido. Fábio então procurou a base móvel da Polícia Militar na Paulista, nas proximidades com a Rua Haddock Lobo. Ele se queixa que os policiais não chamaram reforço para tentar buscar os agressores. “Pelo jeito, pensaram que tinha sido uma briga de balada.”

Mais tarde, às 6h40, foi ao hospital e recebeu um curativo. Não houve perda da visão. À tarde, foi ao 4.º Distrito Policial, próximo do local da agressão, e foi orientado a ir à Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi), que, naquele dia, segundo ele, não estava funcionando. O boletim de ocorrência (BO) só foi lavrado anteontem, quando Fábio foi à delegacia com o advogado Paulo Mariante, militante do Grupo Identidade, ONG com sede em Campinas que luta pela diversidade sexual. O amigo que levou um soco no peito fez o BO pela internet.

Mariante afirma que a 1.ª Conferência Estadual GLBT de São Paulo, realizada em 2008, com a participação de secretarias estaduais, entre elas a da Segurança Pública, buscou criar mais sensibilização nos agentes públicos para questões relacionadas a homofobia. “Nem todos os agentes policiais sabem que essa discriminação é uma infração no Estado que pode render multa”, avalia o advogado.

Mariante entrará com uma representação na Ouvidoria de Polícia do Estado de São Paulo contra o que considerou “omissão” dos policiais.

Polícia. A Polícia Militar informou que realizou ronda após o caso ser relatado no posto policial da Paulista e que abordou cinco jovens nas proximidades do local da agressão. A corporação afirma que Fábio não deixou contato e tampouco quis ser ajudado – preferiu ir com os amigos para o hospital. A Decradi informou que as investigações estão no início e que, por enquanto, não há como afirmar que foi motivado por homofobia.

29/01/2011 - 11:56h Os detetives de Alckmin

Governador de São Paulo convoca auditores, policiais e até ex-espiões para analisar contratos da administração de José Serra

Alan Rodrigues – Istoé

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Se o ex-governador paulista José Serra tivesse como sucessor um adversário de partido, talvez sua vida hoje fosse mais tranquila. Apesar das juras públicas de mútua admiração, Serra e o atual governador Geraldo Alckmin, ambos do PSDB, são, no mínimo, “desafetos”, como se costuma chamar dois tucanos que não se suportam. Serra não perdoa Alckmin, que não perdoa Serra. Pelo lado do ex-governador, pesa na conta negativa a candidatura à Presidência da República que Alckmin assegurou em 2006, tomando sua frente. Pelo lado de Alckmin, o passivo passa pelo apoio que lhe faltou na candidatura à prefeitura da capital, em 2008, quando Gilberto Kassab, do DEM, catalisou as simpatias serristas. Mais do que isso, o atual governador e seus correligionários ainda amargam o desprezo com que teriam sido tratados depois que Serra sucedeu Alckmin em 2006, anunciando revisão de contratos, suspensão de projetos e caça a funcionários fantasmas. A auditoria jamais foi divulgada. Agora vem o troco.

Logo depois da posse, sem alterar seu estilo manso de político interiorano, Alckmin ordenou a sua equipe que investigasse todos os contratos diretos e indiretos da administração Serra (2007-2010). A operação pente-fino foi entregue à chefia de Vicente Falconi, do Instituto de Desenvolvimento Gerencial (Indg), um especialista indicado pelo senador mineiro Aécio Neves. Sua missão é virar pelo avesso os contratos, concorrências e licitações, principalmente de obras, foco de denúncias nunca comprovadas de superfaturamento e tráfico de influência no governo Serra. Para a plateia, Alckmin justifica que vai apurar apenas possíveis irregularidades nas contas da administração anterior, para que isso sirva de modelo ao “choque de gestão” que pretende implementar em seu governo. Sua assessoria, numa nota de esclarecimento à ISTOÉ, prefere a expressão “análise criteriosa dos contratos” em vez da palavra “auditoria”. Já os serristas entenderam a iniciativa como pura retaliação. Serra acha, como disse a políticos mais próximos, que a investigação das supostas irregularidades faz parte de um jogo político que pretende esvaziar sua candidatura à presidência do PSDB e empurrá-lo a um definitivo ostracismo.

Alckmin deu ainda outros passos que tiram o fôlego de aliados de Serra ao colocar conturbadas obras do Rodoanel, da Marginal do Tietê e do Metrô da capital paulista na fronteira de um caso policial. O governador resolveu nomear policiais, promotores e até um ex-espião para rever os contratos assinados no passado na Secretaria de Logística e Transportes. Para coordenar este setor, buscou no ninho tucano um dos principais desafetos de Serra, o procurador de Justiça Saulo de Castro Abreu, ex-secretário de Segurança da primeira gestão de Alckmin (2003-2006). Com a tarefa de xeretar tudo, Abreu, por sua vez, recorreu ao coração da polícia paulista: convocou o coronel da PM João Cláudio Valério, ex-administrador do orçamento da Secretaria da Segurança Pública, para auxiliá-lo. Além disso, em vez de nomear um engenheiro para a Dersa, o secretário colocou na direção desta estatal que cuida das principais obras viárias do Estado o ex-supervisor da Febem e especialista em segurança Laurence Casagrande Lourenço. Homem da confiança de Abreu, Lourenço é ex-diretor da Kroll, uma agência de investigação internacional que ficou conhecida no Brasil depois da CPI dos Grampos na Câmara Federal, quando foi colocada sob suspeita de ligação com arapongas e escutas clandestinas. “A Kroll deu a Laurence experiência na iniciativa privada e na identificação de superfaturamento de contratos”, justificou Abreu. O posto onde toda essa experiência será colocada à prova também é significativo: a Dersa, agora sob responsabilidade do veterano da Kroll, abrigou no governo passado figuras controvertidas como o ex-diretor Paulo Vieira de Souza, o famoso Paulo Preto, acusado por tucanos de ter desfalcado o caixa de campanha presidencial de Serra. “Todos os nomes que escolhi são de pessoas de confiança, que já trabalharam comigo. É gente para tocar os projetos seriamente”, disse Abreu. Essa afirmação do secretário acabou jogando mais lenha na fogueira: “Como assim, ‘seriamente?’”, indignou-se um deputado estadual ligado a Serra que prefere o anonimato. “Que história é essa de tocar projetos seriamente? Somos de um mesmo governo, não pode haver dúvidas sobre nossa seriedade no trato da coisa pública.”

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A TRINCA
Falconi, Abreu e Semeghini, os homens de
Alckmin para xeretar gastos com obras e contratações

Há ainda um terceiro nome importante na equipe de Alckmin encarregado de esmiuçar o passado: Júlio Semeghini, o novo secretário de Gestão. Ele não mede palavras para falar do trabalho que tem pela frente. “Vamos olhar tudo, contrato por contrato, pasta por pasta”, afirmou Semeghini. Segundo o secretário, as investigações se estenderão por todos os setores da administração. Além das obras contratadas, a papelada de outras duas áreas merecerá cuidados especiais: comunicação e recursos humanos. A administração de Serra gastou em propaganda e publicidade R$ 329,5 milhões, 372% a mais do que o movimento de quatro anos atrás. Já na área de recursos humanos, o foco das análises será as despesas com a contratação de mão de obra terceirizada, que ultrapassaram R$ 10 bilhões, em 2009. Desse total, R$ 4,1 bilhões (sendo R$ 2,8 bilhões da administração direta e R$ 1,3 bilhão da indireta) estão sob a mira de Semeghini.

A vida de Serra também está complicada no plano da política nacional. Em maio, o PSDB vai eleger uma nova direção e Serra vê a presidência do partido como o único caminho para mantê-lo em evidência. Acontece que parlamentares ligados ao senador mineiro Aécio Neves e ao governador Geraldo Alckmin trataram de isolar José Serra da direção partidária. Eles conseguiram aprovar na quarta-feira 26 uma moção, subscrita por 54 deputados e suplentes, com a recondução de Sérgio Guerra à direção nacional do partido. “Esta lista foi uma forma infeliz de buscar a presidência do partido”, reagiu o ex-governador Alberto Goldman, aliado de Serra. “A atitude de Sérgio Guerra foi indigna e o desqualifica como presidente do partido”, atacou o deputado Jutahy Magalhãoes (BA), um dos mais vigorosos serristas. Com tamanha repercussão, mais uma vez o governador Geraldo Alckmin resolveu, com seus modos gentis, alegar desinteresse pelo assunto e desconhecimento sobre as reais pretensões de Serra. Alckmim se referiu à barulhenta movimentação tucana anti-Serra como coisa para se decidir num futuro muito distante: “Nem sei se o Serra será candidato a presidente do partido. Mas, se quiser, terá meu integral apoio”, afirmou. Este não é, claro, o tipo de frase que Serra poderia encarar como uma adesão entusiasmada.

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29/01/2011 - 10:46h Os interesses privados e a conivência do Estado: o caso das patentes farmacêuticas e a atuação da ANVISA

Quem somos

O Grupo de Trabalho sobre Propriedade Intelectual da Rede Brasileira de Integração dos Povos (GTPI/Rebrip) é um grupo de organizações da sociedade civil (de interesse público), pesquisadores e estudantes que tem como missão lutar pela garantia do direito à saúde, mais especificamente ao direito à assistência farmacêutica e ao monitoramento e enfrentamento dos impactos das regras de propriedade intelectual no acesso a produtos essenciais e ao conhecimento,[1].

O que está em jogo

No Brasil, a concessão de uma patente na área farmacêutica depende da anuência prévia da ANVISA – Agência Nacional de Vigilância Sanitária por força de lei. Especificamente na área farmacêutica, a proteção a propriedade intelectual por meio de uma patente tem importantes implicações para a saúde pública, pois o governo e os consumidores ficam obrigados a comprar os produtos apenas de um fornecedor, que por sua vez pode praticar preços altos, comprometendo os orçamentos públicos e o acesso da população aos medicamentos[2]. Na perspectiva da saúde pública, a proteção patentária deve seguir um padrão mais estrito de forma a privilegiar inovações genuínas e evitar práticas monopolistas sobre produtos já conhecidos, dificultando o acesso ao retardar a entrada de medicamentos genéricos no mercado[3].

A anuência prévia foi inúmeras vezes aplaudida na Organização Mundial da Saúde – OMS[4] e pelos defensores dos direitos humanos em todo o mundo, ao mesmo tempo que sempre contou com o desagrado de alguns setores. Um deles é o próprio Instituto Nacional de Propriedade Industrial – INPI que se sente usurpado em suas atribuições e as empresas farmacêuticas transnacionais por se sentirem lesadas, já que a elas não interessa rigor na análise de pedidos de patentes. Várias estratégias foram utilizadas para enfraquecer a anuência – e nós acompanhamos e nos pronunciamos em cada uma dessas ocasiões[5].

Ao contrário do que publicou a diretoria da ANVISA recentemente, os dois órgãos (ANVISA e INPI) sempre viveram em litígio no que tange a harmonização da anuência – a prova cabal dessa afirmação é o fato de que o INPI reiteradamente se nega a publicar as decisões da ANVISA – gerando um custo aos cofres públicos e ao consumidor final de medicamentos. Por isso, a Advocacia Geral da União foi provocada a conciliar as atribuições do INPI e da ANVISA no processo de concessão de patentes.

O parecer da AGU

No revés de suas atribuições, a AGU apenas aguçou o conflito e presenteou as empresas farmacêuticas. O parecer[6] emitido em 2010 enfraquece a anuência de forma direta e absurda. Segundo ele a análise da ANVISA deve se ater a verificação de possíveis efeitos nocivos à saúde. No entanto, essa sugestão é inaplicável já que é tecnicamente impossível analisar a nocividade de um produto através de um pedido de patente.

A ANVISA, o GTPI[7], o Ministério da Saúde e o Ministério da Ciência e Tecnologia[8], entre outros atores, solicitaram à AGU a revisão desse parecer.

O novo parecer, assinado pelo Procurador Federal Estanislau Viana de Almeida – e corroborado pelo Procurador Geral Federal, Dr. Marcelo Siqueira e por fim pelo Advogado geral da União Dr. Luis Inácio Lucena Adams –  não acolheu o pedido de reconsideração e foi além ao transformar a anuência prévia da ANVISA em mera apresentação de “subsídios ao exame”, que o INPI poderá considerar ou não. Além de todas as imprecisões do parecer anterior, o novo documento da AGU subverte o espírito da Lei de Propriedade Industrial e é claramente insustentável. Entre as razões principais citamos:

1 – A Lei de Propriedade Industrial (LPI) em seu artigo 229-C determina que “[a] concessão de patentes para produtos e processos farmacêuticos dependerá da prévia anuência da ANVISA”, onde a expressão “depender” é categórica, definindo que o pedido não poderá ser concedido caso não obtenha essa anuência. Depender não é levar em consideração. Segundo definição do dicionário Houaiss, “depender” é “necessitar de decisão, resolução de (autoridade competente)”.

2 – Subsídios ao exame podem ser apresentados por qualquer interessado, conforme disposto no artigo 31 da LPI. Assim, não pode ter sido o espírito do legislador ao instituir a anuência prévia estabelecer que a ANVISA terá um papel que já é de qualquer pessoa ou órgão.

3 – A nocividade de um produto farmacêutico é auferida pela ANVISA na ocasião da solicitação do registro sanitário para comercialização, quando deverão ser apresentados todos os estudos necessários para possibilitar essa análise. Registro sanitário nada tem a ver com patente. Não é crível que o legislador tenha instituído um novo mecanismo na LPI para que a ANVISA fizesse a mesma coisa que já fará posteriormente e com muito mais propriedade.

Em conclusão, o parecer da AGU é um notável retrocesso na agenda de defesa do rigor nas avaliações de patentes farmacêuticas e no uso de medidas de proteção para a saúde em relação aos direitos de propriedade intelectual. O parecer também vai contra a posição pró-saúde pública defendida e liderada pelo governo brasileiro há anos em foros internacionais, tais como na Agenda do Desenvolvimento da Organização Mundial de Propriedade Intelectual – OMPI e na recente Estratégia Global e Plano de Ação Sobre Saúde Pública, Inovação e Propriedade Intelectual na OMS. Em razão desse retrocesso na defesa dos direitos humanos, o governo brasileiro poderá ser denunciado na Organização das Nações Unidas (ONU).

No dia 19 de outubro de 2010, dentro de um evento na Ordem dos Advogados do Brasil – OAB/RJ a ativista histórica do movimento de luta contra AIDS Jucimara Moreira entregou nas mãos do Dr. Marcelo Siqueira (PGF) uma petição solicitando a revisão do parecer 210/PGF/AE/2009. Essa petição contou com a assinatura de 154 organizações nacionais e internacionais e indivíduos, que se somaram a essa causa com apenas três dias de mobilização via Internet. O apelo não foi ouvido pela Advocacia Geral da União.

Não podemos assistir passivos à derrubada de um instituto em defesa da saúde pública! Vamos fazer desta crise uma oportunidade de movimentos e organizações que defendem o direito à saúde se unirem mais uma vez em defesa da vida! Conclamamos a Presidenta Dilma Rousseff a não endossar o parecer ilegal da Advocacia Geral da União!

Rio de Janeiro, 26 de janeiro de 2011

Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS – Secretaria Executiva

Grupo de Trabalho sobre Propriedade Intelectual – GTPI

Rede Brasileira Pela Integração dos Povos – REBRIP

www.deolhonaspatentes.org.br

A Anuência Prévia em números

Importante estudo desenvolvido em 2008[9] analisa de forma qualitativa os pareceres emitidos no âmbito da anuência prévia da ANVISA entre junho de 2001 a dezembro de 2006 e traz algumas evidências a serem observadas. É relevante lembrar que a análise da ANVISA só ocorre depois que o pedido de patente já tenha recebido parecer favorável à concessão pelo INPI. Esses números demonstram a importância da anuência prévia da ANVISA no processo de concessão de patentes na área farmacêutica, uma vez que evitaram a concessão de patentes indevidas. Veja no quadro abaixo:

Avaliação qualitativa

%

Insuficiência descritiva

34,0

Falta de novidade

22,8

Matéria não-patentável

18,4

Falta de atividade inventiva

10,3

[1] São membros do GTPI/REBRIP: ABIA – Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids; CONECTAS Direitos Humanos; FASE – Solidariedade e Educação; FENAFAR – Federação Nacional dos Farmacêuticos; GAPA/RS – Grupo de Apoio à Prevenção à Aids do Rio Grande do Sul; GAPA/SP – Grupo de Apoio à Prevenção à Aids de São Paulo; GESTOS – Soropositividade, Comunicação & Gênero; GIV – Grupo de Incentivo à Vida; GRAB – Grupo de Resistência Asa Branca; Grupo Pela Vidda/RJ; Grupo Pela Vidda/SP; IDEC – Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor;INESC – Instituto de Estudos Socioeconômicos; MSF – Médicos Sem Fronteiras; Projeto Esperança São Miguel Paulista; RNP+/MA – Rede de Pessoas Vivendo com HIV/AIDS Maranhão

[2] Diversos estudos demonstram que há uma drástica redução no preço dos medicamentos tão logo as patentes expiram, devido à concorrência de produtos genéricos que passam a ficar disponíveis no mercado (ver, entre outros, “Integrating intellectual property rights and developing policy”, Report of the Commission on intellectual property rights, London, 2002, principalmente páginas 29-56). Além disso, um abrangente estudo realizado pelo governo dos Estados Unidos verificou que, em média, o preço dos medicamentos genéricos equivale a 43% do preço do medicamento de referência praticado durante a vigência da patente (Generic drug industry dynamics. US Federal Trade Commission Working Paper 248, 2002, www.ftc.gov/be/workpapers/industrydynamicsreiffenwp.pdf.).

[3] Relatórios têm apontado práticas de grandes empresas farmacêuticas para barrar a concorrência via solicitação de diversos pedidos de patentes para um mesmo produto. Ver, entre outros: Comissão Européia DG. Pharmaceutical Sector Inquiry: preliminary report, Julho, 2009. Disponível em: http://ec.europa.eu/competition/sectors/pharmaceuticals/inquiry/communication_en.pdf.

[4] Relatório da Comissão Sobre Direitos da Propriedade Intelectual, Inovação e Saúde Pública, CIPIH/2006/1, p. 76.

[5] Dentre inúmeras estratégias, podemos citar: a) Legislativo: Projeto de Lei para enfraquecimento da Anuência Prévia: O PL 3.709/2008, proposto pelo deputado Rafael Guerra (PSDB-MG), pretende limitar a anuência prévia um mecanismo transitório chamado de pipeline, que equivaleria limitá-la temporalmente.O Deputado em questão tem entre seus financiadores de campanha empresas farmacêuticas, entre elas a Novartis Biociências S/A (mais em http://tinyurl.com/62h7fzf); b) Judiciário: algumas empresas inconformadas com as análises da ANVISA acionaram o judiciário. Um exemplo é a ação movida pela empresa suíça Roche contra a ANVISA pelo indeferimento da patente do medicamento Valganciclovir, utilizado no tratamento de retinite por citomegalovírus (CMV) em pacientes com AIDS (Ação ordinária nº  2004.51.01.506840-0 – 37ª Vara Federal do Rio de Janeiro). A empresa não só contesta o indeferimento da patente, a anuência prévia em si.

[6] Parecer 337/PGF/EA/2010, disponível em: http://tinyurl.com/4nv2z5t

[7] Carta ao Dr. Marcelo Siqueira pela manutenção da Anuência Prévia – http://www.petitiononline.com/gtpi2/petition.html

[8] Informação disponível em ESTADO DE SÃO PAULO. Ministérios da Saúde e de Ciência e Tecnologia intervêm por Anvisa no caso de patentes. Disponível em http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20100812/not_imp593908,0.php

[9] Miranda, HS (2008). “Avaliação de análise dos pedidos de patentes farmacêuticas feita pela Anvisa no cumprimento do mandato legal da anuência prévia”. Dissertação de Mestrado desenvolvida na Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca da Fundação Oswaldo Cruz.

29/01/2011 - 09:26h Brasil indica que vai ”esfriar” a economia

Tombini e Coutinho citaram políticas monetária e de crédito para conter inflação

Fernando Dantas – O Estado de S.Paulo

No terceiro dia do Fórum Econômico Mundial, em Davos, o novo governo brasileiro passou uma mensagem de moderação do crescimento e das pressões de demanda.

O presidente do Banco Central (BC), Alexandre Tombini, e o presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luciano Coutinho, deixaram claro para investidores, empresários e banqueiros reunidos na pequena cidade alpina que o momento é de usar as políticas monetária e de crédito para esfriar a economia brasileira e controlar as pressões inflacionárias. Eles participaram de um debate sobre o Brasil ontem em Davos.

Coutinho disse que o BNDES vai anunciar em breve um aumento da contrapartida nos financiamentos para prazos de até sete anos. As contrapartidas são os recursos que a empresa têm de obter fora do BNDES para complementar o valor total do financiamento do projeto. Hoje, elas variam entre 50% e 100% do valor total, com uma média de 70% a 75%.

O presidente do BNDES acrescentou que o banco não vai aumentar sua carteira de empréstimos em 2011, e vai mantê-la aproximadamente igual a 2010, de R$ 144 bilhões (excluindo a capitalização da Petrobrás).

Referindo-se à política monetária do BC, Coutinho comentou que a manutenção do nível da carteira de financiamento do BNDES “é uma contribuição, porque na margem nós não vamos expandir”. Ele ressalvou, entretanto, que o controle da demanda não será feito à custa do investimento.

Já Tombini afirmou que o Brasil está “com uma demanda excessiva”. Apesar de considerar que não se trata de “um problema enorme”, ele garantiu que o País vai usar as ferramentas existentes para combater a pressão inflacionária, que atribuiu parcialmente à alta das commodities. Tombini citou a elevação da Selic e o uso das chamadas medidas macroprudenciais – a elevação de compulsórios e de exigência de capital em empréstimos.

“Estrelas”. O Brasil, apesar da presença muito tímida este ano no fórum, é incluído com a China e a Índia no elenco das estrelas emergentes – expressão usada em Davos por Martin Sorrell, presidente da WPP, grupo britânico de publicidade e marketing. Porém, apesar do sucesso, economistas mostraram preocupação com o sobreaquecimento da economia brasileira. O discurso bem afinado de Tombini e Coutinho buscou tranquilizá-los.

O presidente do BC lembrou que o arcabouço macroeconômico brasileiro tem sido bem-sucedido em manter a estabilidade da economia nos 10 a 12 anos desde que foi implementado. Tombini observou que o regime, que combina meta de inflação, política fiscal responsável e câmbio flutuante, mostrou-se adequado em diversos “ambientes desafiadores” desde a sua criação em 1999.

Coutinho, na sua apresentação, disse que o País vai “moderar o consumo, moderar o crédito ao consumo, moderar as despesas correntes do governo, mas manter os investimentos”. Ele previu que o investimento total na economia brasileira vai crescer entre 9,5% e 10% em 2011. O objetivo do governo, ele notou, é elevar o investimento nos próximos anos até o nível de 23% ou 24% do PIB (hoje está em 19%), e com a intenção de que esse movimento seja acompanhado pela poupança (que é um pouco menor que o investimento).

Segundo o presidente do BNDES, “neste ano tudo vai crescer mais moderadamente, mas é importante que o investimento cresça mais do que o PIB (cujo aumento ele projeta em 5%)”.

Em relação ao BNDES, Coutinho explicou que o aumento das contrapartidas vai se limitar aos financiamentos de até sete anos. Nesse segmento de prazo mais curto, ele conta com o aumento do financiamento privado, estimulado pelo pacote de desoneração e de maior abertura ao capital estrangeiro nas emissões de debêntures e de outros instrumentos do mercado de capitais, lançado pelo governo recentemente.

Coutinho defendeu a atuação do BNDES e de outros bancos públicos durante a crise econômica global. Ele disse que o aumento do crédito ao investimento pelo BNDES durante o período de reação à crise correspondeu a 2,5% do PIB.

Em relação ao câmbio valorizado, Tombini, do BC, disse que “é uma situação temporária, reflexo do ambiente externo”. Ele observou que, como no caso da demanda, há capital entrando no Brasil “em excesso”, por causa das boas condições econômicas do País e das oportunidades de investimento. “É preciso lidar com a abundância”, resumiu o presidente do BC. / COLABOROU DANIELA MILANESE

29/01/2011 - 08:56h ‘Eu sou candidato. Serra nunca disse que é’

Sérgio Guerra diz que lista de apoio para presidência do PSDB foi movimento natural da bancada

Christiane Samarco, de O Estado de S. Paulo

BRASÍLIA – Acusado de tomar uma “atitude indigna”, ao estimular uma lista de apoios de tucanos para reelegê-lo presidente do PSDB, o deputado eleito Sérgio Guerra (PE) afirma que não houve conspiração nem contestação a quem quer que seja no movimento da bancada da Câmara. Decidido a manter sua candidatura à presidência do partido, Guerra argumenta que sua indicação foi determinada pela naturalidade da escolha e sustenta a tese de que a bancada tem autonomia para tomar esta decisão.

O deputado Jutahy Magalhães, ligado a Serra, referiu-se ao abaixo assinado em favor de sua reeleição como atitude “indigna”.

Não houve conspiração nem contestação a ninguém. Me candidatar a presidente e ser indicado por uma bancada significa traição? Não tem nada a ver. Por que não posso ser candidato a presidente? Por que não posso ser indicado pela bancada? O que todos desejamos é democracia interna. Não queremos ver o PSDB em uma polêmica precipitada e indesejada, pela qual já pagamos elevado preço.

É uma referência à disputa entre os grupos de Serra e Aécio que o PSDB não quer reeditar em 2014?

Estamos decididos a deletar esta questão de alas para o PSDB poder avançar. Precisamos de mineiros e paulistas para eleger o próximo presidente, e grupos são algo que, definitivamente, o conjunto do partido não quer.

Mas com sua indicação para a presidência e a do senador Tasso Jereissati (CE) para o Instituto Teotônio Vilela (ITV) o ex-governador não vai ficar sem espaço no partido?

De jeito nenhum. Eu fiz a campanha do Serra para presidente e o Tasso trabalhou por ele no Ceará com muita intensidade. Essas escolhas não são contra ninguém; são a favor do partido e da oposição brasileira.

Mas isto não deixa Serra sem espaço para trabalhar uma eventual recandidatura a presidente em 2014?

José Serra não foi candidato com nosso apoio entusiasmado em função de espaço no partido, mas porque era o candidato que representava maiores condições de vitória. Todos estimamos nossos líderes e os consideramos competentes. Em uma eventual candidatura de qualquer um deles no futuro, o que o partido vai querer é que o escolhido seja competitivo e que possa vencer a eleição. Foi assim em 2010.

Se o Serra quiser presidir o partido o senhor abre mão da candidatura?

Eu sou candidato. O Serra até agora nunca disse que o é. Ao contrário, até pediu que eu me candidatasse à reeleição e fizesse minha campanha. Eu não estou aí para fomentar briga com ninguém. Sobre Serra, repito o que já disse: Ele pode ser o que quiser no partido, até porque até ontem eu estava na rua defendendo o nome dele para presidente da República. As bancadas da Câmara e do Senado fizeram indicações sem consulta prévia porque têm autonomia para isto e querem ter protagonismo nas decisões do partido.

Mas o abaixo-assinado da bancada a seu favor sacramenta seu nome na presidência do PSDB a partir de maio?

Claro que não. A lista apenas indica que meu nome seria a escolha natural do partido.

O senhor consultou os governadores sobre a lista de apoios para mantê-lo no comando do PSDB?

Não consultei ninguém. Informei ao doutor Geraldo que havia este movimento e ele ponderou a questão da oportunidade. Com outros governadores e outras lideranças, falei depois.

Falou com Serra depois do abaixo-assinado?

Não o procurei, nem ele me procurou. Mas também não falei com Aécio, nem antes, nem depois.

Tem fila para candidato a presidente no PSDB?

As circunstâncias futuras dirão quem será o melhor candidato do partido em 2014. Olhando para frente, só vejo que é preciso fazer uma grande mudança na forma de o partido funcionar. Não foi só Aécio quem falou nisso. Muitos líderes defenderam esta tese, inclusive o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

28/01/2011 - 22:00h Boa noite


Verdi – La Traviata – Di Provenza il mar

Angela Gheorghiu, Frank Lopardo, Leo Nucci, Royal Opera House, Convent Garden, Dezember 1994, Conductor: Sir Georg Solti

28/01/2011 - 19:20h Ah! Dete alla giovine


Verdi – La Traviata – Ah! Dete alla giovine

Angela Gheorghiu, Frank Lopardo, Leo Nucci, Royal Opera House, Convent Garden, Dezember 1994, Conductor: Sir Georg Solti