A intimidade de Shakespeare


Livro mostra como o bardo inglês se inspirava no cotidiano para escrever suas peças clássicas

05 de dezembro de 2011

UBIRATAN BRASIL – O Estado de S.Paulo

A notável obra de William Shakespeare (1564-1616) tornou-se imortal graças à ação de dois amigos, John Heminges e Henry Condell, que, sete anos após a morte do dramaturgo, cuidadosamente reuniram em livro a maior parte de sua escrita. Salvaram-se, assim, obras-primas como Hamlet, Macbeth e Rei Lear. O que eles não pensaram na época foi guardar registros do cotidiano do bardo inglês, ou seja, documentos sobre os caminhos que relacionam a vida que ele desfrutou com a literatura criada por ele.

Foi esse o ponto de partida para o pesquisador americano Stephen Greenblatt escrever Como Shakespeare se Tornou Shakespeare, que a Companhia das Letras lança nesta semana. Considerado pai da corrente teórica do novo historicismo, Greenblatt traça relações originais, como o catolicismo da família do bardo e o fantasma de Hamlet, para tentar preencher lacunas sobre a biografia shakespeariana. Sobre isso, o acadêmico conversou com o Estado por telefone, desde Boston.

Qual é a maior virtude de Shakespeare que permitiu sua obra perpetuar ao longo dos séculos?

Uma boa questão. Não tenho uma única resposta para definir um artista tão sublime. Para começar, ele avançou a fronteira linguística, pois não é apenas em inglês que sua obra se sobressai. Pode-se dizer que ele criou grandes histórias, o que também seria uma explicação. Ou ainda que sua escrita não se prendeu ao subjugo dos reinados que se formavam, pois Shakespeare foi como Homero, um artista que privilegiou o homem e não o poder. Mas, sua vida ainda está envolvida em muito mistério, o que dificulta uma resposta precisa. O certo é que Shakespeare teve a capacidade para, ao entrar na alma de seus personagens, descrever com argúcia as pessoas que o rodeavam – na verdade, ele enfrentou um desafio que continua atual, ou seja, o de atingir tanto o espectador com gosto refinado como aquele pouco interessado em arte e deixar ambos maravilhados.

Além disso, Shakespeare era também um grande poeta, não?

Em sua época, ele era famoso por sua poesia. Há muitas referências sobre seu trabalho nesse tempo, estudos que reforçam justamente tal qualidade. Ele teve uma vida maravilhosa como poeta, e isso se refletia obviamente em suas peças: Shakespeare era muito sensível aos valores poéticos do texto e, a cada nova montagem, ele pensava cuidadosamente o que era preciso mudar, fazendo inúmeras alterações.

O que mais o surpreendeu na pesquisa sobre Shakespeare?

O desafio em meu livro é tentar mostrar como Shakespeare, a partir da análise de sua obra, parecia ser um homem criativo e generoso, alguém consciente do mundo que o cercava e das delicadas relações envolvendo mulheres, homossexuais, judeus, mas que, por outro lado, na vida real, era alguém prudente, cauteloso, que se aposentou cedo, ou seja, com preocupações típicas de um representante da atual classe média.

É possível dizer, a partir de suas peças, que Shakespeare tinha uma natureza bissexual?

Bem, é difícil ler sua obra sem suspeitar de estar diante de um homem que não apresentava um limite definido entre o que hoje definimos como homo e heterossexual. Afinal, Shakespeare escreveu uma das mais notáveis poesias amorosas do idioma inglês para um jovem. Também em algumas de suas peças há a descrição do amor de um homem pelo outro (geralmente, por alguma razão, o personagem é chamado de Antônio – confira, por exemplo, em Noite de Reis e O Mercador de Veneza). Procurei tratar com cuidado desse assunto. Não sou Joyce, Anthony Burgess ou qualquer outro romancista que poderia maquiar algum fato e torná-lo ficção. Apenas relato histórias. Por outro lado, como na época não havia a divisão ontológica entre homossexuais e heterossexuais, acredito que ele não se preocupava com essa distinção. Afinal, apesar de a sodomia ser considerada, na época, uma ofensa criminal punível até com a morte, não há registros de condenações desse tipo.

Sua curiosidade sobre Shakespeare já está saciada ou pretende escrever mais sobre ele?

Sim, continuo com minha pesquisa. Agora mesmo, trabalho em um livro sobre a qualidade de Shakespeare em contar uma história e de como seus personagens acreditavam desfrutar de uma vida digna de ser relatada e como isso nos parece familiar. Meu interesse atual está na relação entre literatura e história, o processo pelo qual certas obras de arte são notáveis por parecerem escritas diretamente para nós mesmo que seus autores já não estejam mais vivos há muito tempo.

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