28/02/2011 - 22:00h Boa noite


Valentina Lisitsa – Estudos de Chopin

28/02/2011 - 19:17h Falstaff


Dietrich Fischer-Dieskau – Falstaff

28/02/2011 - 08:52h Recrutas do PAC: Setor privado atrai soldados com oferta de salário mais alto

Ruy Baron/Valor
Soldado Francisco Clailton dos Santos, operador de máquina vibroacabadora em Goiana (PE): “Logo devo sair também”


VALOR
De Cabrobó e Goiana (PE)

Sete anos é o tempo máximo que um soldado pode permanecer no Exército quando ingressa por meio do serviço obrigatório. O que tem ocorrido na divisão de engenharia militar, no entanto, é que poucos oficiais têm concluído esse ciclo. Antes disso, a maioria troca a farda pela iniciativa privada, atraída por melhores salários.

“Às vezes ouvimos algumas reclamações de que o Exército estaria tirando parte das obras do setor privado. A realidade é que essa mesma indústria vem aqui nos quartéis atrás de nossos soldados”, diz o major Marcelo Souza Lima, comandante do destacamento em Goiana, município situado a 70 km de Recife.

Com apoio de instituições como Senai e Senat, os militares têm realizado cursos técnicos nos alojamentos. Quem faz os cursos como os de laboratorista e topografia recebe certificado no final. “O soldado se tornou um alvo cobiçado pela indústria da construção civil, principalmente depois dessa explosão de demanda em infraestrutura”, afirma o coronel Osmar Nunes, adjunto do centro de operações do primeiro grupamento de engenharia de construção.

“Somos assediados o tempo todo, estamos brigando para segurar o soldado. Você investe quatro anos em um soldado, que se torna um excelente operador de máquina. Vem um engenheiro de empresa aqui e leva na hora, não temos como segurar”, conta Nunes.

A saída dos garotos antes dos sete anos não é encarada exatamente como um problema. A decisão, segundo os militares, é vista como uma colaboração social. A consequência, no entanto, é o atraso nas obras assumidas pelas Forças Armadas. “É preciso considerar que esse aprendizado tem um custo adicional para nós. Quando um soldado sai, precisamos treinar outro do zero”, afirma o tenente-coronel Marcelo Guedon, do batalhão de engenharia de Cabrobó.

As marcas do treinamento estão bem gravadas nas latarias de tratores, caminhões e motoniveladoras usadas nas obras. “É claro que nossas máquinas são bem mais amassadas que as de uma empresa privada, mas esse é outro custo que temos que absorver, afinal nosso garoto está aprendendo”, diz Guedon.

Hoje, o Exército toca obras em oito aeroportos da Infraero, projetos que somam investimentos de R$ 169,3 milhões. O Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), que atualmente administra 1.080 contratos de obras no país, tem 12 contratos nas mãos dos militares. Dos R$ 41 bilhões de contratos relacionados a obras em estradas, o Exército executa R$ 1,1 bilhão, o que equivale a 2,5% do total.

Nas obras de transposição do rio São Francisco, onde os contratos administrados pelos militares somam cerca de R$ 300 milhões, a missão é entregar 2 km de canais, de um total de 402 km em construção no Eixo Norte, além de uma barragem. No Eixo Leste, os soldados trabalham em uma barragem e nos primeiros 6 km, dos 220 km que formarão o canal.

O preço final dessas obras chega a cair 20% em relação ao que seria cobrado pela iniciativa privada, uma vez que não há custo direto relacionado à mão de obra. A produtividade militar, no entanto, é bem menor que a de uma companhia da construção civil, o que não significa que haja espaço para improvisos.

Com o dedo apontando para uma tabela na parede, Lima detalha as especificações técnicas que são usadas na produção do asfalto. “Isso é a nossa bíblia, o soldado tem que seguir à risca o que está aqui. É o nome do Exército que está por trás dessas obras.”

Entre os poucos soldados que trabalham há mais de quatro anos no quartel de Goiana, está Francisco Clailton dos Santos, de 23 anos. Operador de uma máquina vibroacabadora, com salário mensal de R$ 1 mil, ele conta que está guardando dinheiro para se casar. A mulher mora no Piauí. Santos gosta de sua rotina, mas não esconde o interesse em ir para a iniciativa privada. “Ainda não recebi o convite de uma empresa, mas tenho vários amigos que já foram. Logo devo sair também”, diz.

No mesmo batalhão, Elievelto Edmar da Silva, chefe de obras em campo, conta que está nos últimos dias de sua missão militar. Ele, que completou 25 anos, se especializou na coordenação de máquinas pesadas. “Lá fora estão pagando R$ 3 mil para um chefe de obras”, diz Silva. “Chegou minha hora de sair.” (AB)

28/02/2011 - 08:25h Recrutas do PAC: De refinarias a aeroportos, recrutas tocam obras

Infraestrutura: Engenharia do Exército foi formada por lei de 1880

Ruy Baron/Valor

Amir Soares Paé, dirigindo uma motoniveladora em uma obra tocada pelo Exército em Pernambuco: “O trabalho não é moleza, mas eu gosto do que faço”


André Borges | VALOR

De Cabrobó e Goiana (PE)

O garoto Almir Soares Paé nunca dirigiu um carro na vida. Ainda não tem habilitação, tampouco dinheiro para comprar um carro. Na boleia de uma motoniveladora de R$ 300 mil, porém, vira um motorista experiente. Com seus 19 anos, aparelho nos dentes e dúzias de espinhas no rosto, Paé precisou só de algumas aulas práticas para ganhar o posto. O garoto leva jeito, e não seria para menos dada a responsabilidade que assumiu. Ele e mais alguns amigos estão trabalhando nas obras da transposição do São Francisco.

No volante de uma fila de máquinas barulhentas, um batalhão de garotos de 19 e 20 anos trabalha das seis horas da manhã às seis da tarde na construção da barragem de Tucutu, a primeira represa do Eixo Norte da transposição, canal que avançará 402 km pelo sertão nordestino. Ali estão cerca de 200 recrutas do Exército, cumprindo o serviço obrigatório de um ano. O ritmo é pesado. Descanso, quando ocorre, só aos domingos. “O trabalho não é moleza, mas eu gosto do que faço”, diz Paé, que um ano atrás deixou a casa dos pais, em Picos, no semi-árido do Piauí, para trabalhar nas obras de Pernambuco. “Quando entrei no Exército queria saber como atirar, mexer com armas, mas achei bom vir para cá e aprender uma profissão. Fica mais fácil arrumar um emprego quando a gente sai.”

Os meninos que trabalham hoje na barragem em Cabrobó fazem parte da divisão de engenharia do Exército, braço que hoje soma um contingente de 9 mil militares em todo o país. Divisão menos conhecida das Forças Armadas, principalmente pelos milhares de garotos que todos os anos se alistam para o serviço obrigatório, a engenharia militar funciona como uma grande empreiteira. É essa “geração PlayStation”, como define o major Marcelo Souza Lima, comandante do batalhão que atua na cidade de Goiana (PE), que está operando máquinas de escavação e terraplanagem, rolos compressores, tratores e caminhões em algumas das principais obras do país.

Até meados de 2006, antes do lançamento do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), o volume de obras concentradas na Diretoria de Obras de Cooperação (DOC) do Exército era pequeno, não atingia uma dúzia de projetos, todos de pequeno porte. Hoje a divisão atua em trechos de mais de 30 obras de alto calibre, passando por rodovias, refinarias e aeroportos.

O resultado dessa operação é a chegada, todos os anos, de 2,6 mil garotos de 19 anos de idade ao mercado do trabalho, levando debaixo do braço um currículo com cursos básicos de construção civil. Nas obras, o trabalho dos soldados não se limita ao volante. Como há muito serviço de pedreiro que também precisa ser feito, na hora da necessidade ninguém fica de fora. “Aqui no quartel temos até hacker que colocamos para trabalhar na obra. Quando fazemos mutirão em dias de domingo, todo mundo pega no pesado. Cozinheiro, pessoal do almoxarifado, do escritório, todos têm que ajudar na obra”, diz o major Lima. “Sei que isso seria impossível em uma empresa privada, onde cada um só cumpre sua função, mas aqui eles são soldados, sabem que estão servindo o Exército.”

Na rotina das obras, cabe também aos próprios comandantes trocarem os chapéu de militar pelo de engenheiro. Profissionais formados pelo Instituto de Engenharia Militar (IME) costumam dar assessoria técnica para as obras, mas no dia a dia, são os coronéis que estão na linha de frente.

Em Goiana, na BR 101, recrutas como Djalma Raimundo Gonçalves colocam a mão no rastelo todos os dias para espalhar o asfalto a 180 graus celsius que os caminhões despejam nas obras de duplicação da rodovia. O calor e o cheiro forte não incomodam o recruta. “Fui voluntário para servir o Exército e quero continuar aqui. Se eu for selecionado para continuar no batalhão, vai ser muito bom”, diz Gonçalves.

Pelo regimento militar, quem é chamado para permanecer no Exército após vencer o primeiro ano de serviço obrigatório pode trabalhar por mais seis anos no quartel. No primeiro ano, o recruta recebe um salário de R$ 530 por mês, moradia, saúde e alimentação. Se é selecionado para encarar mais seis anos, passa a ganhar R$ 1 mil, mas não há pagamento por hora extra ou benefícios comuns da iniciativa privada, como o fundo de garantia.

Pode parecer um caminho pouco atraente para jovens que vivem nas capitais mais ricas do país, diz o coronel Osmar Nunes, adjunto do centro de operações do primeiro grupamento de engenharia de construção, mas no interior dos Estados do Norte e Nordeste essas vagas militares são disputadas pelos garotos. “Hoje não temos problemas com a quantidade de voluntários. Pelo contrário, é preciso selecionar entre todos os que querem servir”, comenta o coronel Nunes. “Para muitos desses garotos, isso aqui é o trampolim para aprender alguma coisa e depois ir para a iniciativa privada, que paga o triplo ou mais.”

A execução de obras de construção civil pela divisão de engenharia do Exército data da época do Império. A lei que determinou que o batalhão entrasse nas construções de estradas de ferro, linhas telegráficas e outras obras de infraestrutura é de 1880. Passados 131 anos, sua finalidade continua a ser a mesma, diz o general Jorge Ernesto Pinto Fraxe, diretor da divisão de obras. “Nunca tivemos função de mercado ou de competição com a iniciativa privada, somos um aparelho do Estado que precisa adestrar [treinar] seu contingente”, afirma.

O Exército não recebe dinheiro pelas obras que executa. O salário de todos os militares que atuam nas obras, do recruta ao general, já é pago pela União. Dessa forma, o orçamento da obra é destinado à aquisição de materiais de construção, máquinas e equipamentos. O ganho material das Forças Armadas, comenta o coronel Osmar Nunes, ocorre com o reaparelhamento da divisão, que passa a incluir em seu patrimônio as máquinas compradas durante as obras, para depois usá-las em outras operações. “O Exército não tem lucro. Seu ganho é absorver tecnologia, formar o soldado e cumprir a função social de devolver um cidadão treinado para vida civil”, diz Nunes.

Na semana passada, em Cabrobó, o recruta Almir Soares Paé e muitos de seus amigos passaram pela peneira do Exército após um ano de trabalho. O garoto que se destacou no comando da motoniveladora queria permanecer no quartel. Não deu. Dos 200 soldados que trabalhavam na transposição, só 40 permaneceram. Outros 160 vão chegar. “Infelizmente são pouquíssimas as vagas e temos de escolher soldados para todo tipo de trabalho, de cozinheiro a motorista”, justifica o coronel Marcelo Guedon. Depois de um ano no quartel, Paé diz que aprendeu a dirigir todo o tipo de máquina. Embora sair do Exército não fosse a sua vontade, já estava preparado para deixar o posto. “Vou trabalhar numa empresa, quero estudar educação física.”

27/02/2011 - 22:00h Boa noite


Arthur Rubinstein – Brahms, Concerto para piano Nº 1 – I Maestoso
Director : Bernard Haitink.

27/02/2011 - 19:15h Il coro degli zingari


Giuseppe Verdi – Il Trovatore – Il coro degli zingari

27/02/2011 - 18:24h Beijo

http://leclownlyrique.files.wordpress.com/2010/06/ouka-leele-the-kiss.jpg

Ouka Leele

Fonte Le Clown Lyrique

27/02/2011 - 18:00h Rascunho do tempo

Vera Casa Nova – Escritoras Suicidas

Rascunho essa memória

Contando estórias de meu pai.

Mergulho no mundo: abissal paisagem.

Viagem pelo barro: mistura fria.

Calor de tua mão.

Fogo do forno

Volto ao passado cuneiforme.

Extraio de mim a parte possível:

Sou a cerâmica esquecida

Durante as mudanças da vida.

Onde me debruço?

No patamar dessa escada

Ou no tempo a ser inscrito pelo meu corpo?

Nesse tempo — alguidar

Cheio da água jorrando esquecimentos

Preparo meus dias para o meu sempre

Mesmo sabendo o teu nunca.

27/02/2011 - 17:55h ”Não há profissões só para homens ou só para mulheres”

Pesquisadora aponta diferenças entre os cérebros masculino e feminino, mas afirma que dinamismo do sistema nervoso garante aptidão dos dois para qualquer atividade intelectual

Marcio Fernandes/AE
Marcio Fernandes/AE
Experiência. A italiana Marina Bentivoglio, uma das mais renomadas neurocientistas: ‘Mesmo na velhice nosso cérebro continua disposto a aprender’


Alexandre Gonçalves – O Estado de S.Paulo

Homens e mulheres utilizam estratégias distintas para resolver os mesmos problemas, um reflexo das particularidades dos cérebros masculino e feminino. Mas, para a médica italiana Marina Bentivoglio, as diferenças não privilegiam nenhum dos sexos e apontam para uma verdadeira complementaridade. Professora da Universidade de Verona, Marina é uma das mais importantes neurocientistas em atividade.

Na semana passada, ela veio ao Brasil para a 5.ª Escola Latino-Americana de Epilepsia, em Guarulhos. O evento, promovido pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), reuniu jovens médicos de diversos países latino-americanos e especialistas em neurociência e epilepsia de renome internacional. O encontro termina na terça-feira.

Quais as principais diferenças entre os cérebros feminino e masculino?

Há diferenças fisiológicas: a sensibilidade a determinados neurotransmissores, a distribuição de receptores, particularidades estruturais, o volume de sinapses… Mas o significado prático dessas diferenças ainda é motivo de controvérsia. Alguns fatos são evidentes. Na mulher, o cérebro prioriza funções relacionadas à maternidade e ao cuidado dos filhos, necessárias para a conservação da espécie. Mas, do ponto de vista da organização social, as diferenças nos cérebros de homens e mulheres são comparáveis às particularidades encontradas entre cérebros de pessoas do mesmo sexo. O cérebro feminino, por exemplo, é muito verbal, apto para a comunicação. Mas há homens que se comunicam bem e mulheres que não se comunicam tão bem. Natureza e sociedade exercem cada uma a sua influência.

Podemos diferenciar o que é construção social ou biologia na mente?

Não. É difícil diferenciar, pois o cérebro é dinâmico. A organização dos circuitos cerebrais influencia a experiência e a experiência modifica esses circuitos. Há um contínuo interagir entre natureza e educação, entre nossos circuitos cerebrais e a experiência concreta. Mesmo na velhice, nosso cérebro continua plástico, disposto a aprender, a se adaptar.

A monogamia, por exemplo, fundamenta-se na biologia ou na cultura?

Essa questão envolve também cultura, antropologia, sociologia… E eu não sou especialista nestas áreas. De qualquer forma, nós sabemos, por estudos com outros mamíferos, que o cérebro de um animal monógamo é diferente do cérebro de um promíscuo: há diferença na concentração e distribuição de determinadas substâncias. No caso dos humanos, convém lembrar dois dados. Nem todas as culturas humanas são monógamas: há culturas polígamas. Mas a monogamia tem sido privilegiada na nossa história evolutiva e na organização social. Mesmo assim, permanece aberta a questão: foi o cérebro que influenciou essa preferência ou foi essa preferência que influenciou a organização do cérebro? Sinceramente, não sei resposta. É provável que a regra da monogamia seja ditada pela experiência e a experiência molde o cérebro.

O cérebro feminino lida melhor com a linguagem e o masculino tem mais aptidão para processamento espacial. Mito ou realidade?

É o que aponta boa parte da literatura científica. Tais particularidades estão relacionadas ao processo de lateralização do cérebro (quando determinadas funções passam a ser controladas em larga medida por um dos hemisférios cerebrais – direito ou esquerdo). A lateralização aumenta a especialização para determinadas atividades. Acredita-se que o cérebro do homem é mais lateralizado. Mas, se é verdade que o cérebro da mulher é menos lateralizado, isso não significa que seja menos perfeito. Significa somente que é mais plástico. Provavelmente, na sua história evolutiva, as mulheres precisaram enfrentar e controlar um rol maior de situações no ambiente: coleta de alimentos, controle da prole… Um cérebro menos lateralizado – e, portanto, menos especializado – estaria pronto para um número maior de cenários.

E na resolução de problemas concretos? Há alguma diferença?

A opinião mais difundida é que em várias situações homens e mulheres utilizam estratégias diferentes para resolver problemas, embora essa não seja uma questão fechada. Poderíamos citar, como exemplo que confirma essa tese, as diferentes estratégias de aprendizado. Uma das coisas mais importantes para a nossa existência é o que conhecemos como mecanismo de recompensa: o prazer que o cérebro oferece quando realizamos atividades importantes para a manutenção da vida. E não tenho dúvidas de que esse mecanismo é diferente em homens e mulheres: ter um filho, por exemplo, oferece uma satisfação diferente para cada um. Mais uma vez, é difícil precisar qual é essa diferença – em parte cultural, em parte biológica. Mas a recompensa, por exemplo, que um menino e uma menina sentem por se comportarem bem é diferente. Do ponto de vista biológico, há diferença na distribuição dos receptores, na probabilidade de sinapses e em vários outros parâmetros do mecanismo de recompensa… Pequenas diferenças, mas importantes. E se a recompensa é diferente, as motivações e o desempenho também serão diferentes.

Há trabalhos em que as mulheres se sairiam necessariamente melhor do que os homens ou vice-versa?

Acredito que não. Naturalmente, nos trabalhos em que massa muscular é importante, os homens podem ter um desempenho melhor. Mas, do ponto de vista do cérebro, não creio que existam trabalhos mais adequados para homens ou mulheres. Convém lembrar que há uma grande variabilidade entre os indivíduos concretos. Nós somos 7 bilhões de pessoas no mundo. Não convém recorrer a categorias binárias. Você vai encontrar pessoas – homens e mulheres – com talento para algumas coisas e sem aptidão para outras. Mas não acredito que seja justificável uma separação dos trabalhos por gênero. Para qualquer um é uma questão de treino, de estímulo… Devemos procurar todos os dias novos estímulos: descobrir novos caminhos para voltar para casa, ler livros diferentes dos que estamos acostumados. Vale o princípio: use (o cérebro) para não perdê-lo. Sem dúvida, alguns contextos sociais podem fazer com que a mulher não se sinta estimulada a encarar desafios, diminuindo o seu desempenho intelectual. Mas isso também pode acontecer com homens. Não acredito que seja bom proteger esse ou aquele gênero. Sou mulher, mas gosto de trabalhar com homens. Por quê? Aprecio a diferença. É mais estimulante. Tenho homens e mulheres no meu laboratório. Acharia ruim se só houvesse mulheres. Quero diferentes abordagens para resolver os problemas. A natureza criou dois sexos e tenho certeza de que há uma ótima razão para isso.

Como o cérebro se adapta às mudanças no ambiente?

Mudar estruturas no cérebro leva milhões de anos. Por isso, as mudanças mais comuns são marginais: regulação de sinapses, interações entre neurônios e células não neuronais, etc… Ou seja, o hardware já está lá. Mas há algo como um software de modulação que atua de forma quase imediata para realizar a adaptação. Às vezes, em poucos minutos. Sua atuação depende do ambiente físico e cultural onde a pessoa está inserida. Por exemplo, uma mulher na savana e outra no norte da Europa têm diferentes prioridades e o cérebro se adapta a essas distintas prioridades. O hardware para os dois sexos é muito parecido. Mas alguns ajustes finos do software dependem das prioridades de cada indivíduo e tais prioridades dependem do gênero e do contexto social. Convém lembrar que os neurônios sempre atuam em conjunto. Nunca isolados. Se o estado de um neurônio muda, centenas ou milhares também mudam ao seu redor. Realmente funciona como um arranjo social. Essa modulação no estado dos neurônios ocorre a todo momento. Isso é, afinal, a essência da vida. O cérebro não é estático. Como a vida, ele se reorganiza sempre.

No mundo contemporâneo, o cérebro é submetido diariamente a uma avalanche de informações. O que você acha desse cenário?

Eu adoro. O problema não é a avalanche de informações, mas a seleção do mais importante. Realmente não sei se os jovens, hoje, conseguem diferenciar o lixo dos conhecimentos relevantes. O cérebro continua capaz de processar um volume imenso de informações. Mas precisamos decidir quais informações convêm processar. O pensamento crítico é mais importante do que nunca. Todo conteúdo que aprendi na escola está na internet misturado a muitas outras coisas. Você digita uma palavra no Google e aparecem milhões de bytes de informação. Como filtrá-la? Sou uma entusiasta do progresso. Mas ele traz consigo novos desafios.

Você também estuda o sono. Como a ciência vê o sono hoje?

No início da neurociência, os pesquisadores acreditavam que nosso cérebro permaneceria passivo durante o sono. Não é verdade. Ele trabalha muito. Cessa a comunicação com o ambiente externo, mas o ambiente interno continua ativo. É o momento em que se filtra e armazena o que aprendemos durante o dia. A expressão dos genes muda significativamente – cerca de 10% – durante o sono. E os genes mais utilizados no sono são justamente os relacionados à memória, ao aprendizado.



27/02/2011 - 17:33h Uma coleção de gravuras

CAMILA MOLINA – O Estado de S.Paulo

A partir de sábado, o Masp apresenta a mostra Papéis Brasileiros – A Arte da Gravura, formada por uma seleção de 12 obras gráficas do acervo do museu. A exposição traz a público criações diversificadas, de artistas como Alfredo Volpi, Tarsila do Amaral, Samico, Evandro Carlos Jardim, Lasar Segall, Marcello Grassmann, Livio Abramo, Cildo Meireles, Nelson Leirner e Hudinilson Jr. (representado por suas experimentações com o xerox). “A gravura serviu, na história, a fins diversos. Foi modo prático e barato de representar uma paisagem, uma pintura famosa, uma catedral conhecida, mas que poucos podiam ver quando ainda não havia a imprensa e a fotografia; ou lugar de ensaio para uma obra maior; ou expressão de uma grande arte em si mesma”, define Teixeira Coelho, curador do Masp e que assina a curadoria da exposição com o professor Denis Molino.

Papéis Brasileiros segue uma linha que vai da estrita figuração, passando pela abstração e chegando ao que se define como um “retorno da figura”. Esse último momento, afirma Teixeira Coelho, se refere a uma vontade dos artistas de “fazer um comentário sobre a figura muitas vezes vista em outro meio e não na realidade”. “As obras deste terceiro movimento navegam entre o pop e o conceitual, assim como as do segundo circulam pelo abstrato informal e geométrico e as do primeiro, pelas diversas correntes estilísticas da modernidade ampliada (simbolismo, expressionismo, surrealismo e suas nuances)”.

O Masp, que nos dias 7, 8 e 9 estará fechado por conta do carnaval, ainda exibe a mostra Obsessões da Forma, com 50 esculturas de sua coleção. A curadoria, também assinada por Teixeira e Molino, selecionou peças de Renoir, Degas (representado por sua clássica Bailarina de 14 anos), Brecheret, Felícia Leirner, Calder, Rodin, Ernesto de Fiori e Emanoel Araújo, entre outros.

REVERÊNCIA A MOACIR

Divulgando o belíssimo disco Homenagem ao Maestro Moacir Santos, lançado ano passado, o grupo Projeto Coisa Fina retorna ao Studio SP para apresentar temas do compositor pernambucano, como Mãe Iracema, Bluishmen e Maracatucutê, além de composições próprias e de outros autores, como J.T. Meirelles, de quem eles interpretam Quintessência. No disco, os músicos (integrantes do coletivo Movimento Elefantes) já tinham conseguido enriquecer as pérolas de Moacir. No show, são ainda mais quentes. / LUCAS NOBILE

DA SÉRIE MATINAIS

O maestro Jamil Maluf rege hoje a Orquestra Experimental de Repertório em apresentação com o Coral Lírico, com o barítono Leonardo Pace e a soprano Gabriella Pace. O programa inclui obras de Vincenzo Bellini e Antonin Dvorák.

SAMBA DE FELIX

Ou tem pick ups no pé ou é ruim da cabeça. O DJ e produtor americano Felix da Housecat toca no clube Disco nesta quarta. Felix (cujo codinome vem do clássico personagem de animação Gato Félix) tem no currículo remixes feitos sob encomenda para artistas famosos, como Madonna, Kyle Minogue, P. Diddy e Miss Kittin. Divide a noite com a escola de samba Rosas de Ouro no pré-carnaval do clube. Eletrônica com telecoteco. / JOTABÊ MEDEIROS

RELICÁRIO DE OBRAS

Depois de exibida no Rio, a mostra Relicário, de Vik Muniz, chega a São Paulo reunindo 30 obras do artista, algumas, antigas, de sua primeira exposição, de 1988, e trabalhos recentes, como The History of Accidental Iconography (foto), de 2010.

UM MUSICAL POLÍTICO

Marcelo Lazzarato dirige a Cia. de Teatro Acidental em Mahagonny, musical inspirado na obra de Bertolt Brecht. Na peça, inspirada no texto original de 1930, três fugitivos resolvem fundar uma nova cidade. / MARIA EUGÊNIA DE MENEZES

27/02/2011 - 17:00h ‘Cisne Negro’ ganha 4 prêmios Spirit

Filme foi premiado nas categorias: melhor filme, melhor diretor, melhor atriz e melhor fotografia

Chris Pizzello/AP
Chris Pizzello/AP
A atriz Natalie Portman recebeu o prêmio de melhor atriz em ‘Cisne Negro’


Efe – Agência Estado

LOS ANGELES – Cisne Negro se tornou neste sábado, 26, o principal vencedor da 26ª edição do Spirit Awards 2011 – considerado o Oscar do cinema independente, – ao conseguir quatro prêmios: melhor filme, melhor diretor (Darren Aronofsky), melhor atriz (Natalie Portman ) e melhor fotografia (Matthew Libatique).

A estatueta de melhor ator foi para James Franco (127 Horas), que neste domingo, 27, será mestre de cerimônias junto com Anne Hathaway na 83ª edição dos prêmios Oscar.

Os prêmios destinados a melhor ator e atriz coadjuvante foram para John Hawkes e Dale Dickey, ambos por Inverno da Alma, que concorria como filme favorito com sete indicações.

Minhas Mães e Meus Pai levou o prêmio de melhor roteiro, obra de Stuart Blumberg e Lisa Cholodenko.

O prêmio John Cassavetes, entregue ao melhor filme feito com menos de US$ 500 mil de orçamento, foi para Daddy Longlegs, enquanto o título de melhor filme estrangeiro foi para o britânico O Discurso do Rei, favorito ao Oscar graças a suas 12 indicações.

Os famosos prêmios ao melhor cinema independente retornaram este ano à praia de Santa Monica, sua localização habitual após a mudança de localização, para o centro de Los Angeles, em 2010.

27/02/2011 - 12:00h Au fond du Temple Saint

Durante toda a semana, no Intermezzo (na barra vertical vermelha, à direita) um duo de peso: Hvorostovsky e Kaufmann. A ária da ópera Os pescadores de pérolas, de Bizet é uma das minhas favoritas. Desfrutem.

Georges Bizet: Les pêcheurs de perles (The Pearl Fishers)

Duo de Zurga e Nadir – Au fond du Temple Saint

Au fond du temple saint
Paré de fleurs et d’or,
Une femme apparaît!
Je crois la voir encore!
Une femme apparaît!
Je crois la voir encore!

La foule prosternée
La regarde, etonnée,
Et murmure tous bas:
Voyez, c’est la déesse!
Qui dans l’ombre se dresse
Et vers nous tend les bras!

Son voile se soulève!
Ô vision! ô rêve!
La foule est à genoux!

Oui, c’est elle!
C’est la déesse
plus charmante et plus belle!
Oui, c’est elle!
C’est la déesse
qui descend parmi nous!
Son voile se soulève et la foule est à genoux!

Mais à travers la foule
Elle s’ouvre un passage!
Son long voile déjà
Nous cache son visage!
Mon regard, hélas!
La cherche en vain!

Elle fuit!
Elle fuit!

Mais dans mon âme soudain
Quelle étrange ardeur s’allume!
Quel feu nouveau me consume!
Ta main repousse ma main!
Ta main repousse ma main!
De nos cśurs l’amour s’empare
Et nous change en ennemis!
Non, que rien ne nous sépare!
Non, rien!
Que rien ne nous sépare!
Non, rien!
Jurons de rester amis!
Jurons de rester amis!
Jurons de rester amis!
Oh oui, jurons de rester amis!

Oui, c’est elle! C’est la déesse!
En ce jour qui vient nous unir,
Et fidèle à ma promesse,
Comme un frère je veux te chérir!
C’est elle, c’est la déesse
Qui vient en ce jour nous unir!
Oui, partageons le même sort,
Soyons unis jusqu’à la mort!

Versão em inglês

At the back of the holy temple,
decorated with flowers and gold,
A woman appears!
A woman appears!
I can still see her!
I can still see her!

The prostrate crowd
looks at her amazed
and murmurs under its breath:
look, this is the goddess
looming up in the shadow
and holding out her arms to us.

Her veil parts slightly.
What a vision! What a dream!
The crowd is kneeling.

Yes, it is she!
It is the goddess,
more charming and more beautiful.
Yes, it is she!
It is the goddess
who has come down among us.
Her veil has parted and the crowd is kneeling.

But through the crowd
she makes her way.
Already her long veil
hides her face from us.
My eyes, alas!
Seek her in vain!
She flees!
She flees!

But what is this strange flame
which is suddenly kindled in my soul!
What unknown fire is destroying me?
Your hand pushes mine away!
Your hand pushes mine away!
Love takes our hearts by storm
and turns us into enemies!
No, let nothing part us!
No, nothing!
Let nothing part us!
No, nothing!
Let us swear to remain friends!
Let us swear to remain friends!
Let us swear to remain friends!
Oh yes, let us swear to remain friends!

Yes, it is her, the goddess,
who comes to unite us this day.
And, faithful to my promise,
I wish to cherish you like a brother!
It is her, the goddess,
who comes to unite us this day!
Yes, let us share the same fate,
let us be united until death!

27/02/2011 - 11:01h ”O governo não vai investir bilhões em banda larga”

Após a recriação da Telebrás no ano passado para cuidar da banda larga no País, governo afirma agora que cabe às concessionárias privadas investir no acesso

Ethevaldo Siqueira e Renato Andrade / BRASÍLIA – O Estado de S.Paulo

“O governo tem de cuidar do lado fiscal. Não nos cabe investir pesadamente em banda larga. Tinha gente até dentro do governo que achava que o governo deveria botar alguns bilhões e fazer a infraestrutura do Plano Nacional de Banda Larga. Não vamos fazer isso. Aliás, quero lembrar o seguinte: nós privatizamos o serviço. Então não dá para cobrar do governo que faça essa infraestrutura.”

Com essas palavras, o ministro Paulo Bernardo, das Comunicações, em entrevista exclusiva ao Estado, esclarece de forma definitiva sua posição sobre o que poderia ser um retrocesso no modelo das telecomunicações. Ele espera que as concessionárias cumpram a sua parte na questão da banda larga: “Depois, então, vamos discutir quanto temos de colocar. Até porque o orçamento do Ministério das Comunicações foi cortado em 55%. Eu não vou ficar correndo atrás do Guido Mantega (ministro da Fazenda), nem da Míriam (Belchior, ministra do Planejamento) para arrumar dinheiro”.

O ministro lembra que o problema das concessões de rádio e TV a políticos vem de longe. “Até 1988, durante a Constituinte, centenas de concessões de rádio e TV foram distribuídas àqueles parlamentares que votassem em favor de certas teses.” Mas esse modelo precisa ser revisto, “de modo a torná-lo mais descentralizado e mais democrático”.

No caso de emissoras em nome de terceiros, ou seja, de laranjas, “a legislação atual já tipifica esse procedimento como crime”. O ministro acha até que “o Ministério Público e a Polícia Federal deveriam estar cuidando disso”.

Paulo Bernardo não aceita a tese da independência das agências reguladoras: “Que é isso? O que elas têm de ter é autonomia. Acho que a agência tem de ter autonomia para decidir as coisas no âmbito da regulação, de fiscalização, de como fazer e quando fazer uma licitação. Mas não para formular políticas públicas. Todos os ministros têm autonomia. Nem a Dilma nem o Lula ficam olhando o que eu faço aqui. Se eu fizer lambança, aí sim, eu vou ter que responder”.

A seguir, trechos da entrevista:

O Ministério das Comunicações foi praticamente esvaziado no governo Lula. A presidente Dilma pretende resgatar o papel da pasta?

A presidente Dilma considera as Comunicações uma área absolutamente vital para o Brasil hoje. De certo modo, a expectativa do governo é a mesma da sociedade. Estamos nos preparando para ser a quinta economia do planeta. E, cada vez mais, o mundo e o País dependerão da informação. Muito mais do que realizar, cabe-lhe definir políticas públicas, envolvendo, entre outros segmentos, a internet e a política industrial.

O sr. declarou ser contra a concessão de emissoras de rádio e TV para políticos. Há como reverter o que foi feito?

Há distorções que ocorreram antes da Constituição de 1988. Até então, as concessões eram gratuitas, benesses. Sabemos que, durante a Constituinte, centenas de concessões de rádio e TV foram distribuídas a parlamentares que votaram a favor de certas teses. Essas distorções precisam ser corrigidas. Mas temos de ser realistas na hora da correção, pois as leis não têm efeito retroativo.

Mas o que acontece com as concessões em vigor?

Tudo depende do marco regulatório. Poderemos corrigir todos os casos na hora da renovação da concessão. Isso levará, naturalmente, 8 ou 10 anos para que possamos corrigir tudo.

Um dos instrumentos para correção é o cadastro das emissoras. É público e notório que esse cadastro apresenta nomes de terceiros em lugar dos verdadeiros donos. O que fazer?

Ouço sempre essa acusação, de que as emissoras estão em nome de terceiros. A legislação atual já tipifica esse procedimento como crime. Não precisamos mudar nada. É o mesmo que abrir uma padaria em nome de laranjas, para lavar dinheiro. É bom lembrar que fazemos o cadastro com base em documentos oficiais, com fé pública. Se houver indícios claros de que os titulares não são os verdadeiros donos, vamos punir os culpados.

O sr. pretende cuidar da apuração desses casos?

Com sinceridade, acho que o Ministério Público e a Polícia Federal já deveriam estar cuidando disso.

Os recentes escândalos dos Correios não são fruto de uma barganha política na escolha dos dirigentes?

Não sei. Acho que foi um descuido. Hoje temos uma diretoria que não foi indicada por ninguém, nenhum partido. Selecionamos todos por currículo e os nomeamos. Não sei se vai funcionar, mas fizemos o melhor. O que aconteceu no passado foi um problema de gestão.

Esse não é o critério que deveria prevalecer em todas as nomeações?

É claro que sim. Mas temos também um sistema político.

As indicações políticas sempre foram um problema para as agências reguladoras. As coisas vão mudar neste governo?

Quando a Anatel foi criada, ficou definido que a agência seria do PSDB. A Aneel (do setor elétrico) e a ANP (de Petróleo), do PFL. A ANTT (Transportes), do PMDB. Todos indicados por interesses políticos. Não fomos nós que inventamos isso. Nossa divergência com as agências reguladoras, no início do governo passado, era quanto à prerrogativa de definir políticas públicas, o que cabe ao Executivo. O que cabe a elas é fiscalizar e regular os serviços. É isso que está na lei.

Alguns criticam a falta de independência das agências. Há interesse em resolver isso?

Muitos dizem que as agências têm de ter independência. O que elas têm de ter é autonomia. Isso, sim. Todos os ministros têm autonomia. Nem a Dilma nem o Lula ficam olhando o que eu faço aqui. Se eu fizer lambança, aí sim, vou ter de responder. A agência tem de ter autonomia para decidir as coisas no âmbito da regulação, da fiscalização. As pessoas também argumentavam, quando estava no Ministério do Planejamento, que as agências tinham de ter seu orçamento todo liberado. Por quê? Ninguém, em nenhum lugar do mundo, tem todo o dinheiro que quer.

A Anatel seria mantida pelo Fundo de Fiscalização das Telecomunicações (Fistel), cuja arrecadação é seis ou sete vezes maior do que o orçamento da agência. O que acontece com o excesso de arrecadação?

Fica no Tesouro Nacional. Temos de suprir, seja a Anatel, seja qualquer outra agência, com um orçamento condizente com as necessidades. Eles recebem bem, não têm dificuldades em trabalhar.

O governo se apropria dos recursos dos três fundos do setor, que juntos arrecadaram R$ 32 bilhões desde que foram criados. Esse montante não poderia ser aplicado em coisas como a banda larga? Daria para fazer uma rede como a da Coreia.

Daria, só que continuaríamos tendo problema de equilíbrio fiscal, continuaríamos tendo o problema da carga tributária alta. Essas coisas não podem ser feitas isoladamente. O governo tem de cuidar do fiscal, não podemos abandonar isso, e temos de fazer esse tipo de investimento. Agora, quero lembrar o seguinte: nós privatizamos o serviço. Não dá para cobrar que o governo faça essa infraestrutura.

Mas a lei de telecomunicações diz que o governo pode desapropriar essas redes e fazer uma só, a rede compartilhada, ou “unbundling”.

Pode, mas isso é uma briga medonha, do ponto de vista político, do ponto de vista jurídico. O que temos dito para as empresas é que, primeiro, vamos fazer com que as concessionárias cumpram sua parte. Depois, vamos discutir quanto o governo terá de colocar. Cortaram meu orçamento em 55%. Não vou ficar correndo atrás dos ministros Guido Mantega (Fazenda) e Míriam Belchior (Planejamento) para arrumar dinheiro e as empresas, que estão com capacidade instalada, vendendo serviço caro. Elas vão ter de ajudar nisso. Temos de acertar com as empresas para que elas ofereçam um serviço melhor e, aí, vamos ver o que falta. Por isso não estamos falando em universalização.

27/02/2011 - 09:18h Dilma e os governadores do Nordeste

Editorial – O Estado de S.Paulo

Sem deixar de reconhecer a importância dos problemas financeiros enfrentados pela maioria dos governadores dos Estados do Nordeste, e sem se recusar a discutir a questão, a presidente Dilma Rousseff rejeitou duas propostas defendidas por alguns deles para superar as dificuldades que enfrentam: mudança nas regras da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) para a dívida pública e para os gastos com pessoal e a criação de uma nova CPMF para financiamento da área de saúde. Há outros caminhos que os governadores às voltas com dificuldades fiscais no início de seus mandatos podem trilhar, e Dilma apontou alguns.

Em seu discurso de 47 minutos, nessa segunda-feira, no 12.º Fórum dos Governadores do Nordeste, o mais longo desde sua posse, Dilma assegurou que o corte de gastos de R$ 50 bilhões não afetará os investimentos previstos para a região: o Nordeste, afirmou ela, receberá investimentos federais de R$ 120 bilhões nos próximos anos, sendo R$ 64 bilhões até 2014, isto é, durante seu mandato. Entre os principais projetos estão a transposição do Rio São Francisco, a recuperação de rodovias federais, obras ligadas à Copa do Mundo de 2014 e refinarias da Petrobrás.

Desse modo, a presidente respondeu a uma das principais preocupações dos governadores da região, que era o efeito negativo dos cortes de gastos da União sobre obras e outros investimentos federais no Nordeste. A preocupação foi expressada pelo governador Marcelo Déda (PT), de Sergipe, que recepcionou a presidente e os demais governadores em Barra dos Coqueiros, cidade próxima da capital sergipana, Aracaju.

Dilma anunciou também que pretende enviar ao Congresso até junho um projeto de lei que prorroga até 2018 os incentivos fiscais às empresas que investem na região por meio do Fundo de Investimento do Nordeste (Finor) e que expirariam em 2013. Ela ainda se comprometeu a rever a política de royalties do setor de mineração, tema que interessa aos Estados do Piauí, da Bahia e de Minas Gerais – que integram a área de atuação da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene). Faltou explicar como conciliar tanta generosidade com o rigor fiscal que a obriga a cortar R$ 50 bilhões do orçamento deste ano.

Este foi o lado generoso de Dilma no Nordeste. Mas, nas discussões com os governadores, ela foi rigorosa na rejeição de propostas que implicariam afrouxamento da política fiscal. Segundo relatos de participantes da reunião, realizada a portas fechadas, a presidente considerou “zero” a possibilidade de sair do papel a proposta do governador cearense, Cid Gomes (PSB), de criação de um fundo de investimentos de R$ 18 bilhões para a região, com recursos iguais do governo federal, do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social e dos Estados.

Quando governadores como o alagoano Teotônio Vilela (PSDB), com o apoio do paraibano Ricardo Coutinho (PSB), levantaram a questão da dívida pública e dos limites dos gastos com pessoal e propuseram o abrandamento das regras em vigor para esses dois itens, Dilma disse que não concorda com mudanças nos parâmetros e normas da LRF, que, entre outras restrições, proíbe a renegociação das dívidas dos Estados com a União. Lembrou, porém, que a LRF permite aos Estados endividados substituir parte de suas dívidas, dando-lhes maiores possibilidades de investir. Isso foi feito pela Prefeitura do Rio de Janeiro, que tomou um empréstimo do Banco Mundial, com o qual reduziu sua dívida com a União e, em troca, passou a ter maior capacidade de investimento, pois reduziu também o nível de comprometimento das receitas com o pagamento dessa dívida.

Quanto à proposta de recriação de um tributo específico para financiar a área de saúde, que é defendida apenas por parte dos governadores nordestinos, Dilma disse que, antes de buscar novas fontes de financiamento, é preciso saber o que se quer fazer, quais são os meios para se fazer com maior eficiência e se novos recursos são mesmo necessários. Segundo o governador Marcelo Déda, a presidente considera que, antes de esgotar esse debate, não há por que discutir um novo imposto.

27/02/2011 - 08:45h Dinamismo do Nordeste sustenta emprego

Mesmo com a crise, saldo líquido de postos formais de trabalho na região cresceu de 2008 para 2009

- O Estado de S.Paulo

A dificuldade enfrentada pelas empresas para encontrar mão de obra nas regiões mais distantes está estampada no saldo da geração líquida dos postos formais de trabalho.

Enquanto o saldo de postos formais de trabalho no País como um todo caiu mais de 30% de 2008 para 2009 por causa da crise, nas Regiões Norte e Nordeste houve crescimento de 40% e de 12% no mesmo período, respectivamente, segundo dados do Ministério do Trabalho, elaborados pela LCA Consultores.

Expurgado 2009, que foi o ano da crise, Fabio Romão, economista da LCA, observa que houve alta generalizada no País do saldo líquido de empregos formais de 2008 para 2010, mas as elevações mais expressivas ocorreram justamente no Norte e no Nordeste.

De 2008 para 2010, a Região Nordeste registrou alta de 87% no saldo líquido de empregos formais e na Região Norte esse número mais que triplicou. Enquanto isso, o Sudeste, a região mais dinâmica do País, teve aumento de 35% no saldo.

Também foi no Nordeste que o salário real médio de admissão teve a maior alta de 2009 para 2010, de 5,70%, e superou a média nacional no período, de 4,78%.

Além da valorização do salário mínimo, que é a base de renda da região, Romão aponta outros fatores que explicam a escassez de mão de obra. O Nordeste, por exemplo, diz ele, recebeu várias empresas, tanto do setor industrial como varejistas que foram em busca de mercado numa das regiões do País que mais crescem nos últimos tempos.

Já no Centro-Oeste a dinâmica é diferente. A alta de preço das commodities agrícolas impulsionou as empresas ligadas ao agronegócio.

26/02/2011 - 22:00h Boa noite


Quinteto para cordas em C maior de Schubert

26/02/2011 - 19:18h Au fond du temple saint


Matthew Polenzani e Simon Keenlyside – Au fond du temple saint de Bizet – Les pecheurs de perles

26/02/2011 - 17:00h Madeleine, sinapses e neurônios

SERGIO AUGUSTO, s.augusto@estadao.com.br – O Estado de S.Paulo

Já o tínhamos em quadrinhos, aqui editados pela Zahar, e na prateleira de autoajuda (Como Proust Pode Mudar Sua Vida, de Alain de Botton, traduzido pela Rocco); agora o temos até entre os livros de ciência: Proust Foi um Neurocientista, que a Best Seller acaba de lançar, com um subtítulo (Como a Arte Antecipa a Ciência) inexistente no original.

Na capa poderia estar o pintor Paul Cézanne ou o compositor Igor Stravinsky ou o poeta Walt Whitman ou as escritoras Virginia Woolf, Gertrude Stein e George Eliot, pois todos estes, mais o cozinheiro Auguste Escoffier, inventor do caldo de vitela, também anteciparam descobertas da neurociência, sacaram verdades (reais e tangíveis) sobre a mente humana que só agora a ciência está “redescobrindo”, segundo Jonah Lehrer, autor do livro. Acontece que Proust, o neurocientista destacado na capa, não só tem mais nome que os demais como inventou a mítica madeleine que o ligou para sempre aos estudos sobre a biologia da memória.

Lehrer não escreve para iniciados, mas nem seu mais invejoso desafeto acadêmico ousaria enquadrá-lo entre os proxenetas da divulgação científica. Doutorado em neurociência e literatura inglesa, por Columbia e Harvard, editor e colaborador de publicações de qualidade comprovada, já teve aqui traduzida outra obra provocativa, O Momento Decisivo, em que defendia o primado da intuição sobre a razão na tomada de determinadas decisões, e foi meio por acaso que chegou à tese de que alguns expoentes do modernismo foram mais adiante que a ciência do seu tempo na exploração do cérebro humano.

Para ocupar os tempos mortos de uma pesquisa de laboratório sobre os mecanismos do cérebro, que desenvolvia com a equipe do Nobel de Medicina Eric Kandel, Lehrer mergulhou na leitura de Em Busca do Tempo Perdido. Logo no primeiro volume deparou com uma resposta “intuitiva” às suas investigações sobre como a mente recorda e um conjunto de células pode estocar e gerenciar nosso passado. Proust previra suas experiências com um século de antecedência, ajudado tão somente por uma madeleine e uma colher de chá.

“Um segredo molecular se escondia em nossas densas fibras neuronais, esperando silenciosamente por um bolinho”, reconhece Lehrer, que não se esqueceu de aludir ao pioneiro trabalho da psicóloga Rachel Herz sobre a rentura da hipótese levantada por Proust, segundo a qual o paladar e o olfato serviam melhor à “convocação do passado” que os demais sentidos. Cientificamente falando, o paladar e o olfato são os únicos sentidos que se ligam diretamente ao hipocampo, o centro de longa memória do cérebro, ao passo que os sentidos da visão, do tato e da audição passam primeiro pelo tálamo, a origem da linguagem e a porta da consciência, e são muito menos eficientes quando se trata de evocar o tempo perdido.

“Nenhum mapa da matéria jamais explicará a materialidade de nossa consciência”, profetiza Lehrer. Os cientistas separam os pensamentos em partes anatômicas, descrevem nosso cérebro em detalhes físicos, reduzindo-o a uma tecelagem de células elétricas e espaços sinápticos, esquecidos de que não é assim que experimentamos o mundo. Ao expressar nossa experiência real, os artistas expõem a incompletude da ciência.

Na busca por novos tipos de expressão, explorando formas diferentes de lidar com mistérios que não conseguiam compreender, um punhado de artistas passou a “olhar para o interior”, criando assim uma arte primorosamente autoconsciente, cujo “assunto” era a nossa psicologia. Proust o fez deitado na cama, refletindo sobre seu passado; Cézanne olhando horas a fio uma maçã; Gertrude Stein brincando com as palavras; Stravinsky investindo nas constantes alterações dos neurônios no córtex auditivo.

Quando da primeira exposição de pintura pós-impressionista, em dezembro de 1910, os quadros de Cézanne foram vistos como aberrações patológicas, como distorções deliberadas da natureza. Acreditava-se então que os nossos sentidos eram reflexos perfeitos do mundo exterior, que o olho humano era uma máquina fotográfica a enviar imagens prontas para o cérebro. Pas de tout. Os pós-impressionistas descobriram que ver, só, não bastava: era preciso refletir; ou seja, as nossas impressões exigem interpretação. E como olhar é criar o que vemos, decidiram reproduzir a natureza em termos de iluminação, “entender a visão como uma soma da luz”. A neurociência demoraria cinco décadas para confirmar esse insight, provando em laboratório que o nosso olhar apenas capta borrões de cor indistinta, e que cabe ao cérebro criar a realidade interpretando as linhas da luz que ainda não foram transformadas em forma, permitindo que um puzzle de cores abstratas resulte numa pintura realista.

Virginia Woolf acreditava que a natureza humana se transformara de forma notável por volta de dezembro de 1910, não exatamente pelo exposto na mostra dos pós-impressionistas. Há quase 10 anos, o psicólogo Steven Pinker desautorizou a escritora; para ele, “a natureza humana não mudou em 1910, nem em qualquer ano depois”. Certo, mas Pinker, argumenta Lehrer, não percebeu a ironia por trás da observação de Woolf. Nem seu principal alvo: os romancistas pré-modernos que haviam se recusado a investigar o funcionamento interno da mente. Woolf queria escrever romances que refletissem a natureza humana e sua mente fragmentada. Conseguiu. Quem leu Mrs. Dalloway há de concordar. Foi esse romance, publicado em 1925, que lhe deu status de neurocientista.

26/02/2011 - 08:59h Kassab nega que já tenha definido sua ida para o partido

O Estado de S.Paulo

O prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (DEM), negou ontem que já tenha definido sua ida para o PSB. “Existe um convite, feito de forma muito respeitosa, pelo governador Eduardo Campos (PSB), e outro pelo (vice-presidente da República) Michel Temer (PMDB) para que, no caso de identificarmos uma hipótese de saída do DEM, eu possa examinar, junto com eventuais parlamentares e militantes, seja a filiação no PSB, ou no PMDB”, disse.

O prefeito fez a declaração após reunião em São Paulo com o governador Geraldo Alckmin e a presidente Dilma Rousseff para discutir a Copa de 2014.

Kassab articula a fundação de um partido, que serviria como uma solução jurídica para ele migrar, depois, para o PSB ou o PMDB – a Justiça não determina a perda de mandato por infidelidade partidária no caso de mudança para nova legenda. Uma vez na nova sigla, ele promoveria a fusão com o PSB ou o PMDB.

26/02/2011 - 08:40h ”Com Kassab no PSB, serei estranha no ninho”

Ex-prefeita ressalta ‘proximidade’ com o PT e admite deixar partido se a cúpula decidir acolher líderes do DEM

Daniel Bramatti – O Estado de S.Paulo

A ex-prefeita de São Paulo e deputada federal Luiza Erundina deixou claro ontem que sairá do PSB se o partido acolher políticos como o prefeito Gilberto Kassab e o vice-governador Guilherme Afif Domingos, ambos de saída do DEM.

Erundina destacou sua proximidade com o PT, partido do qual saiu em 1997, mas disse esperar que a Justiça Eleitoral impeça a concretização de uma eventual manobra de Kassab e da cúpula do PSB – nessa hipótese, estaria assegurada sua permanência na legenda.

Como a senhora vê a possibilidade de Kassab e Afif criarem outro partido para depois migrar para o PSB?

Se essa migração se confirmar, será absolutamente incompatível com a minha opção política pelo PSB. Serei uma estranha no ninho. A convivência, tanto para essas pessoas quanto para mim, será praticamente inviável. Com certeza não terei lugar nesse partido.

A senhora deixará o PSB?

Isso poderá acontecer, mas temos de ver em que termos. Há uma questão legal a ser esclarecida. Se eles vão criar outro partido já com o propósito de se incorporar ao PSB, como é que a Justiça Eleitoral vai interpretar esse mecanismo oportunista? É claramente um artifício para fugir do enquadramento na infidelidade partidária.

A legislação não ameaçaria seu próprio mandato em caso de troca de partido?

Se isso (fusão do PSB com partido criado apenas com esse objetivo) pode ser feito, quem estará sendo infiel? Digamos que um de nós, que não concorde com essa via do partido trampolim, queira sair do PSB. Quem sair poderá alegar que foi o partido quem mudou de rumo. Há possibilidade de você não ser punido por infidelidade se a infidelidade se deu pelo partido no qual você está.

Nos últimos anos, a senhora se reaproximou de líderes do PT. Seu retorno ao partido é uma possibilidade?

Essa proximidade minha com os petistas existe. No fundo, minha prática política e meus compromissos não se alteraram um milímetro em relação ao que fazia como petista. Essa base histórica, essa militância, essa identidade nunca deixou de existir. Tenho muitos eleitores que são filiados ao PT. Nunca tive distanciamento com o partido. Alguns dirigentes é que se distanciaram. Mas há companheiros com quem mantenho relação de confiança, de afinidade na luta política. Durante a campanha de Dilma, na qual me engajei, havia manifestações públicas e coletivas para que eu voltasse ao PT. Mas trocar de partido é muito complexo, é traumático. Quero primeiro acreditar que isso (a migração de líderes do DEM) não se confirmará. É um absurdo um partido que estava crescendo como referência política para a sociedade de repente perder tudo em nome de um projeto de poder a médio e longo prazo. Essa não pode ser a lógica predominante em um partido que se pretende de esquerda, socialista e democrático.

25/02/2011 - 22:00h Boa noite


Daniele Gatti, regente – Ein Deutsches Requiem (Brahms)

25/02/2011 - 19:12h Presentação da rosa


Joyce DiDonato e Diana Damrau Presentação da rosa – “Der Rosenkavalier”, de Richard Strauss. Regente: Asher Fisch

25/02/2011 - 18:34h TERRITÓRIOS DA MÚSICA II

RIKARDO ARREGI – Poesia & Ltda.

Canta-me um dos Lieder de Schubert,
um dos mais tristes,
Tränenregen, ou Der Lindenbaum,
pleno de florestas desamparadas,
inchado de rios transparentes,
transbordando de amores impossíveis.

Toca ao piano suavemente
e canta-me o mais triste Lied.
Abre espaço para o pobre Franz
junto ao fogo.

E se te acontecer cantares a palavra Herz,
certifica-te que lhe dás expressão, a modulação que requer,
pensa que somos Românticos
circa mil oitocentos e vinte e sete
e que um de nós tem uma doença incurável e impronunciável.
Porque ninguém vai compreender nunca
a nossa coragem, a nossa beleza.

25/02/2011 - 17:56h A cura pela leitura

Literatura: Um ramo tanto da biblioteconomia quanto da psicologia, a biblioterapia vem ganhando adeptos no Brasil.

AP
“La Lecture”, de Picasso: “Sabemos que o poder da boa literatura é profundo e transformador, mas não nos advogamos como médicos. Somos doutores de livros!”, ressalta a britânica Ella Berthoud


Mariane Morisawa | Para o Valor, de São Paulo

Um relacionamento que termina é sempre um motivo de tristeza ou de pausa para repensar a vida. Para superar a fase difícil, que tal um bom livro? “Flashman”, de George MacDonald Fraser, sobre um soldado britânico pouco recomendável, condecorado por heroísmo, pode distraí-lo de sua autopiedade. “Do Amor”, de Stendhal, pode auxiliá-lo a lidar com a melancolia, e “As Consolações da Filosofia”, de Alain de Botton, pode servir mesmo de consolo. Acabou de perder o emprego? Dureza, mas não se desespere! Uma boa pedida é rir com o conto “Bartleby”, de Herman Melville, sobre um empregado que recebe a solicitação para fazer uma coisa e diz preferir não fazer, mas estranhamente continua dia e noite no escritório. Já quem sofre pelo luto pode encontrar suporte em “Uma Comovente Obra de Espantoso Talento”, de Dave Eggers, baseado na história do próprio autor, que perdeu os pais jovem e precisou cuidar do irmão, ou “Metamorfoses”, de Ovídio, que descreve as transformações de todas as coisas, da vida à morte.

Essas são indicações genéricas de Ella Berthoud, da School of Life de Londres, fundada em 2008. Na prática, as “receitas” são individualizadas. O interessado pode marcar uma consulta pessoalmente, por telefone ou Skype. Depois de responder a um questionário sobre suas preferências literárias e conversar com a especialista, recebe uma lista de livros mais adequados às suas aflições. Usar literatura para ajudar a superar alguma dificuldade ou dor tem nome: biblioterapia. Desde a Antiguidade há relatos de prescrição de livros para enfrentar problemas cotidianos, mas só no século passado a prática ganhou esse nome e os primeiros estudos sobre seus benefícios, principalmente para doentes e presidiários. No Brasil, ela começa a ser difundida, com trabalhos principalmente em hospitais, ainda que não haja grupos fixos até o momento.

A biblioterapia pode ser um ramo tanto da biblioteconomia quanto da psicologia. A bibliotecária Clarice Fortkamp Caldin, autora de “Biblioterapia: um Cuidado com o Ser”, prefere fazer a distinção. “Biblioterapeuta é o psicanalista que se vale da leitura como uma das terapias, pois desenvolve a biblioterapia clínica com o intuito de cuidar das patologias psíquicas”, diz. “O bibliotecário, a seu turno, desenvolve a biblioterapia de desenvolvimento, quer dizer, cuida do ser na sua totalidade, sem fazer julgamento do que é ou não normal. Costumo chamá-lo de ‘aplicador da biblioterapia’. Não é um título tão charmoso quanto o primeiro, mas me parece mais justo.”

Clarice começou a se interessar pelo assunto quando percebeu que o bibliotecário estava muito preso às funções técnicas, esquecendo-se do lado humanista da profissão. Em 2001, defendeu dissertação sobre a leitura como função pedagógica, social e terapêutica. Depois, elaborou um curso de 80 horas na Universidade Federal de Santa Catarina. Na sua opinião, a eficácia vem da falta de cobranças. “O aplicador de biblioterapia não prescreve uma norma de conduta nem um remédio a ser tomado em horários determinados. Dela participa quem quiser, quem tiver vontade de escutar uma história”, afirma. “Essa história agirá no ouvinte do jeito que ele achar melhor ou mais conveniente naquele instante de sua vida. Será digerida lentamente, ficará na sua mente ou no seu subconsciente por tempo indeterminado e poderá ser retomada a qualquer momento.” E, como é grátis, não precisa ser interrompida se o dinheiro estiver curto.

Em sua experiência de quatro meses na ala pediátrica de um hospital em Santa Catarina, na qual se executou a biblioterapia por meio de leitura, contação, dramatização de histórias e brincadeiras, as crianças, segundo ela, esqueceram-se de que estavam em um hospital. Os familiares também se beneficiaram com o alívio do estresse. Num presídio feminino, as sessões de contos e poesias ajudaram as participantes a superar a sensação de impotência e a saudade dos maridos e filhos. Elas saíram do estado de prostração e chegaram até a escrever um jornalzinho interno.

Normalmente, a biblioterapia se dá em grupo. O aplicador seleciona o texto, faz a leitura, narração ou dramatização de uma história e aposta no envolvimento do público. Cuida, ainda, de permitir a liberdade de interpretação, propiciar o diálogo, a catarse, a identificação, a introspecção. “É bom frisar que para esse mister se presta a literatura, quer dizer, a ficção. Textos informativos ou didáticos não são considerados biblioterapêuticos, porque não produzem a explosão e apaziguamento das emoções [catarse], não permitem a identificação com as personagens [experiência vicária], nem induzem à introspecção [reflexão sobre como nosso comportamento afeta o outro].”

Os livros infantis são os geralmente utilizados por Lucélia Paiva, doutora em psicologia escolar e do desenvolvimento pela Universidade de São Paulo e autora da tese “A Arte de Falar da Morte: a Literatura Infantil como Recurso para Abordar a Morte com Crianças e Educadores”. Ela conta que descobriu o valor da biblioterapia intuitivamente. “Sentia que era mais fácil falar sobre certos temas com metáforas, de forma mais suave”, diz ela, que desenvolve trabalho voltado para pessoas em situações de crise e emergência, perdas e luto.

Lucélia começou a usar livros infantis para tratar de assuntos como a morte com seus sobrinhos. Mais tarde, conheceu o termo biblioterapia. Hoje, utiliza o mesmo gênero para adultos e crianças, em sessões em grupo ou individuais. “A Menina e o Pássaro Encantado”, de Rubem Alves, sobre uma garota que aprisiona uma ave numa gaiola por amá-la muito, serve para tratar de relações familiares ou conjugais e de luto. Já “Dona Saudade”, de Claudia Pessoa, ajuda a lidar com o luto e a saudade. “A Aids e Alguns Fantasmas no Diário de Rodrigo”, de Jonas Ribeiro e André Neves, auxilia na superação do estigma da doença.

As histórias, segundo ela, sempre precisam ter começo, meio e fim. “Não precisa ser final feliz, desde que exista uma solução. É ela que minimiza o sofrimento.” É preciso buscar o envolvimento do ouvinte, seja pela identificação com personagem ou história. “Se fizer eco, se fizer sentido, ele vai começar a ter um envolvimento emocional. A partir dessa catarse, pode identificar-se. E o desfecho daquele conflito do livro pode trazer para ele a possibilidade de desfecho de seus conflitos.” Ela afirma ter tido certeza de que dava certo quando soube que uma mãe enlutada tinha lido “Dona Saudade”, presenteada por uma amiga em comum, e espalhado o livro pelas outras pessoas afetadas pela perda de seu filho. Em outro caso, conseguiu, em sessão de psicoterapia, acessar até um trauma maior, fazendo uma senhora falar sobre o abuso sexual sofrido na infância.

Já os especialistas no ramo da biblioteconomia, ou aplicadores de biblioterapia, como descreve Clarice Fortkamp Caldin, deixam claro que a biblioterapia não é científica e não exclui os cuidados médicos. “Como arte, ela é criativa. Assim, o sujeito dela se vale para mitigar pequenos problemas pessoais. Cada um do seu jeito, usando a imaginação e de acordo com suas emoções”, diz ela. Para pessoas com problemas psicológicos sérios, pode ser auxiliar, sem ter a capacidade de cura. Mas dá seus resultados para quem embarca na viagem.

“Sabemos que o poder da boa literatura é profundo e transformador. Temos um feedback positivo de nossos clientes, que frequentemente voltam para mais sessões. Mas nós não nos advogamos como médicos. Somos doutores de livros!”, ressalta Ella Berthoud, da School of Life, que faz apenas atendimento individual. Para ela, funciona porque “você entra na cabeça de outra pessoa e vive outra vida por meio dos personagens do romance”. Essa experiência permite que se entenda melhor seus dilemas, se o livro for bem escolhido. “Você vê um personagem cometendo um erro e pode evitar fazer o mesmo. Outras vezes você vê os personagens superando as dificuldades, e isso dá a você, leitor, a resolução de resolver enfrentar a própria situação.” Fortalecido pela boa literatura ou por uma contação de histórias eficiente, ele tem a chance de estar mais apto a superar as dificuldades e os momentos de desânimo e de tristeza. Como se diz por aí, ler realmente faz bem, para a mente e para a alma.

25/02/2011 - 17:14h Poema que se faz entre palavras e silêncios

Luiz Zanin Oricchio – O Estado de S.Paulo

Não é por acaso que a protagonista de Poesia esteja sofrendo do mal de Alzheimer. Esquece palavras familiares, como se as referências que tornam o mundo inteligível começassem a se fragilizar. Também não é por acaso que, sem se dar conta disso, entre para um curso de poesia, cuja tarefa principal será a redação de um poema. Através da sensibilização pela palavra, a poesia pode ser uma maneira de devolver ao mundo a sua precária inteligibilidade.

Quem é essa protagonista? A senhora Mija (Jeong-Hie Yun), uma mulher de 60 e poucos anos, que cria um neto problemático e cuida de um idoso para complementar a renda. Mas a história de Poesia começa com a descoberta do corpo de uma adolescente, Agnes, boiando no rio. Mais tarde, a história desse suicídio juvenil se enroscará com a vida de Mija de maneira fatal.

Essa é a arte do coreano Chang-Dong Lee: as partes não precisam se encadear de maneira sistemática. Existem por si sós, como peças de um mosaico, que, soltas, farão sentido em sua totalidade. De modo que há uma tragédia como pano de fundo, mas o que aparece em primeiro plano é essa pacata senhora às voltas com seus problemas de saúde, com um neto talvez não muito confiável, com suas tentativas literárias, com um ancião lúbrico, e a premência de arrumar vultosa soma. Sim, o dinheiro será uma espécie de linha fina que dará costura aos diversos elementos dessa trama muito bem construída.

Chang-Dong Lee filma com simplicidade. É rude quando deve ser, poético quando o momento exige. Trabalha com essa tensão aguda entre uma realidade que pode ser brutal e a tentativa de sublimá-la através da arte. O cinema é assim. A poesia, claro, também o é. A arte não visa a afastar o artista ou o espectador (ou leitor) da realidade. Pelo contrário – quando é grande, permite uma imersão mais completa nesse real, que de outra maneira seria inatingível. É o que descobrirá Mija quando puder concluir seu poema. Como ensina seu professor, a poesia deve vir do coração. No fundo, é mais do que isso. É pela própria imersão na dor do mundo, até então ignorada, que a senhora Mija vai adquirir uma visão mais profunda de tudo aquilo que está lhe acontecendo. A poesia ajudará a dar forma a essa sensação talvez insuportável.

Como artista da imagem, Chang-Dong Lee sabe que não deve dizer tudo com palavras. É econômico. Não teme elipses e alusões. Confia na capacidade expressiva do rosto de sua atriz para evocar sentimentos. Não precisa dizer que Mija se compadece da mãe da garota morta, e que essa compaixão, para ela, será algo de contraditório, pois envolve também o neto querido. Seu rosto o diz, mais do que o fariam diálogos explicativos. Poesia se faz entre palavras e silêncios. É belo de doer.