31/08/2012 - 10:52h Aviso aos navegantes

@Blogdofavre (https://twitter.com/Blogdofavre) é meu microblog no twitter. Ele nasceu como extensão deste Blog e foi ocupando pouco a pouco quase todas as suas funções.

@Blogdofavre no twitter conta com quase 10 mil “seguidores”, muitos dos quais repercutem e comentam, tudo no espaço dos 140 toques, que é o limite do microblog.

O twitter se amolda melhor a mobilidade e ao ritmo de nossa vida, particularmente das diversas atividades profissionais das pessoas. É rápido e fácil de consultar nos celulares.

Por outra parte, minhas ocupações profissionais tem se multiplicado, tanto nas diversas campanhas eleitorais, como nas consultorias que realizo. O tempo é cada vez menor e tem sido escasso para escrever no blog.

Por isso, a partir de hoje, este blog transfere toda sua vocação de espaço de informação, compartilhamento de leituras, vídeos, literatura etc. para o twitter @blogdofavre.

Aqui ficará reservado para eventuais artigos ou comentários que não tenham outro espaço para serem expostos, sem regularidade e ao sabor do acaso.

Luis Favre

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30/08/2012 - 22:00h Boa noite


Ivo Pogorelich – Chopin – Piano Sonata No. 2 in B-flat minor, Op. 35

30/08/2012 - 19:02h Vivaldi


Vivaldi – Bajazet – Elina Garanča

Atto III, scena 4 – Andronico “Spesso tra vaghe rose”, Elina Garanča, Europa Galante, Fabio Biondi

30/08/2012 - 11:01h Em Angola, marqueteiro do PT busca reeleição de líder há 33 anos no poder


Publicitário João Santana produz campanha eleitoral do presidente José Eduardo dos Santos, do MPLA; eleições estão marcadas para esta sexta-feira.

30 de agosto de 2012

BBC Brasil – Agência Estado

Numa movimentada avenida de Luanda, capital de Angola, um brasileiro segura o trânsito para que um trio elétrico ilustrado com fotos do presidente angolano, José Eduardo dos Santos, possa manobrar. A poucos metros dali, outro brasileiro, braços tatuados e barba por fazer, dá instruções a três jovens angolanos que tocam violão sentados numa praça: “Atenção, pessoal, já vamos começar a gravar!”

Outros três brasileiros acionam as câmeras no instante em que o trio elétrico passa por baixo de um outdoor de Dos Santos, no poder desde 1979 e que nesta sexta-feira concorrerá às eleições para um novo mandato de cinco anos. Enquanto os jovens cantam uma música que venera o líder, ao fundo quatro retratos do presidente compõem o cenário.

Os responsáveis pela gravação, presenciada pela BBC Brasil na última segunda-feira, integram a numerosa equipe que o publicitário João Santana montou para produzir a campanha eleitoral do MPLA (Movimento Popular para a Libertação de Angola), partido que governa o país rico em petróleo no sudoeste africano desde sua independência, em 1975.

Principal marqueteiro do PT – comandou as últimas campanhas de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff à Presidência, além de assessorá-los em seus governos -, Santana tem internacionalizado sua atuação nos últimos anos. Ele está à frente da campanha para a reeleição do presidente Hugo Chávez na Venezuela e atuou nas últimas disputas presidenciais em El Salvador e na República Dominicana – venceu ambas.

No Brasil, atualmente chefia outras duas campanhas: as dos petistas Fernando Haddad e Patrus Ananias às prefeituras de São Paulo e Belo Horizonte, respectivamente.

Em Angola, o marqueteiro participa da terceira eleição da história do país. A disputa será entre nove partidos, que montaram listas fechadas de candidatos. O primeiro da lista do partido mais votado se tornará presidente, e a proporção dos votos determinará a composição da Assembleia Nacional.

Cabeça de lista do MPLA, Dos Santos terá a chance de ser eleito pela primeira vez, já que no único pleito presidencial prévio, em 1992, a disputa foi suspensa antes da conclusão. Ele disputaria o segundo turno com o então líder da Unita (União Nacional para a Independência Total de Angola), Jonas Savimbi. No entanto, a retomada da guerra civil às vésperas da votação suspendeu o processo e arrastou o conflito até 2002, quando Savimbi morreu e as duas siglas assinaram a paz.

Longa preparação

Embora a propaganda política obrigatória nas rádios e TVs só tenha começado em 31 de julho, boa parte da equipe brasileira está em Angola desde fevereiro. Nos últimos meses, com a chegada de reforços para a reta final da campanha, o grupo passou a somar em torno de 120 pessoas (dos quais cerca de 75 brasileiros), segundo estimativa de integrantes angolanos.

Como na equipe que filmava o trio elétrico em Luanda, os brasileiros executam todas as funções que exigem maior perícia técnica: comandam as câmeras, conduzem os cinegrafistas sobre trilhos, editam e finalizam os vídeos, dirigem os atores angolanos e redigem os textos lidos por eles. Mas não aparecem em momento algum nos programas.

A orientação é camuflar ao máximo a presença brasileira – caso exposta, ela poderia alimentar críticas de que o governo privilegia trabalhadores estrangeiros, tema bastante sensível no país. Todas as várias tentativas da BBC Brasil de contatar a chefia da campanha foram rechaçadas.

Pessoas próximas à cúpula do MPLA calculam que a propaganda custou cerca de US$ 75 milhões, valor elevado inclusive para uma disputa presidencial no Brasil, país de dimensões continentais e com população dez vezes maior que a angolana (o PT declarou ter gasto a mesma quantia na campanha de Dilma em 2010).

O preço estimado da campanha em Angola soa ainda mais alto se considerado que o programa do MPLA ocupa somente cinco minutos na TV e dez minutos no rádio por dia – os outros oito partidos concorrentes têm direito a tempo igual.

Ainda assim, a legislação angolana não impõe limites aos gastos dos partidos e os exime de revelar a quantia arrecadada e seus doadores. Somente repasses de órgãos públicos, governos e ONGs estrangeiras são vedados.

Hospedagem

Durante os quase seis meses de produção, os brasileiros chefiados por Santana se hospedaram em dois dos hotéis mais caros de Luanda – o cinco estrelas HCTA (diária de US$ 575 para quartos individuais) e o Alvalade (US$ 407).

Nas viagens pelo interior do país, a equipe usou aviões. Vinhetas, jingles, cenas de obras e retratos de angolanos ocupam a maior parte dos programas, que contam ainda com fotografias tiradas pelo premiado fotógrafo Juca Varella, ex-editor de “O Estado de São Paulo”.

Apesar da tentativa de camuflar a presença brasileira, a campanha reciclou alguns programas do PT. No plano de governo do MPLA, o projeto de estímulo ao empreendedorismo foi batizado de “Meu Negócio, Minha Vida” – referência ao “Minha Casa, Minha Vida” dos governos Lula e Dilma.

Há ainda menção a um programa nos moldes do Bolsa Família, que prevê pagamentos a famílias pobres desde que elas cumpram contrapartidas.

A opulência da campanha do MPLA contrasta com a fraca publicidade dos outros partidos, que contaram cada um com financiamento público de US$ 700 mil para as eleições. Em programas televisivos simples, seus candidatos fazem promessas e atacam o longo mandato do presidente angolano. Na África, esse mandato só é menor do que o do líder da Guiné Equatorial, Teodoro Obiang Nguema, que chegou ao poder um mês antes que o angolano.

Os oposicionistas também afirmam que os órgãos de comunicação estatais angolanos – que no país têm peso muito maior que os meios privados – desequilibram a campanha ao apoiar abertamente o MPLA. Único diário de alcance nacional, o “Jornal de Angola” estampou na terça-feira grande foto do candidato do MPLA com a seguinte legenda: “no coração do povo já é presidente”.

A diferença na exposição dos vários candidatos também é gritante nas ruas de Luanda. Pôsteres, bandeiras do MPLA e outdoors de Dos Santos (com o slogan “Angola a crescer mais e distribuir melhor”, cunhado por Santana) espalham-se por toda a cidade e quase escondem a publicidade das demais siglas.

No centro da capital, os sinais da oposição basicamente se resumem a algumas bandeiras da Unita e a cartazes da Casa-CE (Convergência Ampla de Salvação de Angola – Coligação Eleitoral).

Não é a primeira vez que brasileiros comandam a campanha do MPLA. Nas eleições de 1992, o jornalista Ricardo Noblat chefiou a propaganda do partido, a cargo da agência baiana Propeg. Em 2008, a tarefa coube ao jornalista da TV Globo Carlos Monforte, também à frente de uma equipe da Propeg.

Pessoas próximas à cúpula do MPLA atribuem a contratação de Santana a uma indicação do ex-presidente Lula, que esteve em Angola em julho de 2011. Na ocasião, ele foi recebido pelo presidente angolano e visitou obras de empreiteiras brasileiras.

30/08/2012 - 10:36h Governo quer operadora estrangeira com Infraero

Por Cristiano Romero | Valor

De Brasília

O governo quer convencer uma grande operadora internacional de aeroporto a ser sócia minoritária da estatal Infraero para gerir terminais como os do Galeão, no Rio, e de Confins, em Belo Horizonte. Em missão liderada pela ministra-chefe da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, um grupo de autoridades embarcou ontem à tarde para a Europa, onde manterá conversas com operadores como a alemã Fraport, a espanhola BAA, a francesa ADP e a holandesa Schipol.

O plano do governo é criar uma subsidiária da Infraero – a Infrapar -, para ser sócia majoritária em associações com operadoras estrangeiras. A Infrapar teria até 60% do capital dos aeroportos e o sócio estrangeiro, o restante.

A gestão dos aeroportos seria estatal, mas, a exemplo do que fez com a Petrobras, o governo daria à Infrapar a possibilidade legal de ter maior flexibilidade nas licitações. A ideia é liberar a nova estatal de obrigações burocráticas previstas na Lei 8.666.

O governo decidiu consultar as operadoras internacionais porque não tem certeza da viabilidade do modelo idealizado. A princípio, essas empresas não têm interesse em ser sócias minoritárias de uma estatal brasileira que não conhecem. Os críticos da proposta, dentro do próprio governo, alegam que as operadoras dificilmente serão atraídas para um negócio no qual não vão mandar e entrarão apenas com o know-how.

A ideia de associação com operadoras estrangeiras é uma opção ao modelo de concessão ao setor privado adotado nos leilões dos terminais de Brasília, Campinas (SP), Guarulhos (SP) e São Gonçalo do Amarante (RN). Se as empresas consultadas rejeitarem a proposta, o governo estudará opções, como a adoção de parceiras público-privadas. Neste momento, o modelo de concessão está descartado.

30/08/2012 - 10:26h Medidas somam estímulos ao consumo e ao investimento

O BNDES passará a cobrar juros reais negativos no Programa de Sustentação do Investimento (PSI)

Por Edna Simão e Thiago Resende | VALOR

De Brasília

No âmbito de uma nova rodada de medidas de estímulo ao investimento e ao consumo, anunciada ontem pelo governo, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) passará a cobrar juros reais negativos no Programa de Sustentação do Investimento (PSI), voltado para aquisição de bens de capital. A taxa de juros fixa para compra de máquinas e equipamentos caiu de 5,5% para 2,5% ao ano, anunciou o ministro da Fazenda, Guido Mantega. Essa taxa especial, contudo, vale apenas até dezembro.

“Levando em consideração uma inflação de 4,5%, temos um juro real negativo. Estamos estimulando a compra de máquinas e equipamentos”, disse ele, salientando a singularidade da decisão. A indústria de bens de capital foi beneficiada também pela prorrogação da redução a zero do IPI até dezembro de 2013.

Mesmo com o diagnóstico de que a economia brasileira dá sinais de recuperação – que foi reforçado pelo comunicado do Comitê de Política Monetária (Copom) após cortar a Selic em mais 0,5 ponto percentual, para 7,5% ao ano – Mantega decidiu atender à demanda da indústria e prorrogar a redução de IPI para vários setores, o que significará uma renúncia fiscal de R$ 5,5 bilhões entre setembro deste ano e dezembro de 2013. “A economia brasileira está numa gradual recuperação, porém, é preciso continuar dando estímulo para o investimento e o consumo”, disse o ministro, ao anunciar as medidas.

No caso dos financiamentos do PSI, a vigência das condições especiais terminariam amanhã e foram prorrogadas até dezembro. Isso foi necessário porque de uma autorização de crédito de R$ 230 bilhões, o BNDES ainda tem R$ 78 bilhões para emprestar, sinal de que a demanda dos empresários por máquinas estava baixa.

Além dos juros para máquinas e equipamentos, ainda no PSI, o governo baixou a taxa de juros de financiamento de caminhões e do programa Procaminhoneiro, todas agora fixadas em 2,5% ao ano. “Acho que é a menor taxa que já existiu para um financiamento desta natureza”, ressaltou o ministro. O prazo de pagamento é de 120 meses, com um ano de carência. Para as demais linhas do PSI, não houve mudanças nas taxas. Foi criada, também, uma linha especial para financiamento de bens de capital usados para indústrias variadas como aeronaves comerciais, tratores, carretas, ferramentas usadas. Essa modalidade de crédito é corrigida pela Taxa de Juro de Longo Prazo (TJLP), que atualmente é de 5,5% ao ano, mais 1% e o risco da empresa.

As empresas com dificuldades de pagamento também foram contempladas. O governo anunciou a criação de uma linha de refinanciamento de bens de capital. Para a compra de caminhões e vagões, decidiu baixar de 48 para 12 meses a depreciação acelerada. Ou seja, desta forma, as empresas vão conseguir abater mais investimento no lucro, o que vai implicar menor pagamento de Imposto de Renda e Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) no próximo ano. Com essa medida, o governo estima abdicar de R$ 586 milhões em receitas no próximo ano.

Para estimular o consumo dos brasileiros, o governo prorrogou a queda do IPI para o setor automotivo por mais dois meses, além de manter o incentivo para a linha branca (fogões e geladeiras), móveis, materiais de construção e bens de capital. Assim, a compra de carros novos continua com benefício fiscal até outubro.

Para a linha branca a redução do IPI, que terminaria amanhã, foi estendida até o fim do ano, aumentando a renúncia fiscal em R$ 361 milhões. O ministro da Fazenda também anunciou a prorrogação do IPI reduzido para móveis, painéis, laminados e luminárias até o fim do ano, embora o prazo para este setor fosse final de setembro. Nesse caso, o impacto na arrecadação será de R$ 393 milhões.

No conjunto, o pacote representa um custo adicional aos cofres públicos de R$ 1,6 bilhão este ano e de R$ 3,9 bilhões em 2013.

As medidas anunciadas ontem dão a dimensão da preocupação do governo de Dilma Rousseff com a baixa performance dos investimentos em ampliação da oferta de bens e serviços no país e procuram, por outro lado, dar sustentação ao consumo como instrumento de estímulo ao investimento.

A avaliação do governo é de que, em um cenário de crise internacional que ainda deve perdurar, os investimentos são os que mais demoram a reagir e por isso precisariam de novos estímulos. Em setembro, as empresas começam a seus planejamentos para o ano seguinte e esse elenco de benefícios pode influir favoravelmente nessas decisões. O ministro explicou que a prorrogação da redução do IPI para os automóveis por um prazo de apenas dois meses decorreu do fato de que a reação do consumidor e da indústria foi mais rápida do que em outros segmentos. De fato, desde que foi concedida a redução das alíquotas do tributo, as montadoras reduziram seus estoques para níveis normais.

Taxa de juros cobrada para máquinas e caminhões passa a ser inferior à inflação

Por Chico Santos | VALOR

Do Rio

Os compradores de máquinas, equipamentos e caminhões serão os primeiros a tomar financiamento com juros negativos, fixados ontem em 2,5%, para as linhas do Finame do BNDES (empréstimos indiretos, via agentes financeiros) dentro do Programa de Sustentação do Investimento (PSI). Hoje, apenas os projetos de inovação já recebem juros de 4% ao ano, abaixo da inflação medida e da projetada para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em 12 meses. Em maio deste ano, quando as taxas do PSI foram reduzidas da casa dos 7% para 5,5%, a inflação acumulada em 12 meses, medida pelo IPCA, estava em 4,99%.

No programa, o Tesouro Nacional cobre a diferença entre os juros subsidiados e a Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP, hoje em 5,5%), a remuneração mínima do BNDES, além de cobrir os demais custos adicionais da operação, como as taxas de risco e a remuneração dos agentes repassadores dos recursos do banco. O programa foi criado pelo governo em 2009, com o objetivo de evitar a queda dos investimentos com a crise econômica desencadeada pelo estouro da bolha do mercado imobiliário americano em setembro de 2008.

O PSI deveria vigorar até o dia 31 de dezembro deste ano, mas em abril o governo anunciou a prorrogação até dezembro de 2013 e reduziu as taxas de juros. Para máquinas e equipamentos, elas passaram de 8,7% para 7,3%, sendo 5,5% para as micro, pequenas e médias empresas. Para caminhões e ônibus, a taxa caiu de 10% para 7,7%, com o prazo de amortização sendo ampliado de 96 para 120 meses.

Nos caminhões, a taxa do BNDES Procaminhoneiro, que financia a compra para autônomos, já era de 5,5% e permaneceu no mesmo patamar. Foi também criada uma taxa de 5% para o PSI destinado a projetos transformadores que possam criar capacidade tecnológica em setores com alto conhecimento em engenharia.

As menores taxas hoje cobradas nos empréstimos do BNDES são para inovação. Todas as linhas com esse objetivo já eram negativas, com juros de 4%, também subsidiadas, ou equalizadas, na linguagem oficial, pelo Tesouro Nacional. A diferença é que os montantes envolvidos tendem a ser bem menores do que aqueles destinados à compra de máquinas, equipamentos e caminhões. Os ônibus ficaram fora da redução de taxas anunciadas ontem pelo governo.

Até agora as linhas do PSI aprovaram financiamentos de R$ 149 bilhões. Se o governo mantiver o limite de R$ 227 milhões previsto em 2009, restam R$ 78 bilhões para serem emprestados nas condições previstas pelo programa.

Setores elogiam extensão dos benefícios e pedem mais

VALOR

De São Paulo

Desde a semana passada, os setores beneficiados pelas medidas de redução de impostos – fabricantes de automóveis, linha branca, móveis e materiais de construção – passaram pelo Ministério da Fazenda levando dados que mostravam ao governo o aumento das vendas e do emprego em seus setores. Ontem, os setores festejaram a extensão do prazo dos benefícios.

Na reunião de ontem com o ministro da Fazenda, Guido Mantega, a direção da Anfavea – a entidade que abriga as montadoras instaladas no país – mostrou que a média de emplacamentos de carros no país, que vinha em maio a um ritmo de 13,2 mil unidades, subiu para 16,6 mil automóveis e comerciais leves no período de junho a agosto. Também foi citada no encontro a geração de 2,7 mil empregos nos últimos dois meses – ou 3,1 mil vagas ao longo do ano -, apesar de ajustes feitos por montadoras como a General Motors e a Mercedes -Benz com a suspensão temporária dos contratos de trabalho de mais de 2,4 mil operários – dado que não entrou na conta.

Além disso, as montadoras tentaram atenuar as preocupações com o impacto do pacote de incentivos nas contas públicas, mostrando que a redução de R$ 20,7 milhões na receita diária do governo com o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) foi compensada por ganhos com outros impostos em virtude do aumento nas vendas. Somando a alta na arrecadação com PIS/Cofins, ICMS e IPVA, os estímulos acabaram gerando uma arrecadação diária adicional da ordem de R$ 1,7 milhão, segundo os dados da Anfavea.

Após o encontro, Mantega anunciou a prorrogação até 31 de outubro do IPI reduzido nas vendas de carros. A manutenção do estímulo foi acompanhada por um expressivo corte (de 5,5% para 2,5% ao ano) nos juros dos financiamentos de caminhões no Programa de Sustentação do Investimento (PSI). No ano, a queda na venda de caminhões é de 17%.

A prorrogação do IPI reduzido para a linha branca até 31 de dezembro deste ano garantiu a manutenção do emprego no setor e perspectivas otimistas quanto às vendas no varejo, segundo Lourival Kiçula, presidente da Eletros, entidade que reúne os fabricantes de produtos eletroeletrônicos. Segundo ele, o crescimento de 19,3% nas vendas para o varejo de refrigeradores, lavadoras automáticas e fogões registrada no primeiro semestre deste ano, ante igual período de 2011, seria praticamente zero, sem o IPI reduzido.

“Não fosse essa prorrogação, teríamos um impacto imediato com o aumento de 4% no preço dos fogões e de 10% entre lavadoras e refrigeradores, além da diminuição da força de trabalho que seria necessária. O varejo compraria menos e a freada seria brusca, com o crescimento das vendas para o varejo ficando próximo de zero em 2012″, estima Kiçula.

Segundo apurou o Valor, a Eletros, encaminhou para o Ministério da Fazenda o pedido de redução permanente do IPI para 4%, alíquota que seria estendida a todas as categorias de linha branca. Como contrapartida, a indústria ofereceu aumento da eficiência energética dos produtos.

O presidente da Abimaq (entidade que representa o setor de bens de capital), Luiz Aubert Neto, elogiou a medida do governo de reduzir a taxa de juros de financiamento para máquinas de 5,5% para 2,5%. Contatado logo após o anúncio feito pela Ministro da Fazenda, Aubert admitiu que ainda não sabia da medida: “Fui pego de surpresa, de imediato a gente não esperava [uma redução tão forte].” A queda, de três pontos percentuais, representa na prática juros reais negativos.

(Eduardo Laguna, Daniele Madureira, Ana Fernandes e Carlos Giffoni)

30/08/2012 - 10:16h ‘Eles devem fazer mais um corte de 0,25 ponto, e depois parar’


Economista vê taxa Selic se estabilizando em 7,25% por período longo, com a inflação chegando a 5,5% em 2013

30 de agosto de 2012

FERNANDO DANTAS / RIO – O Estado de S.Paulo

Para Monica de Bolle, o Comitê de Política Monetária (Copom) apontou claramente no seu comunicado que deve fazer mais um corte de 0,25 ponto porcentual na Selic, na próxima reunião, e parar em 7,25%. Monica acha que este nível pode ser mantido durante todo o próximo ano. A seguir, os principais trechos da entrevista.

O que a sra. achou da decisão?

Ela já estava dada. O importante dessa reunião era o tipo de mudança de linguagem que o BC poderia fazer no comunicado, e o que isso significaria.

E qual a sua interpretação do comunicado?

Eu interpreto a mudança no comunicado como um sinal de que eles vão fazer mais um corte de 0,25 ponto porcentual e depois vão parar. O Copom diz que, se o cenário prospectivo permitir, pode haver um ajuste adicional com a máxima parcimônia. “Máxima parcimônia” para mim é 0,25 ponto porcentual, já que o mercado vem interpretando cortes de 0,5 ponto como parcimônia. O BC acabou deixando a porta menos aberta do que eu imaginava.

Como assim?

Achei que eles pudessem fazer como têm feito sempre, se reservando o máximo possível de opções. Eles não fizeram, e indicaram claramente ao mercado que estão indo para 7,25%.

Qual deve ser a reação do mercado à decisão e ao comunicado?

O mercado deve interpretar agora que baixar a Selic até 7% ficou fora de cogitação. Mas alguns ainda devem ficar na dúvida se ele parou no 7,5% ou se vai baixar até 7,25%. Eu, pessoalmente, tentando pensar como os BCs agem nesse tipo de situação, considero que parar em 7,5% para eles seria algo muito abrupto. Só mesmo se de fato eles começarem a enxergar algum tipo de aceleração inflacionária, ou de contaminação inflacionária dos choques. dos último dois meses. Nesse caso, eles poderiam usar isso para parar e dizer que pararam pois acham que já fizeram o suficiente. Mas não há indicação nesse sentido no comunicado. Talvez tenhamos de esperar a ata para ver o que dirão a mais sobre isso.

A sra. diria que o Copom, portanto, deixou a porta ligeiramente entreaberta para parar em 7,5%?

Sim, ele não descartou completamente essa possibilidade.

Qual deve ser a evolução da política monetária a médio e longo prazos?

Acho que eles têm espaço para segurar a Selic no nível ao qual a levarem, seja 7,5% ou 7,25%, por um tempo razoável.

Por quanto tempo?

Acho que até pelo ano que vem inteiro.

Quais as suas projeções para a inflação neste e no próximo ano?

Em 2012, a inflação deve ficar em torno de 5,2%, 5,3%. Pode ser até um pouquinho menor, dependendo de como essas reduções de IPI e a redução tributária da energia que eles estão prestes a fazer influenciarem o IPCA. Em 2012, se houver alguma aceleração inflacionária, acho difícil que vá muito além de 5,5%. E isso provavelmente dará conforto ao BC para manter a Selic inalterada.

30/08/2012 - 09:57h Indústria pede socorro ao Brasil urbano

Luiz Ushirobira/Valor / Luiz Ushirobira/Valor Luiz Ushirobira/Valor – Para a CNI, mobilidade caótica afeta o desenvolvimento do país, ao restringir fluxo de pessoas, bens e ideias e reduzir a produtividade, inovação e qualidade de vida

Por Marli Olmos | VALOR

De São Paulo

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) acaba de concluir um extenso estudo sobre os efeitos provocados pelos problemas de mobilidade na produtividade do país. O setor está preocupado com o tempo que seus funcionários perdem para chegar nas fábricas e escritórios, os atrasos nas entregas nas mercadorias e o prejuízos à atividade intelectual, quase sempre concentrada nos centros urbanos. Trata-se, conclui a entidade, de uma perda na qualidade de vida para os 45% da população que vivem em 10 metrópoles brasileiras.

A direção da CNI acredita ter como fortes aliados dois importantes acontecimentos no país – a criação do PAC da Mobilidade, para o qual o governo federal reservou R$ 7 bilhões, e as eleições municipais. Seus dirigentes imaginam que essas duas forças ajudarão na mobilização que a entidade pretende comandar para suscitar um debate nacional.

O documento, que acaba de ser elaborado com a ajuda de dados da Associação Nacional dos Transporte Públicos (ANTP), arquitetos e urbanistas, será encaminhado à presidente Dilma Rousseff. Posteriormente, a ideia é envolver prefeitos, governadores, candidatos e outros agentes municipais, estaduais e federais no centro do debate público nacional.

O diretor de políticas e estratégia da CNI, José Augusto Coelho Fernandes, lembra que se por um lado as empresas se esmeram em desenvolver modernos sistemas de manufatura enxuta, como o chamado “just in time” (por meio do qual as peças de um determinado item chegam à fábrica no exato instante da sua produção), por outro ficam à mercê do que acontece nas ruas congestionadas, na tentativa de adivinhar o horário que sua mercadoria chegará ao destino final.

“Temos percebido que essa questão está fora dos centros de debates no país”, afirma. “As dificuldades de mobilidade deixaram de ser problemas que envolvem somente São Paulo e Rio de Janeiro. Em cidades como Salvador, Recife e Manaus, que vivem situações do mesmo tipo, ninguém consegue marcar compromissos”, completa.

Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Salvador, Brasília, Belém, Curitiba, Fortaleza, Goiânia, Manaus, Porto Alegre e Recife abrigam 45% da população urbana brasileira. Nas duas maiores, São Paulo e Rio de Janeiro, estão 20% dos que habitam o Brasil.

Segundo o estudo preparado pela CNI, cada morador dessas 12 metrópoles gasta, em média, uma hora e quatro minutos para fazer seus deslocamentos diários. Os problemas de locomoção têm se agravado, no entanto, nos municípios com mais de 500 mil habitantes. O trabalho da entidade que representa a indústria mostra que o tempo médio gasto em mobilidade nas regiões aumentou 20% entre 2003 e 2010, em função, principalmente, da expansão das cidades e do aumento das distâncias.

O documento sugere que ” sob o prisma do desenvolvimento sustentado”, é melhor crescer para dentro da metrópole e não mais expandi-la. “Reciclar o território é mais inteligente do que substituí-lo”, destaca o estudo.

A análise sobre a qual os dirigentes da indústria passam a se concentrar servirá também para reorientar os investimentos do setor no país. “Os dados servirão também como fonte de teoria da qualidade das cidades”, afirma Fernandes. Segundo ele, os atrativos de um município passarão a incluir o grau de desenvolvimento de um sistema de transporte, por exemplo.

Nessa linha, o trabalho que a CNI quer levar aos debates políticos enfatiza a necessidade de privilegiar projetos voltados ao transporte público, em redes de ligação de vários modais.

Para reforçar a defesa dos investimentos em transporte coletivo, o estudo da CNI cita que o morador de uma grande cidade gasta 2,93 minutos para percorrer 1 quilômetro em transporte coletivo. Um automóvel gasta 2,67 minutos para percorrer a mesma distância. Essa diferença, de segundos revela, segundo a entidade, que o ganho do transporte individual deixou de ser significativo em uma metrópole.

Desde a década de 1940, o Brasil urbano multiplicou sua população em 14 vezes, o que significa que 85% dos habitantes do país está nas cidades. Mas desde os anos 1960, a mobilidade nas grandes cidades brasileiras tem se baseado no modo rodoviário. A partir da década de 70, todos os sistemas de bondes começaram a ser desativados, o que deu lugar à hegemonia do transporte sobre rodas.

A proposta que a CNI destaca em sua pesquisa é a utilização do transporte coletivo de alto rendimento para os deslocamentos rotineiros. A integração de diversos modais, inclusive as viagens a pé é, segundo a entidade, uma forma de garantir a expansão econômica.

Dessa forma, a entidade que representa a indústria considera que o automóvel, que ganhou projeção “pela mágica do deslocamento imprevisível”, revela-se agora como inadequado como “meio hegemônico de transporte motorizado nas cidades”. “Na grande cidade contemporânea, os automóveis não podem mais ser protagonistas. Precisam ser coadjuvantes”, destaca o estudo.

A CNI reconhece, no entanto, que “não será simples implantar ou mesmo propor uma alternativa ao atual modelo”. Entre 2003 e 2010, o crescimento demográfico no Brasil alcançou de 13% enquanto o aumento da frota de veículos foi de 66%.

Fernandes lembra como cidades como Tóquio têm conseguido povoar o entorno de estações de trem e metrô com moradias, escritórios, shopping centers e demais estruturas necessárias para manter os habitantes próximos dos pontos de deslocamento. No Brasil do passado, por exemplo, a proximidade às estações de trem foi decisiva para a implantação de equipamentos comerciais e de serviços.

Para Fernandes, é urgente, por isso, que o país coloque na agenda de discussão política a necessidade de criar um sistema com multiplicidade de uso de modais e ampliação e facilidade de conexões. Este pode também ser um caminho, segundo a CNI, para cumprir os compromissos de sustentabilidade.

Fernandes lembra que muitas empresas têm enfrentado dificuldades na contratação de profissionais por conta da dificuldade na locomoção em determinada região. Isso acaba por prejudicar o desenvolvimento dos centros de pesquisa e a intelectualidade. “As megacidades serão o cenário concentrador da inovação nas próximas décadas”, prevê o estudo da CNI. Segundo a entidade, ao contrário do que se pregava no passado, “os ganhos econômicos da metropolização são maiores do que os da descentralização urbana”.

Com a concentração do uso do meio rodoviário, com foco no automóvel, os espaços urbanos para moradias se espalharam. A distância do local de trabalho que muitos passaram a enfrentar trouxe graves consequências a partir dos congestionamentos e falta de opções de transporte. Para o brasileiro das classes mais altas, que dirige o próprio automóvel, o tempo de deslocamento é cada vez maior e mais desconfortável. Quem pega ônibus enfrenta ainda mais problemas. Mas são as classes mais pobres que mais sofrem e que fizeram surgir o que a CNI chama de “cidade informal dos loteamentos e favelas”. São as pessoas que preferem morar mal perto do trabalho do que ter de enfrentar a angústia diária do deslocamento.


São Paulo exporta bilhete único, nova bandeira política

Por Raphael di Cunto e Sérgio Ruck Bueno | VALOR

De São Paulo e Porto Alegre

Se a distância acabou por se transformar num dos maiores impedimentos no deslocamento de quem mora distante das regiões centrais das cidades, o bilhete único surgiu como uma solução e, para alguns, a única maneira de sustentar o custo do transporte até o local de trabalho ou escola.

O bilhete único foi criado em maio de 2004 pela ex-prefeita Marta Suplicy (PT). Os sistema permite que, com apenas uma tarifa, de R$ 3,00, o usuário pegue quatro ônibus em um período de três horas, ou três ônibus mais uma integração com metrô ou trem pela metade do preço (R$ 1,50), também num período de três horas. Isso permitiu que os moradores da periferia, mais carentes, gastassem menos para ir ao emprego, concentrado no centro expandido da cidade.

Apesar de elogiado pelos candidatos, o bilhete único é criticado pelo ex-presidente da Dersa e consultor na área de transportes Luiz Célio Bottura. Para ele, o bilhete único não é uma política de transporte, “é política social”, e acaba por sobrecarregar o sistema. “Se as pessoas tivessem que pagar o transporte, pensariam onde vão morar. Como não pagam, não pensam nisso”, afirma.

Entre os candidatos a prefeito em São Paulo, no entanto, todos elogiam o bilhete único, que tem forte apelo e aceitação popular. Celso Russomano (PRB) diz que já ouviu reclamações de que o período de integração deveria ser de mais de duas horas, mas ainda não fez estudos para saber o impacto disso. Ele promete, porém, permitir a recarga do bilhete dentro do próprio ônibus, com os cobradores – hoje, a recarga só é feita nas estações.

Gabriel Chalita (PMDB) diz que fará estudos técnicos e negociará com empresas de ônibus, CPTM e Metrô (estas duas sob responsabilidade estadual) para expandir o tempo de uso e formas de integração com outras cidades da região metropolitana, “já que parte dos usuários do sistema é composta por trabalhadores de outras cidades que precisam vir diariamente para São Paulo”.

Há poucos dias, o ex-ministro da Educação Fernando Haddad, candidato do PT, prometeu criar um “bilhete único mensal”, que permitiria aos usuários de transporte público utilizar de forma ilimitada os ônibus da capital por um mês com uma tarifa de R$ 150,00. Nesse sistema, haveria também versões mensais e semanais do bilhete único. Metrô e trem, geridos pelo governo do Estado, teriam tarifa diferenciada. Haddad defende, no entanto, a integração com os ônibus de prefeituras da região metropolitana e promete associar o cartão a futura rede de bicicletas públicas.

José Serra (PSDB) lembra que foi em sua gestão como prefeito que o bilhete único foi integrado ao metrô e CPTM, o que “permitiu enorme economia para quem usa transporte público na cidade”. Ele destaca ainda o aumento no período de integração, feito por seu aliado, o prefeito Gilberto Kassab (PSD), em 2008. “O mais importante agora é investirmos na integração entre os diferentes modais (ônibus, metrô e trens), criando mais oportunidades da integração tarifária”, diz.

Soninha Francine (PPS) diz que fará a integração com outros modais. Ele prevê a construção de garagens para automóveis nas estações de metrô fora do centro da cidade e a associação do bilhete a uma rede de bicicletas compartilhadas. “O Haddad falou primeiro, mas eu já tinha pensado nisso”, brinca. Ela afirma que também quer integrar o sistema de transporte com outras cidades da região metropolitana, mas que a “prefeitura, sozinha, não tem poder sobre isso”.

Porto Alegre implantou o sistema de bilhetagem eletrônica em 2008 e desde julho do ano passado adota o modelo de integração com segunda passagem gratuita. O benefício vale para usuários do chamado cartão “Tri”, inclusive os que usam passe escolar e vale-transporte, que tomam o segundo ônibus até 30 minutos depois de desembarcar do primeiro.

É um dos trunfos do prefeito José Fortunati (PDT), que concorre à reeleição. Segundo ele, no primeiro ano de integração mais de 30 milhões de passagens, que custam R$ 2,85 cada, deixaram de ser cobradas. De 2008 para 2009, o volume de passageiros na cidade caiu ligeiramente, mas em 2011 voltou a subir.

A bilhetagem dos ônibus urbanos também funciona integrada ao sistema de cartões da Trensurb, estatal federal que opera o trem que liga Porto Alegre a cinco municípios da região metropolitana, com desconto de 10% em cada uma das tarifas.

A candidata do PCdoB, Manuela D’Ávila, diz que o sistema de integração precisa ser “repensado”. Para ela, um dos problemas é a perda da passagem gratuita, quando o passageiro demora mais de meia hora para pegar o segundo coletivo. Para o candidato do PT, Adão Villaverde, a solução é aumentar o limite de 30 minutos entre uma viagem e outra para garantir a isenção da segunda tarifa. Ele também propõe uma “política concertada” com outras prefeituras num sistema de integração entre os sistemas de transporte dos municípios da região metropolitana.

O candidato do PSOL, Roberto Robaina, considera “adequado” o sistema atual. “Alguma coisa foi feita”, diz. Já os candidatos do PSDB, Wambert Di Lorenzo, e do PSTU, Érico Corrêa, revelam uma afinidade incomum e propõem um modelo que permita o pagamento de uma única passagem por dia, sem limite de utilização.

Esta é a quarta reportagem do jornal VALOR da série “Mobilidade nas Eleições”

29/08/2012 - 22:00h Boa noite


Gina Bachauer e Alicia de Larrocha – Scaramouche, de Darius Milhaud

29/08/2012 - 19:58h Aquilo a que chamam amor

Charles Baudelaire

Aquilo a que chamam amor é bem pequeno, bem restrito, e bem fraco, comparado à inefável orgia, à santa prostituição da alma que se dá toda inteira, em poesia e caridade, ao imprevisto que se mostra, ao desconhecido que passa.
É bom ensinar por vezes aos felizes deste mundo, nem que seja só para os humilhar um instante no seu estúpido orgulho, que há felicidades superiores às deles, mais vastas e mais delicadas. Os fundadores das colónias, os pastores de povos, os padres missionários exilados no fim do mundo, conhecem sem dúvida qualquer coisa destas misteriosas ebriedades; e, no seio da vasta família que o seu génio constituiu, devem rir-se algumas vezes daqueles que os lamentam pela sina tão revolta e pela vida tão casta.


Charles Baudelaire. O Spleen de Paris. Pequenos poemas em prosa.

29/08/2012 - 19:04h Mon coeur s´ouvre à ta voix


Elīna Garanča – Mon coeur s’ouvre à ta voix (video-clip)

29/08/2012 - 18:37h Segredo cúmplice 2

Germaine Krull2
Germaine Krull – Les Amies

29/08/2012 - 18:00h Tamanho não é documento

Ou de como os curtas conseguem refletir o País em toda a sua complexidade

29 de agosto de 2012

LUIZ CARLOS MERTEN – O Estado de S.Paulo

É um título que pode induzir o leitor a pensamentos libidinosos, ainda mais que o filme se chama Porn Karaokê. Mas é bom não se equivocar. A ideia é só chamar a atenção para um fato incontestável. Formato e suporte são meros detalhes. Alguns dos melhores e mais intrigantes filmes brasileiros da atualidade você pode ver, ou talvez já tenha visto, no Festival de Curtas. Como o citado Porn Karaokê, de Daniel Augusto. Karaokê pornográfico. É um espaço. Uma adolescente que viu estranhas tatuagens surgirem em seu corpo – e depois elas desaparecem – busca explicações no Porn Karaokê. Existem referências a David Lynch. Los Angeles é um ponto no mapa, no centro do mundo da protagonista.

Outra grande cidade, São Paulo, é a protagonista de Cidade Improvisada, de Alice Riff, que investiga o universo do rap. Quando improvisam seus versos e cospem palavras iradas sobre a injustiça social e o caos urbano, os MCs que dropam freestyles diante da câmera da diretora colocam a voz da periferia na tela. O filme começa com (e ao longo dele voltam) as imagens de um equilibrista que caminha sobre os estreitos parapeitos de viadutos. Esse movimento precário assume uma dimensão metafórica. Os MCs são 15 e talvez seja até injusto destacar só um punhado deles – Max V.O., Slim Rimografia, Bebel Du Ghetto, DD. Na sessão de sábado à tarde no Cine Olido, no centro de São Paulo, o público aplaudiu em cena aberta as improvisações. A maior ovação foi para DD. A todos os problemas de quem vive na periferia ela acrescenta o da sua particular identidade. Ser mulher não é fácil em qualquer lugar.

O local, como em Porn Karaokê, era muito importante. Nos amplos corredores que dão acesso ao conjunto de salas da Galeria Olido, nos sábados à tarde, os street dancers fazem daquele lugar o palco de suas exibições. A cidade pulsa, em toda a sua complexidade, naquelas coreografias e nas improvisações. A cidade é, pelo contrário, estagnada no curta de Liliane Sulzbach que tem esse título – A Cidade. Ela é habitada por velhos, e o espectador é introduzido à rotina de um lugar que parece parado no tempo. Aos poucos, revela-se uma história. A superação de um drama doloroso.

A cidade é o que sobrou do antigo leprosário de Itapuã, junto ao rio, na Grande Porto Alegre. A lepra, ou Mal de Hansen, sempre foi motivo de estigmatismo social, e isso desde tempos imemoráveis. Basta lembrar os leprosos de Ben-Hur, de William Wyler, tratados como tragédia, e os de O Incrível Exército de Brancaleone, de Mario Monicelli, como humor. O projeto do leprosário surgiu para segregar os enfermos. Eles eram separados da família, estimulados a viver entre eles. Sobraram poucos, 35, que ainda vivem ali. As modernas formas de tratamento e cura tentam acabar com o preconceito. Aquelas pessoas, os sobreviventes, são todas sexagenárias, ou mais. Amargam dores. Uma lembra que era muito jovem ao ser arrancada de casa e levada para um lugar que seria ‘lindo’, foi o que lhe disseram. Outra observa que aquele grupo é a sua verdadeira família. A outra, a biológica, desertou de sua vida há muito tempo.

Liliane Sulzback é autora de outro belo curta sobre a infância. Aqui, busca outro segmento na linha de tempo. A cidade parece morta e, quando ela acrescenta à montagem as cenas do passado, para mostrar como era o leprosário, quando cheio, as pessoas parecem sem vida naquelas imagens em preto e branco. São sempre vistas em grupo, caminhando para o mesmo lugar, como zumbis. “Sair para onde, se vivi sempre aqui?”, uma delas se pergunta. E, malgrado todo sofrimento, homens e mulheres cantam, como num filme do inglês Terence Davies, o sublime Vozes Distantes, de 1988.

Daniel Augusto tem feito curtas que dialogam com a história e a cultura norte-americanas. Fordlândia, em parceria com Martinho Andrade, é sobre a cidade construída numa gleba da Amazônia (e depois abandonada) por Henry Ford. She Is Lost Control, com base na música do Joy Division, é sobre uma garota que sofre um acidente e se indaga sobre a própria identidade. A garota e a busca da identidade estão de volta em Porn Karaokê. As marcas que surgem e desaparecem são metáforas do próprio cinema. Não se iluda. A duração pode ser curta, mas o efeito desses filmes no imaginário do público – no seu imaginário – persiste.

29/08/2012 - 17:30h Em contato direto com Lygia Clark

Divulgação / Divulgação
Lygia Clark com a máscara “Abismo” para mostra em 1986


Por Marcelo Rezende | Para o Valor, de São Paulo

No espaço da exposição “Lygia Clark: Uma Retrospectiva”, no Itaú Cultural, em São Paulo, são apresentadas 145 obras, entre objetos, instalações e propostas inéditas. A lista cresce com um ciclo de filmes, seminário, aplicativo para “tablets” e museu virtual, que dão conta dos inúmeros e potentes efeitos provocados pela artista mineira, morta em 1988, aos 68 anos. E isso não é tudo. O que os curadores Paulo Sérgio Duarte e Felipe Scovino oferecem a partir deste sábado é uma Lygia Clark em sua potência total, ao lado da sensibilidade, imaginação e disponibilidade do espectador. Uma Lygia diante do desafio tempo.

Desde o início deste século, com a sedimentação dos processos de globalização econômica, reordenação das esferas de poder no mundo e a febre das feiras de arte, Lygia Clark (ao lado de Hélio Oiticica e Lygia Pape, companheiros do neoconcretismo carioca do final dos anos 1950) tem se tornado uma espécie de “blue chip” da arte brasileira entre colecionadores.

A expressão, vinda do mercado de ações, traduz a ideia de um “valor seguro”; no caso de Lygia, sustentado por alguns fatos: o crescimento das mostras internacionais da artista – o MoMA, em Nova York, receberá uma retrospectiva de Lygia Clark em 2014 – e seus recentes resultados de compra e venda. Em 2011, uma peça criada por Lygia em 1964 (”Abrigo Poético 3″) foi vendida na feira suíça Art Basel pelo preço recorde de €1,8 milhão.

Mas Lygia, claro, não se resume a uma análise financeira, e essa tem sido toda uma questão. “Essa retrospectiva apresentada agora ajuda a pensar o lugar da obra de Lygia Clark no Brasil e no mundo”, conta Felipe Scovino.

Refletir sobre a posição de Lygia hoje significa não deixá-la prisioneira de seu sucesso crítico e institucional, mas conceder a seu pensamento um espaço de respiro: “A retrospectiva não traz um recorte cronológico das obras, procurando evidenciar a maneira como ela lida com os diferentes suportes e possibilidades da arte, indo além da construção de um objeto. O público deve descobrir in loco novas possibilidades de leituras sobre ela”, afirma Scovino.

O público é uma das chaves para o entendimento de Lygia Clark, já que muitos dos trabalhos se opõem a dois dos maiores tabus dos museus: a proibição de que as obras possam ser manipuladas e a separação entre visitantes, que impede o compartilhamento de sensações. Nas propostas de Lygia, a obra de arte pode funcionar como intermediária para a ação entre pessoas.

Um exemplo são as instalações “Campo de Minas” e “Cintos-Diálogos”, imaginadas no período 1967/1968 e apresentadas no Itaú Cultural. Na primeira (exibida uma única vez, no Rio de Janeiro), os visitantes percorrem um tablado com sapatos magnetizados. Na segunda, uma instalação inédita, as pessoas recebem cinturões com ímãs, o que as leva a uma relação de atração e repulsão.

Outra proposta inédita é a instalação “O Homem no Centro dos Acontecimentos”, também do fim dos anos 1960 – os curadores usaram textos de Lygia, nos quais ela havia deixado instruções sobre como montar as obras. A obra traz projeções simultâneas em quatro paredes, resultado da filmagem de um percurso pelas ruas com uma câmera fixada sobre um capacete.

Essas experiências, ao lado de suas pinturas e de seus famosos objetos esculturais, os “Bichos”, ilustram a definição de Lygia pelo crítico Mário Pedrosa (1900-1981): “a entrada de Lygia Clark na arena da arte, onde a distância psíquica entre a arte e o espectador foi suprimida, não é de agora nem veio de supetão. Surgiu ao longo de todo um processo”.

Lygia começa com telas, chega a esculturas que podem ser tocadas pelo público para, em seguida, caminhar em direção ao contato com os visitantes, que deixam de ser espectadores e passam para uma posição ativa.

Para a designer Alessandra Clark, neta da artista e diretora da Associação Cultural O Mundo de Lygia Clark, a missão para essa retrospectiva é mostrar ao público “a obra como ela é”. “Apenas dessa maneira nos aproximamos do que Lygia pensava e tinha imaginado para suas criações.”

Essa necessidade de uma maior compreensão dos processos criativos de Lygia Clark é o que levou ao lançamento de um aplicativo digital para dispositivos móveis, que será distribuído gratuitamente. “No ‘Livro Obra’ (1983), que compõe o material do aplicativo, consegue-se um resumo de Lygia a partir do que ela pensava, por meio de seus textos. Com eles, é possível se relacionar com as obras mesmo a distância”, diz Alessandra.

Participação e relação parecem mesmo resumir Lygia Clark. Durante os anos 1990, com a aparição de uma geração de novos artistas dispostos a assumir a participação dos espectadores em exposições e bienais (a geração da “arte relacional”), Lygia passou a ser intensamente “redescoberta”. Uma das consequências diz respeito a um possível rapto do discurso crítico: Lygia corre o risco de ser pensada como precursora, seguidora ou apenas parte de movimentos artísticos iniciados na Europa e Estados Unidos, o que resulta em uma visão limitada de sua importância.

Contra essa ameaça, ela pode e deve ser pensada em toda sua originalidade, e essa é a leitura promovida pelos curadores Paulo Sérgio Duarte e Felipe Scovino.

“Hoje, o que se conhece representa cerca de 2/3 da produção de Lygia. Agora ela é uma referência para artistas contemporâneos, e foi o interesse e a atuação desses artistas que provocaram as instituições. Mas há ainda muito para pesquisar, trabalhar e entender”, conta Alessandra.

“Há as pesquisas dela com a arquitetura, entre outras. Não há um limite. Mesmo a participação do espectador é um meio, e não um fim”, afirma Scovino.

“Lygia Clark: Uma Retrospectiva”

Itaú Cultural (Av. Paulista, 149), de 1º de setembro a 11 de novembro, entrada gratuita

Marcelo Rezende foi cocurador dos projetos “Comunismo da Forma” (São Paulo, 2007; Toronto, 2009) e “À la Chinoise” (Hong Kong, 2007), e curador das mostras “Ver o Tibet” (Rio, 2010) e “Cinema Veloz e Volante (Salvador, 2012). Editor da publicação “28b”, uma das plataformas da 28ª Bienal de São Paulo (2008)

29/08/2012 - 17:00h Neto de Trotsky relembra assassinato de avô no México há 75 anos

Volkov, 86, descreve momento em que chegou à casa onde vivia com líder bolchevique no México e encontrou-o à beira da morte.

29 de agosto de 2012

BBC Brasil – Agência Estado

Há 75 anos, o intelectual e revolucionário bolchevique León Trotsky, expulso do Partido Comunista Soviético e forçado ao exílio, foi começar vida nova no México. Perseguido pelos assassinos de Josef Stálin, no entanto, Trotsky foi morto na Cidade do México.

Em depoimento ao programa Witness, do Serviço Mundial da BBC, o neto do revolucionário, Esteban Volkov, que estava com o avô quando ele morreu, relembrou as emoções sentidas naquele dia.

Para alguns, León Trotsky foi o verdadeiro herói da Revolução Bolchevique de 1917, que derrubou o czarismo russo e culminou com a criação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Para outros, Trotsky foi um dos homens mais perigosos de sua era.

Mas para Volker, o revolucionário soviético foi uma figura paterna, que deu ao neto momentos raros de estabilidade e alegria em um período de tumulto na vida familiar em meio a um ciclo de perseguições políticas.

“Eu estava constantemente trocando de figuras paternas e maternas”, contou Volker, hoje com 86 anos. Com o “velho” – a forma carinhosa como se refere ao avô – “eu finalmente encontrei algo estável, ainda que não tenha durado muito”.

Falando da casa na Cidade do México onde viveu por mais de um ano com Trotsky e sua segunda esposa, Natália, até o assassinato, Volkov lembrou da empolgação que sentiu ao chegar à América.

Ele tinha apenas 13 anos e havia passado a maior parte de sua infância se mudando de um país para o outro com a mãe, Zinalda – filha de Trotsky – procurando refúgio contra a perseguição de Stálin, com quem Trotsky disputou o poder após a morte de Vladimir Lênin.

“O México foi uma mudança absoluta, era cheio de cores, sol. Tão diferente da Europa”, disse. “Comecei a ir para a escola sozinho, a pé. Ninguém na escola sabia quem era a minha família.”

Vida em Família

A vida na casa grande e bem protegida por guardas no bairro arborizado de Coayacan era “cheia de diversão”.

Trotsky passava o dia escrevendo, sendo entrevistado por jornalistas ou discutindo política com militantes estrangeiros e guarda-costas que viviam com a família.

Durante as refeições, o jovem escutava atentamente as piadas e discussões acaloradas à mesa. Aos outros, no entanto, o avô dava ordens expressas de que não falassem de política na frente do menino.

“Sua famíla inteira havia sido assassinada, ou morrido por causa da política, e eu acho que ele queria que seu neto sobrevivesse.”

O pai de Volkov, genro de Trotsky, havia sido enviado a um gulag – nome dado aos campos de prisioneiros soviéticos -na década de 1930. Sua mãe, Zinalda, havia cometido suicídio quando eles viviam no exílio em Paris.

Volkov contou que todas as manhãs o avô se levantava cedo para cuidar de suas plantas e animais antes de se fechar no escritório.

“Eu o ajudava a alimentar os coelhos e galinhas, e a regar o milho.” Os dois conversavam em francês, porque o menino havia perdido a habilidade de falar russo, sua língua materna.

Eles também faziam, regularmente, passeios para fora da cidade, com a família e os amigos reunidos em vários carros. Uma vez no campo, o “velho” passava horas procurando cactos ou conversando com os camponeses mexicanos sobre suas vidas.

Para Volkov, esses foram dias de relativa normalidade e de uma vida familiar que ele não tinha conhecido anteriormente. Mas tudo isso viria a terminar repentinamente.

Às 4h da manhã do dia 24 de maio de 1940, o jovem acordou de sobressalto: atiradores enviados por Stálin haviam invadido a casa.

Volkov saltou da cama e se escondeu em um canto do quarto. Com balas ricocheteando pelo cômodo, Volkov foi ferido no pé. Os guardas de Trotsky reagiram e conseguiram espantar os atiradores, que fugiram.

Trotsky e Natália escaparam ilesos. “Se eu fiquei assustado? No começo sim, mas assim que ouvimos a voz do meu avô, cheio de vida, bem, é difícil de descrever nossa felicidade por havermos escapado dos homens de Stálin.”

Segunda Tentativa

Depois desse incidente, Trotsky raramente saía de casa e a segurança ficou ainda mais rigorosa, com mais guardas e mais armas. As viagens para o campo foram abandonadas.

“Logo me acostumei a viver naquelas condições”, diz o neto.

Mas a pergunta na cabeça de cada um era: De onde viria o próximo atentado à vida de Trotsky?

Os acontecimentos do dia 20 de agosto de 1940 ficaram gravados na memória de Esteban Volkov.

Foi nesse dia que Ramón Mercader, um agente stalinista de origem espanhola que havia se infiltrado na casa de Trotsky, feriu fatalmente o líder bolchevique ao atingir sua cabeça com um utensílio de quebrar gelo.

Falando lentamente, tomando cuidado para não omitir nenhum detalhe, Volker contou que ao retornar para casa, a pé, depois da aula, notou que a porta da casa estava aberta. Um carro da polícia estava estacionado do lado de fora.

Cheio de temor, correu para dentro. Os guardas estavam consternados.

Antes de ser afastado do local, viu o avô de relance, deitado no chão do escritório, sangrando muito. Natália estava ao seu lado.

“Não deixe o menino ver isso”, Trotsky teria dito a ela. Ele morreu no dia seguinte, no hospital.

O menino ficou tão perturbado que se recusou a ir ao enterro do avô. “A atmosfera na casa ficou muito, muito solitária depois daquilo”, ele disse.

Após a morte de Trotsky, Volkov continuou vivendo no México com Natália. Ele foi para a universidade, formou-se químico, casou-se e criou quatro filhas – algo que trouxe muito conforto para Natália, de luto pela perda do marido assassinado.

Ela morreu em janeiro de 1962. Volkov, hoje também viúvo, transformou a antiga casa da família em um museu.

Honrar a memória do avô, ele explicou, é o seu “dever”.

29/08/2012 - 09:39h Conteúdo local para eólica vai garantir expansão no Brasil

Aline Massuca/Valor / Aline Massuca/Valor
Faubel, vice-presidente mundial da Alstom Wind, planeja oferecer máquinas adaptadas ao regime de ventos brasileiro


Por Rodrigo Polito | VALOR

Do Rio

De olho na competição agressiva prevista entre os parques eólicos nos dois leilões de energia marcados para outubro, que contam com mais de 500 projetos inscritos, as fornecedoras de aerogeradores traçam estratégias para elevar a participação no mercado. A aposta das fabricantes está no aumento do índice de conteúdo local e da eficiência dos equipamentos.

Disputado por pouco mais de dez empresas, o mercado brasileiro responde hoje por cerca de 5% das vendas de equipamentos eólicos no mundo, da ordem de 50 mil megawatts (MW) anuais. A fatia do país, porém, tende a crescer, devido à queda da demanda na Europa, causada pela crise econômica, e à perspectiva de novos negócios no Brasil.

Com a decisão da Petrobras de não fornecer gás para novas térmicas e com apenas duas novas hidrelétricas licenciadas até o momento, a expectativa é que a fonte eólica repita o desempenho do ano passado e domine novamente os leilões de outubro, que negociarão energia a ser entregue a partir de 2015 e 2017.

Atenta à demanda crescente do mercado, entre 2 mil e 2,5 mil MW por ano, a Alstom vai construir uma nova fábrica no Brasil. A companhia anunciará o investimento nas próximas semanas, quando serão divulgados o valor e o local da nova unidade, ainda guardados em sigilo. A francesa inaugurou em novembro de 2011 sua primeira fábrica eólica no Brasil, com investimentos de R$ 50 milhões e capacidade para produzir 300 MW/ano de aerogeradores.

“[A nova fábrica] é decisão já tomada. Estamos comprometidos em fazer a segunda unidade. Continuaremos aumentando a nossa participação no Brasil”, contou ao Valor o vice-presidente mundial da Alstom Wind, Alfonso Faubel.

Segundo o executivo, a companhia escolheu o Brasil para iniciar a instalação de um novo modelo de aerogerador, de 2,7 MW de potência e 122 metros de diâmetro do rotor. A aposta da empresa é construir máquinas de maior porte e adaptadas ao regime de ventos brasileiro, para reduzir custos do produto final e da manutenção das peças.

A dinamarquesa Vestas, que foi descredenciada da linha Finame do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) há pouco mais de um mês, está negociando seu reingresso ao programa, que lista empresas de máquinas e equipamentos habilitadas a receber financiamento do banco estatal. Para isso, a empresa planeja fechar parcerias com subfornecedores no Brasil e ampliar seu índice de nacionalização para os 60% exigidos pelo banco.

“Temos muito claro que precisamos de conteúdo local no Brasil”, afirmou o vice-presidente mundial de marketing, comunicação e atendimento ao consumidor da Vestas, Morten Albaek. “Temos um diálogo muito construtivo com o BNDES. E vamos achar uma solução para isso”, completou o executivo.

De acordo com Albaek, o mercado brasileiro ainda é muito pequeno. Mas nos próximos cinco a dez anos, o país estará no grupo dos cinco principais mercados da companhia. Segundo ele, a Vestas respondeu por 13% a 14% das vendas globais de aerogeradores em 2011.

Enquanto as perspectivas no Brasil são boas, lá fora a companhia pretende cortar empregos para atingir a meta de redução de custos fixos em € 250 milhões em 2012. Ontem, as ações da dinamarquesa registraram alta de 18,3% após a confirmação de que a companhia negocia uma parceria com a Mitsubishi Heavy Industries para reduzir o seu endividamento.

Os dois executivos participarão hoje de um seminário de energia eólica, no Rio de Janeiro, que discutirá, até sexta-feira, os rumos do setor nos próximos anos no Brasil. Apesar da contínua trajetória de crescimento do mercado, o segmento enfrenta seus primeiros obstáculos para se consolidar como uma fonte de energia confiável no país.

Um dos desafios é o atraso do início de operação de projetos que venceram o primeiro leilão em 2009. De acordo com a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), de janeiro a junho, entraram em operação 118,25 MW de potência de parques eólicos. Também estão previstos para iniciar o funcionamento este ano outros 554,28 MW, dos quais 247,20 MW apresentam algum tipo de restrição, jurídica ou ambiental, para serem concluídos.

29/08/2012 - 09:06h Brasil deve chegar ao fim do ano com a menor taxa de juros da história


Mercado aposta que, com corte de meio ponto hoje, Selic pode chegar a 7% em dezembro

João Sorima Neto – O GLOBO

29/08/12

SÃO PAULO – O Brasil vai terminar o ano de 2012 com a menor taxa básica de juro de sua história, a Selic, mas ainda assim estará entre os países com os maiores juros reais do mundo. Atualmente, o país ocupa a terceira colocação, com juro real de 2,3%, atrás de China (que tem juro real de 3,7%) e Rússia (juro real de 3,5%), segundo um ranking elaborado pela corretora Cruzeiro do Sul/Apregoa. Para que o Brasil deixasse a terceira colocação no ranking atual, seria necessário um corte de 0,75 ponto percentual nos juros. Assim, o país chegaria a uma taxa real de 2,1%, ficando atrás da China (3,7%), Rússia (3,5%) e também do Chile (2,2%). Neste cenário, a taxa brasileira seria de 2,1%.

- Como a expectativa é de um corte de 0,5 ponto percentual na reunião desta quarta-feira e de mais um corte de 0,25 na reunião de outubro, encerrando o ciclo de quedas, o país terminaria o ano no quarto lugar do ranking do juro real, mesmo com a Selic chegando ao menor patamar da série histórica desde 1986 – avalia Jason Vieira, economista da corretora Cruzeiro do Sul. A aposta da maioria dos economistas é de que na reunião de novembro, a útlima do ano, o Copom não mexerá nos juros.

De janeiro de 2010 até março deste ano, o Brasil se manteve no topo dos países com maior juro real do mundo. O país só deixou a primeira colocação, explica Jason, em consequência do desaquecimento da demanda internacional. Isso reduziu as projeções para a inflação na China e Rússia, que encabeçam o ranking. No Brasil, a projeção de inflação ainda é crescente.

Além disso, o processo de queda da Selic, que em 12 meses caiu de 12,5% ao ano para os 8% atuais, também ajudou a tirar do Brasil o título de campeão de juros mais altos do mundo.

- O ranking é feito levando em consideração a inflação projetada para os próximos 12 meses – explica o economista Jason Vieira.

Com juro em patamares baixos na Europa, Estados Unidos, como forma de estimular o consumo e aquecer as economias, a taxa média geral dos 40 países analisados pela Cruzeiro do Sul ficou em -0,4%. Segundo o ranking, 22 países tem juro real negativo.

Economistas ouvidos pelo GLOBO avaliam que o atual ciclo de queda de da Selic se encerra em outubro. A dúvida entre eles é saber se a taxa chega a dezembro em 7% ou 7,25% ao ano. Para Jason Veira, a Selic sofre um corte de 0,50 ponto percentual nesta quarta e mais um de 0,25 na reunião de outubro.

- Acredito que o Banco Central vai passar a agir com parcimônia, ainda avaliando os efeitos sobre a economia das quedas anteriores – diz o economista.

Para o economista Clodoir Vieira, da corretora Souza Barros, a Selic também termina o ano em 7,25%, com um corte nesta quarta de 0,50 e em outubro de 0,25.

- A alta do preço das commodities no exterior pressiona os índices de inflação. Acredito em mais cautela do BC a partir de agora – diz o economista da Souza Barros.

O banco WestLB avalia que o BC corta o juro em 0,50 nesta quarta e encerra o ciclo de quedas.

- O choque de oferta de grãos nos EUA faz o preço das commodities agrícolas subir no exterior. Além disso, a economia brasileira já dá sinais de que volta a crescer. Por isso, esperamos cautela – avalia o economista Luciano Rostagno.

Ele diz que será preciso observar com atenção o comunicado do BC após a decisão desta quarta.

- Se o BC suprimir a a expressão ‘dando continuidade ao processo de ajuste das condições monetárias’ da ata do Copom, é certo que não vai mais cortar a Selic – diz Rostagno.

Segundo o boletim Focus, uma compilação do Banco Central com economistas do mercado financeiro, haverá um corte de 0,50 ponto percentual na Selic nesta quarta, e mais um em outubro de 0,25 ponto percentual. Assim a Selic chegaria a dezembro em 7,25%.

29/08/2012 - 08:46h As razões do otimismo do governo

Por Cristiano Romero – VALOR

Um ano depois de iniciado o atual ciclo de alívio monetário, o Banco Central (BC) mostrou que estava certo ao mudar radicalmente o rumo da política de juros. A principal alegação feita na época – o desaquecimento das principais economias do mundo e, em consequência, o surgimento de um ambiente desinflacionário – se materializou.

Hoje, o Comitê de Política Monetária (Copom) promoverá mais um corte de meio ponto percentual na taxa Selic, reduzindo-a para 7,50% ao ano, e é possível que faça pelo menos mais outro de 0,5 ponto antes de encerrar o ciclo. O BC acha que essa política, somada a outras que o governo vem adotando, já começou a produzir resultados. O clima em Brasília é de otimismo quanto às chances de a economia acelerar o crescimento nos próximos meses.

Quando o Copom surpreendeu o mercado em agosto do ano passado, cortando o juro em vez de aumentá-lo, a expectativa de crescimento anual da Europa girava em torno de 1% a 2%. Hoje, o que se espera é uma recessão em 2013. No caso dos Estados Unidos, em meados de 2011, esperava-se crescimento em torno de 3%. Agora, a realidade mostra que a expansão neste ano deve beirar os 2% ou ficar abaixo disso.

Desaquecimento mundial previsto pelo BC se materializou

Há um ano, a expectativa era que a economia mundial crescesse até 3,4% em 2012. Com o agravamento da crise mundial no segundo semestre de 2011, as perspectivas foram piorando sucessivamente e, neste momento, o que se espera é um longo período de crescimento lento, em torno de 2,2%.

O cenário desinflacionário se concretizou. A melhor indicação disso está nos indicadores de commodities. O CRB Foodstuff (que mede a variação dos preços de alimentos) estava, em julho, 8,9% abaixo do patamar de um ano atrás. O CRB Metais caiu 23,4% no mesmo período e o CRB total, 13,2%. Não é para menos. O desaquecimento da economia chinesa explica em grande medida essas quedas. A China, segundo o FMI, respondeu em 2009 por 53% das importações líquidas mundiais de soja, por 65% das compras de minério de ferro e por quase 30% de metais.

A economia brasileira, evidentemente, não escapou da maré ruim. No último ano, o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu apenas 2,7% e, em 2012, deve avançar menos de 2%, muito abaixo da média anual de 4,2% verificada entre 2007 e 2011. A boa notícia é que há sinais positivos indicando uma retomada, mais lenta do que as ocorridas no passado recente, mas consistente.

É o próprio mercado quem diz, via boletim Focus, que o Brasil vai se levantar nos próximos trimestres. A esperança é que, depois de registrar baixíssimo crescimento nos primeiros seis meses do ano – 0,1% entre janeiro e março e, possivelmente, 0,3% entre abril e junho -, a indústria avance 1,5% no atual trimestre, quando comparada ao mesmo período do ano anterior, e 2,1% entre outubro e dezembro. O crescimento deve se acelerar no primeiro (3%) e segundo trimestres (4%) de 2013.

Com base no Focus, o BC espera expansão do setor de serviços de 3% em cada trimestre da segunda metade deste ano, quase o dobro da registrada no primeiro trimestre (1,6%). O ritmo seria mantido na primeira metade do ano que vem. Na agricultura, a expectativa é de forte recuperação nos próximos trimestres, depois da queda do primeiro trimestre (-8,5%) e do provável baixo desempenho no segundo (1,4%). Entre outubro e dezembro, a agricultura deve crescer 4% e acelerar nos seis meses seguintes, sempre na comparação com igual período do ano anterior.

A confiança do governo se baseia no que já vem ocorrendo em algumas áreas. A produção mensal de automóveis, por exemplo, depois de cair abaixo de 260 mil em janeiro, começou a se recuperar e, após o corte de IPI, tomou impulso. O mesmo ocorreu com caminhões. Os estoques de carros, que atingiram o pico em agosto de 2011, voltaram a crescer nos primeiros meses do ano, mas, depois da desoneração, estão declinando novamente.

O governo acredita que o ambiente é favorável à aceleração do PIB graças aos seguintes fatores: a taxa de desemprego está na mínima histórica (5,4% em maio, segundo a última medida nacional feita pelo IBGE); a criação de empregos formais diminuiu em quase 1 milhão desde fevereiro de 2011, mas segue forte (1,2 milhão nos 12 meses até junho deste ano); a massa salarial real voltou a crescer, avançando 5,1% nos 12 meses concluídos em maio (7,5%, quando comparada ao mesmo mês de 2011); a renda real também tornou a expandir-se (3,2% nos 12 meses até maio e 4,9% na comparação com maio do ano passado).

Ao contrário dos analistas que apontam a exaustão do modelo de crescimento baseado em consumo e crédito, o BC vê espaço para o país continuar crescendo por esse esquema, ajudado pelas medidas adotadas pelo governo para expandir a infraestrutura e aumentar a competitividade. O BC aposta no efeito “juros menores” – entre setembro de 2011 e junho deste ano, o juro médio cobrado de pessoas físicas caiu de 45,7% para 37,1% ao ano; e o das empresas recuou de 39% para 31,3% ao ano.

Embora a queda da Selic tenha sido expressiva – 4,5 pontos no período -, a redução dos juros bancários foi modesta. Ainda assim, as autoridades acreditam que o crédito, mesmo crescendo a uma velocidade menor, cumprirá um papel importante na retomada. Entre 2005 e 2008, cresceu ao ritmo de 25,2% ao ano; entre 2009 e 2011, subiu 18,3% e, nos 12 meses até maio, manteve essa velocidade (18,1%).

Técnicos do governo lembram que o grau de endividamento dos brasileiros, como proporção do PIB, é baixo quando comparado ao de outros países – 20,9% do PIB, face a 27,9% no Chile, 83,5% nos Estados Unidos e 207,4% do PIB no Reino Unido. O problema é que o peso dos juros na renda disponível dos brasileiros é bem maior – 22,1%, diante de 10,8% nos EUA, 9,9% no Chile e 2,2% no México. Em compensação, a inadimplência no Brasil não está entre as maiores do mundo.

Nem tudo é alegria no primeiro aniversário do “novo BC”. A inflação, embora tenha recuado de forma significativa, ainda é alta (5,2% nos 12 meses até julho); o BC segue sem conseguir coordenar satisfatoriamente as expectativas inflacionárias, que apontam para aumento do IPCA em 2013 (para 5,5%); e o regime de câmbio flutuante, um dos pilares da política econômica adotada com sucesso pelo país desde 1999, foi (temporariamente?) abandonado.

Cristiano Romero é editor-executivo e escreve às quartas-feiras

E-mail: cristiano.romero@valor.com.br

28/08/2012 - 22:00h Boa noite


2 successive performances of Ludwig van Beethoven’s Turkish March from “Die Ruinen von Athen”, arranged by Richard Blackford for 8 pianos. Played by Gina Bachauer, Jorge Bolet, Jeanne-Marie Darré, Alicia De Larrocha, John Lill, Radu Lupu, Garrick Ohlsson and Bálint Vázsonyi at a Gargantuan Pianistic Extravaganza in London, 1974.

28/08/2012 - 19:08h Anna Bolena


Donizetti – Anna Bolena Act 2 Scene 1

Netrebko · Garanca · D’Arcangelo · Orchester der Wiener Staatsoper · Pidò · Chor der Wiener Staatsoper

This is the Scena e duetto made up of:

Dio, che mi vedi in core 6:52
Sul suo capo aggravi un Dio (Anna, Giovanna) 3:07
Dal mio cor punita io sono (Giovanna, Anna) 2:42
Va, infelice 4:07

from the DG Blu-ray Disc DDD 0440 073 4728 7 GH

28/08/2012 - 18:33h Segredo cúmplice

Germaine Krull
Germaine Krull – Les amies

28/08/2012 - 17:51h Pequenos Poemas em Prosa

Charles Baudelaire

O semblante do primeiro Satã era de um sexo ambíguo, e havia
nas linhas do seu corpo a molície dos antigos Bacos. Os belos
olhos lânguidos, de cor tenebrosa e indecisa, assemelhavam-se
a violetas carregadas, ainda, das pesadas lágrimas da
tempestade(…).
Fitou-me com os seus olhos inconsolavelmente aflitos (…) e
disse-me em voz cantante:
– Se quiseres, se quiseres, eu te farei o soberano das almas, e tu
serás o senhor da matéria viva, ainda mais do que o escultor o
pode ser da argila; e conhecerás o prazer, ininterruptamente
renovável, de sair de ti mesmo para te esqueceres em
outrem, e de atrair as outras almas até confundi-las com a
tua.


Charles Baudelaire. Pequenos Poemas em Prosa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. p. 59-60.

28/08/2012 - 17:00h Um debate sobre os limites morais do mercado

Bloomberg / Bloomberg
Sandel: os mercados deixam sua marca nas normas sociais, aponta no livro “O Que o Dinheiro Não Compra”


Por Oscar Pilagallo | Para o Valor, de São Paulo

Um dos intelectuais públicos mais populares da atualidade, o americano Michael Sandel, autor do best-seller internacional “Justiça: O Que É Fazer a Coisa Certa”, está de volta sob os holofotes midiáticos ao propor o debate sobre os limites morais do mercado em “O Que o Dinheiro Não Compra”.

Sandel concede que há pouquíssimas coisas que o dinheiro não compra. Não compra, por exemplo, um prêmio honorífico, como o Nobel, uma vez que a própria venda dissolveria o bem que dá lhe valor. “Comprá-lo significa comprometer o bem que se busca”, raciocina o autor.

Com poucas exceções como essa, a maioria das coisas pode ser comprada. Sandel escreveu o livro para argumentar que muitas dessas coisas não deveriam ser objeto de negociação envolvendo dinheiro, e talvez “O Que o Dinheiro Não Deveria Comprar” fosse um título mais próximo da tese central do autor.

Professor de política de um concorrido curso da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, Sandel introduz um elemento estranho no debate econômico: a dimensão moral do mercado. Não que ele tenha qualquer viés socialista. Ao contrário, trata-se de um admirador convicto da economia de mercado, que descreve como “valiosa e eficaz”. O que ele critica é a sociedade de mercado. A diferença é que, enquanto a economia de mercado é apenas uma ferramenta, a sociedade de mercado “é um modo de vida em que os valores de mercado permeiam cada aspecto da atividade humana”, afirma. “É um lugar em que as relações sociais são reformatadas à imagem do mercado.”

Sandel não está preocupado com a ganância, denunciada depois da crise de 2008 como a “falha moral” no cerne do triunfalismo do mercado, que o levou a assumir riscos de maneira irresponsável. Para ele, esse diagnóstico é apenas parcial. “A mudança mais decisiva ocorrida nas últimas três décadas não foi o aumento da ganância, mas a extensão dos mercados, e de valores do mercado, a esferas da vida com as quais nada têm a ver.”

O livro é construído sobre uma sequência infindável de exemplos que, com mais ou menos eficiência, ilustram a mesma conclusão: “Os mercados deixam sua marca nas normas sociais”.

Mesmo os exemplos mais prosaicos, como o desrespeito às filas, ajudam a compreender aonde o autor quer chegar. Ele detalha o mecanismo de fura-fila diante das salas de audiência do Congresso americano. É simples: os lobistas chegam a pagar mais de mil dólares para que outras pessoas fiquem horas guardando um lugar para eles. Não há nada de ilegal nisso, mas a prática foi considerada desmoralizante para o Congresso e insultuosa para o público, opinião que Sandel endossa. Afinal, a fila remunerada priva o cidadão comum da possibilidade de comparecer às audiências.

O autor conhece bem o argumento dos entusiastas da presença do mercado em todas as esferas da vida. Eles falam em liberdade individual e no caráter utilitário da ação. Se compradores e vendedores estão de acordo em relação ao preço, se não são coagidos a fazer o que fazem, se ambas as partes ganham com a transação, então por que não realizá-la? Simplesmente porque extrapolam os limites morais, responde Sandel.

O autor está ciente de que não é tarefa simples introduzir a perspectiva moral na lógica do mercado. Ele cita o caso da permissão de caçar rinocerontes negros, uma espécie em risco de extinção. Onde a caçada limitada é permitida, como na África do Sul, a população de rinocerontes vem crescendo, pois é do interesse econômico dos fazendeiros proteger os animais para que possam no futuro ser caçados. Já no Quênia, onde a caça é proibida, o número de rinocerontes continua caindo em decorrência da transformação de florestas em pastagens.

Nesse caso, o que é moralmente errado leva ao resultado desejável e vice-versa. O que é melhor? Sandel não tem uma resposta. Já no início do livro havia advertido que seu objetivo é menos encaminhar soluções do que estimular o debate. No caso do mercado de rinocerontes, ele apenas constata que estamos diante de algo “moralmente complexo” e segue adiante.

Outro exemplo gerador de ambiguidade é o mercado de créditos de carbono. Por um lado, é uma espécie de “licença moral para poluir” (Sandel lembra que os críticos do sistema o comparam às indulgências papais, aqueles pagamentos à Igreja Católica que compensavam transgressões nos tempos medievais). Por outro lado, os créditos têm tido algum impacto na redução da emissão de gás carbônico.

Na maior parte dos exemplos, no entanto, é fácil concordar com o autor. Filhos, amizades, vistos de refugiados políticos, rins, há quase um consenso de que tais coisas não deveriam ser tratadas como mercadoria. O “quase” fica por conta de Gary Becker, economista americano que defende que tudo pode ser reduzido a uma transação comercial. Becker surge no livro como antípoda de Sandel, que chega a citá-lo nos agradecimentos por ter lhe dado a oportunidade de, num seminário de que ambos participaram, testar em público seus argumentos contra a supremacia das escolhas racionais, “ponto de partida da abordagem econômica em qualquer questão”.

“O Que o Dinheiro Não Compra” vai além da questão ética. Sandel está preocupado com as consequências, para a sociedade, da “marquetização de tudo”. Ele acredita que, em tempos de desigualdade crescente, tal atitude amplia o abismo entre as pessoas abastadas e as de poucos recursos. “Vivemos, trabalhamos, compramos e nos distraímos em lugares diferentes. Nossos filhos vão a escolas diferentes. Estamos falando de uma espécie de ‘camarotização’ da vida.” O autor se refere aos Estados Unidos, mas a noção pode ser aplicada também ao Brasil, onde o camarote da elite econômica é ainda mais exclusivo.

O professor de política não deixa de apontar a interseção entre esse vácuo cívico e uma ameaça aos princípios democráticos. “Democracia”, lembra ele, “não quer dizer igualdade perfeita, mas de fato exige que os cidadãos compartilhem uma vida comum.” Embora Sandel não liste a democracia como algo que não possa ser comprado, não há dúvida de que aí está um valor que não tem preço.
“O Que o Dinheiro Não Compra”

Michael Sandel. Tradução: Clovis Marques. Civilização Brasileira. 240 págs., R$ 24,90

Oscar Pilagallo é jornalista e autor de “História da Imprensa Paulista” (Três Estrelas) e “A Aventura do Dinheiro” (Publifolha)

28/08/2012 - 09:30h PAC é usado como cabo eleitoral

Por Sérgio Ruck Bueno, Paola de Moura e Marcos de Moura e Souza | VALOR

De São Paulo, Rio e Belo Horizonte

Os partidos que hoje governam municípios contemplados por recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) da Mobilidade já pegaram carona nas obras com recursos federais para reforçar a campanha eleitoral. Os projetos anunciados pela presidente Dilma Rousseff desde o final do ano passado e direcionados, sobretudo, para a Copa do Mundo e Olimpíada, se destinam principalmente a criar ou ampliar metro e o sistema de ônibus de trânsito rápido (BRTs). Representam um chamariz de votos tão significativo que nem os candidatos de oposição ousam contestar.

Previsto para ficar pronto em 2017, o metrô de Porto Alegre é uma bandeira unânime entre os candidatos à prefeitura. Todos prometem empenho para que a primeira linha – de 14,9 quilômetros entre o centro e a zona norte – saia do papel, principalmente cobrando os recursos do PAC da Mobilidade anunciados em 2011. Também afirmam que o sistema deve ser integrado aos ônibus de trânsito rápido.

O metrô de Porto Alegre está orçado em R$ 2,46 bilhões e em outubro do ano passado Dilma Rousseff anunciou R$ 1 bilhão a fundo perdido para financiar parte do projeto, em regime de parceria público privada (PPP). O restante será bancado por meio de empréstimos tomados pela prefeitura e pelo Estado, que também concederão isenções fiscais para as obras, enquanto o consórcio vencedor da licitação para construir e operar o sistema por 30 anos entrará com cerca de R$ 150 milhões.

Segundo o prefeito José Fortunati (PDT), que pretende lançar o edital para construção do metrô em 2013, o sistema será “complementar” aos BRTs e também ao trem de superfície operado desde 1985 pela Trensurb, estatal vinculada ao Ministério dos Transportes que liga a capital a cinco municípios da região metropolitana. Com a integração, ele acredita que será possível eliminar parte das mais de 30 mil viagens de ônibus diárias até o centro da cidade.

Porto Alegre tem corredores para ônibus desde o fim da década de 1970 e três deles receberão os ônibus de trânsito rápido até a Copa de 2014, explica o prefeito. Dois já estão em obras e um em fase de contratação. Os investimentos somam R$ 195,1 milhões, financiados pela Caixa Econômica Federal, incluindo estações de embarque e desembarque fechadas e climatizadas. No novo sistema, a velocidade média dos coletivos nos corredores passará dos atuais 18 para 30 quilômetros por hora.

A deputada federal licenciada Manuela D’Ávila, que concorre pelo PCdoB, concorda que a integração entre diferentes modais são a melhor solução. Para ela, o futuro prefeito deve “acelerar” as negociações com os governos federal e estadual para iniciar as obras do metrô e captar novos recursos para ampliar o sistema linhas de ônibus rápidos.

O candidato do PT, deputado estadual Adão Villaverde, diz que a construção e a integração do metrô aos demais modais é urgente porque Porto Alegre é uma cidade “média” com problemas de “metrópole”. Se eleito, quer “garantir” o repasse dos recursos necessários à implantação do metrô, além de buscar financiamento para criar a quarta avenida perimetral, ao lado de obras já projetadas ou em andamento para a Copa do Mundo.

Para o candidato do PSOL, Roberto Robaina, tanto os BRTs quanto o metrô são importantes, mas ele teme que o dinheiro do governo federal fique na promessa. Caso seja eleito, promete ir a Brasília “com o cheque na mão para Dilma assinar”. Para o candidato do PSDB, Wambert Di Lorenzo, o metrô é necessário, mas virá “com pelo menos 30 anos de atraso” e se não for logo ampliado não impedirá que a cidade “pare” em mais 15 anos. Já para o candidato do PSTU, Érico Corrêa, que defende a estatização do transporte, o metrô também deveria ser público.

Beneficiada pela Copa e, principalmente, pela Olimpíada, a cidade do Rio de Janeiro ganhará, em quatro anos, 224 quilômetros de novas linhas de transporte em BRTs, VLTs (veículos leves sobre trilhos) e metrô, que somarão investimentos de mais de R$ 10 bilhões. Segundo o prefeito Eduardo Paes, candidato á reeleição, com a transformação, o percentual de usuários do transporte de massa deverá subir de 18% para 63%.

A maior parte das obras atende ao compromisso da prefeitura com o Comitê Olímpico Internacional para os jogos de 2016. Por isso, os candidatos de oposição não pretendem descumprir os projetos. No entanto, o candidato do PSOL, deputado estadual Marcelo Freixo, defende a implantação de trens de superfície nos traçados originas dos BRTs e acusa o atual prefeito de ter cedido às pressões das empresas de ônibus que também operarão os chamados ligeirões. Rodrigo Maia (DEM) critica a implantação dos BRTs, que envolve desapropriações, sem discussão prévia com a população.

O maior investimento na nova mobilidade do Rio está nas quatro linhas de BRT. Serão R$ 5,15 bilhões aplicados em 159 quilômetros de pistas para ônibus articulados. O primeiro deles, o chamado Ligeirão da Transoeste, foi inaugurado em junho. Já estão em operação 29 das 56 estações previstas no projeto.

Promessa antiga, a ligação do aeroporto do Galeão à Barra da Tijuca, também começou a ser construída. A chamada Transcarioca passará por bairros como Penha e Olaria. O terceiro BRT é também uma rodovia expressa: a quinta da cidade. Chamada de Transolímpica, a via que ligará o Recreio dos Bandeirantes ao bairro de Deodoro, foi concedida à iniciativa privada em licitação vencida pelo consórcio formado por CCR, Odebrecht e Invepar, que arcará com R$ 479 milhões. À prefeitura caberá investir mais R$ 1,072 bilhão.

Para o metrô, está em curso a construção da linha 4, uma obra polêmica. Planejado na década de 1990, o projeto foi alterado pelo governo estadual. Houve protestos e até investigação do Ministério Público. Mas agora as obras já avançam por três quilômetros de túneis escavados entre a Barra da Tijuca e São Conrado.

Metrô e BRT também são bandeiras de campanha em Belo Horizonte. O prefeito Marcio Lacerda (PSB), que busca a reeleição, se apoia não só obras do metrô, mas também no compromisso de Dilma para ajudar a construir um novo anel rodoviário. Lacerda aproveita a campanha para exibir sua obra mais visível: o BRT, que deve ser inaugurado no próximo ano. O candidato do PT, Ananias Patrus, diz que, se eleito, não tem nem o que discutir: dará continuidade a esses projetos.

Esta é a segunda reportagem da série “Mobilidade nas Eleições” do jornal VALOR

28/08/2012 - 09:07h Relações de Lula e Campos por um fio

Por Raymundo Costa – Valor

Amigos inseparáveis, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, estão com as relações pessoais e políticas estremecidas. Na realidade, os dois chegaram à beira do rompimento, depois que Eduardo Campos se recompôs politicamente com o senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE), com o início da campanha eleitoral. Mas o que move PT e PSB, numa disputa quase fratricida, são as duas próximas eleições presidenciais.

Lula “adorava” Jarbas, segundo contam amigos do ex-presidente, mas os descaminhos da política levaram o senador pernambucano a se transformar num dos mais ácidos críticos do presidente, no segundo mandato. A memória de Lula ainda traz bem impressa a imagem de uma visita que Jarbas fez à sua casa, em São Bernardo do Campo.

Para mostrar a admiração que tinha por Jarbas, Lula costuma contar uma das “maiores humilhações” que teria sofrido até hoje. O agora ex-presidente recebeu em sua casa, em São Bernardo do Campos, o já consagrado senador e sentou-se num sofá surrado bem sobre o rasgão que não gostaria que Jarbas visse. Constrangido, não se levantava e passou a maior parte do tempo sentado, o que impedia Jarbas também, por educação, de levantar e ir embora.

Estremecimento Lula e Campos é uma prévia de 2014

À época, Jarbas era um dos mais importantes líderes do grupo do PMDB que fazia oposição ao regime militar. Quando assumiu o Palácio do Planalto, Lula tinha boas expectativas em relação ao senador. Ocorre que entre os dois havia Eduardo Campos, adversário de Jarbas, à época ministro da Ciência e Tecnologia, presidente nacional do PSB e deputado de boa cepa pernambucana: neto do lendário governador Miguel Arraes.

Em pouco tempo, Eduardo se tornou uma ameaça ao PT. Além de estirpe, o governador pernambucano se revelou um hábil articulador político e não tardou a botar novamente de pé o antigo Partido Socialista (PSB). Sob o olhar condescendente de Lula e a desconfiança do PT, aos poucos o governador foi avançando pelo Nordeste, região eleitoralmente forte e que recebeu grandes benefícios do governo Lula. Tanto que o PT ganhou as últimas eleições com facilidade na região.

Eduardo Campos decidiu fazer um gesto de boa vontade eleitoral em São Paulo: não foi fácil, mas ele conseguiu convencer os dirigentes do PSB local a apoiar o candidato do PT a prefeito, o ex-ministro da Educação Fernando Haddad. “Fizemos quase uma intervenção branca apenas para atender o Lula, que, todos nós sabemos, quer eleger o Haddad”, conta um dirigente do PSB. Os pessebistas ofereceram duas opções para a vice: a deputada Luiza Erundina e o educador César Calegari. O PT escolheu Erundina.

Outro conflito PT-PSB foi o do Recife. Os pessebistas concluíram que Lula errou do início ao fim na negociação para manter a aliança entre os dois partidos: O PT exigia liderar a aliança quando estava rachado em três facções. Lula também não se impôs ao PT e apontou um candidato como fez em São Paulo.

“Vamos lançar o nosso [candidato]. Se eu entrar nessa história não vamos ficar bem com nenhum dos lados [as facções do PT em disputa]. Como o PT é o partido no poder, o PSB considera legítimas suas aspirações por espaço, mas entende que o que a sigla quer mesmo é se tornar “exclusivista e esquece que a época do stalinismo passou”, avalia-se no PSB. A sigla, por exemplo, acha que teria boas chances nas eleições de Salvador. O PT não abriu mão de impor o nome de Nelson Pelegrino. Restaram à sigla de Eduardo cidades com menor potencial eleitoral no Norte do país. Essa é a queixa.

No fundo, o que contamina as relações entre PT e PSB é o pós-lulismo, o que virá depois do controle, esse sim quase hegemônico, do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. As relações pessoais entre Lula e Eduardo, embora abaladas, em breve serão restabelecidas, conforme acreditam os mais radicais de um e outro partido.

A relação política é outra coisa. Quando Lula se queixou da aliança de Eduardo com Jarbas, o pernambucano reagiu com o chamado tapa com luvas de pelica: ele não fora à casa do senador do PMDB para pedir apoio político. Jarbas é que o visitara.

Lula, evidentemente, não gostou de ser lembrado da visita que fez à casa de Paulo Maluf para celebrar a aliança do PP com o PT, em São Paulo. Assim como Eduardo Campos dificilmente vai dar crédito à explicação, dada no Planalto, segundo a qual aguardara por quatro horas para ser recebido pela presidente Dilma Rousseff.

De acordo com o Palácio do Planalto, o que ocorreu foi uma grande confusão: quando já se estava com o programa de concessões pronto para o lançamento, alguém lembrou que os governadores não haviam sido convidados para a cerimônia. Foi um corre-corre, noite adentro. Pelo menos uns 20 governadores conseguiram modificar a agenda e arrumar transporte para Brasília. Eduardo entre eles.

Posteriormente, alguém teria visto o governador de Pernambuco na antessala de um assessor e vazou a versão segundo a qual ele esperou para ser recebido. Verdadeira ou não, o fato é que Eduardo registrou a intriga: “Ela se esquece que depois dessa eleição tem outra”. Referia-se a Dilma, é claro.

Eduardo já disse que não quer ser candidato ao Senado ou a vice-presidente, quando deixar o governo. Ele efetivamente analisa a “tática Ciro”, ou seja, sair candidato já em 2014 a fim de se tornar conhecido para 2018. Mas também conversa com Aécio Neves – uma conversa aparentemente sem futuro, pois caberia a ele a vice, enquanto o tucano ficaria com a cabeça de chapa.

Sobre o futuro da relação do grupo, é ilustrativo um episódio ocorrido antes da viagem de Dilma ao México. A presidente perguntou a Gleisi Hoffmann qual seria o presente oficial da comitiva. Dilma não gostou da resposta e determinou: “Liga para a Fatinha [mulher do governador Jaques Wagner] ou para a Renata [mulher de Campos]. Evidentemente ela pensava em uma peça com a cara do Nordeste brasileiro.

Raymundo Costa é repórter especial de Política, em Brasília. Escreve às terças-feiras

E-mail: raymundo.costa@valor.com.br