31/03/2011 - 22:00h Boa noite


Requiem de Verdi – St.Paul’s Cathedral London – Leonard Bernstein, Martina Arroyo, Josephine Veasey, Placido Domingo, Ruggero Raimondi
The London Symphoney Orchestra&Chorus

31/03/2011 - 19:19h Requiem


In memoriam de José Alencar, orgulho da nação brasileira

Requiem de Verdi – St.Paul’s Cathedral London – Leonard Bernstein, Martina Arroyo, Josephine Veasey, Placido Domingo, Ruggero Raimondi
The London Symphoney Orchestra&Chorus

31/03/2011 - 17:00h A culinária não é um humanismo

Carlos Alberto Dória – O Estado de S.Paulo

As ciências não fazem parte da formação de cozinheiros tradicionais. Por isso eles são empiristas incorrigíveis, propensos a acreditar que arte e magia sejam a essência do cozinhar. E são alienados em relação às matérias-primas degradadas que usam, como o frango e o salmão – ignorância escondida atrás de vocabulário mistificador: natural, orgânico, biodinâmico, sustentável.

Mas foi a pirotecnia que contrapôs cientistas como Hervé This e entusiastas da tecnificação culinária como Ferran Adrià. Em comum, só a consciência de que a técnica significa maior exatidão nos processos de transformação. Se as pessoas se embasbacam com isso, é outra questão. Não foi a culinária que criou o poder mistificador da técnica.

No despontar do século 20, Auguste Escoffier ainda acreditava no modelo das ciências à maneira do séc. 19. Apresentou as 5 mil receitas da alta cozinha francesa como fórmulas e exaltou o chef saucier como o químico esclarecido. Depois dele a cozinha se tornou canônica, antes que investigativa, e a inovação migrou do artesanato para a grande indústria. Só em 1976 se sentiu o primeiro abalo do século, quando Paul Bocuse decretou a caducidade das receitas.

Logo vieram o micro-ondas e outros gadgets que Modernist Cuisine elenca. Mas por que pessoas que “twittam” da cozinha erguem barricadas contra as novas técnicas? Por que se aferram no elogio do frango assado dominical, à maneira da vovó, como se o pecado do “vanguardismo” fosse maior que envenenar clientes com salmão e frango intoxicados de antibiótico? Sentem a ameaça aos conhecimentos que dominam e reagem como paladinos de um humanismo encharcado nas velhas marinadas.

Quando Adrià escreve que Modernist Cuisine representa “um novo ponto de partida para o futuro da cozinha”, está dizendo que ele permite que cada cozinheiro aquilate quanto está distante da dinâmica atual do setor. Tecnicamente, a obra é um consolidado do “estado da arte”, não muito mais que isso. E que anuncie um confit de canard ou um acarajé feitos de modos mais eficientes que há 200 anos é uma boa nova, não uma ameaça à memória da vovozinha.

O homem se faz pelo trabalho e não existe uma “essência humana” anterior a ele; a técnica, meramente ferramental, é o que garante resultados mais precisos. Deixar a novidade técnica conduzir a cozinha é o mesmo que deixá-la entregue à magia dos babalorixás: ambos escondem o mundo, em vez de desnudar sua dinâmica material. Para o comensal, contudo, nada se sobrepõe ao próprio gosto.

É SOCIÓLOGO E AUTOR DO BLOG ebocalivre.blogspot.com

31/03/2011 - 10:59h Bethânia e as virgens ofendidas

Escritora portuguesa defende a importância do incentivo do MinC ao projeto de poesia da cantora na internet

Inês Pedrosa – O Estado de S.Paulo

Durante os breves dias que passei agora no Brasil, pasmei com a ferocidade da campanha contra um projeto de poesia de Maria Bethânia. O meu pasmo foi subindo de degrau em degrau a cada hora de cada um dos cinco dias e terminou num miradouro de indignação. Parece-me útil dar a ver aos brasileiros o panorama feio que os meus portugueses olhos divisaram – amo demais o Brasil para poder ficar fora dele mesmo quando ele me deixa fora de mim, mas temo que assim não aconteça com corações mais turísticos do que o meu.

O coro de virgens ofendidas com a verba que o Ministério da Cultura autoriza a captar para o projeto de Bethânia (R$ 1,3 milhão) é patético por diversas razões, a primeira das quais é a suposição cândida de que, a não ser investido na divulgação de poesia de língua portuguesa a que Bethânia se propõe, esse dinheiro seria canalizado para escolas, hospitais e o escambau. Verdade seja que a lista dos projetos aprovados pelo MinC inclui muita coisa que, vista de fora, me parece o escambau. Em Portugal, a Lei do Mecenato não funciona, porque o conceito de desenvolvimento através das artes ainda não conseguiu furar a massa cinzenta dos empresários lusitanos. Por isso, os apoios à cultura saem diretamente do bolso dos contribuintes, o que os torna sempre polêmicos e sujeitos à conspiração das invejas organizadas – a mais eficiente organização do país.

Eu tinha a ilusão de que o Brasil não era assim – via o Brasil virado para o futuro, incompatível com o ressentimento. Ainda quero ver, porque o Brasil onde eu moro e quero cada vez mais morar é povoado por artistas que se inspiram mutuamente, estudiosos ousados, enfim, gente que não perde tempo a envenenar-se e a envenenar os outros. Pobres puritanos da moral alheia: a grana que patrocinará Bethânia nunca serviria para pagar outras coisas. Por quê? Porque Bethânia não é uma coisa qualquer. O que ela faz tem repercussão. Possui um talento e uma voz únicos. Aguentem-se.

Por que será que só o projeto de Bethânia é sujeito ao escrutínio da maledicência? Porque Bethânia é uma estrela – de fato. Enche quantas vezes quiser as maiores salas de espetáculos de Portugal, da Europa e de várias partes do mundo. Por que o Ministério da Cultura do Brasil a subsidia? Não: porque tem um percurso internacionalmente reconhecido. Como cidadã da gloriosa pátria da língua portuguesa – a única pátria em que, tal como Fernando Pessoa, me reconheço -, agradeço-lhe diariamente o seu trabalho de muitas décadas em prol da poesia e dos poetas desta língua, de Pessoa a Guimarães Rosa, de Vinicius de Moraes a José Régio, de Sophia de Mello Breyner Andresen a João Cabral de Melo Neto. Se me tornei, ainda adolescente, leitora de José Régio, a ela o devo. O meu fascínio por Pessoa começou com a voz dela. E foi dela que recebi o primeiro estímulo para a descoberta da sublime literatura brasileira. Não há muitos cantores populares por esse mundo que se dediquem, de um modo contínuo, a este trabalho pioneiro e pedagógico. Penso que a visível subida do nível cultural do Brasil nas últimas décadas deve muito a Maria Bethânia. E tenho a certeza que a literatura portuguesa tem uma dívida imensa para com ela – toda a minha geração foi tocada pelos seus poetas, mesmo ou sobretudo quando, aos 20 anos, ia ouvi-la apenas para encontrar consolo para a vertigem das paixões mal sucedidas.

A 8 de março de 2010 fui ao Rio para, em nome da Casa Fernando Pessoa e em parceria com o Instituto Moreira Salles, galardoar Maria Bethânia e Cleonice Berardinelli com a Ordem do Desassossego, então instituída. Quisemos que a primeira atribuição dessa Ordem fosse uma homenagem ao Brasil e a essas duas heroínas da divulgação da obra de Fernando Pessoa. Pouco depois, Bethânia foi a Portugal fazer um show e contatou-me, dizendo que queria oferecer um recital de poesia de língua portuguesa na Casa Fernando Pessoa. E ofereceu – sim, gratuitamente, escandalizem-se, oh virgens! – um espetáculo belíssimo, concebido, encenado e realizado por ela, aliando interpretação e canto, com uma inteligentíssima seleção dos maiores poetas de Portugal e do Brasil. As paredes da Casa iam estourando, tal a multidão e o deslumbramento.

Nessa ocasião, Bethânia falou-me da sua vontade de levar pelo interior do Brasil e de Portugal um conjunto de espetáculos desses, exclusivamente dedicados à poesia. Que Bethânia ou alguém próximo dela (porque Bethânia nem sequer é praticante da religião das redes virtuais) tenha acrescentado a esse projeto a circulação dos poemas ditos na internet, parece-me uma excelente e eficaz ideia. Sim, opulentos invejosos, já há muita poesia na net – mas não dita e encenada por Bethânia. A voz e o critério dela chegam mais longe, movem mais almas – é isso que não se lhe perdoa. Caetano já o disse, numa crônica coruscante, no Globo. Mas eu quero repeti-lo, porque não sou irmã dela – amo-a, sim, como comecei a amá-lo, desde a mais tenra juventude e sem os conhecer de parte alguma nem saber onde ficava Santo Amaro da Purificação, de onde ambos vieram, sem patrocínios nem padrinhos, para acrescentar luz e força às nossas vidas. Amo-os porque as suas vozes e os seus dons criativos me fizeram e fazem acreditar que o mundo pode ser um lugar mais belo e mais sábio. O Brasil está a dar certo porque eles – e muitos outros como eles, e uma multidão com eles – assim o quiseram. E isso só não vê quem não quer – ou não é capaz – de ver.

INÊS PEDROSA É ESCRITORA E DIRETORA DA CASA FERNANDO PESSOA

31/03/2011 - 10:28h BC desiste de atingir centro da meta em 2011

Conjuntura: Segundo análise do Relatório de Inflação, busca da taxa de 4,5% para o IPCA poderia levar à recessão

Fernando Travaglini | VALOR

De Brasília

O Banco Central aumentou a projeção de inflação para este ano de 4,8% para 5,6% e, ao mesmo tempo, adiou para 2012 a convergência dos preços para o centro da meta de 4,5%. Segundo o Relatório de Inflação, divulgado ontem, o custo de trazer a variação do IPCA para o centro da meta ainda este ano, dado o intenso choque de commodities, seria uma recessão na economia brasileira.

A opção do BC foi pela acomodação dos efeitos da alta das commodities, que tiveram impacto estimado de 2,5 pontos percentuais no IPCA, parte disso incorporado no ano passado, combatendo apenas os chamados efeitos secundários, ou seja, a disseminação dessa alta nos demais preços. Com isso, a economia deverá ter um crescimento de 4%, conforme previsão do BC, e a inflação recuará para 4,6% no fim do próximo ano.

Citando a literatura econômica, a experiência internacional e episódios passados do regime de metas brasileiro, o diretor de Política Econômica do BC, Carlos Hamilton Araújo, disse que os intervalos inferiores e superiores ao centro da meta de inflação, que vão de 2,5% a 6,5%, servem justamente para acomodar os choques de preços, por definição imprevisíveis.

“As bandas são os instrumentos que viabilizam a acomodação da política monetária a esse tipo de situação [choque de oferta]. A boa prática e a teoria econômica recomendam que a convergência da inflação à meta, tendo em vista o afastamento observado no ano passado, seja mais suave”, disse ele em entrevista para divulgação do relatório. Caso a opção fosse pelo centro da meta, os custos em termos do PIB seriam “demasiado elevados”, disse.

O BC preferiu uma política gradualista, combatendo os efeitos secundários via elevação da Selic e, também, com medidas macroprudenciais de restrição ao crédito. Conta ainda com a redução dos gastos do governo, que promete cumprir a meta cheia de superávit primário (R$ 117,8 bilhões).

O BC acredita que já está em curso uma desaceleração da atividade econômica, com o PIB avançando abaixo do potencial desde o segundo semestre do ano passado. O processo será intensificado quando os efeitos da política monetária, que sofrem com uma defasagem de até nove meses, no caso da Selic, se tornarem mais presentes, com redução da inflação em 12 meses a partir do último trimestre do ano.

Segundo Araújo, no entanto, a instituição não abandonou o centro da meta para este ano e pode, inclusive, rever a política monetária, caso se mostre necessário. “Temos ainda um trabalho árduo e vamos seguir em frente para que a inflação não se afaste muito da meta em 2011, o que vai contribuir com o trabalho de trazer a inflação à meta no ano que vêm”, afirmou.

O Relatório de Inflação foi lido pelo mercado como ainda mais “dovish” do que os documentos anteriores – neologismo que indica um BC mais leniente com a inflação e menos afeito à subida de juros. A reação imediata, tanto de economistas das instituições financeiras, quanto do mercado de juros, foi de reduzir a expectativa de novas elevações da Selic. Ao mesmo tempo, foi sinalizada uma maior desconfiança sobre o sucesso do BC na empreitada. A autoridade monetária, porém, mostrou segurança em relação ao caminho escolhido.

Um indicador das incertezas do mercado está nas taxas negociadas na BM&FBovespa. Os contratos de juros com prazos mais curtos apresentaram queda, indicando que os investidores não acreditam em um aperto muito extenso da Selic, que pode ser interrompido na próxima reunião, de abril. Já os contratos mais longos tiveram leve alta, sinalizando que os agentes esperam uma piora do cenário futuro, seja com uma aceleração da inflação, seja pela necessidade de novas elevações da taxa básica.

O BC resolveu, também, alterar a forma de divulgação do Boletim Focus, que coleta as opiniões do mercado, apontando de forma clara quais setores estão mais céticos com a política monetária. Separou as respostas dos analistas em três grupos: bancos, gestoras de recursos (assets) e outras (que incluem as consultorias). Com essa divisão, fica claro que as apostas mais acentuadas no fracasso do BC estão concentradas nas gestoras independentes.

31/03/2011 - 09:31h Rumo ao PSD, Afif diz apoiar Serra em 2012

Vice de Alckmin considera tucano ”nome natural” para suceder Kassab e acena com hipótese de aliança na próxima eleição

Roberto Almeida – O Estado de S.Paulo

Um dia após o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), ter declarado que o ex-governador José Serra é “o melhor nome” para disputar a Prefeitura de São Paulo pelo PSDB, o vice-governador Guilherme Afif Domingos, que caminha rumo ao PSD ao lado do atual prefeito Gilberto Kassab, endossou a posição do tucano.

Ontem, ao fim de evento no Palácio dos Bandeirantes, Afif afirmou que a escolha de Serra para suceder a Kassab está “dentro da coerência” do novo partido e acenou com a possibilidade de aliança entre as duas legendas para a disputa de 2012. “O Serra é um nome muito ligado a nós”, ressaltou, em referência à nova legenda e ao PSDB.

Segundo Afif, o ex-governador seria o “nome natural” do PSDB para disputar a prefeitura. Ao mesmo tempo, afirmou o vice, é preciso esperar por sua decisão de concorrer ou não no pleito do ano que vem. Até o momento, Serra tem negado desejo de disputar o cargo.

O apoio de Alckmin e Afif ao nome de Serra surge no momento em que a presidência do diretório municipal do PSDB, que dará as cartas no partido na próxima eleição, permanece indefinida. Alckmin pretende emplacar seu secretário de Gestão, Julio Semeghini, no comando da legenda em São Paulo, mas a bancada de vereadores do PSDB, ligada a Serra, também pleiteia a posição e deve endurecer a disputa.

Enquanto a eleição do diretório não ocorre – está marcada para o dia 10 de abril – o nome do ex-governador é visto como uma forma de pacificar esses dois grupos, encerrando a disputa interna. Além disso, é tratado como ponto essencial para selar a união entre PSD e PSDB na disputa pela maior capital do País.

Kassab tem afirmado publicamente que seu partido caminhará com os tucanos em 2012 com Serra candidato. Membros da bancada de vereadores que desejam o ex-governador na disputa também se animaram com a declaração de Alckmin. Para eles, a candidatura de Serra ajudaria a distensão entre os grupos tucanos.

Força. Alckmin negou ontem, após evento no Palácio dos Bandeirantes, que tenha “lançado” a candidatura de Serra à prefeitura. No entanto, voltou a afirmar que o ex-governador é um “nome forte”. “Isso não está certo porque vai ser tratado só ano que vem”, observou. Diante da insistência de jornalistas, resumiu: “Só em 2012.”

Na visão de aliados do governador, com a declaração de apoio a Serra, Alckmin emite um aceno de pacificação à disputa do diretório e pressiona Serra a escolher se será candidato no ano que vem.

Aliados. Com a decisão de escolher um técnico para a vaga deixada por João Sampaio na Secretaria de Agricultura, o PMDB paulista deve ficar de fora do primeiro escalão do governo Alckmin e tende ao alinhamento com o governo federal a partir de 2012.

Enquanto a bancada estadual do PMDB negocia participação em órgãos do governo, o presidente estadual da sigla, Baleia Rossi, garante que “o PMDB está fora” da gestão Alckmin. “Vamos trabalhar nosso projeto de crescimento”, afirmou.

31/03/2011 - 09:02h Aliados de Serra descartam candidatura municipal

Vandson Lima | VALOR

De São Paulo

A declaração do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB) de que José Serra seria “o melhor nome, com força para a eleição” à prefeitura da capital ecoou de diferentes maneiras entre os aliados do candidato derrotado nas eleições presidenciais de 2010. Nos bastidores, a fala foi entendida como um movimento ousado de Alckmin no xadrez da reestruturação do tucanato paulista.

“Essa hipótese não existe. Conversei várias vezes com o Serra. Ele fica, inclusive, irritado quando puxam o assunto”, afirma o senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB), que foi secretário da Casa Civil da gestão Serra no governo estadual. Para o ex-governador Alberto Goldman, não é hora de falar de candidatura: “O partido precisa é se reestruturar, estabelecer sua linha política. É prematuro falar disso agora”.

Entre seus pares, a interpretação foi de que Alckmin mexeu peças à sua conveniência: prestigiou Serra, mesmo ciente de que seus planos são outros, como a presidência do PSDB e o ingresso de gente de sua confiança nos diretórios estadual e da capital. E conseguiu conturbar ainda mais os planos de Gilberto Kassab, que quer fazer de seu PSD uma alternativa a aliados de Alckmin, mas nem cogita apoiar outro nome em qualquer disputa que Serra, seu padrinho político, participe.

As negativas de Serra ante à possibilidade de concorrer à prefeitura da capital em 2012 seguem o mesmo enredo de oito anos atrás. Derrotado na disputa presidencial de 2002, o tucano negou até o último momento que pudesse concorrer à prefeitura em 2004, o que fez. Eleito, ficou um ano e três meses no cargo e saiu para buscar o governo do Estado, também sendo eleito. “Ele será candidato. Precisa ser. Político sem mandato, nem vento bate na porta”, afiança um tucano da Executiva estadual.

Os grupos ligados a Serra e Alckmin travam, no momento, uma batalha por espaços na burocracia partidária. Enquanto Alckmin praticamente garantiu a eleição de Júlio Semeghini e Pedro Tobias para presidirem os diretórios da capital e do Estado, respectivamente, por meio de acordos de participação de deputados e vereadores nas chapas, o grupo serrista mira as secretarias gerais, responsáveis pela burocracia partidária. No PSDB, uma secretaria-geral tem mais poder que em outras siglas, por conta de uma mudança feita no estatuto, no meio da década de 1990, pelo então secretário da Executiva nacional, Sergio Motta. Em guerra com o então presidente, Tasso Jereissati, Motta emplacou a mudança que esvaziou as atribuições da presidência tucana. A medida foi refletida para as instâncias municipais e estaduais e permanece.

Nome cotado para a secretaria-geral no Estado, Goldman disse estar livre para assumir funções no partido: “Tenho mais de 40 anos de vida partidária. Recebi convites de Alckmin para quatro secretarias. O Kassab também me chamou, mas meu desejo agora é contribuir para os rumos do partido. Desde que contemple a maioria, estou disponível”.

31/03/2011 - 08:37h SP poderá dobrar, até 2020, emissões de gás carbônico

Infraestrutura: Previsão é de relatório sobre perspectivas para a matriz energética do Estado

Josette Goulart | VALOR

O governo do Estado de São Paulo apresentou ontem, na primeira reunião do Conselho Estadual de Energia, as perspectivas da matriz energética do Estado até 2035. Um dado foi considerado alarmante pelo próprio governo: a expectativa é que as emissões de gás carbônico quase dobrem em 2020, comparado às emissões registradas em 2005. Isso fere diretamente a Política Estadual de Mudanças Climáticas, estabelecida por meio de decreto há seis anos, e que exige uma redução global de 20% das emissões de CO2 até 2020.

O secretário de Energia do Estado, José Aníbal, que assumiu a pasta em janeiro deste ano, diz que será grande o desafio do governo para criar condições de reduções. Segundo Aníbal, várias alternativas estão sendo estudadas, desde a troca de combustível dos ônibus que circulam nas cidades até o incentivo fiscal para produção de energia de biomassa, passando ainda por uma política de reciclagem de resíduos sólidos e incentivos a aterros sanitários, que usem o lixo para produzir energia.

Além disso, discutirá com as distribuidoras de energia como ter programas efetivos de eficiência energética. Mas todas essas medidas estão ainda em fase de estudos. “Teremos que estabelecer metas para períodos mais curtos e assim viabilizar a redução prevista na legislação”, disse Aníbal.

O estudo da matriz energética foi feita pela consultoria Andrade & Canellas junto com a equipe anterior do governo estadual, quando José Serra (PSDB) era governador. Apesar do cenário traçado, em que as emissões aumentam significativamente, o estudo mostra entretanto que crescem em menor proporção do que a economia, o que já é considerado um alento.

A equipe econômica do governo está estudando um diferimento de ICMS para as usinas de açúcar e álcool e de geração de energia a partir do bagaço da cana, segundo o secretário. Mas o maior entrave está no setor de transporte, o maior emissor de gás carbônico.

A solução proposta no relatório da matriz energética é que se acelere o processo de substituição do transporte de cargas por meio rodoviário para o ferroviário. Outra proposta é que se incentive o uso de transporte coletivo. De acordo com o relatório, a frota de automóveis, que era de 7 milhões em 2005, atingirá 17 milhões em 2035.

O outro desafio do governo será ampliar a produção de energia elétrica no Estado. Pelos estudos apresentados ontem, São Paulo crescerá em média 3,5% ao ano e a demanda de eletricidade crescerá em média 1,8% ao ano. Mas a oferta aumentará apenas 1,3%, o que significa que o Estado terá que importar energia.

Apesar de o sistema elétrico ser interligado nacionalmente, e por isso não haver compra direta de energia de um ou outro Estado, todos os governos estaduais têm objetivo de produzir energia suficiente em seus Estados.

O governo de São Paulo está propondo descentralizar as decisões do setor elétrico e dar mais poder as agências estaduais. Para isso, Aníbal está empenhado em mobilizar deputados federais e senadores para que se façam estudos que possam levar os Estados a ter mais poder nas decisões energéticas.

30/03/2011 - 22:00h Boa noite


In memoriam de José Alencar, orgulho da nação brasileira

St.Paul’s Cathedral London – Leonard Bernstein, Martina Arroyo, Josephine Veasey, Placido Domingo, Ruggero Raimondi
The London Symphoney Orchestra&Chorus

30/03/2011 - 19:00h José Alencar. Presente!


In memoriam de José Alencar, orgulho da nação brasileira

Ave Verum Corpus kv. 618, de Mozart

Chor und Symphonieorchester des Bayerischen Rundfunks

Leonard Bernstein

30/03/2011 - 17:00h Pesquisa quer ampliar usos da romã

Embrapa e UFRJ pretendem ressaltar qualidade antioxidante da fruta para estimular maior aproveitamento

Fernanda Yoneya – O Estado de S.Paulo

As propriedades antioxidantes da romã (Punica granatum L.) estão em estudo na Embrapa Agroindústria de Alimentos, no Rio, em uma parceria com produtores da fruta do semiárido, Embrapa Semiárido e Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A ideia da pesquisa é agregar valor à produção da romãzeira, buscando alternativas de mercado para os frutos que não têm padrão comercial para o consumo in natura.

A romãzeira é originária da Ásia e, no Brasil, é cultivada com fins ornamentais ou para a produção de frutos. Espécie de clima quente, adaptou-se muito bem às condições do semiárido, hoje o principal polo produtor. “A romã é conhecida, mas não é comercialmente explorada. Os frutos que não são aproveitados para consumo in natura são descartados, pois não há tecnologias de processamento no Brasil”, diz a engenheira de alimentos Regina Isabel Nogueira, pesquisadora da Embrapa Agroindústria de Alimentos. “No semiárido, os produtores relatam muitas perdas.”

Segundo Regina, as propriedades antioxidantes da romã a tornam um alimento funcional, com grande apelo no mercado consumidor. “Segundo um estudo da Universidade de Baroda, na Índia, o fruto tem três vezes mais capacidade antioxidante que o vinho e o chá verde”, cita Regina, acrescentando que a romã contém antocianinas, que, assim como a vitamina C, vitamina E e betacaroteno, captam facilmente os radicais livres. “Estes radicais, se produzidos ou absorvidos em excesso, aumentam os riscos de doenças como hipertensão, artrite e envelhecimento precoce”, explica.

A pesquisa espera obter, em uma prazo de pelo menos dois anos, produtos como extrato da casca da fruta (casca cristalizada) ou uma polpa de romã. Essa polpa seria um concentrado de antocianina e compostos bioativos da fruta – o método empregado na pesquisa é chamado de microencapsulação. “Também vamos caracterizar o óleo contido na semente, que possui propriedades anti-inflamatórias.” A extração do óleo da semente está sendo feita na UFRJ e a Embrapa Semiárido é responsável pelo parte agronômica da pesquisa.

FICHA TÉCNICA

A romãzeira adapta-se a vários climas, mas prefere inverno seco e verão quente

Solo: profundo, rico em matéria orgânica e bem drenado

Plantio: no Sudeste, no início da primavera. A área indicada é de 30 metros quadrados/planta. O início da produção ocorre de dois a três anos após o plantio

Colheita: no verão, a partir de novembro. Janeiro é o pico da safra. Recomenda-se colher os frutos quando ainda não estiverem totalmente maduros

Doenças e pragas: fungos nos frutos, pulgões ou cochonilhas

30/03/2011 - 12:19h Com lula, Dilma nega recuo contra miséria

Presidente destaca que erradicar pobreza continua sendo a meta do governo, mas País nem sabe ao certo o número de miseráveis

Tânia Monteiro – O Estado de S.Paulo

ENVIADA ESPECIAL / COIMBRA

A presidente Dilma Rousseff tentou explicar ontem a declaração feita na véspera, durante evento em Belo Horizonte, de que o seu mandato pode não ser suficiente para erradicar a miséria no País. Durante entrevista em Portugal, onde o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva será homenageado, ela assegurou que “não houve recuo” na promessa de campanha.

“Nós vamos fazer um grande esforço nos meus quatro anos de governo para fazer a eliminação da pobreza, mas chega a um ponto que é o como o caso do programa Luz para Todos, que conseguimos atender os 12 milhões que não tinham luz elétrica, que supúnhamos que era a população brasileira que vivia no escuro, e descobrimos que existiam mais 1,5 milhão”, disse ela.

Ainda de acordo com Dilma, há uma tendência de se aproximar da erradicação da pobreza, uma aposta de que “vai se aproximar do foco”. Ela não quis cravar se País tem 14 milhões, 19 milhões ou 21 milhões de miseráveis. Estes números, afirmou, só poderão ser conhecidos quando o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) liberar dados específicos.

As declarações foram dadas no primeiro dia da visita a Portugal, após viver um dia de tietagem na universidade de Coimbra, no melhor estilo do seu antecessor. Dilma foi assediada não só pelos estudantes portugueses, mas também pelos brasileiros. Os portugueses chegaram a jogar as suas togas, para Dilma pisar ao entrar na escola, em reverência à chefe de governo. Hoje, ela retorna à universidade para a concessão do título de doutor honoris causa a Luiz Inácio Lula da Silva.

No hotel Quinta das Lágrimas, onde Dilma e Lula estão hospedados, os dois fizeram questão de mostrar a “excelente” relação dos dois. Lula afirmou que “não tem ponteiro pra acertar” com ela e destacou que a polêmica por não ter ido ao almoço com o presidente Barack Obama foi criada pela imprensa. “O mal-estar é de vocês”, completou Dilma, falando aos jornalistas. Destacou que tem se encontrado com Lula a cada 15 dias.

“Vocês podem tentar tudo, mas é impossível separar a minha trajetória do presidente Lula. Isso não significa que eu e ele sejamos a mesma pessoa. Não somos”, prosseguiu. “Ele é um estadista e construiu castelos com as pedras do caminho e uma pessoa que fez isso é doutor na construção e mudanças no país”, completou. O ex-presidente fez questão de abraçá-la e beijá-la: “Vê se a gente está com cara de estar brigados aqui?”

Na sua passagem por Portugal, Dilma também aproveitou para falar das dificuldades do governo brasileiro em socorrer Portugal, que passa por uma grave crise econômica.

Dilma avisou que a compra de títulos da divida de Portugal pelo Brasil tem de cumprir rígidas regras estabelecidas pelo Banco Central e que fará “tudo o que for possível para ajudar Portugal, mas dentro da legislação”.

30/03/2011 - 11:55h Dilma surpreende na Universidade de Coimbra

Assis Moreira | VALOR

De Coimbra

A presidente Dilma Rousseff fez uma bem sucedida visita a Universidade de Coimbra, ontem, onde beijou estudante, parou para fotografar várias vezes, preferiu se deslocar a pé entre os locais visitados e, para variar, acabou fazendo cobrança pública ao seu ministro de Educação, Fernando Haddad.

Quando retornou ao hotel, encontrou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na recepção. “Vê se a gente está com cara de estar brigado aqui”, desafiou Lula na direção dos jornalistas. A presidente cumprimentou a ex-primeira dama Marisa com elogios: “Você está linda.”

“Como Dilma é carismática”, comentou uma professora da universidade, visivelmente entusiasmada com a presidente, durante a visita. “Ela foi uma verdadeira sucessora de Lula”, comentou um membro da delegação Por sua vez, o assessor internacional do Planalto, Marco Aurélio Garcia, atribuiu a imagem de uma Dilma durona a “alguns jornalistas”.

O ambiente era propício para a tietagem que ocorreu junto a Dilma. São 979 estudantes brasileiros na Universidade de Coimbra, 5% do total de estudantes. Boa parte tem bolsas de estudos do governo brasileiro. Outros dizem estar aqui porque pagam anuidade mais barata do que pagariam em universidades brasileiras.

“Dilma, Dilma”, gritavam alguns estudantes. Quando um grupo de brasileiros cantou “sou brasileiro com muito orgulho”, a presidente ensaiou passos de dança. E defronte das câmeras de TV, não hesitou em abraçar e beijar um estudante que lhe presenteou com um livro de um escritor japonês.

Ela ouviu atenta a reivindicação dos estudantes, para que o governo acelere a revalidação dos diplomas que obtêm no exterior. “Fernando, ouve isso aqui, eles estão reclamando da burocracia”, falou a presidente a seu ministro da Educação, Fernando Haddad. Mais tarde, o ministro disse que Lula faria cobrança idêntica. No entusiasmo do ambiente, os dois prometeram mandar mais alunos brasileiros para o exterior.

Enquanto isso, Lula chegou ao hotel, procedente de Lisboa. Ao encontrar alguns jornalistas, insistiu que “não tinha ponteiros a acertar” com Dilma porque não havia divergência entre eles.

Dilma chegou logo depois e deu longa resposta, sorrindo, também para desarmar os rumores de mal-estar entre ambos. “O mal-estar é de vocês”, disse. “Eu e o presidente Lula não temos nenhum mal-estar. continuamos sistematicamente nos encontrando de 15 em 15 dias aproximadamente, até porque sempre temos muito o que conversar.”

“Vocês nunca se esqueçam, eu trabalhei com o presidente Lula e é assim. Tenho com o presidente Lula um acúmulo de experiência comum que para mim é muito importante. Ele para mim é um grande interlocutor. O presidente Lula é um estadista. Uma pessoa com uma baita experiência de Brasil”, disse.

A presidente acrescentou: “Eu gostaria de saber a troco de que eu não vou compartilhar não só a minha amizade, porque tenho uma relação afetiva com o Lula. Vocês podem tentar tudo, mas é impossível separar a minha trajetória da trajetória do presidente Lula.”

E completou: “Isso não significa que eu e ele sejamos as mesmas pessoas. Nós não somos, mas somos pessoas que atingiram um patamar de respeito, com quem tenho imenso prazer em compartilhar as minhas horas e a minha experiência.”

Pouco depois, com a noticia da morte de Alencar, o clima era de tristeza o que reuniu ainda mais os dois.

Ao receber o titulo de doutor “honoris causa” da Universidade de Coimbra, Lula terá que pagar uma “propina”, como dizem os portugueses. O reitor receberá dele dois quilos de castanhas de ovos. Em troca, receberá um anel de ouro de 13 gramas com um rubi “cor de sangue de pombo”. No momento central da cerimônia, o reitor, em discurso em latim, pergunta a Lula: “Quid petis?”, ao que Lula responderá: “Gradum doctoratus”.

30/03/2011 - 11:21h Ajudar vizinhos ‘não tem preço’, diz Garcia

VALOR
De Coimbra

A boa relação do Brasil com os países vizinhos “não tem preço”, disse ontem o assessor internacional do Palácio do Planalto, Marco Aurélio Garcia, ao justificar o reajuste que triplica o preço que Brasília pagará ao Paraguai pelo consumo de excedente de energia produzida pela hidrelétrica de Itaipu.

O reajuste será votado hoje na Câmara dos Deputados, com base no contrato assinado em junho de 2009 pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com o preço pago ao Paraguai indo de US$ 120 milhões para US$ 360 milhões.

Garcia negou que haja pressões do governo paraguaio para aumentar os valores. Disse que esteve há três dias em Assunção, onde discutiu o contrato conforme o acertado pelo governo Lula. Indagado sobre o risco de os deputados brasileiros resistirem à aprovação do acordo, Garcia contou que conversou com todos os lideres do governo e da oposição expondo a posição do governo Dilma Rousseff.

“Esse reajuste não é exclusivamente de natureza econômica, como Itaipu nunca foi só econômico, pois se fosse assim o Brasil teria feito Itaipu sozinho”, disse. “Itaipu teve significação geopolítica. Hoje, a geopolítica de Itaipu não é a autoritária de décadas atrás, é a geopolítica democrática, pois queremos ter boas relações com os vizinhos.”

Para o governo Dilma, remunerar bem o Paraguai é importante e “vai ajudar na nossa relação”. Garcia observou que hoje há um movimento de investimentos brasileiros em direção ao Paraguai. “A questão fundamental é se queremos em nossa vizinhança países pobres, instáveis socialmente, ou se queremos ter países em desenvolvimento.” Lembrou que quando Portugal, Espanha e Grécia entraram no mercado comum europeu foram feitas grandes concessões para os três países. Quando um repórter retrucou que na verdade a Alemanha faz alegações contra até hoje, Garcia ironizou: “É por isso que a Alemanha é adorada aqui na Europa.” Para ele, “ajudar os vizinhos não tem preço, como diz a uma certa propaganda”. (AM)

30/03/2011 - 11:07h Propostas mais caras levaram Linha 5

Análise surge com abertura de envelopes que não haviam sido divulgados pelo Metrô

Renato Machado e Rodrigo Burgarelli – O Estado de S.Paulo

Empresas que ofereceram valores maiores acabaram vencendo lotes da licitação do prolongamento da Linha 5-Lilás do Metrô. Essa foi a constatação da abertura dos envelopes com propostas que não haviam sido divulgadas, ocorrida ontem por determinação da Justiça. O projeto está parado desde outubro de 2010, após a divulgação de que os vencedores do processo já eram conhecidos antes da abertura dos lances.

O edital da licitação previa que uma empresa ou consórcio de empresas poderia vencer apenas um dos oito lotes em disputa. Isso significa que o ganhador do lote 1, por exemplo, não teria as propostas para os demais trechos abertas. A obra de prolongamento do ramal estava prevista entre o Largo Treze e a Chácara Klabin, com custo estimado de cerca de R$ 4 bilhões.

Essa cláusula do edital já havia sido motivo de questionamento pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE) e também de ações civis públicas. O TCE chegou a embargar a licitação em 2009, antes de liberá-la um mês depois. Segundo o órgão, o modelo abria brechas para que propostas mais caras – de construtoras que ainda não haviam ganho nenhum lote – acabassem levando os últimos a serem disputados, uma vez que possíveis ofertas menores não seriam conhecidas.

A abertura dos envelopes ontem mostrou que essa situação realmente ocorreu. No lote 2, por exemplo, a menor proposta foi do Consórcio Constran/Construcap: R$ 315 milhões. Esse envelope, entretanto, nem chegou a ser aberto, pois as construtoras já haviam ganho o primeiro lote. O vencedor acabou sendo o consórcio Galvão/Serveng, com uma proposta de R$ 386 milhões – 18% maior. Os advogados do primeiro consórcio não quiseram se pronunciar e o Estado não conseguiu contato com o segundo.

Situações semelhantes foram registradas nos lotes 6 e 8. Apenas na soma desses três lotes, a diferença entre a menor proposta e a oferta vencedora foi de R$ 151 milhões. O valor já é maior do que o estimado na ação que corre na Justiça (R$ 146 milhões).

Consequências. O Estado apurou que o governo acredita que a divulgação das outras propostas é benéfica para esclarecimentos dos fatos e os valores menores seriam indícios de que não houve conluio entre empresas – hipótese levantada pela gestão anterior. Essa é a mesma posição de alguns advogados das construtoras que foram ouvidos pela reportagem.

A gestão Geraldo Alckmin (PSDB), que herdou o problema, informou anteontem que em 20 dias também concluirá as investigações do próprio Metrô sobre o ocorrido, podendo manter a licitação ou anulá-la. A companhia informou em nota que vai analisar todas as informações obtidas na sessão, bem como todos os demais elementos recolhidos no processo em que avalia a invalidação ou não dos contratos. “O Metrô não pode, sob pena de anular o processo de invalidação, antecipar qualquer juízo de valor sobre os elementos de prova colhidos no referido processo.”

Cancelamento. Independentemente do resultado da apuração do governo, a Justiça pode impugnar o processo, caso seja acatada a acusação de que o modelo do edital pode ter lesado os cofres públicos e feito o Metrô gastar mais do que o necessário. Em um dos autos do processo, a juíza responsável pelo caso, Simone Gomes Rodrigues Casoretti, da 9.ª Vara de Fazenda Pública, já havia dito que “não se pode aceitar” o aumento do preço que supostamente seria pago pelo Metrô por causa da licitação por lotes. Não há data prevista para o julgamento do mérito.

CRONOLOGIA

Junho de 2009
Obras

Sai vencedor do 1.º lote e começam obras na zona sul.

Outubro de 2010
Denúncia

Folha de S. Paulo divulga documento mostrando saber resultado com antecedência.

Outubro de 2010
Cancelamento

Governo paralisa a licitação.

29 de março de 2011
Envelopes

A mando da Justiça, Metrô abre os envelopes das propostas ainda não divulgadas.

30/03/2011 - 09:27h Com Lula, um tango

Stefan Salej – O Estado de S.Paulo

As coincidências da vida são tantas que nos surpreendem. Eu tinha de ser de algum lugar de Minas porque como gringo, imigrante, e falando com sotaque, não tinha futuro. Por amizade com meu colega de faculdade Mauro Lobo adotei a cidade de Bom Jesus do Galho como minha cidade mineira. Criei a fábula de ser de lá.

José Alencar começou sua vida na cidade vizinha de Bom Jesus do Galho, Caratinga. Conhecemo-nos em Belo Horizonte, na Federação das Indústrias, onde Zé aterrissou após a injustiça que lhe fizeram na Associação Comercial de Minas, onde impediram que fosse presidente. Era avançado demais nos negócios, pensamentos e ações. Foi ungido presidente da Fiemg e eu virei seu vice. Repetia milhares de vezes sua história de menino pobre dormindo no corredor da pensão em Caratinga, e de como passou de jovem para adulto quase de noite para o dia, por necessidade e por vontade. Seu pai o emancipou e ele virou comerciante com o irmão. Comprava e vendia. Duro na negociação, esperto na conversa, homem de palavra.

Empresário líder, enfrentava os problemas políticos numa terra política. Não tinha raízes, não tinha parentes, não era dos “senhores das Gerais”. Era Zé Alencar, que de comerciante virou industrial com novos conceitos. Conceito de alta produtividade, competitivo e diferente. Enquanto todos instalavam teares de 2,80m, ele descobriu um fabricante no Japão que fabricava teares de 3,20m. Enfrentou toda a burocracia e o protecionismo e os instalou na sua fábrica.

Um dia o encontrei no avião voltando para Brasil, ele vindo da China com o filho Josué com aquela cisma que não o largava quando o pegava: “Por que chinês pode fazer camiseta tão barato e nós no Brasil não?” Antes de qualquer um, e fez camisetas competitivas de algodão para ninguém pôr defeito. E assim os negócios prosperavam, mas com uma fidelidade ímpar a seus amigos de início de vida.

A ação social na Fiemg nos dois mandatos, com sua ação no interior do Estado de Minas resultou em uma nova e inesperada face. Virou adorado e aplaudido por onde passava. No meio tempo veio a mudança do governo: sai Collor e entra Itamar. Mas antes de Itamar entrar para a Presidência, José Alencar, naqueles dias indefinidos, o visita no Hotel Glória e lhe diz que amigo ele não trai, amigo é amigo. Itamar vira presidente, José Alencar, candidato a governador de Minas. Os empresários enxergam nele um líder que pode dar certo na política. Franco, claro, objetivo, bem-sucedido como empresário, sem mancha e sem rolo, como se diz em Minas, poderia representar o sonho de um Brasil mais justo, mais social, mas também mais empresarial na sua gestão. Obtém 10% dos votos, ganha espaço, perde a eleição, mas marca um primeiro gol.

Deixava as pessoas crescerem em torno dele. Uma das vezes que o vi mais feliz foi quando seu filho Josué se graduou em engenharia e seguiu para a Vanderbilt, para fazer um mestrado, e obteve sua medalha de ouro. Pode-se imaginar alguém que só tinha primário, falava inglês bem, lia – e não era pouco (na época de Gorbachev, não cansava de falar de Perestroika, o que nos obrigou a todos a ler livro para conversar com ele) -, mas continuava simples Zé Alencar, filho de uma família numerosa, ter filho pós-graduado nos EUA?

Eleito depois senador, teve gabinete sempre aberto para as ideias. Discutia e, convencido, era o melhor aliado que poderia se imaginar. Nunca foi populista. Coitado de quem esperava que misturasse os negócios com política.

Dizer que Alencar não era ambicioso é omitir a verdade. Queria ser governador de Minas. Quando veio o convite para ser vice de Lula, os adversários queriam atingi-lo de toda maneira. Não conseguiram achar nem ações trabalhistas.

Ele tinha a consciência clara de que um acordo nacional, um entendimento entre trabalhadores e empresários, poderia representar um passo fundamental na construção de duas coisas que pudessem garantir o futuro sustentável do Brasil: democracia com economia de mercado. Já que um acordo entre facções e partidos políticos, entre vários atores, não era possível, por que não tentar um informal via eleições? Era a oportunidade não de ser um vice, mas de construir um projeto que o menino pobre de Caratinga sonhava. No fundo, não era a aliança de um trabalhador e um empresário, mas a junção de forças de dois homens de bem, forjados na vida, bem-intencionados e em especial querendo construir um Brasil mais justo. No fundo não se sabia quem era quem, quem era trabalhador e quem era empresário.

Com notável diferença dos demais vices, foi, desde primeiro dia da aliança com Lula, companheiro, amigo, às vezes até irmão mais velho, mas nunca concorrente. Os dois forjaram um par de dançarinos de tango que se movem ao som de música de uma forma perfeita, equilibrada, difícil de se dançar. E um exemplo de harmonia política que nem o ranzinza do José Alencar com sua obsessão por criticar juros altos (apesar que com sabedoria ganhava rios de dinheiro de outro lado porque acumulava caixa nas empresas, algo que escondia) conseguia desestabilizar. Ele falava de um sonho e a vida que me levou para o outro lado Atlântico não me deu chance de lhe dizer que ele se realizou. Não só para ele, mas para 190 milhões de brasileiros. Ele dizia que um dia iria a Paris sentar num restaurante nos Champs-Elysées e pedir um filet au poivre. E que, com nosso real tão forte, poderia pagar até gorjeta.

EX-PRESIDENTE DA FIEMG, EMPRESÁRIO

30/03/2011 - 09:02h Lula e Dilma apressam volta para prestar último tributo


Emocionado, ex-presidente afirma que Alencar lhe deu ‘o restante’ dos votos para se eleger

Tânia Monteiro – O Estado de S.Paulo

ENVIADA ESPECIAL / COIMBRA

Muito emocionados, a presidente Dilma Rousseff e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva lamentaram ontem a morte do ex-vice-presidente José Alencar e anunciaram a antecipação do retorno a Brasília, juntos, no Aerolula, no fim da manhã de hoje, para participar do velório no salão nobre do Palácio do Planalto.

Dilma e Lula estavam no Hotel Quinta das Lágrimas, em Coimbra, onde estão hospedados, quando foram avisados pelo médico Raul Cutait da morte de José Alencar. Eles conversaram com a família e anunciaram que estarão presentes no sepultamento, em Belo Horizonte.

Dilma estava um pouco mais contida, mas não menos abalada que o ex-presidente. Os dois mantiveram o compromisso de participar, hoje de manhã, na Universidade de Coimbra, da cerimônia de concessão do título de doutor honoris causa a Lula. “Vou dedicar o prêmio a ele”, disse Lula, chorando. “O Brasil perde um homem de dimensão excepcional. É muito fácil a gente falar das pessoas depois que morrem, porque todo mundo fica bom depois que morre, mas o José Alencar era bom em vida”, prosseguiu Lula, acrescentando que ambos tinham “mais do que uma relação de um vice e um presidente”, “Era uma relação de irmãos e companheiros.”

Missão. Dilma chorou ao ouvir Lula narrar o episódio em que Alencar, mesmo estando muito debilitado, durante a campanha do ano passado, fez questão de subir em um carro para acompanhá-la, em Belo Horizonte. “Eu tenho que fazer isso, porque eu quero elegê-la”, afirmou Alencar. “Eu cheguei a dizer que eu não acreditava que existisse no mundo um presidente que tivesse um vice como eu tive o prazer de ter o José Alencar”, contou Lula, lembrando que “nunca teve uma vírgula de divergência” com ele.

Para Lula, a morte “foi um descanso”, pois Alencar estava sofrendo havia seis meses e não gostava de ficar no hospital. “Um tempo atrás, eu fui chamado para conversar com ele porque ele queria pedir a minha opinião se ele deveria parar de tomar remédio, que não resolvia mais. Eu era favorável que ele parasse de tomar, que ele vivesse a vida da forma mais prazerosa que ele quisesse viver, e ele também desejava assim”, contou Lula, com a voz embargada.

Eleição. O ex-presidente recordou todas as eleições presidenciais que perdeu e que só conseguiu chegar ao Palácio do Planalto quando encontrou José Alencar para ser seu vice.

“Sou muito agradecido a ele, porque perdi muitas eleições no Brasil. Eu tinha 30%, 34%, 32%, 33% e eu precisava encontrar o restante, e o restante eu encontrei no José Alencar.” A decisão de tê-lo como vice foi tomada quando Lula ouviu Alencar discursar, em Minas, comemorando os 50 anos de vida empresarial. “Eu saí de lá e falei: Encontrei o meu vice.”

Repercussão. O anúncio da morte de Alencar chegou ao Palácio do Planalto no momento em que o ministro Gilberto Carvalho, da Secretaria Geral da Presidência, falava sobre futuras inspeções trabalhistas nas obras do PAC. “O Zé Alencar deu tanto baile em nós e nos médicos que a gente achava que ele poderia aguentar mais. Vocês não podem ter noção do que o Zé representou para o presidente Lula e para nós, nesses oito anos (de governo). A nossa gratidão é eterna”, afirmou o ministro.

Em nota, o ministro da Casa Civil, Antonio Palocci, que trabalhou ao lado de Alencar no primeiro mandato de Lula, quando comandava o Ministério da Fazenda, disse que a trajetória de vida do ex-vice-presidente “eleva a autoestima do povo brasileiro”. “José Alencar incentivou o empreendedorismo e o trabalho como fonte de realização das pessoas. Para mim, conviver com Alencar foi contínuo e vigoroso aprendizado”, disse Palocci.

“Desde a articulação de sua candidatura para compor a chapa do PT, ele contribuiu para que o País conquistasse espaço político e econômico no cenário internacional. Sua bravura e persistência na política estão refletidas na sua luta pela vida”, afirmou o ministro Aloizio Mercadante (Ciência e Tecnologia).

O ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, lembrou os tempos que trabalhou ao lado de Alencar no governo Lula: “Nos oito anos de trabalho juntos na equipe de governo, aprendi a admirá-lo e a estimá-lo pela justeza de caráter e firmeza no trato da coisa pública”. / COLABOROU LEONENCIO NOSSA

30/03/2011 - 08:25h Menino pobre de Muriaé vira político e milionário

Alencar começou a trabalhar aos 7 anos, na loja do pai; tino para os negócios levou-o ao sucesso

- O Estado de S.Paulo

José Alencar Gomes da Silva nasceu em Itamuri, distrito de Muriaé, na Zona da Mata de Minas, em 17 de outubro de 1931. Era o 11.º dos 15 filhos de Antonio Gomes da Silva e Dolores Peres Gomes da Silva. Cinco de seus irmãos morreram ainda pequenos.

Aos 7 anos, Zezé, como era tratado em casa, foi ajudar o pai numa venda de Canteiro, um povoado da cidade. Vendiam mantimentos, roupas e ferramentas para os fazendeiros de café e deles recebiam só na época da colheita.

Aos 9 anos, o menino carregou no braço madeira e bambu para pôr de pé a escola do lugarejo, uma tulha – que é como chamavam o barracão onde ele conheceu os enigmas da aritmética que usaria nos negócios que o tornaram empresário bem-sucedido.

Na época, seu pai recebia um jornal do Rio, que chegava com algum atraso. Ele reunia o pessoal da vizinhança e lia as notícias da guerra – corriam os anos 40 – e as novidades do mercado. Um dia, convenceu os donos daquela terra toda sobre a importância do ensino. E eles aprovaram a iniciativa pioneira de uma escola para os filhos dos empregados. Zezé vencia na passada, todo dia, os quatro quilômetros de casa até a sala de aula.

Aos 14 anos, o rapaz já era um balconista esperto e revelou aptidão para o ofício em Miraí, na Zona da Mata, onde o pai montou um armazém de secos e molhados. Pouco depois da guerra, aos 15 anos, deixou a casa dos pais e foi ganhar a vida.

Era 1946. O gosto pelos negócios o enfiou por caminhos imprevistos e muitos foram os desafios que ele superou. Zezé virou empresário de renome e prestígio, fazendeiro e político de respeito. Primeiro foi senador e, depois, vice-presidente do Brasil. “O Zé sempre foi muito capaz, um tirocínio fabuloso para o comércio”, depõe Antônio, o irmão mais novo. “Ele tinha um brilho próprio, coisa por demais impressionante.”

Eleição. Quando deixou os pais, seu destino foi a cidade e logo arrumou emprego em uma loja de tecidos concorrida por aquelas bandas: A Sedutora. Logo ganhou sua primeira eleição, a de melhor vendedor da firma.

Foi morar num hotelzinho mambembe, no largo da estação de ferro. Ainda com renda esparsa – 600 cruzeiros era o salário -, não tinha como custear aposento melhor. À sua maneira, com simpatia e amabilidades que eram a sua marca, convenceu a dona da hospedaria e pôde alojar-se no corredor mesmo, lá no fundo – uma cama e uma cômoda, com janela para a rua.

Nesse hotel hospedava-se um comerciante de Caratinga que o convidou para trabalhar com ele. João Bonfim, o comerciante, ofereceu o dobro e o rapaz, com 16 anos, mudou para Caratinga, onde foi trabalhar na loja de roupas que levava o nome de seu dono, a Casa Bonfim. Em maio de 1948, como da outra vez, conquistou o título de melhor vendedor.

Quando fez 18 anos, seu irmão mais velho, Geraldo Gomes da Silva, emprestou-lhe 15 contos de réis. Com esse dinheiro, uma boa nota naqueles tempos, e umas economias, Zezé abriu seu negócio em 1950.

No dia 31 de março, Caratinga ganhou A Queimadeira, casa comercial que abriu as portas na Avenida Olegário Maciel, 520. O nome do estabelecimento foi sugestão de um viajante português, sr. Lopes. “Vai vender barato”, justificou, na ocasião. “Ele não era pão duro, mas muito econômico e disciplinado”, lembra Antônio, que trabalhou algum tempo com José Alencar. “Comia de marmita e morava atrás das prateleiras.”

Foi esse o modelo econômico que Alencar escolheu para baixar os custos e tornar competitiva a lojinha. “Conhecia tudo do riscado, sabia onde estavam as melhores fontes do negócio, conhecia o mercado profundamente”, lembra Antônio.

Na Queimadeira, a freguesia podia encontrar tecidos, tamancos, calçados, chapéus, guarda-chuvas para os cavalheiros e sombrinhas para as damas. Só não tinha empregado no estabelecimento, porque era Zezé, e apenas ele, para tocar a casa. Dona Murica, da pensão, mandava o almoço. “Mas o Zezé só comia se não tivesse freguês”, conta o irmão. “Se chegava alguém, punha o prato de lado e atendia.”

Em 1953 , mudou de ramo. Vendeu a loja e investiu em cereais por atacado. Foi por pouco tempo, porque logo fez sociedade com José Carlos de Oliveira, Wantuil Teixeira de Paula e seu irmão Antônio Gomes da Silva Filho. Surgia a Santa Cruz, fábrica de macarrão.

Foi por essa época que a mocinha recatada de olhos azuis e outras graças cativou o coração do empreendedor. Mariza era o nome dela, filha do sr. Luís Campos, representante comercial de bom conceito pela região. Ela havia acabado de retornar do Rio, onde se formou enfermeira.

Alencar e Mariza Campos Gomes da Silva casaram-se em 1957 e tiveram três filhos – Josué Christiano, Maria da Graça e Patrícia – que a eles deram três netos e duas netas.

Coteminas. Ao fim de 1959, morreu Geraldo, o irmão, e Alencar assumiu a União dos Cometas. Quatro anos depois, inaugurou a Cia. Industrial de Roupas União dos Cometas, mais tarde Wembley Roupas S.A. Presidia a Associação Comercial de Ubá (MG), em 1967, quando fez parceria com o empresário, poeta, advogado e deputado Luiz de Paula Ferreira, da Arena, e a ele associou-se em uma fábrica de confecções em Montes Claros, a Companhia de Tecidos Norte de Minas (Coteminas), hoje o maior conglomerado têxtil do Brasil.

“Criei um projeto de fábrica de tecidos e saí procurando sócio”, recorda-se Luiz Ferreira, de 90 anos. “Meu capital não era suficiente. Gostei muito de conversar com o Alencar e o convidei.”

Há 42 anos, a Coteminas tinha 400 funcionários. Hoje, são 16 mil em 11 unidades que fabricam e distribuem fios, tecidos, malhas, camisetas, meias, toalhas de banho e de rosto, roupões e lençóis para Brasil, Estados Unidos, Europa e Mercosul. A Coteminas fatura R$ 1 bilhão por ano.

30/03/2011 - 07:41h “Ele era bom em vida”, diz ex -presidente

Lula entre Marisa e Dilma em Coimbra: lembrança da carreata em novembro em que Alencar ficou em pé por 4 horas


Assis Moreira | VALOR

De Coimbra

Foi em meio a momentos de prantos que a presidente Dilma Rousseff e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva lamentaram a morte de José Alencar, pouco depois de serem informados pelo médico do ex-presidente.

A visita de ambos em Portugal foi encurtada, e retornam a Brasília logo depois de Lula receber titulo de doutor honoris causa na Universidade de Coimbra, hoje cedo.

Com a voz embargada e os olhos marejados, a presidente Dilma Rousseff anunciou luto oficial por sete dias e velório no Palácio do Planalto para Alencar como chefe de Estado.

“Estamos num momento de muita dor e sofrimento, José Alencar vai deixar uma marca indelével na vida de cada um de nós”, disse a presidente, enquanto Lula ao seu lado caia literalmente no choro.

“Todo mundo fica bom depois de morto, mas José Alencar era bom em vida”, disse Lula, estimando que não podia ter tido um vice-presidente melhor e mais leal, sem “nenhuma divergência”. Qualificou a relação de ter sido mais que política e sim de “irmãos e companheiros e a gente funcionava como um orquestra”.

Lula declarou-se ainda mais agradecido ao lembrar que, depois de ter perdido eleições porque não passava de 35% dos votos, foi com ajuda de José Alencar que encontrou o restante. “Quando vi o discurso de José Alencar em Minas Gerais, comemorando os 50 anos de vida empresarial, sai de lá falando que encontrara meu vice.”

O ex-presidente lembrou a resistência ao nome do empresário mineiro. Mas os dois viajaram o Brasil inteiro. “Tinha muita gente mais à esquerda que achava que não devia chamá-lo para vice. Mas quando ele falava e contava sua vida, o mais esquerdista ficava chorando.”

Lula lembrou com Dilma de um episódio da campanha dela em Belo Horizonte. Alencar não tinha mais força nem sequer para levantar a mão de tão fragilizado. Mas subiu num carro e os três fizeram a carreata por Belo Horizonte por quatro horas. “Ele dizia que tinha de fazer isso porque queria eleger a Dilma.”

O ex-presidente disse que falava com Alencar praticamente toda semana. “O otimismo dele era uma coisa que causava na gente até uma inveja de ver sua força.” Antes de partir para Lisboa, ele telefonou para Alencar do carro. O ex-vice presidente sabia que do ponto de vista clínico não tinha mais muita expectativa, mas mantinha a fé.

Depois que chegou em Portugal, Lula ligou de novo para o médico de Alencar e soube que ele estava sedado. Mais tarde, o médico Raul Cutait informou sobre a morte. “Foi um descanso para ele, estava sofrendo há seis meses. Alencar não se contentava de ficar no hospital o tempo inteiro”, disse Lula, de novo chorando. Alencar pedira a opinião de Lula sobre se deveria parar de tomar remédios. “Achei que sim, ele devia viver da maneira mais prazerosa os dias que restavam”, contou. Depois interrompeu a entrevista aos prantos.

30/03/2011 - 07:09h Ex-vice José Alencar morre após luta de mais de uma década contra câncer

Empresário que acompanhou Lula em dois mandatos tinha 79 anos e estava internado em São Paulo; velório será em Brasília e Belo Horizonte

- O Estado de S.Paulo

A luta de José Alencar, 79 anos, contra o câncer terminou ontem. O ex-vice-presidente da República morreu às 14h41, no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, em decorrência de falência de múltiplos órgãos, depois de resistir, por mais de 13 anos, a um câncer na próstata. Tinha à sua volta a mulher, Mariza, os três filhos e os netos. Ao longo de mais de uma década, foi submetido a 17 cirurgias. A brava resistência de Alencar à doença, que sensibilizou todo o País, sempre foi enfrentada com realismo e extremo senso de humor.

“Eu não tenho medo da morte. O homem tem de ter medo é de perder a honorabilidade, especialmente na vida pública. O homem que não perde a honorabilidade não morre. Não morre para os filhos, os ancestrais, os amigos, os patrícios. Agora, quando o camarada faz coisa errada, em vida pode se considerar morto, porque ninguém quer se aproximar dele. Quando Deus quer levar, leva, independentemente do câncer”, declarou em entrevista ao Estado, em 2009.

Empresário bem sucedido em Minas Gerais, Alencar foi o fiador da aliança política que aproximou o setor produtivo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e viabilizou a eleição do petista em 2002. Nos oito anos do governo Lula, (2003-2010), o mineiro foi um recordista: ocupou interinamente a Presidência por 450 dias, exatos um ano e 85 dias.

O governo federal decretou luto oficial de sete dias. O corpo de Alencar deve sair hoje às 6h30 de São Paulo, em avião da FAB para o Palácio do Planalto, onde será velado a partir das 10 horas. O sepultamento deverá ser amanhã, em Belo Horizonte. Em Brasília, o corpo do ex-vice-presidente será transportado em carro aberto do Corpo de Bombeiros por uma das principais via da capital federal. Haverá também velório no Palácio da Liberdade, amanhã. O governo de Minas também decretou luto oficial de sete dias.

A presidente Dilma Rousseff e o ex-presidente Lula foram informados da morte de Alencar em Portugal. Ambos chegam hoje ao Brasil para participar do velório. O presidente em exercício, Michel Temer, afirmou que Alencar enfrentou o câncer com “galhardia exemplar”. “Embora enfrentasse uma tragédia pessoal, ele soube revelar a harmonia interior. O Brasil perde uma de suas grandes e expressivas figuras, tanto no setor empresarial como no setor público”, disse.

Homenagem. A última aparição pública de Alencar foi na cerimônia do aniversário de São Paulo, quando recebeu a Medalha 25 de Janeiro e, emocionado, conseguiu falar por nove minutos. “Deus sabe o que faz e aceitaremos sua decisão de bom grado. Se eu morrer agora, tenho até que me sentir um privilegiado, pois está todo mundo rezando e torcendo por mim. Não posso me queixar se eu morrer”, declarou na ocasião, ao lado de Lula e Dilma.

Alencar lutou até o fim, trabalhando mesmo enquanto estava internado para se recuperar de cirurgias ou se submeter a sessões de quimioterapia, sempre otimista.

Cada vez que recebia alta e deixava o hospital, caminhando ou numa cadeira de rodas, explicava à imprensa, sem rodeios, como estavam sua saúde e sua disposição de espírito.

A última internação foi na segunda-feira, quando o ex-vice-presidente apresentara um quadro de obstrução intestinal com perfuração abdominal e peritonite (infecção na membrana que protege a cavidade abdominal). Devido a seu estado crítico, os médicos descartaram qualquer procedimento cirúrgico. Nos últimos momentos de vida, Alencar recebeu apenas analgésicos para aliviar a dor.

Minutos antes de o hospital confirmar a morte, o médico-cirurgião Raul Cutait, que acompanhou Alencar ao longo da luta contra o câncer, afirmara que o paciente se preparava “para descansar”.

Antes da última internação, Alencar passou os últimos 11 dias em seu apartamento da Alameda Itu, na capital, com a família. No ano passado, ele ficou vários dias internado na UTI, com idas e vindas entre o hospital e sua casa.

Filosofia

“Eu não tenho medo da morte. O homem tem de ter medo é de perder a honorabilidade, especialmente na vida pública. O homem que não perde a honorabilidade não morre. Não morre para os filhos, os ancestrais, os amigos, os patrícios. Agora, quando o camarada faz coisa errada, em vida pode se considerar morto, porque ninguém quer se aproximar dele. Quando Deus quer levar, leva, independentemente do câncer”

Em entrevista ao “Estado”, em janeiro de 2009

“Deus sabe o que faz e aceitaremos sua decisão de bom grado. Se eu morrer agora, tenho até que me sentir um privilegiado, pois está todo mundo rezando e torcendo por mim. Não posso me queixar se eu morrer”

Durante homenagem no dia 25 de janeiro deste ano

29/03/2011 - 22:00h Boa noite

Sonata para violino e piano N° 8 em G maior. op. 30 N° 3 de Beethoven

violino – Anne Sophie Mutter
piano – Lambert Orkis

29/03/2011 - 19:20h Aida


Salvatore Licitra e Nina Stemme – Aida

29/03/2011 - 11:39h Caiu a ficha!

Antonio Delfim Netto – VALOR

Caiu a ficha! A expressão não é elegante, mas cabe como uma luva aos economistas que ao pretenderem criar uma “ciência”, construíram uma “religião”: uma “ciência econômica” que acredita em leis naturais que governam o funcionamento do sistema econômico e são, portanto, independentes da história, da geografia, da psicologia, da antropologia etc.

Tal crença apoiada numa formalização útil, mas exagerada para lhe dar um ar “científico”, interditou ou reduziu à heterodoxia visões alternativas do mundo e produziu o míope “pensamento único” que empobreceu a economia política. Está agora a desfazer-se sob os nossos olhos, sob a pressão de velhíssimos ortodoxos! Esses tentam, desesperadamente, entender como foi possível a crise de 2007/2009 que emergiu como uma “surpresa” numa conjuntura que parecia de plena tranquilidade e atribuída ao sucesso daquela “ciência monetária”…

Economistas quiseram criar uma ‘ciência’ e criaram uma ‘religião’

Nada pode demonstrar melhor essa tragédia do que as contribuições de brilhantes economistas (todos do “mainstream”) à conferência “Repensando a Política Macroeconômica”. Ela foi organizada às expensas do FMI, por Olivier Blanchard (economista-chefe do FMI e autor de dois clássicos, um dos quais, desde 1989, dominou o estudo “sério” da macroeconomia), David Romer (autor da bíblia “Macroeconomia Avançada”), Joseph Stiglitz (Nobel, 2001) e Michael Spence (Nobel, 2001).

Na semana passada (dia 23) Blanchard publicou um minúsculo e devastador artigo “O Futuro da Política Macroeconômica: Nove Conclusões Tentativas”, resumindo os resultados da conferência (obviamente, uma visão pessoal, mas seguramente não viesada):

1ª) Entramos num magnífico (”Brave”) mundo novo, muito diferente do que vivíamos em termos do exercício da política macroeconômica;

2ª) Na velha discussão entre o papel relativo dos mercados e do Estado, o pêndulo avançou – pelo menos um pouco – na direção do Estado;

3ª) Há distorções sérias e muito maiores do que pensávamos na macroeconomia. Elas foram ignoradas porque supúnhamos que fossem pertinentes à microeconomia. Quando integramos as finanças à macroeconomia descobrimos que suas distorções são relevantes para a segunda e que a regulação precisa ser aplicada também aos reguladores. A economia comportamental e sua prima, a finança comportamental, são peças centrais da macroeconomia;

4ª) A macroeconomia tem múltiplos objetivos e muitos instrumentos (ferramentas) para implementá-los. A política monetária precisa ir além da estabilidade inflacionária. Precisa acrescentar o PIB e a estabilidade financeira como objetivos e incorporar medidas macroprudenciais entre os seus instrumentos. A política fiscal é mais do que “gastos” menos “receitas” e seus “multiplicadores” que influenciam a economia. Existem, potencialmente, dezenas de instrumentos, cada um com seus próprios efeitos dinâmicos que dependem do estado da economia e das outras políticas;

5ª) Temos muitos instrumentos e não sabemos exatamente como utilizá-los. Em muitos casos, não temos certeza sobre o que eles são, como e quando devem ser utilizados e se vão ou não funcionar. Por exemplo, nós não sabemos de fato, o que é a liquidez. Logo, “relação de liquidez” é apenas a continuação do que não sabemos;

6ª) Esses instrumentos são potencialmente úteis, mas levantam problemas por seu custo político. Por outro lado, os instrumentos podem ser mal utilizados. Ficou claro nas discussões que muitos pensam que existem razões plausíveis para o controle de capitais, ou para a política industrial (que todos sabem ter limites), mas o governo pode escolhê-los porque não lhe convém, politicamente, usar os instrumentos macroeconômicos corretos;

7ª) Para onde vamos, então? Em termos de pesquisa econômica o futuro é excitante. Há um imenso número de questões que devemos esclarecer e sobre as quais devemos trabalhar;

8ª) Os problemas são difíceis. Como não sabemos bem como usar os novos instrumentos e eles podem, potencialmente, ser mal utilizados, como devem proceder os formuladores da política econômica? O melhor é uma política cuidadosa e de pequenos avanços. O pragmatismo é fundamental;

9ª) Devemos ser modestos em nossas esperanças. Vão acontecer novas crises que não antecipamos. A despeito de todo nosso esforço podemos assistir a outras, no velho estilo das clássicas crises de crédito. Seria possível nos livrarmos delas com uma boa teoria dos agentes e uma regulação correta ou elas são parte do comportamento humano (endógenas ao sistema de economia de mercado) de forma que não importa o que façamos, elas sempre nos visitarão?

Abre-se, portanto, um vasto campo de conhecimento a ser explorado. Não devemos desanimar ou nos deixar enganar por essa visão relativista (de aparência quase niilista com relação a uma “ciência econômica”). O conhecimento acumulado nos últimos 300 anos, de cunho menos pretensioso, que transcende “escolas”, “ideologias” e “idiossincrasias” – a velha economia política – é, comprovadamente, rico de ensinamentos para a boa governança do Estado. Ele mostra a importância absoluta da boa coordenação entre a política fiscal e a política monetária, do incentivo correto aos agentes, da boa regulação dos mercados e a necessidade do respeito às identidades da contabilidade nacional.

Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento. Escreve às terças-feiras

E-mail contatodelfimnetto@terra.com.br

29/03/2011 - 11:00h ”O fim da pobreza é uma espécie de Santo Graal: inatingível”

Daniel Bramatti – O Estado de S.Paulo

ENTREVISTA – Marcelo Neri, ECONOMISTA DA FUNDAÇÃO GETÚLIO VARGAS (FGV)

Para o economista Marcelo Neri, especialista em políticas públicas de combate à pobreza, a meta de erradicação da miséria é inatingível, mas buscá-la é algo positivo. Segundo ele, a presidente Dilma Rousseff teria sido mais realista se apresentasse como objetivo a redução da miséria pela metade até o fim de seu governo.

A declaração da presidente Dilma de que a erradicação da miséria talvez não se concretiza até 2014 é um sinal de que a meta é ambiciosa demais?

A meta é ambiciosa, sim. Teoricamente, basta existir ainda uma pessoa miserável para perder essa guerra. Seria mais realista se comprometer a reduzir a miséria à metade. Mas também é difícil ser contra a meta da erradicação. Não é possível erradicar a pobreza, mas é viável reduzir muito o peso desse problema. O fim da pobreza é uma espécie de Santo Graal: é inatingível, mas a busca por ele enobrece o espírito da sociedade brasileira.

No final de 2010 o senhor estimou que, se fosse mantido o ritmo de redução da pobreza dos anos anteriores, ainda haveria mais de 10 milhões de miseráveis em 2014. O quanto é preciso acelerar esse ritmo?

Nos oito anos do governo Lula a pobreza caiu 50,6%. Desde o lançamento do Plano Real, a queda foi de 67%. Sem nenhum esforço adicional, levando-se em conta apenas os resultados anteriores, seria possível reduzir a taxa de pobreza de 15,3% para 8,6% até 2014. Ainda teríamos 16,1 milhões de pessoas abaixo da linha de pobreza (com renda per capita inferior a R$ 142, segundo os critérios da Fundação Getúlio Vargas). Mas esforços adicionais já têm sido feitos, como o reajuste do Bolsa Família.

Houve reajuste do Bolsa Família, mas o salário mínimo não teve ganho real. O que tem mais impacto?

Seguramente o mais importante, como estratégia para combater a miséria, é aumentar o Bolsa Família. O programa atende mais a faixa etária de zero a 15 anos, onde a taxa de pobreza chega a 27,5%, O aumento do salário mínimo beneficia principalmente os mais idosos, faixa em que a pobreza é de 4,4%.

Qual o custo para levar a pobreza a taxas mínimas?

Existe um cálculo que estima esse custo em cerca de R$ 22 bilhões por ano, mas, se levarmos em conta as rendas não monetárias dos pobres – o que recebem em doações, o que cultivam em lavouras de subsistência e outros itens não medidos em pesquisas oficiais -, esse custo pode cair para R$ 7 bilhões por ano. É um valor alto, mas não é absurdo.

29/03/2011 - 10:40h Temporada de caça a cientistas


Estabilidade do País, desafio do pré-sal e formação de pesquisadores atraem investimentos em superlaboratórios de multinacionais

Carlos Lordelo e Felipe Mortara – Estadão.edu

O Brasil foi escolhido sede da Copa e das Olimpíadas após acirrada batalha com outros países. Também saiu na frente em outra competição que, embora  menos badalada, deixará um legado até mais importante: a disputa para atrair superlaboratórios, centros de pesquisa e desenvolvimento (P&D) que já mobilizam  os sistemas educacional e de ciência e tecnologia do País.

Petrobrás/Divulgação
Petrobrás/Divulgação – Ilha do Fundão. Área dos novos centros de P&D equivale a 8% da superfície do câmpus

Aproximar-se das universidades, formadoras da mão de obra para pesquisa, tem sido o caminho natural para empresas que apostaram no País. Só em 2010 foram anunciados investimentos da ordem de R$ 500 milhões no Parque Tecnológico da UFRJ, no Rio. É lá que Petrobrás e ao menos seis multinacionais estão instalando ou ampliando laboratórios. No Rio e em São Paulo, gigantes como IBM e DuPont já puseram em operação centros de ponta. E a Vale está criando polos tecnológicos em três Estados.

Nesses centros vão trabalhar profissionais que antes tinham como opção fazer ciência fora do País, como Bruno Betoni, de 33 anos, único brasileiro no Centro de Pesquisas Global da General Electric, na Alemanha. “Será uma grande oportunidade em termos acadêmicos e de negócios.”

Para quem pretende trabalhar nos superlaboratórios, Betoni adverte que a pesquisa em empresas tem um ritmo diferente e é preciso se preparar desde o início da formação. “No dia a dia, uso coisas que aprendi na formação básica, que muitos têm por inútil. Meu ferramental vai do primeiro ano da graduação até o fim do doutorado.”

Analistas atribuem a vinda dos superlaboratórios ao cenário de estabilidade do Brasil. Outros atrativos são o início da exploração de petróleo no pré-sal e os sucessivos recordes na formação de pesquisadores.

O número de doutores diplomados cresceu de 554, em 1981, para cerca de 12 mil, no ano passado. “É pouco, mas, se você analisar esse dado em perspectiva, verá o tamanho do avanço”, diz o oficial de Ciência e Tecnologia da Unesco no Brasil, Ary Mergulhão. “É um momento excelente, só que é preciso investir, elevando de 1% para 3% o porcentual do PIB aplicado em P&D.” Para ele, a vinda dos laboratórios mostra que a pesquisa no País atingiu reconhecimento “razoável”. “O problema é que ela não se traduz em patentes. O caminho mais curto para melhorar isso é colocar engenheiros e doutores nas empresas.”

Fonte: Relatório Unesco sobre Ciência 2010

O governo admite que a taxa de inovação nas empresas é “tímida”. “Um número inexpressivo de pesquisadores atua em empresas. Falta cultura de inovação  no ambiente empresarial e há pouca articulação das políticas industrial e de ciência e tecnologia, apesar dos esforços recentes”, diz Ronaldo Mota,  secretário de Desenvolvimento Tecnológico e Inovação do Ministério da Ciência e Tecnologia.

Espaço. O pré-sal pode ajudar a mudar essa realidade, como mostra o câmpus da UFRJ na Ilha do Fundão, polo da corrida  tecnológica para exploração de petróleo em águas ultraprofundas. A procura por espaço foi tão grande nos últimos dois anos que só restam três terrenos  livres. Estima-se que serão gerados no local 4 mil empregos até 2014, quando os novos polos de pesquisa devem estar prontos.

A francesa Schlumberger foi a primeira múlti a inaugurar um centro no Fundão, em novembro. Também anunciaram investimentos lá as americanas FMC Technologies, Baker Hughes e Halliburton. A espanhola Repsol está construindo um laboratório para investigação em petróleo e gás. A GE vai erguer, no parque, seu quinto Centro de Pesquisas Global. Fará pesquisas sobre combustíveis fósseis, mas também energias renováveis, mineração, transporte ferroviário e aviação.

Segundo o diretor executivo do parque, Maurício Guedes, as empresas que querem se instalar no Fundão passam por uma avaliação da universidade. “É fundamental que elas estabeleçam cooperação com grupos de pesquisa da UFRJ”, explica. “Empresas não procuram só engenheiros e doutores, mas também estudantes para ser estagiários em grupos de pesquisa.”

Guedes acredita que a chegada das múltis vai beneficiar também os cursos da área de humanas. “A UFRJ não vai mudar seu perfil, focar mais nas ciências exatas, mas vai se fortalecer como um todo. Cursos como Música e Artes, por exemplo, poderão ser incentivados por meio de patrocínios.”

A Petrobrás é a grande responsável por tanto investimento na UFRJ. Desembolsou R$ 1,2 bilhão para aumentar de 180 mil para 300 mil metros quadrados o tamanho de seu polo tecnológico no Fundão. A nova estrutura do Centro de Pesquisas e Desenvolvimento (Cenpes), inaugurada em outubro, tem cerca de 1.600 profissionais trabalhando na área de P&D e engenharia de projetos inovadores. O número de laboratórios passou de 137 para aproximadamente 200.

O gerente executivo do Cenpes, Carlos Tadeu Fraga, compara o momento atual da exploração petrolífera l com o que ocorreu nos anos 1980. Naquela década, marcada pelas bruscas elevações do preço do petróleo, o Brasil investiu para aumentar sua produção interna. “A maior parte das novas tecnologias, naqueles anos, foi desenvolvida no exterior. A diferença é que agora, com o pré-sal, é possível incentivar fornecedores a fazer isso no Brasil.”

Recrutamento. Uma das empresas que mais investirão no Fundão é a GE. As obras do centro devem acabar até fins de 2012, com  investimento inicial da ordem de US$ 100 milhões.

O laboratório da GE no Rio será o quinto centro de P&D da empresa no mundo

O laboratório deverá empregar 200 pesquisadores e engenheiros. Segundo o presidente da GE no Brasil, João Geraldo Ferreira, a múlti vai começar a contratar em maio e quer encerrar o ano com 70 cientistas em atividade nas estruturas já prontas. Para recrutá-los, planeja atuar em três frentes: atrair doutorandos antes mesmo que terminem os estudos, selecionar pesquisadores em universidades e órgãos públicos e até repatriar brasileiros.

Em abril, a GE abre um ciclo de palestras em 17 universidades. “Queremos nos aproximar das universidades e, a longo prazo, sugerir mudanças no currículo da  graduação para atender a demandas específicas do nosso centro”, diz João Geraldo.

O pré-sal é um dos temas de interesse da IBM, que dividiu seu laboratório entre Rio e São Paulo. A companhia definiu quatro áreas de pesquisa: recursos naturais, dispositivos inteligentes, sistemas humanos (que cuidará, entre outras coisas, de soluções para eventos como Copa e Olimpíada), e sistemas e serviços, cujo objetivo é melhorar a eficiência de todo tipo de serviço, do bancário ao de saúde.

Anunciado em meados do ano passado, o laboratório tem 20 pesquisadores, mas a empresa pretende chegar a 100. Para liderar as áreas, a IBM repatriou brasileiros de seus centros no exterior. É o caso do geólogo Ulisses Mello, de 52, cuja equipe já trabalha, por exemplo, com a prefeitura do Rio para melhorar a precisão geográfica da previsão do tempo. Hoje a resolução é de 18 quilômetros quadrados. A meta é baixar para 2 ou 3 km². Assim,  em vez de dizer genericamente que vai chover na zona sul, será possível especificar o bairro afetado e tomar medidas preventivas. “Talvez no futuro a gente  consiga desenvolver algoritmos usando radar, sensoriamento remoto, para prever com antecedência de 48 horas chuvas ou risco de deslizamento.”

O engenheiro Sergio Borger, de 45, é outro repatriado. Está animado com as possibilidades criadas por eventos como a Copa. “Queremos fazer  experimentos em estádios para ver como fornecer serviços de melhor qualidade.” Um dos focos é segurança. A IBM tem softwares que permitem identificar em  vídeo pessoas específicas no meio da torcida. “Mas não é só isso. O ingresso pode ser a informação biométrica do seu rosto, por exemplo: pessoal e  intransferível.”

Perfil. O matemático Claudio Pinhanez, de 47, que voltou ao Brasil em 2008 para ajudar a montar o centro da IBM, ficou  surpreso com a qualidade dos currículos recebidos, mas defende ajustes nos programas de doutorado. “O importante é trabalhar com universidade e governo para  formar doutores com perfil voltado para a indústria. Tem gente com essa característica que hoje não se sente atraída pelo doutorado, que diz: ‘Não quero dar  aula.’”

As parcerias com universidades pesaram na opção da americana DuPont por Paulínia (SP) como sede do seu Centro de Tecnologia e Inovação, inaugurado em 2009 – USP, Unicamp e Unesp estão num raio de 180 km do laboratório. Vinte pesquisadores trabalham no CTI. Eles buscam promover inovação e gerar patentes nas áreas de polímeros, blindagens e biotecnologia.

Natália Barros, de 26 anos, começou na empresa como estagiária, durante a graduação em Engenharia Química nas Faculdades Oswaldo Cruz. Foi estimulada  pela DuPont a entrar no mestrado – já iniciado, na Unicamp. “O tema da dissertação é ligado ao que faço aqui. Assim, agrego valor ao mestrado e contribuo com  a pesquisa da empresa”, afirma Natália, que desenvolve embalagens para alimentos. “O sonho de todo pesquisador é que sua ideia seja comprada por uma empresa  e aplicada.”

Natália Barros, mestranda e engenheira da DuPont

Aos 22 anos, o engenheiro químico Luiz Biazzi, recém-formado pela USP, já conseguiu realizar esse sonho. Está empolgado por ter seu nome no depósito da primeira patente desenvolvida integralmente no CTI – uma descoberta para o mercado sucroalcooleiro. “O trabalho na ciência é muito difícil. Há muita incerteza, pois você não sabe se vai der certo sua pesquisa”, diz.

Luiz Biazi, engenheiro da DuPont: ‘Quando os papéis da demanda de patente chegaram para eu assinar, fiquei muito orgulhoso’

Segunda maior empresa do Brasil, a Vale está criando centros de P&D para pensar como será a “mineração do futuro”. Vai instalar  laboratórios em Ouro Preto (MG), Belém (PA) e São José dos Campos (SP), cada um focado em uma área: mineração, desenvolvimento sustentável e energia,  respectivamente. Quer mudar o perfil de sua pesquisa, concentrada em atender a demandas imediatas das minas, como analisar o perfil do solo de um depósito de  minérios.

MIT. Quem está por trás da iniciativa é o ex-pró-reitor de Graduação da Unifesp, Luiz Eugênio Araújo de Moraes Mello, chamado em  2009 para dirigir o Instituto Tecnológico Vale. Para administrar as unidades, escolheu profissionais com doutorado no exterior. “A pesquisa a longo prazo  envolve risco muito maior e não é possível ser feita nas estruturas atuais da Vale”, diz Mello, que pretende montar cursos de pós nos novos centros, para qualificar a mão de obra da própria empresa. Enquanto não vem a aprovação da Capes, faz convênios com universidades do Brasil e do exterior, como o  Massachusetts Institute of Technology (MIT). “Sou ambicioso.”

Noutra frente, a Vale tem feito parcerias com as Fundações de Amparo à Pesquisa de São Paulo, Minas e Pará para apoiar projetos com bolsas. Um dos beneficiados é o aluno do doutorado em Engenharia Elétrica na Federal do Pará Marcos Seruffo, de 27, que investiga diferentes formas de comunicação de dados em ambientes industriais – ou seja, vai aplicar o que desenvolveu em laboratório no mundo real das minas de bauxita.

“Os resultados que obtenho são da Vale, pois ela é a fonte financiadora. Só podem ser utilizados com finalidade científica”, diz Marcos, que pretende perpetuar a parceria. “Ainda não sei o que vai acontecer depois do doutorado. Mas sei que farei parte de um pequeno contingente da população bastante assediado, tanto pela academia quanto pelas indústrias.”