FMI aprova corte de juros no Brasil

Fundo leva a sério elevação da meta primária, mas refaz contas e prevê que PIB do País crescerá 3,8% ante previsão anterior de 4,1%
21 de setembro de 2011

ROLF KUNTZ, ENVIADO ESPECIAL/WASHINGTON – O Estado de S.Paulo

O governo brasileiro ganhou um importante aliado, o Fundo Monetário Internacional (FMI), na defesa do corte de juros. A inflação estará no centro da meta, 4,5%, no fim do próximo ano, segundo a nova projeção do FMI, incluída no Panorama Econômico Mundial divulgado ontem.

O governo começou a apertar a politica fiscal e isso ajudará o Banco Central (BC) a conter a alta de preços, segundo a economista Petya Brooks, da equipe de pesquisa econômica da instituição, chefiada por Olivier Blanchard. Foi uma rara demonstração de otimismo, numa exposição sobre um cenário mundial de baixo crescimento, de orçamentos em desordem no mundo rico e de rebaixamento dos títulos públicos de grandes economias, como EUA e Itália.

A inflação brasileira deve chegar a 6,3% em dezembro de 2011, pouco abaixo da média prevista para o ano, 6,6%. A média projetada para 2012 é 5,2% e as pressões continuarão cedendo até o fim do ano. O PIB deve aumentar 3,8% neste ano e 3,6% no seguinte, Na projeção anterior, divulgada em junho, o crescimento previsto para 2011 era 4,1%.

É preciso esperar para ver como o esfriamento da economia mundial afetará a demanda interna e as pressões inflacionárias no Brasil, disse Petya Brooks durante a entrevista de apresentação do Panorama. O BC, lembrou a economista, deu ênfase a esse fator para justificar sua decisão: “Mas ao mesmo tempo houve um aperto na política fiscal. Isso deverá contribuir para aliviar as pressões inflacionárias e nos dá alguma garantia.”

A ênfase maior no ajuste fiscal foi indicada pela decisão do governo de elevar o superávit primário neste ano, explicou a economista ao Estado logo depois da coletiva. Ela manteve a avaliação mesmo quando lhe foi lembrado um par de detalhes: a receita fiscal está crescendo muito neste ano – cerca de 14% até agosto, descontada a inflação – e metade dos R$ 10 bilhões acrescentados ao resultado primário foi proporcionada por um grande pagamento de tributo da Vale.

A mesma questão foi examinada com um misto de entusiasmo e cautela pelo economista Philip Gerson, assessor do Departamento de Assuntos Fiscais. A mudança da política fiscal nos emergentes é “boa demais para acreditar”, segundo ele. Algo divertido está ocorrendo nas contas públicas e as pessoas não estão percebendo, acrescentou. No caso do Brasil, é bem-vindo o aperto anunciado para este ano.

Mas ele fez duas advertências: 1) a meta de superávit primário de cerca de 3% em 2012 é adequada, mas será importante as autoridades indicarem como chegarão lá, 2) o Brasil ainda terá de cuidar de outros desafios fiscais, como a rigidez do gasto, a estrutura tributária, a vinculação de verbas e -como no caso de outros emergentes e de muitas economias avançadas- os problemas derivados do envelhecimento da população e ao crescimento dos gastos com saúde.

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