Com “Hugo”, Scorsese faz filme para crianças e adultos

Asa Butterfield faz o personagem-título de “A Invenção de Hugo Cabret”, filme que homenageia origens do cinema
Por Sérgio Rizzo | Para o Valor, de São Paulo
Recém-formado em cinema pela New York University, Martin Scorsese tinha 25 anos quando seu primeiro longa-metragem, “Quem Bate à Minha Porta?” (1967), foi exibido em pré-estreia na Film Society do Lincoln Center, em Nova York. Seus pais, orgulhosos, estavam lá, mas sua mãe fazia questão de dizer aos amigos do filho: “Nós não falamos assim lá em casa”.
“Assim” era o linguajar chulo do Little Italy recriado no filme por Scorsese. Rindo muito, o cineasta contou essa história na mesma Film Society, no último final de dezembro, em um bate-papo com a plateia em seguida a uma exibição comemorativa de “Caminhos Perigosos” (1973) – mais uma crua representação do bairro onde vivia a família Scorsese.
Desta vez, no entanto, Dona Catherine – morta em 1997 – teria uma alternativa mais comportada para prestigiar o trabalho do filho: atravessar a Broadway e entrar no multiplex que, a dois quarteirões do Lincoln Center, exibia “A Invenção de Hugo Cabret”, o primeiro filme para crianças (e também o primeiro em 3D) de Scorsese, que estreia nesta sexta-feira no Brasil.
Alavancado por 11 indicações ao Oscar, incluindo as de melhor filme e direção, “Hugo” é, como Dona Catherine gostaria de ver, um filme para a família. Adultos e crianças vão encontrar diversos motivos para apreciar com prazer essa adaptação do romance infanto-juvenil do norte-americano Brian Selznick, que combina fatos e personagens verídicos com uma dose romântica de imaginação.
No início dos anos 1930, um menino órfão que vive escondido em uma estação ferroviária de Paris (Asa Butterfield) conhece um velhinho ranzinza que mantém ali uma loja de brinquedos (Ben Kingsley). Ocorre que o velhinho é o ex-mágico e ex-cineasta Georges Méliès, vivendo no ostracismo depois da glória como um dos principais responsáveis pela chegada da fantasia aos filmes, como no célebre “Viagem à Lua” (1902).
Entre os demais personagens que circulam pela estação, destaque para um inspetor sempre acompanhado de seu cão de guarda (Sacha Baron Cohen, de “Borat”) e para uma menina adotada por Méliès (Chloë Grace Moretz). Scorsese conduz a história com humor e leveza, convidando as crianças a se identificar com o menino e os adultos a se comover com a história de Méliès – que é, no fundo, a da própria origem do cinema.
Em reportagem de capa da revista “Fast Company” que adota Scorsese como um exemplo de “vida criativa”, o desenhista de produção Dante Ferretti lembra que, na preparação do filme, Scorsese lhe mostrou “muitos, muitos filmes”. “Olhe essa imagem, é o sentimento que eu quero”, dizia o diretor. Como “Hugo” reforça, o filho de Dona Catherine guarda muito mais na cabeça do que apenas os palavrões e a violência da antiga Little Italy.
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