20/08/2012 - 09:41h Programa de apoio à pesquisa investirá R$ 1,5 bi em 4 anos

Entre as medidas que devem sair até o fim do ano destaca-se o programa Ciência Inovadora Brasil, que vai complementar o Ciência Sem Fronteiras

Por João Villaverde | VALOR

De Brasília

O governo vai anunciar até o fim do ano uma série de medidas para estimular a inovação na indústria de transformação e na economia como um todo. Entre elas destaca-se o programa Ciência Inovadora Brasil, que vai complementar o Ciência Sem Fronteiras, e está em fase final de detalhamento entre os técnicos do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). O novo programa deve consumir R$ 1,5 bilhão entre 2013 e 2016, e já tem o sinal verde da presidente Dilma Rousseff.

O governo também deve editar uma medida provisória que vai fortalecer a Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii). Em outra frente, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (Mdic) deve concluir até o fim de setembro um programa de apoio à inovação nas micros e pequenas empresas. Finalmente, os estudos sobre a transformação da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) em instituição financeira estão avançados e uma decisão do Palácio do Planalto sobre o assunto pode ser tomada até o início de 2013.

Depois do ativismo pela inovação no início do governo, em 2011, quando foi lançado o programa Ciência Sem Fronteiras – que deve conceder, até 2014, bolsas de estudos de até três anos no exterior para 101 mil estudantes de graduação, mestrado e doutorado -, e o orçamento da Finep foi dobrado, o tema perdeu força na área econômica. Segundo técnicos do governo, o agravamento da crise mundial determinou a mudança de enfoque do governo.

Por meio do programa Ciência Inovadora Brasil, o governo quer estimular os pesquisadores e professores com doutorado completo a desenvolver projetos em parceria com empresas privadas em diversas regiões do país. Apenas nas universidades públicas são quase 75 mil pesquisadores docentes com doutorado e todos poderão participar do novo programa. “Nosso interesse é aproximar o pesquisador brasileiro das demandas empresariais”, disse o ministro Marco Antônio Raupp, de Ciência, Tecnologia e Inovação.

A ideia do governo é tornar disponível ao pesquisador uma bolsa de produtividade de R$ 50 mil para que desenvolva, no prazo de três anos, um projeto de pesquisa com foco em áreas consideradas estratégicas, que serão detalhadas nos editais. O pesquisador terá direito também a uma bolsa de iniciação científica para oferecer a um estudante de graduação e duas bolsas de iniciação científica júnior para alunos do ensino médio da região onde o projeto será realizado. O objetivo do governo é estimular a “regionalização” da pesquisa.

Outra iniciativa do programa será disponibilizar, por meio do CNPq e da Capes, 6 mil bolsas para pesquisadores (3 mil para pesquisadores com mestrado concluído e 3 mil para doutores) para projetos de pesquisa feitos em parceria com empresas. Para ter acesso a uma dessas bolsas, o pesquisador deve apresentar um projeto inovador para a companhia, que, por seu lado, deve ceder um “co-orientador” para a pesquisa a ser desenvolvida.

Na visão do governo e do CNPq, o programa deve funcionar como um “complemento” ao Ciência Sem Fronteiras. “Quando o estudante enviado ao exterior por meio do Ciência Sem Fronteiras voltar ao Brasil, o novo programa do governo, focado em mestres e doutores, poderá funcionar como uma extensão da experiência internacional”, diz Glaucius Oliva, presidente do CNPq.

Ao mesmo tempo, o secretário de Inovação do Ministério do Desenvolvimento, Nelson Fujimoto, prepara um programa nacional de apoio à inovação nas micros e pequenas empresas. “Precisamos não apenas dar financiamento a esses empresários, mas também condicioná-lo a inovar, aproximando centros e instituições de pesquisa na indústria.” Fujimoto estuda formar uma parceria entre Sebrae e Finep com companhias privadas.

O governo também estuda tornar a Finep uma instituição financeira, como quer o presidente da instituição, Glauco Arbix. Caso seja efetivamente aprovada, a mudança vai permitir à Finep emitir títulos em mercado e, com isso, se capitalizar sem depender de recursos do Tesouro e fundos setoriais.


“Inovação não depende só do governo”

Ruy Baron/Valor / Ruy Baron/Valor
Marco Antonio Raupp, ministro de Ciência e Tecnologia: “Temos muito cacique e pouco índio, precisamos de mais índios, de pesquisadores do chão de fábrica”


O governo vai editar uma medida provisória ainda neste ano que vai estruturar a Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii) e dotá-la de mais recursos, afirmou o ministro de Ciência, Tecnologia e Inovação, Marco Antonio Raupp, ao Valor. Criada em caráter experimental em outubro de 2011, a Embrapii teve a adesão de apenas três institutos tecnológicos – Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), de São Paulo, Instituto Nacional de Tecnologia (INT), do Rio, e Senai-Cimatec, da Bahia. Com a reestruturação, passará a contar com mais institutos e centros de pesquisa, uma gestão própria e mais recursos.

Segundo Raupp, a Embrapii é “a perna que falta” na estrutura de inovação no país, uma vez que vai “fazer a ponte” entre centros de pesquisa e institutos tecnológicos e as empresas. Na entrevista, o ministro defendeu a política nuclear e uma atuação mais “empresarial” e “corporativa” dos centros de pesquisa e institutos federais. A seguir os principais trechos da entrevista.

Valor: Empresários e especialistas em inovação criticam o “distanciamento” entre empresas e centros e institutos de pesquisa. Como aproximar as duas pontas?

Marco Antônio Raupp: Em primeiro lugar, é importante destacar que a inovação não depende somente do governo, mas de um protagonismo das empresas. Precisamos ter uma cultura empresarial inovadora, algo que está ocorrendo no Brasil. O governo deve funcionar como um facilitador. Para isso, vamos estruturar a Embrapii, que vai aproximar os centros de pesquisa e os institutos tecnológicos das empresas. Fizemos uma experiência, com a gestão compartilhada com a CNI, e a participação de três institutos. Agora negociamos a adesão de mais institutos, como o Coppe (RJ), o Cesar (PE) e ITA (SP), uma gestão própria, que vai caracterizar a estruturação de fato da nova empresa, e, claro, mais recursos. A Embrapii vai fechar esse circuito de inovação no Brasil, servindo de ponte entre pesquisadores e empresários.

Valor: Pesquisadores e cientistas criticaram o fato de o orçamento do ministério ter sido cortado pelo contingenciamento de recursos no início do ano…

Raupp: Mas nosso braço de financiamento direto à inovação, a Finep, dobrou de tamanho. A Finep operava cerca de R$ 2 bilhões por ano até 2010, e desde o ano passado passou a operar R$ 4 bilhões. Queremos mais que isso. Esses R$ 4 bilhões são praticamente um orçamento paralelo ao do ministério, de ação direta na economia, injeção de recursos na veia. Costumo dizer que a inclusão do termo “inovação” no nome do ministério [que chamava-se apenas Ministério de Ciência e Tecnologia] custou R$ 4 bilhões.

Valor: Que avaliação o sr. faz dos institutos tecnológicos brasileiros?

Raupp: São de altíssimo nível. Mas há uma questão cultural que preciso destacar: temos uma tradição no Brasil que é a educação, a formação muito “bachaleresca”. Precisamos ter uma orientação diferente, mais técnica, ligada às demandas do país e das companhias instaladas aqui. Temos muitos caciques e poucos índios, e precisamos de mais índios, de pesquisadores do chão de fábrica, que ponham mais a mão na massa. Precisamos difundir uma cultura de inovação no sistema produtivo como um todo, porque às vezes o industrial acha que só precisa de um câmbio desvalorizado para que tudo funcione. Estamos no caminho de nos tornar país plenamente inovador, não estamos no zero, mas precisamos andar mais.

Valor: O sr. é favorável ao desenvolvimento de uma política nuclear mais ativa. Por quê?

Raupp: Sou francamente favorável, o Brasil deveria investir bastante na produção de energia de origem nuclear. Defendo isso, porque se trata de uma tecnologia limpa, não emite carbono. Precisamos, é claro, desenvolver soluções para armazenamento do lixo e ter segurança nos processos, mas isso tudo é inovação, por si só. Nossos riscos de desastres naturais, como o que ocorreu em Fukushima [Japão], é muito menor, mas ainda há problema de aceitação popular. Infelizmente, porque trata-se de algo fundamental para o país. (JV)


Patentes são poucas e difíceis de registrar no país

Por João Villaverde e Lucas Marchesini | VALOR

De Brasília

Fazer do Brasil uma economia inovadora foi uma das metas de campanha da presidente Dilma Rousseff, em 2010, e uma das prioridades de sua agenda. O governo lançou o programa Ciência Sem Fronteiras, condicionou o estímulo fiscal concedido à indústria automobilística a investimentos em inovação, dobrou o tamanho da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e até incluiu o termo “inovação” no nome do Ministério de Ciência e Tecnologia. Mas, segundo empresários, cientistas, pesquisadores, especialistas e gestores públicos, o esforço do governo terá de ser ainda maior e concentrado se quiser atingir seu objetivo.

A economia brasileira ainda não é inovadora, entende o próprio governo. O conceito de que as empresas brasileiras não têm cultura inovadora foi repetido por cientistas, autoridades e empresários em diferentes polos de atuação, como Helena Nader, presidente da Sociedade Brasileira de Pesquisa Científica (SBPC), e Glaucius Oliva, presidente do CNPq, e mesmo gestores públicos, como Nelson Fujimoto, secretário de Inovação do Ministério do Desenvolvimento. Como afirmou Oliva, “os níveis de inovação são ainda muito preocupantes”.

Ainda são poucas as patentes feitas por empresas brasileiras (31,7 mil pedidos em 2011) e é menor ainda a concessão de patentes (3,8 mil em 2011) pelo Instituto Nacional de Patentes Industriais (Inpi). O desempenho poderia ser ainda pior se o Inpi não estivesse “se esforçando além do limite”, segundo seu presidente Jorge Ávila, para reduzir a burocracia e aumentar a produtividade dos examinadores.

Empresas como a Dedini, fabricante de bens de capital sob encomenda, fazem parte de um grupo seleto de companhias que investem em pesquisa. Mas, segundo o vice-presidente José Luiz Olivério, “obter patentes no Brasil ainda demora enormemente”. Ele conta que a empresa fez um pedido de patente de aperfeiçoamento técnico de etanol celulósico ao mesmo tempo em 15 países, em 1996, e o Brasil foi o penúltimo a conceder a patente, em 2005.

O professor Henrique Barros, especialista em inovação do Ibmec, avalia que o Brasil está atrasado no campo da inovação principalmente por conta da baixa qualificação dos gestores e trabalhadores, de modo geral, e os mais qualificados esbarram no excesso de burocracia. De acordo com a pesquisadora Isa Assef, presidente da Associação Brasileira das Instituições de Pesquisa Tecnológica e Inovação (Abipti), os diferentes elos – universidades, institutos e empresários – não estão integrados.

Desde o início do ano passado, o governo federal tem intensificado contatos com o Instituto Fraunhofer, de Berlim, Alemanha, e ainda na gestão de Aloizio Mercadante no Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação foi fechado um convênio entre o instituto e o Brasil. O atual ministro, Marco Antônio Raupp, diz que o governo deve editar até o fim do ano uma medida provisória estruturando a Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii), que foi inspirada no modelo desenvolvido pelo Instituto Fraunhofer na Alemanha desde 1949.

“O governo brasileiro não deve esperar o sucesso da Embrapii da noite para o dia, o importante é manter uma relação direta entre pesquisadores, cientistas, acadêmicos e as empresas, em especial a indústria de transformação”, diz o diretor-presidente do Instituto Fraunhofer, Eckhart Bierdümpel.

08/07/2012 - 18:29h A guerra política por trás do bóson

Em meio à crise financeira, europeus e americanos disputam supremacia científica
08 de julho de 2012

JAMIL CHADE, CORRESPONDENTE / GENEBRA – O Estado de S.Paulo

Numa madrugada da semana passada, o cientista brasileiro Denis Damazio recebeu em seu celular um alerta da sala de comando do acelerador de partículas (LHC) do Centro Europeu para a Pesquisa Nuclear (Cern). Era uma anomalia detectada em uma peça da máquina de 8 bilhões e responsável pelo maior experimento de Física da história.

Além dele, centenas de cientistas vivem de “plantão” por conta do LHC. Quando o Cern anunciou na quarta-feira que havia encontrado sinais de uma partícula que pode ser o bóson de Higgs, cientistas no auditório do laboratório em Genebra comemoraram de forma parecida à da sala de comando da Nasa quando o homem pisou na Lua. A partícula pode ser a peça final do modelo criado por Peter Higgs em 1964 (mais informações nesta pág.).

A busca pela partícula já gera descobertas importantes, mesmo antes da confirmação do bóson de Higgs. Algumas tecnologias usadas para ver a “partícula de Deus” poderão em pouco tempo estar em hospitais. Uma delas são os cristais usados nos detectores do acelerador, que estarão em materiais de diagnóstico médico de empresas francesas. Na Itália, serão adaptados para a terapia contra o câncer.

Farmacêuticas estão de olho na rede de computadores que processa os dados gerados pelo LHC, que, para chegar ao resultado da semana passada, acumulou 500 trilhões de choques de prótons. Uma empresa britânica transplanta o modelo para ajudar na pesquisa de remédios.

“Há um círculo virtuoso na ciência quando se faz pesquisa”, explicou ao Estado o diretor do Cern, Rolf Heuer. “Estamos em busca da ciência pura, sem saber a que servirá. Mas temos certeza de que tudo o que desenvolvemos para lidar com problemas inéditos será útil para algum setor.”

Para registrar a nova partícula, um acelerador de 27 quilômetros foi construído no subsolo de Genebra. Partículas são direcionadas por milhares de ímãs esfriados a -271°C e lançadas no acelerador, completando 11,2 mil voltas e 600 milhões de choques por segundo. Para medir esses choques, os detectores têm 12,5 mil toneladas. Soluções para os problemas dessas máquinas serão necessariamente inéditos.

O carioca Damazio viveu na pele essa situação. Responsável pela transferência dos dados dos detectores para computadores, o físico carioca teve de inventar um algoritmo para filtrar as informações úteis. Seu “descobrimento” permitiu que o Cern trabalhasse com 20 mil computadores em vez de 100 mil.

Damazio só está no Cern graças a um laboratório americano, ao qual é vinculado. Ele lamenta a ausência oficial do Brasil no Cern. “O orçamento que se dedica no Brasil ao experimento é muito abaixo do adequado.” Ele não esconde a vontade de voltar ao País, mas sabe que isso pode significar o fim de seu envolvimento direto no experimento.

Dedicação. No Cern, apenas dinheiro não é sinônimo de resultados. Longe da imagem de festa da semana passada, os bastidores do centro revelam um cotidiano de dedicação, mais erros que acertos e uma guerra política por recursos e prestígio. Mais de 10 mil cientistas trabalham no Cern, em um cenário parecido ao da Cidade Universitária de São Paulo, com prédios baixos, muito verde, avenidas grandes e arquitetura questionável. Entrar na lanchonete pode ser um anticlímax, com comida por quilo e jovens cientistas circulando no verão europeu em camisetas largas e alguns até de chinelos.

Mas as aparências enganam. Para que cientistas acelerassem suas descobertas em relação ao bóson de Higgs, a direção estipulou que dois detectores do LHC – Atlas e CMS – se lançassem na busca da partícula, sem compartilhar informações. “A cobrança é constante”, disse um cientista, que não quis se identificar.

O Cern pagou caro por essa pressa. Em 2009 e 2010, o LHC sofreu uma pane. Motivo: a ordem era aumentar a energia que circularia no túnel, bater recordes e promover os choques dos prótons. A máquina não aguentou. Heuer diz que o Cern aprendeu a lição. Por isso vai suspender os choques no início de 2013 para que o LHC seja preparado para a nova fase, com energia recorde.

Ceticismo. Mesmo que não se possa dizer com certeza se a partícula descoberta seja a de Higgs, ninguém esconde que há uma guerra pelo predomínio nas ciências. Físicos americanos insistem que a partícula poderia ter sido descoberta há anos nos EUA. Mas o Congresso, em 1993, enterrou o projeto de um acelerador de US$ 11 bilhões. “Essa descoberta poderia e deveria ter sido feita nos Estados Unidos”, defendeu o físico Steven Weinberg, vencedor do Nobel de Física.

Com disputas políticas, brilhantismo científico e muito mistério, rapidamente Hollywood se interessou pelo assunto. Ainda neste ano, a Paramount Pictures lança o filme Partícula de Deus, que ocorre no futuro, num momento que europeus e americanos se enfrentam em uma Terceira Guerra Mundial. Astronautas transferem para o espaço a experiência de construir um acelerador, identificar o bóson de Higgs e construir uma super bomba.

04/07/2012 - 16:06h Perguntas e respostas sobre o bóson de Higgs

Ciência

O Estado SP

04.julho.2012

O que é o bóson de Higgs?

Atualmente, a partícula integra apenas teorias, inclusive a do Modelo Padrão, de que partículas compõem átomos, moléculas e tudo o que vemos e respiramos. A teoria, porém, não explica como essas pequenas partes ganham massa, tomando efetivamente forma. O bóson de Higgs seria justamente o que permite a essas partículas ganhar massa.

Como ele funciona?

Massa é, basicamente, o corpo de uma partícula (ou de qualquer outro objeto). Se não fosse pela massa, as partículas viajariam livremente pelo universo na velocidade da luz, jamais se uniriam e não haveria matéria. Segundo a teoria, existe um campo permeando o universo – o campo de Higgs, formado pelos bósons – permitindo que toda partícula obtenha sua própria massa. Qualquer partícula que interaja com esse campo ganha massa.

Mas apesar de se tratar primordialmente de massa, bóson de Higgs não tem massa própria estipulada inicialmente pelo Modelo Padrão.

Como os cientistas buscam o bóson?

No LHC, o maior e mais poderoso acelerador de partículas atual, os físicos provocam a colisão de raios de partículas subatômicas chamadas prótons a uma velocidade próxima à da luz. O processo gera um pequeno lampejo de energia que libera uma quantidade enorme de novas partículas.

Mas o bóson não é visível, mesmo com a tecnologia e os equipamentos avançados. O que os cientistas fazem é buscar traços deixados pelo bóson, uma vez que acreditam que a partícula se divide em outras menores após a colisão, deixando um rastro que dura um espaço curtíssimo de tempo.

Quando saberemos se a partícula foi achada?

O primeiro passo é estabelecer a massa do bóson, o que seria obtido com as informações obtidas sobre as pequenas partículas que servem como seu rastro. Depois, é preciso identificar se a partícula se comporta como a teoria prevê – a forma como interaje com outros elementos e como se desfaz em partes ainda menores.

E depois?

A descoberta efetiva do bóson vai confimar a teoria do Modelo Padrão e ajudar a explicar como o universo se formou, mas muitas questões permanecerão. Sabemos que o universo é composto de matéria, mas ela responderia somente por 4% do que podemos ver dele. O resto é formado por matéria e energia escuras, elementos que pouco conhecemos.

O que de fato o Cern conseguiu?

Os experimentos do Centro Europeus de Pesquisas Atômicas levaram à descoberta de uma nova partícula que pode ou não ser o bóson. Os cientistas identificaram uma curva nos dados sobre variação de massa após a colisão de hádrons que denunciou a presença de uma nova partícula cerca de 133 vezes mais pesada do que o próton existente no âmago de cada átomo.

O que não se sabe é se a partícula descoberta é realmente o bóson de Higgs, uma variante ou uma partícula subatômica completamente nova, que leve a reformulações das teorias sobre a formação da matéria. Os físicos responsáveis, porém, disseram que há indícios “fortes e sólidos” de que se trata da tão buscada partícula.

Por que ele é chamada de ‘partícula de Deus’?

Há diversas versões sobre isso, mas a mais disseminada tem como base o fato de que sem o bóson de Higgs o universo não se formaria. Assim, há uma referência irônica à teoria do criacionismo.

04/07/2012 - 14:28h Le boson de Higgs découvert avec 99,9999% de certitude

Le Monde.fr | 04.07.2012 à 13h39 • Mis à jour le 04.07.2012 à 13h39

Par David Larousserie – Le Monde

Collision de particules dans l'accélérateur LHC du CERN à Genève.

Cette fois, il n’y a plus de doute. Une nouvelle particule a bien été découverte au Centre européen de recherche nucléaire (CERN), près de Genève, grâce à l’accélérateur de particules LHC et ses deux principaux détecteurs, Atlas et CMS.

Le CERN et les deux porte-paroles de ces expériences ont annoncé avoir mis au jour un boson ressemblant fort au célèbre boson de Higgs. Cette particule, qu’il convient plus exactement de nommer “de Brout-Englert-Higgs” du nom de ses géniteurs théoriciens, est la pièce manquante au bel échafaudage construit par les physiciens pour décrire le monde de l’infiniment petit.

A l’issue de la présentation des résultats au CERN, l’Ecossais Peter Higgs, qui a donné son nom à ce Boson, a tenu à féliciter toutes les équipes ayant participé à la détection de cette particule. “C’est extraordinaire que cela soit arrivé de mon vivant”, a-t-il déclaré. Le Belge François Englert, qui lui aussi avait été convié à la conférence du CERN, s’est associé à ces félicitations. Il a tenu à exprimer “sa tristesse que notre collaborateur et ami de toute une vie, Robert Brout, n’ait pas pu assister à cette extraordinaire présentation”. Englert et Brout avaient cosigné en août 1964 un article décrivant un mécanisme donnant une masse aux particules. Peter Higgs avait décrit une particule du même type le 15 septembre 1964. La dénomination populaire du boson n’a retenu que son nom, sous l’influence de Steven Weinberg (Nobel de physique 1979) qui a contribué à vulgariser cette particule.

Elle joue un rôle majeur dans la nature car, sans elle, les particules n’auraient pas de masse. C’est comme si des objets initialement sans masse traversaient un milieu visqueux et se mettaient donc à peser de plus en plus lourd. La manière d’agréger la “boue” dépendant de l’interaction avec le fameux boson. Ainsi l’électron devient l’objet que nous connaissons et peut ensuite donner naissance à des atomes, des molécules… Bref à toute la matière qui nous entoure.

Lire : “Le boson de Higgs : les raisons d’une quête”

Il s’agit de la première particule élémentaire découverte depuis 1994. Elle était la dernière à échapper aux recherches et complète admirablement le modèle standard, sorte de table de la loi de la physique qui décrit les douze particules et les trois forces qui les unissent pour former la matière ordinaire.

“UN LABORATOIRE POUR UNE NOUVELLE PHYSIQUE”

Les salles de presse et celles réservées aux physiciens étaient combles pour le lever de voile sur les différents graphiques présentant les derniers résultats obtenus en moins de deux ans de fonctionnement de l’accélérateur (dont le projet a été officiellement été lancé en 1994). Il y a désormais plus de 99,9999 % de chances que l’observation soit correcte. La masse du nouveau venu est de 125 GeV (gigaélectronvolt) environ, dans les unités utilisées par les physiciens pour peser leurs bébés. C’est 133 fois plus qu’un proton, constituant élémentaire des noyaux atomiques, par exemple.

“Nous avons fini un chapitre mais d’autres sont à écrire”, a déclaré Guido Tonelli, ancien porte-parole de CMS, l’un des deux détecteurs qui a indentifié la particule. En effet, il faut d’abord vérifier que ce qui a été vu est bien le Graal attendu. Comment interagit ce boson avec les autres particules ? Tourne-t-il sur lui-même ? Bref, quelles sont toutes ses propriétés.

Lire : “Boson de Higgs : la fin de la traque”

La moindre anomalie, la moindre différence avec le boson standard, celui qui a été défini par la théorie, au lieu d’être un problème, serait même très excitante. Cela mettrait sur la voie d’une théorie au-delà de l’actuelle. “Ce boson est un laboratoire pour une nouvelle physique. Il peut ouvrir des portes. C’est très excitant”, ajoute Guido Tonelli. Car sur le papier les physiciens savent que leur élégant modèle standard ne résiste pas aux très hautes énergies comme l’Univers en a connu à ses débuts.

Ils ne savent pas non plus de quoi est faite la matière noire qui baigne le cosmos. Ni même l’énergie noire qui accélère l’expansion de l’Univers. Ils voudraient bien savoir aussi ce qui donne la masse à ce fameux boson. L’histoire n’est donc pas finie. “Nous avons de quoi nous occuper avec le LHC jusqu’en 2030 !”, constate Michel Spiro, le président du conseil du CERN.

Pour aller plus loin : voir une vidéo du CEA sur l’Atlas

David Larousserie

04/07/2012 - 12:48h ¿Qué es la ‘partícula de Dios’ y cuál es su real importancia?

miércoles 4 de julio del 2012

El reciente hallazgo es uno de los más significativos en la historia de la física. Una partícula subatómica clave en la formación de todo lo que hoy conocemos

El Comercio

Bosón de Higgs(AP)

(Reuters). Los científicos del centro de investigación CERN, en Suiza, presentaron el miércoles sus últimos hallazgos en la búsqueda del bosón de Higgs, una partícula subatómica clave en la formación de estrellas, planetas y eventualmente de vida, tras el Big Bang de hace 13.700 millones de años.

¿QUÉ ES EL BOSÓN DE HIGGS?
Esta partícula es la última pieza que falta en el Modelo Estándar, la teoría que describe la formación básica del universo. Las otras 11 partículas que se predecían en el modelo ya se han encontrado, y hallar el Higgs validaría el modelo. Descartarla o encontrar algo más exótico obligaría a revisar nuestra comprensión de cómo se estructura el universo.

Los científicos creen que en la primera billonésima de segundo tras el Big Bang, el universo era una gran sopa de partículas avanzando en distintas direcciones a la velocidad de la luz, sin ninguna masa apreciable. Fue a través de su interacción con el campo de Higgs como ganaron masa y, con el tiempo, formaron el universo.

El campo de Higgs es un campo de energía teórico e invisible que invade todo el cosmos. Algunas partículas, como los fotones que componen la luz, no se ven afectadas por él y por lo tanto no tienen masa. A otras las cubre, produciendo un efecto similar al de los cereales reunidos en una cuchara.

Esa partícula es teórica, y su existencia fue propuesta en 1964 por seis físicos, entre los que estaba el británico Peter Higgs.

Su búsqueda comenzó a principios de los 80, primero en el ahora cerrado colisionador de partículas Tevatron del Fermilab, cerca de Chicago, y más tarde en una máquina similar en el CERN. La investigación se intensificó a partir de 2010, cuando se puso en marcha el Gran Colisionador de Hadrones del centro europeo.

¿QUÉ ES EL MODELO ESTÁNDAR?
El Modelo Estándar es a los físicos lo que la teoría de la evolución es a la biología. Es la mejor explicación que ha encontrado la física sobre cómo se estructuran los elementos que forman el universo. Describe 12 partículas fundamentales, gobernadas por cuatro fuerzas básicas.

Pero el universo es un enorme lugar y el Modelo Estándar sólo explica una pequeña parte de él. Los científicos han identificado una distancia entre lo que podemos ver y lo que debe haber ahí. Esa distancia debe llenarla algo que no comprendemos por completo, a lo que han bautizado como “materia oscura”.

Además, las galaxias se van distanciando unas de otras más deprisa de lo que deberían según las fuerzas que sí conocemos. Esta otra incógnita la explica la “energía oscura”.

Se cree que la materia y la energía oscura, de las que entendemos muy poco, suponen el 96 por ciento de la masa y la energía del cosmos.

Confirmar el Modelo Estándar, o quizá modificarlo, sería un paso hacia el santo grial de la física, una “teoría de todo”, que incluya la materia oscura, la energía oscura y la fuerza de gravedad, que el Modelo Estándar tampoco explica. Además, podría arrojar luz sobre ideas aún más esotéricas, como la posibilidad de los universos paralelos.

El portavoz del CERN, James Gillies, ha dicho que al igual que las teorías de Albert Einstein desarrollaron y construyeron sobre la obra de Isaac Newton, el trabajo que hacen ahora los miles de físicos del CERN tiene el potencial de hacer lo mismo con la obra de Einstein.

04/07/2012 - 09:19h CIENTISTAS ANUNCIAM DESCOBERTA DO QUE PODERIA SER “PARTÍCULA DE DEUS” E ABREM NOVA ERA NA FÍSICA

Jamil Chade – Agência Estado

GENEBRA – Uma corrida bilionária que já durou meio século pode estar chegando ao seu fim e a ciência estaria a um passo de uma de suas maiores descobertas: a existência da “partícula de Deus”. Na manhã desta quarta-feira, 4, o Centro Europeu de Pesquisas Nucleares (Cern) anunciou em Genebra o que é a mais importante prova da existência da partícula que, para muitos, fecharia a explicação sobre a formação do Universo. A apresentação apontou a descoberta de uma nova partícula subatômica que poderia ser o bóson de Higgs, abrindo uma nova era para a Física.

“Atingimos um marco no nosso entendimento da natureza”, declarou Rolf Heuer, diretor do Cern. “A descoberta é consistente com o bóson de Higgs”, disse.

A teoria é que é essa partícula que garante massa a todas as demais e, portanto, central na explicação do Universo. Conhecida fora do mundo da ciência como “partícula de Deus”, trata-se da última fronteira não resolvida pela física. Nos anos 60, Peter Higgs desenvolveu uma teoria na qual uma energia invisível preencheria um vácuo no espaço. Ao se moverem, partículas são puxadas uma contra as outras, dando massa a um âtomo. Já as partículas da luz não sentem essa atração e não contam com massa. Sem a partícula responsável por unir as demais, átomos não conseguiram ser formados no início do Universo e a vida como a conhecemos hoje simplesmente não existiria. O problema é que sua partícula hipotética – o bóson de Higgs – jamais foi encontrada, pelo menos até hoje.

Depois de acumular dados de milhares de choques de partículas no acelerador subterrâneo construído entre a Suíça e França e que custou US$ 8 bilhões, os cientistas praticamente confirmam a existência de sinais da partícula. Dois experimentos diferentes – os detectores Atlas e o CMS- se lançaram na corrida pela partícula no Cern e hoje estão comparando seus resultados.

Joe Incandela, porta-voz do CMS, confirmou que seu experimento detectou fortes sinais do bóson. “São resultados muito sólidos”, disse. Ao mostrar a tabela, ele mesmo confessou: “nem posso acreditar”. “São indícios muito fortes”, disse. A margem de erro ou variação no dado é de um a cada 1 milhão de eventos.

No Cern, cientistas insistem que o resultado final e a revelação sobre o “Santo Graal” da física só teria como rival a descoberta da estrutura do DNA, há 60 anos. “Essa é a semana mais excitante da história da física”, declarou Joe Lykken, do Fermi National Accelerator Lab (Fermilab) que conduziu as pesquisas nos Estados Unidos nesta semana. Se for confirmada sua existência, a descoberta abrirá o caminho para detalhar o funcionamento de átomos e do próprio Universo.

03/02/2012 - 19:50h Estudo indica que álcool presente no vinho também é benéfico ao coração


Substâncias do vinho tinto têm diferentes efeitos positivos sobre as moléculas inflamatórias causadoras da aterosclerose em seus estágios adiantados

03 de fevereiro de 2012

Efe – Agência Estado

Um grupo de cientistas espanhóis constatou que até o álcool do vinho tinto é beneficente para a saúde cardiovascular, desde que o consumo seja moderado, informou nesta sexta-feira, 3, o centro onde a pesquisa foi desenvolvida.

Arquivo/AE
Combinação das substâncias do vinho é mais eficaz em pacientes com alto risco cardiovascular - Arquivo/AE

Combinação das substâncias do vinho é mais eficaz em pacientes com alto risco cardiovascular

Segundo o estudo publicado no “American Journal of Clinical Nutrition”, tanto o etanol como os polifenóis presentes no vinho tinto têm diferentes efeitos beneficentes sobre as moléculas inflamatórias causadoras da aterosclerose em seus estágios adiantados, assim como a combinação de ambos é mais eficaz em pacientes com alto risco cardiovascular.

Estas são as principais conclusões da pesquisa desenvolvida por três grupos do Centro de Pesquisa Biomédica em Rede-Fisiopatología da Obesidade e a Nutrição (Ciberobn), dirigidos por Ramón Estruch, Francisco José Tinahones e Dolores Corella.

Trata-se, segundo uma nota do Ciberobn, do primeiro teste clínico que demonstra os efeitos beneficentes do etanol e dos polifenóis, substâncias químicas presentes nas plantas.

Os pesquisadores detalharam que a pesquisa foi iniciada a partir de um “paradoxo francês”, já que os habitantes da França sofrem uma incidência “relativamente baixa” de doença cardíaca mesmo com uma dieta rica em gorduras saturadas.

Essa tendência fez com que os cientistas especulassem sobre a possibilidade deste fato estar relacionado com um maior consumo de vinho tinto, que contém uma elevada concentração de polifenóis, potencialmente beneficentes para o coração.

“No entanto, o que ainda não tinha sido demonstrado era que o etanol também contribuísse para reduzir a inflação arterial e celular”, como aponta o estudo.

Para chegar às conclusões sobre as “virtudes” do consumo moderado do álcool, os pesquisadores do Ciberobn recrutaram 73 homens com alto risco cardiovascular, todos com idades compreendidas entre os 55 e 75 anos.

Os selecionados eram consumidores moderados de álcool e tinham diabetes ou três dos seguintes fatores de risco cardiovascular: tabagismo, hipertensão arterial, colesterol, obesidade e parentes com doença coronária prematura.

Os pesquisadores comprovaram que o álcool (sem polifenóis) exerceu um efeito antiinflamatório em pacientes de alto risco e diminuiu os níveis de alguns marcadores inflamatórios. Já a combinação de etanol e polifenóis do vinho afeta mais os pacientes com alto risco cardiovascular.

“O estudo indica que a redução do risco de doença cardiovascular entre os consumidores de vinho tinto observado na maioria dos estudos epidemiológicos pode depender de uma combinação de ambos, o álcool e os polifenóis, e não só destes últimos como se achava até agora”, aponta Estruch.

03/02/2012 - 17:38h Nova ’super-Terra’ pode ter água líquida


O GL 667Cc orbita uma anã vermelha que faz parte de um sistema de três estrelas distante 22 anos-luz da Terra

Segundo cientistas, o planeta deve ter temperatura similar à da Terra em sua superfície

THIAGO FERNANDES COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Um planeta rochoso com 4,5 vezes a massa da Terra e que orbita uma estrela a “apenas” 22 anos-luz daqui é o mais novo candidato a conter água no estado líquido fora do Sistema Solar.

O GL 667Cc, que em termos astronômicos está na nossa “vizinhança”, é o quarto a ser identificado na chamada zona habitável de sua estrela.

Essa zona é a faixa onde os astrônomos calculam que o planeta possa receber uma quantidade de energia semelhante à que a Terra recebe do Sol. Isso permite que a superfície do planeta tenha temperaturas semelhantes às daqui. O novo planeta é, agora, o que tem melhores chances de ter água líquida e condições de abrigar vida.

No entanto, para o astrônomo Fernando Roig, do Observatório Nacional, o que mais chama atenção são as características da estrela que ele orbita, a Gliese 667C.

Parte de um sistema com duas outras estrelas na constelação de Escorpião, ela tem uma atmosfera muito mais pobre em metais do que o Sol.

“Sempre se considerou que a presença desses elementos seria fundamental para a formação de planetas do tipo terrestre”, afirma Roig.

A descoberta indica que a formação de planetas rochosos pode não ter nada a ver com a atmosfera da estrela que eles orbitam. “Esse é o primeiro exemplo de um planeta desse tipo orbitando uma estrela pobre em elementos pesados”.

Uma outra característica importante da Gliese 667C é o fato de ela ser uma anã vermelha do tipo M. Isso significa que ela é bem mais fria que o Sol, cuja superfície tem temperatura de 5.500º C.

Na 667C, a temperatura da superfície está por por volta de 3.500º C. E como sua massa é de 38% a do Sol, sua luminosidade equivale a apenas 0,3% a da nossa estrela.

Apesar disso, o que garante o potencial de vida no novo planeta é sua proximidade da estrela. Ele está a uma distância equivalente a três quartos do espaço entre Mercúrio e o Sol.

Essa proximidade dá ao planeta um período orbital muito curto, completando uma translação em 28 dias.

Além disso, grande parte de sua luz está na faixa infravermelha, que é bem absorvida na forma de calor.

Conforme explica a astrônoma Lucimara Pires Martins, professora do núcleo de astrofísica teórica da Universidade Cruzeiro do Sul, é ao redor desse tipo de estrela que há esperança de encontrar planetas “promissores”.

“Para encontrar água líquida, é preciso ter temperaturas amenas, então a busca vem se concentrando naquelas com temperatura equivalente ou mais frias que o Sol.”

O planeta foi detectado por meio das pequenas oscilações que sua gravidade provoca na órbita da estrela, que abriga ainda outro planeta, o GL 667Cb, localizado ainda mais perto. Seu período orbital é de apenas sete dias, o que o deixa muito quente para ter água líquida.

A descoberta das condições do novo planeta foi feita por astrônomos independentes a partir da análise de dados do ESO (Observatório Europeu do Sul), no Chile, e será publicada no “Astrophysical Journal Letters”.

02/02/2012 - 18:04h Sonidos del silencio

Jueves, 02 de febrero de 2012

Mirko Lauer – La República

La BBC informa sobre un equipo de investigadores que ha logrado reconstruir palabras exclusivamente a partir de las ondas eléctricas emitidas por pacientes que las han pensado. El informe científico sobre el tema está en la revista PLOS Biology, y la página de la BBC presenta un audio con el desciframiento auditivo de estas palabras pensadas.

Las consecuencias médicas de este hallazgo en el campo de la expresión del lenguaje por un medio no vocal son espectaculares (por ejemplo para pacientes en coma). Pero sus perspectivas no se detienen allí. Vienen implícitas posibilidades como la lectura del pensamiento, y acaso también en algún momento la comunicación telepática.

El perfeccionamiento y la difusión de este hallazgo pueden cambiar radicalmente algunas realidades claves en la relación entre los humanos. Lo primero que viene a la mente es la frase según la cual somos dueños de nuestro silencio. El pensamiento podría dejar de ser el arca inexpugnable de nuestros secretos más profundos.

Quizás esta situación se veía venir. No solo en los avances de la neurociencia, sino también en el refinamiento creciente de los métodos tecnológicos para hurgar en la intimidad de las personas. Desde los escaneos hasta el chuponeo, pasando por el código genético, la humanidad ha venido despojándose de su lado desconocido.

Ya existen maneras parciales de “leer el pensamiento”. El psicoanálisis es una. La observación de la conducta del cuerpo es otra. El detector de mentiras es otra. Las resonancias magnéticas funcionales y la tomografía de emisión de positones son otras. La novedad en este caso es la posibilidad de un acceso al pensamiento en propias palabras.

El lingüista Noam Chomsky habla de un lenguaje de pensamientos (mentalese) que no requiere de palabras. En cambio para el psicoanalista Jacques Lacan no hay pensamiento sin palabras. ¿Pero cuáles son nuestras propias palabras cuando pensamos en palabras? No descartemos que el nuevo invento abra más incógnitas de las que resuelva.

En un plano más sencillo y cotidiano, ¿cómo vamos a defender nuestra intimidad craneana cuando llegue el día? La respuesta más fácil es manteniéndonos alejados del aparato descifrador. Pero hasta ahora casi no hay privacidad que no haya sido alcanzada por la tecnología. ¿O aprenderemos a moderar nuestras emisiones eléctricas?

Un dato que no debe pasar inadvertido es que en el experimento que comenta la BBC el primer caso demostrable de comunicación de palabras desde el cerebro (si bien limitada a palabras individuales y no a ideas) no habría sido entre dos personas, sino entre una persona y una máquina.

25/01/2012 - 17:00h Pesquisadores desenvolvem protetor solar que combate rugas e flacidez

Fórmula alia dois tipos de substâncias fotoprotetoras aos extratos vegetais de Ginkgo biloba e de algas marinhas vermelhas
25 de janeiro de 2012

Agência Fapesp – O Estado SP

Um filtro solar que, além de proteger contra os efeitos nocivos da radiação ultravioleta, melhora a textura e a elasticidade da pele, estimula a renovação celular, hidrata e diminui as rugas foi desenvolvido por uma equipe de pesquisadores da Universidade de São Paulo em Ribeirão Preto.

A fórmula alia dois tipos de substâncias fotoprotetoras aos extratos vegetais de Ginkgo biloba e de algas marinhas vermelhas. Também foram adicionadas as vitaminas A, C e E.

“Em pesquisas anteriores, havíamos confirmado que alguns extratos vegetais eram capazes de melhorar as condições da pele fotoenvelhecida e de torná-la menos vulnerável aos danos da radiação. Então, tivemos a idéia de associar esses extratos a filtros solares, para potencializar o efeito protetor”, disse Patrícia Maia Campos, coordenadora da pesquisa.

As vitaminas foram acrescentadas para estimular a renovação celular e melhorar as condições gerais da pele, elaborando assim um creme multifuncional, explicou a farmacêutica.

O projeto, intitulado “Desenvolvimento, estabilidade e eficácia pré-clínica e clínica de formulações fotoprotetoras contendo vitaminas lipossolúveis e extratos de Ginkgo biloba e algas marinhas vermelhas”, foi financiado pela FAPESP na modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular.

O primeiro passo foi desenvolver uma formulação com filtros fotoestáveis, ou seja, capazes de permanecer ativos na presença da luz, com fator de proteção solar (FPS) 20. Para isso foram combinados filtros químicos (orgânicos), compostos por moléculas capazes de absorver os raios ultravioleta e transformá-los em raios de baixa energia inofensivos à pele, e filtros físicos (inorgânicos), que refletem a radiação e impedem sua penetração.

“Adicionamos então extratos vegetais e vitaminas. Testamos várias combinações de ingredientes. O desafio foi criar um produto com características sensoriais adequadas, pois, se você fizer um creme muito gorduroso ou que não espalha, ninguém usa”, disse a pesquisadora.

Em parceria com o laboratório francês Evic, a compatibilidade dérmica do produto foi avaliada e se atestou sua segurança para uso cosmético. Nesse momento da pesquisa, em 2008, um dos trabalhos do grupo foi apresentado no Congresso da Sociedade Internacional de Químicos Cosméticos, em Barcelona.

Os resultados chamaram a atenção de pesquisadores do Centre de Recherches et d’Investigations Épidermiques et Sensorielles da empresa francesa Chanel.

“Eles nos convidaram para visitar o centro e firmamos uma parceria. Com a participação de minha aluna de doutorado Mirela Donato Gianeti, investigamos se a formulação também protegia contra grandes variações climáticas e o resultado foi muito positivo”, contou Campos.

Graças à presença dos extratos vegetais, a pele das voluntárias ficou livre de danos tanto no alto verão como no inverno e também em condições de mudança brusca de temperatura.

Paralelamente, foi avaliada a influência do creme na percepção tátil das voluntárias. Essa sensibilidade, explicou Campos, fica prejudicada na pele envelhecida.

“A formulação melhorou a hidratação e a função barreira da pele, ou seja, diminuiu a perda de água na camada mais superficial. Isso resultou em uma melhora da percepção tátil, pois trouxe de volta as condições de uma pele saudável”, disse.

Segundo Campos, a fórmula está pronta para ser comercializada, mas ainda não houve contatos com empresas do setor nesse sentido. Parte da pesquisa foi publicada na revista Journal of Investigative Dermatology.

Proteção ao DNA

Testes feitos com camundongos mostraram que o produto desenvolvido na USP em Ribeirão Preto reduziu a presença das proteínas p53 e caspase-3, marcadores genéticos que indicam dano celular causado pela radiação. “Houve ainda menor produção da enzima metaloproteinase, que destrói o colágeno e deixa a pele flácida”, disse Campos.

Em uma segunda etapa feita com voluntárias humanas, avaliou-se a ação do creme em tempo real, por meio de técnicas de biofísica e imagem da pele. Também foi usada uma técnica chamada microscopia confocal de reflectância a laser, que permite ver as alterações celulares sem o uso de biópsias.

“Foi possível observar uma hidratação profunda e melhora na aparência da pele com duração aproximada de 8 horas. Também melhorou significativamente a função barreira e a textura da pele”, disse.

Os testes com a microscopia confocal ainda não estão concluídos, mas, segundo Campos, já foi possível perceber que o produto aumentou a espessura da camada granulosa da pele. Isso pode estar associado a um maior estímulo à renovação celular.

Em todas as etapas, foi testada não apenas a formulação completa, mas também versões que continham apenas os filtros e uma das substâncias ativas em estudo. “Queríamos avaliar o benefício de cada uma e as vantagens de usar a formulação completa”, explicou.

A combinação dos filtros com as algas marinhas vermelhas foi a que mais reduziu a presença das proteínas p53 e caspase-3, ou seja, a que mais evitou danos celulares. A combinação com o Ginkgo biloba foi a que mais protegeu a função barreira da pele.

Já a fórmula que tinha apenas os filtros e as vitaminas aumentou a perda de água na camada superficial. Segundo a pesquisadora, isso provavelmente está ligado ao aumento da renovação celular estimulado pelas vitaminas A e C. “Por isso é importante acrescentar os extratos vegetais para compensar”, frisou.

Quanto maior a perda de água, mais frágil e sensível fica a pele. Isso não apenas facilita a penetração da luz ultravioleta, mas também favorece doenças como a dermatite de contato e o eczema tópico.

Segundo a pesquisadora, a formulação completa foi a que mais hidratou e protegeu a função barreira da pele, melhorando também a aparência e diminuindo as rugas e a aspereza. Mas ela alerta que o produto é para ser usado no dia a dia e não quando a exposição ao sol for intensa, como na praia ou piscina.

“A radiação solar acelera a proliferação celular. É uma forma de o organismo tentar se defender, deixando a pele mais espessa. Mas isso ocorre de forma tão rápida que, para evitar os danos ao DNA, ocorre a apoptose, ou morte celular programada”, explicou.

Para exposição solar intensa, completou, o protetor solar deve ter no máximo substâncias antioxidantes, como o Ginkgo biloba e vitamina.

13/12/2011 - 17:00h Setor privado vai financiar 26 mil bolsistas no exterior

Por Fernando Exman | VALOR

De Brasília

Após meses de negociações, o governo federal conseguiu mobilizar o empresariado para impulsionar o programa Ciência Sem Fronteiras. Autoridades do Executivo esperam que hoje, em cerimônia a ser realizada no Palácio do Planalto, representantes de empresas dos mais diversos setores anunciem ajuda financeira de aproximadamente R$ 1,3 bilhão para bancar 26 mil bolsistas brasileiros no exterior até o fim de 2014.

Em julho, quando foi lançado, o programa previa que o governo bancaria 75 mil bolsas e a iniciativa privada outras 25 mil. Mas, na avaliação da presidente Dilma Rousseff, a ajuda dos empresários -que agora deve superar o estimado inicialmente – estava demorando a sair. Para mudar esse cenário, Dilma pediu à ministra da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, e aos ministros da Educação e da Ciência e Tecnologia que cobrassem o apoio do empresariado.

Até ontem, o governo federal previa a adesão ao Ciência Sem Fronteiras da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), da Confederação Nacional da Indústria (CNI), da Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib), além da Petrobras, Eletrobras e Vale. A operacionalização do programa ficará sob a responsabilidade da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

O objetivo do programa é qualificar profissionais nas áreas de exatas e outras ciências aplicadas, como engenharia, física, química, biologia, geociências, biomedicina, computação e tecnologia da informação, tecnologia aeroespacial, fármacos, produção agrícola sustentável, petróleo, gás e carvão mineral, energias renováveis, tecnologia mineral, biotecnologia, nanotecnologia, tecnologias de prevenção e mitigação de desastres naturais, ciências do mar e indústria criativa.

Serão oferecidas bolsas a estudantes de graduação, mestrado, doutorado, pós-doutorado, pesquisadores e também para a formação de tecnólogos.

As metas da Capes e do CNPq já foram definidas, de acordo com o calendário do programa. Ligada ao Ministério da Educação, a Capes oferecerá 3,4 mil bolsas neste ano. A previsão para 2012, 2013 e 2014 é de, respectivamente, 10,2 mil, 12,2 mil e 14, 2 mil bolsas. Já o CNPq, órgão subordinado ao Ministério da Ciência e Tecnologia, oferecerá 3.890 bolsas neste ano, 6.140 em 2012, 10.230 em 2013 e 14.740 bolsas em 2014.

Nos últimos meses, enquanto a Casa Civil, os ministérios da Educação e Ciência e Tecnologia e até mesmo a presidente Dilma pressionavam os empresários, Capes e CNPq articulavam, com diplomatas e representantes de universidades estrangeiras, parcerias para tirar o Ciência Sem Fronteiras do papel. Até agora, estavam mais avançadas as conversas com instituições dos Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha, França, Itália e Canadá.

No mês passado, integrantes da cúpula da Capes se reuniram com representantes da Academia Chinesa de Engenharia, do Instituto Chinês de Ciência e Tecnologia, professores de universidades chinesas e empresários do setor de tecnologia sobre o programa.

12/12/2011 - 18:12h Extinção de elefante fez surgir homem moderno no Oriente Médio, diz estudo


Descobertas de equipe israelense apontam que ‘Homo Sapiens’ teria surgido apareceu há 400 mil anos na região.

12 de dezembro de 2011

BBC – Agência Estado

Arqueólogos da Universidade de Tel Aviv acabam de publicar um estudo que sugere que o Homo Sapiens surgiu na região chamada de Levante, no Oriente Médio, 400 mil anos atrás, em decorrência do desaparecimento dos elefantes, que constituíam a principal fonte de alimentação para o Homo Erectus.

Segundo o arqueólogo Ran Barkai, da Universidade de Tel Aviv, foi o desaparecimento dos elefantes da região geográfica do Levante – onde hoje se encontram Síria, Líbano, Jordânia, Israel e os territórios palestinos – que levou à evolução do Homo Erectus ao Homo Sapiens.

O Homo Sapiens (homem sábio, em latim), tem um cérebro muito mais desenvolvido do que seu antecessor, o Homo Erectus (homem ereto).

“Quando os elefantes desapareceram, o Homo Erectus foi obrigado a buscar outros alimentos e teve que desenvolver uma agilidade mental e instrumentos que não tinha antes”, disse Barkai à BBC Brasil.

A equipe do departamento de Arqueologia da Universidade de Tel Aviv tem feito escavações desde 2000 na caverna Qesem, em Israel, perto da cidade de Rosh Haain.

Em 2010, a equipe anunciou ter encontrado sinais de que na região da caverna Qesem o Homo Sapiens já existia há 400 mil anos.

A descoberta pode representar uma mudança na teoria mais amplamente aceita de que o Homo Sapiens surgiu 200 mil anos atrás, na África.

‘Chave do enigma’

“Desde a descoberta, há um ano, fizemos um trabalho de integração de todos os dados e chegamos à conclusão que a nutrição é a chave do enigma”, disse Barkai.

O arqueólogo afirma que nessa área geográfica os elefantes desapareceram há 400 mil anos, levando o Homo Erectus a se desenvolver muito mais rapidamente. Já na África, o mesmo processo se deu 200 mil anos depois.

A equipe realizou um trabalho de integração das descobertas – tanto de instrumentos como de restos de humanos e animais encontrados nas diversas escavações – e chegou à conclusão de que instrumentos sofisticados, como pequenas facas fabricadas de maneira “sistemática”, foram descobertos em camadas nas quais já não havia elefantes.

No mesmo local foram encontrados dentes humanos.

Barkai explicou que o Homo Erectus usava instrumentos maiores e menos sofisticados para caçar e repartir a carne dos elefantes.

“O Homo Erectus comeu elefantes durante 1 milhão de anos. Instrumentos mais sofisticados e menores são associados ao Homo Sapiens”, afirmou.

Nutrição

Os pesquisadores desenvolveram um modelo da nutrição do homem, demonstrando a possível relação entre o desaparecimento dos elefantes – fonte de nutrição mais fácil de caçar e que garantia uma maior quantidade de alimento – e a evolução de suas capacidades mentais, até que se transformou no Homo Sapiens.

A equipe também comparou suas descobertas com pesquisas feitas na África e constatou que lá também o Homo Sapiens teria surgido só após o desaparecimento dos elefantes, reforçando assim a tese de que a evolução humana tem ligação direta com a necessidade de buscar novas fontes de alimentos que eram menores e mais difíceis de se caçar.

Barkai disse à BBC Brasil que desde a publicação do estudo, há três dias, tem recebido ligações do mundo inteiro, de cientistas interessados nas descobertas.

“Com esse estudo conseguimos fornecer uma explicação para o aparecimento de resíduos com a idade de 400 mil anos, do Homo Sapiens, na caverna de Qesem”, afirmou.

06/12/2011 - 10:55h Projeto melhora recuperação ambiental na mineração

Por Daniela Chiaretti | VALOR

De São Paulo

O setor de mineração costuma colecionar passivos ambientais. No final do ciclo, quando a área explorada é regenerada, a solução dificilmente foge da implantação de lagos ou do plantio de eucalipto e grama. Para dar modernidade à prática, pesquisadores do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) estruturam um projeto inédito que procura aliar técnicas de bioengenharia de solo ao conceito de serviços ambientais. O foco é restabelecer a biodiversidade perdida.

Por trás da iniciativa estão a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e a Vale, que fizeram um acordo de cooperação de até R$ 40 milhões para pesquisas nas áreas de mineração, energia, ecoeficiência, biodiversidade e produtos ferrosos para a siderurgia. O projeto dos pesquisadores do IPT, com duração prevista de 48 meses e investimentos de R$ 800 mil (50% do IPT e o restante dividido entre Fapesp e Vale) se insere neste guarda-chuva e, além do desenvolvimento de uma metodologia de recuperação de áreas degradadas, pode resultar em uma patente para o instituto.

Na mira estão áreas degradadas pela mineração de pedra, areia e calcário, insumos básicos da construção civil. Um estudo de 1997 do geólogo Omar Bitar indicava que havia cerca de 250 áreas degradadas e abandonadas por mineração na região metropolitana de São Paulo e outras 200 minas ativas à época, o que dá uma pista do potencial da iniciativa. “Nossa ideia é desenvolver um modelo para estabilização de solo e recomposição de áreas, com manutenção de serviços ambientais” diz a geóloga Amarilis Lucia Casteli Figueiredo Gallardo, pesquisadora do Centro de Tecnologias Ambientais e Energéticas (Cetae), do IPT, e coordenadora do estudo. “Queremos levar o gancho da sustentabilidade para o final do ciclo de exploração”, continua.

Apesar de regulamentada desde 1989, a recuperação das áreas mineradas ou não acontece ou ocorre de forma precária. “Nossa proposta é recuperá-las de maneira diferente, pensando em maximizar os serviços ambientais”, explica a pesquisadora Caroline Almeida Souza, da Seção de Sustentabilidade de Recursos Florestais do IPT.

Isso significa, por um lado, empregar técnicas de bioengenharia de solos, utilizadas normalmente na recuperação de rodovias ou em margens de rios, mas não na mineração, ilustra Amarilis Gallardo. Existem pelo menos 23 técnicas do gênero e que usam elementos da natureza em áreas a recuperar. Plantas inteiras, caules e ramos, tocos e pedras, por exemplo, são encravados no solo e dão reforço, servem como drenos hidráulicos ou barreiras que evitam movimentos do terreno. O uso de materiais artificiais é minimizado e a preferência é para recursos naturais que podem ser encontrados na região, evitando o transporte, a emissão de gases estufa e produzindo menor impacto.

A outra ponta é o foco nos serviços ambientais que podem ser obtidos com o restauro adequado da região. Espécies nativas serão prioridade na recomposição da biodiversidade. “Queremos agregar valor à atividade”, diz Amarilis Gallardo. No futuro, o maior comprometimento do setor com o ambiente pode ser uma entrada para sistemas de pagamento por serviços ambientais ou mercados de carbono.

O trabalho começará com a escolha de duas áreas onde os modelos de recomposição serão testados. A ideia do grupo de seis pesquisadores é desenvolver indicadores ambientais e parâmetros de avaliação do desempenho, e, depois, criar um modelo que possa ser repetido em outros lugares do país.

“Não será uma panacéia para todos os problemas da mineração”, diz a engenheira florestal Caroline Souza, lembrando que, por outro lado, o setor tem muito potencial para se tornar mais sustentável. “O legado deste projeto será algo maior, estamos formando recursos humanos”, continua Caroline. O projeto inclui, além da equipe do IPT, o trabalho de nove bolsistas de mestrado e doutorado.

27/10/2011 - 17:00h Vírus provoca suicídio

27 de outubro de 2011

Fernando Reinach, Biólogo – O Estado SP

Pais forçam filhos a lavar as mãos e governos levam pessoas a morrer pela pátria. São exemplos de como uma pessoa é capaz de determinar o comportamento de outra pessoa.

Normalmente, não pensamos que o comportamento do filho é resultado de genes no corpo do pai agindo sobre o corpo do filho. Preferimos falar em convencimento, autoridade ou persuasão. Mas, quando esse fenômeno é observado entre animais de diferentes espécies, fica difícil imaginar que o comportamento induzido não resulte da ação direta de genes.

A capacidade de um gene, localizado em um ser vivo, de agir sobre outro ser vivo foi proposta inicialmente por Richard Dawkins, que chamou o fenômeno de fenótipo estendido. Muitos duvidavam da existência desses genes. Agora, pela primeira vez, um desses genes foi isolado e caracterizado.

No final do século 19, cientistas alemães observaram um comportamento estranho nas lagartas de uma espécie de mariposa chamada Lymantria dispar. Lagartas normais passam a noite se alimentando de folhas na copa das árvores. Antes do amanhecer, elas descem e se escondem. Esse comportamento evita que sejam devoradas pelos pássaros.

Mas em algumas vezes as lagartas parecem enlouquecer. Antes do raiar do dia, vão para o topo das árvores, agarram-se às folhas e ficam imóveis, esperando a morte. Que chega pelo bico de um pássaro. Décadas mais tarde, foi descoberto que elas “enlouquecem” após serem infectadas por um baculovírus.

Do ponto de vista do vírus, o comportamento suicida das larvas é perfeito. Após o vírus ter se multiplicado no interior das larvas, elas rumam para o topo das árvores e esperam. As aves comem as larvas infectadas, levando o vírus para outras árvores. O vírus se espalha rapidamente pela floresta. Se a larva infectada morre no seu esconderijo diurno, a disseminação do vírus é lenta, pouco eficiente. O vírus parece “convencer” a larva a mudar seu comportamento. Mas como isso é possível? Seguramente não rola um papo entre vírus e larva.

Quando os cientistas sequenciaram o genoma do baculovírus, descobriram um gene estranho, que parecia não ser necessário para a sobrevivência do vírus. Esse gene, chamado de EGT, produzia uma enzima capaz de inativar o hormônio 20-hidroxiecdisona, que controla o desenvolvimento das larvas. Quando a quantidade desse hormônio aumenta, a larva se transforma em pupa, produzindo o casulo do qual emerge a mariposa adulta.

Cientistas imaginaram que talvez o aumento e a diminuição diária dos níveis desse hormônio, antes da pupação, seria o responsável pela migração da larva para a copa da arvore ao anoitecer e sua volta para o esconderijo ao amanhecer. Será que o vírus, destruindo o hormônio no hospedeiro, estaria manipulando seu comportamento, induzindo a larva ao suicídio?

Para testar essa hipótese, cientistas construíram baculovírus recombinantes em que o gene EGT foi inativado. O vírus modificado infectou a larva e se reproduziu normalmente. Mas as larvas infectadas acabavam morrendo, cheias de vírus, não no topo das árvores, mas em seu esconderijo, longe das aves.

Esse resultado demonstra que o baculovírus carrega em seu genoma um gene cuja única função é destruir o hormônio que controla o comportamento das larvas, forçando sua exposição às aves famintas. Esse gene não somente altera o comportamento das larvas, mas indiretamente induz as aves a comer as larvas e espalhar o vírus.

Nada mal para um vírus que não tem cérebro nem estudou estratégia de marketing em um MBA. Provavelmente, ocorreu que uma cópia do gene EGT acabou inserido acidentalmente no genoma de um baculovírus em algum momento do passado. Por se reproduzir mais rapidamente, o vírus com esse novo gene acabou se tornando o baculovírus predominante nas florestas europeias.

À medida que mais espécies tiverem seus genomas sequenciados, mais exemplos de genes com fenótipos estendidos serão descobertos. Será que os genes que permitem que o cérebro de um pai argumente com seu filho e o induza a lavar as mãos antes do almoço não podem ser considerados genes com fenótipos estendidos? E os genes que permitem a um recém-nascido emitir um choro capaz de fazer os pais correrem até o berço? Eles podem ser considerados genes com fenótipo estendido?

MAIS INFORMAÇÕES: A GENE FOR AN EXTENDED PHENOTYPE. SCIENCE, VOL. 333, PÁG. 1.401, 2011

28/09/2011 - 11:36h Parceria de países sul-americanos vai construir laboratório subterrâneo nos Andes

México esta ao norte da linha do Equador, mas a manchete…

O chamado projeto Andes envolve cientistas de Argentina, Brasil, Chile e México e custará custará US$ 15 milhões

28 de setembro de 2011

Efe -Agencia Estado

Veja também:
link Saiba mais sobre o projeto
link Partícula viaja mais rápido que a luz
link Cientistas debatem descoberta na Suíça

BUENOS AIRES – Um grupo de cientistas vai estudar os segredos do universo em um laboratório subterrâneo de física de partículas que será instalado em um túnel na cordilheira do Andes em uma região entre a Argentina e o Chile.

O projeto Andes envolve cientistas de Argentina, Brasil, Chile e México que receberam o apoio de colegas americanos e europeus em troca da cooperação no estudo da “matéria escura”, os neutrinos e outras partículas subatômicas, explicou o coordenador da iniciativa, o físico franco-argentino Xavier Bertou.

Também “há grande interesse” em usar o laboratório para estudos de impacto dos raios cósmicos sobre o envelhecimento celular, de geofísica – para criar uma rede de sismógrafos entre a Argentina e o Chile – e de meio ambiente, com base em medições de baixíssima radioatividade, explicou o cientista.

A construção do laboratório custará US$ 15 milhões, “o equivalente a 2%” do custo do túnel rodoviário Água Negra, que unirá a cidade de Iglesia, na província argentina San Juan, à chilena de Vicuña.

O túnel que começará a ser construído no ano que vem, terá 14 quilômetros de extensão e um laboratório que será instalado a mais de 1.500 metros abaixo da superfície.

Segundo o site do projeto, em uma caverna principal serão feitos dois ou três experimentos maiores, enquanto uma cavidade secundária abrigará três ou quatro andares destinados a estudos variados, cortados por túneis de acesso que ocuparão 2.500 metros quadrados da superfície subterrânea.

Possivelmente será construída uma terceira caverna em forma de poço, com 15 a 20 metros de diâmetro e 20 de profundidade para experimentos maiores, informou.

Bertou afirmou ainda que falta pelo menos US$ 5 milhões para equipar o laboratório para estudos de física de partículas. Segundo ele, “grande parte” desses estudos só pode ser feita em locais abaixo de rochas que protegem da interferência dos raios cósmicos (que produzem os neutrinos).

Os neutrinos são partículas subatômicas que atravessam a Terra em uma velocidade de bilhões de quilômetros por segundo, e entender seu comportamento “é fundamental” para o estudo da física, acrescentou Bertou.

Os cientistas acreditam que 85% da matéria do universo é composta por “matéria escura”, cujas características são totalmente desconhecidas.

O coordenador do projeto Andes ressaltou que atualmente há mais de dez laboratórios subterrâneos no hemisfério norte, entre eles o italiano Grande Sasso, onde foram medidos os neutrinos que, aparentemente, “são mais rápidos que a luz”.

O laboratório localizado no hemisfério sul permitirá que sejam feitos estudos cruzados dos neutrinos. “Devido ao movimento da Terra, alguns estudos ganhariam muito se fossem feitos nos dois hemisférios para que os eventos extrassolares possam ser triangulados”, disse Bertou.

O projeto Andes tem o potencial de incentivar a criação de empresas de alta tecnologia, como aconteceu nas regiões próximas aos laboratórios na Europa, disseram os cientistas.

25/09/2011 - 11:49h ‘Ilha do Petróleo’, no Rio, pode ser o maior centro de pesquisa do mundo


Complexo reúne laboratórios das 16 principais multinacionais de tecnologia do setor, com investimentos de US$ 500 milhões

25 de setembro de 2011

KELLY LIMA / RIO – O Estado de S.Paulo

Em área de 400 mil metros quadrados na Ilha do Fundão, no Rio, que já vem sendo chamada de “ilha do petróleo”, estão sendo construídos alguns dos principais centros de pesquisa e desenvolvimento do setor no mundo. O complexo agrega as 16 principais multinacionais de tecnologia do setor, que já destinaram US$ 500 milhões ao projeto de construção de laboratórios.

A expectativa das empresas é, no mínimo, equiparar o polo do Rio ao da cidade texana de Houston, referência mundial e considerada atualmente “a capital do petróleo”.

Maior aposta de crescimento da economia brasileira até 2020, a produção de petróleo no pré-sal é o centro de atração dos projetos tecnológicos. O complexo do Fundão terá prédios futuristas no campus da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e no entorno do Centro de Pesquisas e Desenvolvimento da Petrobrás (Cenpes), já considerado de excelência em projetos de prospecção em águas profundas.

A principal vantagem apontada por técnicos é que, diferentemente de Houston, onde as empresas ficam afastadas, no Parque Tecnológico do Rio estarão concentradas.

“Esse tipo de concentração traz oportunidade única no mundo. É uma intensa troca de inovação e experiência, voltada especificamente para desenvolver a melhor e mais ampla tecnologia para o pré-sal”, sintetiza Maurício Guedes, presidente do Parque Tecnológico.

O complexo vem sendo construído aos poucos. Deve estar operando integralmente a partir de 2013. “Certamente veremos um salto de qualidade na engenharia de projetos dentro de quatro ou cinco anos”, estima.

Hoje, a tecnologia usada para explorar o pré-sal da Bacia de Santos é a mesma desenvolvida para o pós-sal. A produção ainda é considerada experimental.

Distante 300 quilômetros da costa e a uma profundidade superior a 7.000 metros, o óleo dos reservatórios abaixo da camada de sal na Bacia de Santos possui particularidades que exigem outra concepção.

Sem manutenção. O engenheiro Carlos Thadeu Fraga, presidente do Cenpes, diz que a meta da companhia para a exploração das áreas é eliminar a necessidade de plataformas de superfície e colocar toda tecnologia de separação do óleo e da água, bem como o processamento, em cápsulas submarinas resistentes ao desgaste do sal e com capacidade para operar por 20 anos sem necessidade de manutenção.

Essas plantas funcionarão movidas por geradores elétricos submarinos que bombearão petróleo e gás, por dutos no fundo do Atlântico, para estações coletoras a centenas de quilômetros de distância.

“A planta instalada na superfície exige energia para puxar o petróleo do fundo do mar, além de injetar água para pressionar a expulsão deste óleo de seus reservatórios. Se a planta desce para o fundo, eliminamos a necessidade de gerar energia por um percurso de 3.000 metros de água, com elevada instabilidade. Este é o principal desafio mundial hoje”, afirmou Roberto Leite, diretor de Pesquisa & Desenvolvimento da Chemtech, braço da alemã Siemens para engenharia e TI, instalada no Parque Tecnológico.

Exemplo. Até hoje a instalação de equipamentos de produção no fundo do mar possui como maior exemplo a tentativa da plataforma de Perdido, da Shell, que teve custo aproximado de US$ 3 bilhões, no Golfo do México. A unidade foi montada sobre um cilindro de aço flutuante na mesma distância da costa que o pré-sal de Santos.

A automação é completa e os dados da unidade são analisados de uma base de engenheiros em New Orleans.

Considerada uma nova fronteira na exploração e produção, a experiência terá que ser superada, diz Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE). Ele afirma que o elevado custo poderia inviabilizar a operação do pré-sal. Hoje, a Petrobrás sustenta o valor de US$ 40 por barril como mínimo necessário para garantir a extração.

“Considerando que o petróleo mais recente no mundo foi apresentado a um custo viável de US$ 70 por barril, o nosso está bastante adequado”, diz o diretor financeiro da estatal, Almir Barbassa. Para ele, cada US$ 1 reduzido no custo exploratório e de desenvolvimento é comemorado. Desde a descoberta das reservas a Petrobrás conseguiu, com novas tecnologias, reduzir de US$ 240 milhões para US$ 60 milhões o custo de perfuração de um poço. A produtividade de cada poço também contribuiu para a redução.

Uma plataforma flutuante FPSO, estruturada para ser conectada a 30 poços, com produção de 5.000 barris em cada um, teve que ser revista para uma quantidade menor de poços, já que o primeiro tem rendido média de 20 mil barris por dia.

Polo de pesquisa vai ocupar 10% da ilha

A procura por lotes foi tão acirrada durante a licitação que a área foi ampliada em 250 mil metros quadrados

RIO – O Estado de S.Paulo

O polo de pesquisas ocupará uma área correspondente a 10% da Ilha do Fundão, o que é insuficiente para atender à demanda das multinacionais que estão interessadas em se instalar no País. Nos últimos lotes do polo, a disputa foi tão acirrada em licitação, que decidiu-se ampliar a área em mais 250 mil metros quadrados.

A nova área, diz o presidente do Parque Tecnológico, Maurício Guedes, ainda está sendo negociada com o Exército, mas 45 mil metros quadrados já foram destinados ao maior centro de pesquisas mundial da General Electric (GE). Ao todo, serão US$ 550 milhões em um centro destinado não só à geração de energia e tecnologia da informação, mas também à saúde.

Anunciado em janeiro do ano passado pelo presidente mundial, Jeffrey Immelt, o projeto já está em fase final de engenharia.

A franco-americana Schlumberger viu na região a oportunidade ideal para desenvolver um laboratório. Foram US$ 35 milhões investidos no centro de pesquisa que reproduzirá temperatura e pressão idênticas às amostras obtidas no pré-sal, para ampliar o conhecimento sobre as rochas e dimensionar o potencial da produção. A previsão da empresa é que a nova unidade seja inaugurada até o fim deste ano. A americana Baker Hughes investiu US$ 30 milhões em um centro para adaptar os equipamentos que geram imagens das rochas por meio de ondas sonoras e magnéticas emitidas durante a perfuração do poço.

Fora do Parque Tecnológico, a britânica Rolls-Royce planeja instalar no Rio o quinto centro de excelência mundial. A empresa investirá US$ 60 milhões para capacitar engenheiros no Brasil e promover intercâmbio entre profissionais locais e estrangeiros. “Teremos uma sala 3D para reproduzir os equipamentos e promover desenvolvimento acelerado da capacitação dos profissionais”, afirma Francisco Itzaina, presidente da Rolls Royce para a América do Sul. / K.L.

22/09/2011 - 20:15h Lulas bissexuais

Según un estudio, las hembras de una especie de este animal marino también producen esperma

El Comercio

Calamares se aparean con ambos sexos

Estudios científicos, Curiosidades
MBARI. Un hembra de Octopoteuthis deletron en un columna de agua. (Captura de abc.es)


Jueves 22 de septiembre de 2011

Una investigación, publicada en la revista Biology Letters de la Royal Society, descubrió un extraño comportamiento en la vida sexual de unos misteriosos calamares que viven en las profundidades de los océanos.

Los machos de la especie “Octopoteuthis deletron” se aparean indiscriminadamente con ambos sexos. Según los científicos del Monterey Bay Aquarium Research Institute (MBARI) esa situación ocurre debido a la poca luz en su entorno y la necesidad desesperada de procrear. Además, se observó que tanto la hembra como el macho poseen un “paquete de esperma”, informó abc.es.

Para dicho estudio, se utilizaron imágenes tomadas durante veinte años por vehículos submarinos de control remoto para seguir la vida de los calamares, que tienen unos 12 centímetros de longitud.

“Estos calamares llevan una vida solitaria, pocas veces se encuentran con otros, y tienen una vida reproductiva muy corta, así que tienen que aprovecharla”, indicó Bruce Robison, uno de los autores de la investigación.

Asimismo, los biólogos precisaron que para estos pequeños animales resulta más eficaz aparearse indiscriminadamente que elegir pareja y realizar un cortejo.

Cabe resaltar que no es la primera vez que se observan relaciones homosexuales en la naturaleza. Especies como los pingüinos, delfines y primates han mostrado comportamientos similares.

09/07/2011 - 18:46h “Pensamento positivo não cura câncer”

Entrevista

Nos últimos 30 anos, a psiquiatra Jimmie Holland dedicou-se a ajudar pacientes, familiares e médicos a lidar com os aspectos psicológicos que surgem junto com o diagnóstico de câncer. Foi pioneira em estudos sobre psico-oncologia e é autora do livro The Human Side of Cancer

Natalia Cuminale, VEJA

de Nova York

Jimmie Holland, médica do Memorial Sloan-Kettering Cancer Center, Nova York
Jimmie Holland, médica do Memorial Sloan-Kettering Cancer Center, Nova York (Memorial Sloan-Kettering Cancer Center/Divulgação)


Em 1977, quando começou a trabalhar no Memorial Sloan-Kettering, o maior centro de oncologia de Nova York, a psiquiatra Jimmie Holland era uma figura estranha ao corpo médico especializado. “As pessoas costumavam perguntar por que um hospital de câncer precisava de um psiquiatra. Alguns chegavam a comentar: ‘não tem ninguém louco aqui’”, conta Jimmie. Desde então muita coisa mudou. Os mais renomados hospitais de oncologia no mundo não só sabem da importância de associar a psiquiatria e a psicologia ao tratamento da doença, como incorporaram pprofissionais da área em suas equipes.Jimmie, por sua vez, fundou a Sociedade Internacional de Psico-Oncologia e escreveu o livro The Human Side of Cancer (O Lado Humano do Câncer, sem edição no Brasil, Quill), tornado-se uma das maiores referências internacionais no assunto.

Em estudos e experiência acumulados nessas três décadas, Jimmie comprovou que o estado emocional do paciente de câncer é fundamental para o sucesso do tratamento. “Perguntar à pessoa sobre o seu nível de angústia é tão importante quanto perguntar sobre seu nível de dor”, avalia. “Se uma pessoa está depressiva, ela pode desistir do tratamento ou não buscar as melhores formas de enfrentar a doença.”

A psiquiatra afirma, no entanto, que associar a cura da doença – ou o aumento das chances de cura – ao otimismo é um mito, uma bobagem. “Otimismo não cura câncer”, avisa. “Mas a depressão atrapalha e precisa ser encarada como parte do tratamento geral.” De acordo com estudos, um terço dos pacientes com câncer pode apresentar quadro de depressão – e esse número é maior em pessoas com tumores considerados graves. No hospital Memorial Sloan-Kettering Cancer Center, em Nova York, Jimmie Holland concedeu a seguinte entrevista a VEJA:

A senhora foi pioneira no tratamento psiquiátrico de pacientes com câncer. Por que se interessou por essa área? Sempre me interessei em ver como as pessoas lidavam com as doenças. Casei-me com um oncologista e percebi que se eu quisesse estudar reações a doenças eu teria de ter o câncer como foco. O câncer é uma doença que independe de idade, sexo, cultura ou classe social.

Mas como era fazer isso 30 anos atrás? Naquele tempo, os médicos não informavam seus pacientes sobre o diagnóstico de câncer. Pensava-se que era melhor não dizer nada porque as chances de sobrevivência eram poucas. Familiares também evitavam falar sobre a doença. A palavra câncer era um estigma. Não era fácil falar sobre a doença.

Quando isso mudou? Nos Estados Unidos, em meados da década de 70, nós começamos a falar de diagnóstico. As pessoas começaram a questionar sobre qual era o seu diagnóstico e quais eram as opções de tratamento. Os pacientes passaram a exigir mais diálogo com os médicos e não apenas receber instruções sobre o que deveria ser feito. Antes, os médicos agiam assim: “Eu sei o que você tem, mas não vamos dizer a você que isso é câncer”. Quando isso passou, eu diria que o câncer saiu do armário. Começamos a ter filmes em que o câncer aparecia em personagens, as pessoas começaram a escrever livros sobre a experiência de ficar doente e – finalmente – começamos a ver pessoas sendo curadas de câncer. Com tudo isso, passamos a ter menos medo dessa doença. E estávamos vendo a mesma coisa acontecer no resto do mundo.

Como os outros médicos reagiram a sua chegada ao hospital? Em 1977, as pessoas costumavam a dizer: “Por que precisamos de um psiquiatra em um hospital de câncer? Ninguém está louco aqui”. Meu trabalho no início foi mostrar que a importância de um acompanhamento psiquiátrico/psicológico não tinha nada a ver com loucura nesse caso. Quando uma pessoa descobre-se vítima de uma doença séria como o câncer, ela precisa se sentir segura, apoiada, e nesse quadro às vezes ela até precisa tratar a depressão, a ansiedade. Assim, ela terá mais forças par enfrentar a doença. Com o tempo, eles passaram a perceber que havia um papel importante a ser desempenhado por essa disciplina no tratamento de câncer. Além disso, a psiquiatria/psicologia também pode ajudar nos cuidados paliativos no fim da vida, quando um paciente já não tiver chances. Existem várias formas em que essas especialidades podem ser utilizadas.

O que deverá ser feito em seguida? O próximo passo para integrar ainda mais as duas áreas, é fazer com que todos os pacientes sejam questionados sobre seus níveis de angústia. Quando perguntamos ao paciente qual o seu nível de dor, de zero a dez, é uma forma rápida de saber sobre a dor. Por isso, tivemos a ideia de perguntar qual o nível de angústia, na mesma escala de zero a dez – transformando isso em uma referência que chamamos de termômetro da angústia. A partir de estudos, descobrimos que, se o paciente responder o número quatro ou maior que isso é necessário estudar a possibilidade de encaminhá-lo a um atendimento específico.

É possível dizer que todo paciente com câncer tem depressão? Não. Não acho que todos tenham depressão. Apenas penso que todos deveriam ser questionados se estão ou não depressivos. Sabemos que provavelmente um terço dos pacientes tem uma angústia significativa em algum momento do tratamento de câncer. Mas se pegarmos pessoas com tumores mais letais, como pulmão, cérebro e pâncreas, sabemos que aproximadamente metade deles tem depressão e ansiedade. Então, todos os pacientes precisam ser avaliados. Da mesma forma que eles são questionados sobre a dor, também precisam ser avaliados para a angústia. Vale ressaltar que nós escolhemos utilizar a palavra ‘angústia’ porque ela não é estigmatizada, como a palavra depressão.

Em casos em que o tratamento psiquiátrico não é oferecido ao paciente com câncer, quando os pacientes precisam procurar por ajuda? Basicamente, quando o paciente não consegue levantar da cama, se recusa a fazer os tratamentos capazes de salvar sua vida, não sente prazer em nada e não tem nenhuma esperança de cura. Todos esses são sintomas de pessoas que precisam ser avaliadas. Em alguns casos, as pessoas se tornam tão ansiosas que não dormem à noite, têm problemas de concentração e não conseguem tirar os pensamentos sobre a doença da cabeça. Esses sinais mostram que uma pessoa precisa de ajuda.

Qual a importância da família durante o tratamento? A família é muito importante. Chamamos os familiares de pacientes secundários. O câncer afeta toda a família. Por isso, todos têm que ser considerados. Ao atender um paciente, estamos sempre preocupados com a família.

A depressão desaparece depois da cura? As pessoas que sobrevivem geralmente têm muito medo sobre a recorrência da doença. Elas ficam com medo de o tumor voltar e podem ficar depressivas por isso. Sabemos que cerca de 20% dos sobreviventes podem ter problemas psicológicos contínuos após o câncer.

O que a senhora diria para quem acredita que pensamento positivo ajuda na cura do câncer?
É preciso esclarecer que pensamentos positivos não fazem com que você viva por mais tempo. Da mesma forma que pensamentos negativos também não fazem com que você viva menos. As pessoas gostam de acreditar que, se forem positivas, viverão mais. Pensar positivo é melhor para o seu tratamento e também é melhor para a sua família. Mas isso não afeta diretamente o curso da doença.

A senhora acredita que a forma com que o paciente lida com o câncer pode influenciar no sucesso do tratamento?
Sem dúvida, mas apenas no sentido de que é preciso a ação do paciente diante dos melhores tratamento para a doença. Ou seja, se uma pessoa está depressiva, ela pode desistir do tratamento ou evitar as melhores formas de enfrentar a doença. Mas não há um tipo de personalidade e nenhum outro tipo de ação feita pela mente que afete o sistema imunológico a ponto de curar o câncer. É bom que isso fique claro. Não há nenhuma influência da mente ou do humor no processo de cura.

09/07/2011 - 18:16h Edzard Ernst: “A homeopatia não tem efeito algum”

O chefe do primeiro centro britânico a estudar terapias alternativas diz que há pouca ciência por trás delas

Teresa Perosa – Época

O médico alemão Edzard Ernst, de 63 anos, foi o primeiro pesquisador no Reino Unido a comandar um departamento acadêmico especializado em analisar cientificamente a eficácia das terapias alternativas, como homeopatia, acupuntura e ervas medicinais. À frente da Unidade de Medicina Complementar da Universidade de Exeter desde 1993, Ernst amealhou evidências a favor do uso da acupuntura para tratar artrose e trouxe novas provas do efeito antidepressivo da erva-de-são-joão (Hypericum perforatum). Mas também concluiu – “com tristeza” – que a homeopatia não funciona. “A homeopatia parece não ser nada além de uma preparação sem efeito algum”, diz Ernst, que é ex-homeopata. A seguir a entrevista que ele deu a ÉPOCA.

ENTREVISTA – EDZARD ERNST

Divulgação

QUEM É

É médico e pesquisador de medicina alternativa. Nasceu na Alemanha, mas vive na Inglaterra com sua mulher francesa. Tem 63 anos

O QUE FEZ
Foi diretor do primeiro departamento acadêmico britânico a estudar as técnicas de medicina alternativa, criado em 1993 pela Universidade de Exeter

O QUE PUBLICOU
É autor de Medicina complementar – Uma avaliação objetiva (Editora Manole, 2001) e Trick or treatment? Alternative medicine on Trial, de 2008, sem edição no Brasil

ÉPOCA – Depois de estudar terapias alternativas por quase 20 anos, qual é sua conclusão? Elas funcionam?
Edzard Ernst –
Depende de cada técnica. Essa área inclui práticas muito diferentes entre si. Os melhores resultados estão na área de ervas medicinais. A planta Hypericum perforatum, conhecida como erva-de-são-joão, foi uma das mais estudadas. Diria que ela não é apenas eficaz contra a depressão. Ela é melhor que os antidepressivos. Em minha opinião, é melhor que o Prozac. A acupuntura funciona para algumas condições, não para todas. Há fortes evidências de que ela é eficaz no tratamento da artrose, uma doença que causa a degeneração da cartilagem nas articulações, causando dor e rigidez. O melhor resultado é no tratamento de dores no joelho. Já a homeopatia parece não ser nada além de um placebo, uma preparação sem efeito algum.

ÉPOCA – Como o senhor recebeu esses resultados, sendo homeopata?
Ernst –
Teria adorado provar que homeopatia funciona, porque eu ganharia o Prêmio Nobel de Medicina e seria muito rico. Mas fico triste em dizer que a evidência mostra exatamente o contrário. Atualmente, há cerca de 200 testes clínicos em andamento e a maioria dos resultados não é favorável à prática. É preciso dizer que os fundamentos do tratamento homeopático são implausíveis. Diluir remédios não os torna mais poderosos, mas os faz menos eficazes. Esse assunto é o mais polêmico em minha área porque as pessoas que acreditam na homeopatia o fazem quase com fervor religioso.

ÉPOCA – Por quê?
Ernst –
A realidade que o médico vê no consultório é diferente daquela que acontece em um laboratório. Você, como médico, atende um paciente com enxaqueca, decide receitar remédio homeopático e em 15 dias ele volta dizendo que a dor desapareceu. A maioria dos homeopatas diria que isso mostra que a homeopatia funciona. Mas, como cientista, você aprende a pensar de maneira diferente. Em minha opinião, a melhora do paciente não quer dizer absolutamente nada. Pode ser consequência do efeito placebo ou, simplesmente, a evolução natural da condição. A experiência como médico pode ser bastante ilusória. É exatamente por isso que nós precisamos de pesquisas. Um bom médico deve confiar em evidências científicas tanto quanto confia em sua experiência diária.

ÉPOCA – O senhor fez muitos inimigos?
Ernst –
Os resultados dos estudos do meu grupo em relação à homeopatia e à quiropraxia, técnica que usa o alinhamento da coluna para tratar dores, foram muito negativos. Os defensores dessas duas práticas não gostam do meu trabalho, não gostam de mim e me atacam pessoalmente. Eles se mostraram extremamente agressivos. Não ligo para esses ataques, se eles não forem muito pessoais ou de baixo nível. Encaro essas controvérsias como resultado do meu trabalho. Às vezes, até provoco discussões de propósito. Acho que estimula o pensamento crítico, exatamente do que precisamos nessa área.

“Os estudos não respondem a questões cruciais, como o
mecanismo que explicaria os efeitos das práticas no corpo”

ÉPOCA – O senhor acha que não há rigor suficiente nas pesquisas sobre terapias alternativas?
Ernst –
A maior parte dos estudos atuais não aplica análise crítica em grau suficiente. Querem apenas promover a medicina alternativa, mostrar que funciona. Os estudos não respondem a questões cruciais, como o mecanismo fisiológico que explicaria os efeitos das práticas no corpo. O que a área precisa é de ciência rigorosa, em vez de promoção pura e simples. Precisamos de cientistas que pesquisem de verdade as técnicas de medicina alternativa. Se você não é cético, não pode ser um cientista.

ÉPOCA – Acreditar na eficácia da terapia pode atrapalhar o resultado da análise?
Ernst –
O ângulo errado de encarar uma pesquisa é dizer: “Estou convencido de que esse tratamento funciona e vou usar a ciência para provar”. Para testar uma hipótese é preciso tentar derrubá-la. Se você tenta provar que um tratamento não funciona e o submete às mais extremas e severas condições e, ainda assim, ele apresenta resultados eficazes, é sinal de que funciona em qualquer circunstância. Mas não é assim que a maioria de meus colegas no mundo inteiro trabalha. Eles partem do pressuposto que a terapia é eficaz e querem provar isso. Pesquisar medicina alternativa é muito desafiador.

ÉPOCA – Quais são as dificuldades?
Ernst –
Os efeitos dessas práticas costumam ser muito discretos. Não dá para dizer que a acupuntura e a homeopatia têm efeitos revolucionários sobre a vida dos pacientes. Isso significa que os estudos precisam ser realizados em uma amostra muito grande de pacientes, porque só assim temos condições de conseguir medir os efeitos. O problema é que pesquisas com muitos voluntários são caras. O segundo desafio é encontrar uma boa maneira de avaliar se a técnica funciona. Em testes de medicamentos comuns, um grupo de pacientes toma o remédio de verdade e o outro toma placebo, uma pílula falsa, de farinha, que não tem efeito algum. O resultado da pílula verdadeira tem de ser muito melhor que o da falsa. Na medicina alternativa é infinitamente mais difícil encontrar placebos. Por exemplo, como é possível substituir as agulhas de acupuntura? Aqui na unidade nós desenvolvemos uma “agulha placebo”, semelhante às facas usadas no teatro. Elas não penetram de verdade na pele.

ÉPOCA – Como ficarão as pesquisas agora que o senhor anunciou a aposentadoria?
Ernst –
Ainda não abandonei o posto completamente. Estou trabalhando meio período até achar um sucessor. Mas, quando deixar meu cargo, não vou parar. Vou escrever um livro, talvez vários. Vou ser uma voz muito crítica, vocês vão ouvir falar muito de mim.

29/03/2011 - 10:40h Temporada de caça a cientistas


Estabilidade do País, desafio do pré-sal e formação de pesquisadores atraem investimentos em superlaboratórios de multinacionais

Carlos Lordelo e Felipe Mortara – Estadão.edu

O Brasil foi escolhido sede da Copa e das Olimpíadas após acirrada batalha com outros países. Também saiu na frente em outra competição que, embora  menos badalada, deixará um legado até mais importante: a disputa para atrair superlaboratórios, centros de pesquisa e desenvolvimento (P&D) que já mobilizam  os sistemas educacional e de ciência e tecnologia do País.

Petrobrás/Divulgação
Petrobrás/Divulgação – Ilha do Fundão. Área dos novos centros de P&D equivale a 8% da superfície do câmpus

Aproximar-se das universidades, formadoras da mão de obra para pesquisa, tem sido o caminho natural para empresas que apostaram no País. Só em 2010 foram anunciados investimentos da ordem de R$ 500 milhões no Parque Tecnológico da UFRJ, no Rio. É lá que Petrobrás e ao menos seis multinacionais estão instalando ou ampliando laboratórios. No Rio e em São Paulo, gigantes como IBM e DuPont já puseram em operação centros de ponta. E a Vale está criando polos tecnológicos em três Estados.

Nesses centros vão trabalhar profissionais que antes tinham como opção fazer ciência fora do País, como Bruno Betoni, de 33 anos, único brasileiro no Centro de Pesquisas Global da General Electric, na Alemanha. “Será uma grande oportunidade em termos acadêmicos e de negócios.”

Para quem pretende trabalhar nos superlaboratórios, Betoni adverte que a pesquisa em empresas tem um ritmo diferente e é preciso se preparar desde o início da formação. “No dia a dia, uso coisas que aprendi na formação básica, que muitos têm por inútil. Meu ferramental vai do primeiro ano da graduação até o fim do doutorado.”

Analistas atribuem a vinda dos superlaboratórios ao cenário de estabilidade do Brasil. Outros atrativos são o início da exploração de petróleo no pré-sal e os sucessivos recordes na formação de pesquisadores.

O número de doutores diplomados cresceu de 554, em 1981, para cerca de 12 mil, no ano passado. “É pouco, mas, se você analisar esse dado em perspectiva, verá o tamanho do avanço”, diz o oficial de Ciência e Tecnologia da Unesco no Brasil, Ary Mergulhão. “É um momento excelente, só que é preciso investir, elevando de 1% para 3% o porcentual do PIB aplicado em P&D.” Para ele, a vinda dos laboratórios mostra que a pesquisa no País atingiu reconhecimento “razoável”. “O problema é que ela não se traduz em patentes. O caminho mais curto para melhorar isso é colocar engenheiros e doutores nas empresas.”

Fonte: Relatório Unesco sobre Ciência 2010

O governo admite que a taxa de inovação nas empresas é “tímida”. “Um número inexpressivo de pesquisadores atua em empresas. Falta cultura de inovação  no ambiente empresarial e há pouca articulação das políticas industrial e de ciência e tecnologia, apesar dos esforços recentes”, diz Ronaldo Mota,  secretário de Desenvolvimento Tecnológico e Inovação do Ministério da Ciência e Tecnologia.

Espaço. O pré-sal pode ajudar a mudar essa realidade, como mostra o câmpus da UFRJ na Ilha do Fundão, polo da corrida  tecnológica para exploração de petróleo em águas ultraprofundas. A procura por espaço foi tão grande nos últimos dois anos que só restam três terrenos  livres. Estima-se que serão gerados no local 4 mil empregos até 2014, quando os novos polos de pesquisa devem estar prontos.

A francesa Schlumberger foi a primeira múlti a inaugurar um centro no Fundão, em novembro. Também anunciaram investimentos lá as americanas FMC Technologies, Baker Hughes e Halliburton. A espanhola Repsol está construindo um laboratório para investigação em petróleo e gás. A GE vai erguer, no parque, seu quinto Centro de Pesquisas Global. Fará pesquisas sobre combustíveis fósseis, mas também energias renováveis, mineração, transporte ferroviário e aviação.

Segundo o diretor executivo do parque, Maurício Guedes, as empresas que querem se instalar no Fundão passam por uma avaliação da universidade. “É fundamental que elas estabeleçam cooperação com grupos de pesquisa da UFRJ”, explica. “Empresas não procuram só engenheiros e doutores, mas também estudantes para ser estagiários em grupos de pesquisa.”

Guedes acredita que a chegada das múltis vai beneficiar também os cursos da área de humanas. “A UFRJ não vai mudar seu perfil, focar mais nas ciências exatas, mas vai se fortalecer como um todo. Cursos como Música e Artes, por exemplo, poderão ser incentivados por meio de patrocínios.”

A Petrobrás é a grande responsável por tanto investimento na UFRJ. Desembolsou R$ 1,2 bilhão para aumentar de 180 mil para 300 mil metros quadrados o tamanho de seu polo tecnológico no Fundão. A nova estrutura do Centro de Pesquisas e Desenvolvimento (Cenpes), inaugurada em outubro, tem cerca de 1.600 profissionais trabalhando na área de P&D e engenharia de projetos inovadores. O número de laboratórios passou de 137 para aproximadamente 200.

O gerente executivo do Cenpes, Carlos Tadeu Fraga, compara o momento atual da exploração petrolífera l com o que ocorreu nos anos 1980. Naquela década, marcada pelas bruscas elevações do preço do petróleo, o Brasil investiu para aumentar sua produção interna. “A maior parte das novas tecnologias, naqueles anos, foi desenvolvida no exterior. A diferença é que agora, com o pré-sal, é possível incentivar fornecedores a fazer isso no Brasil.”

Recrutamento. Uma das empresas que mais investirão no Fundão é a GE. As obras do centro devem acabar até fins de 2012, com  investimento inicial da ordem de US$ 100 milhões.

O laboratório da GE no Rio será o quinto centro de P&D da empresa no mundo

O laboratório deverá empregar 200 pesquisadores e engenheiros. Segundo o presidente da GE no Brasil, João Geraldo Ferreira, a múlti vai começar a contratar em maio e quer encerrar o ano com 70 cientistas em atividade nas estruturas já prontas. Para recrutá-los, planeja atuar em três frentes: atrair doutorandos antes mesmo que terminem os estudos, selecionar pesquisadores em universidades e órgãos públicos e até repatriar brasileiros.

Em abril, a GE abre um ciclo de palestras em 17 universidades. “Queremos nos aproximar das universidades e, a longo prazo, sugerir mudanças no currículo da  graduação para atender a demandas específicas do nosso centro”, diz João Geraldo.

O pré-sal é um dos temas de interesse da IBM, que dividiu seu laboratório entre Rio e São Paulo. A companhia definiu quatro áreas de pesquisa: recursos naturais, dispositivos inteligentes, sistemas humanos (que cuidará, entre outras coisas, de soluções para eventos como Copa e Olimpíada), e sistemas e serviços, cujo objetivo é melhorar a eficiência de todo tipo de serviço, do bancário ao de saúde.

Anunciado em meados do ano passado, o laboratório tem 20 pesquisadores, mas a empresa pretende chegar a 100. Para liderar as áreas, a IBM repatriou brasileiros de seus centros no exterior. É o caso do geólogo Ulisses Mello, de 52, cuja equipe já trabalha, por exemplo, com a prefeitura do Rio para melhorar a precisão geográfica da previsão do tempo. Hoje a resolução é de 18 quilômetros quadrados. A meta é baixar para 2 ou 3 km². Assim,  em vez de dizer genericamente que vai chover na zona sul, será possível especificar o bairro afetado e tomar medidas preventivas. “Talvez no futuro a gente  consiga desenvolver algoritmos usando radar, sensoriamento remoto, para prever com antecedência de 48 horas chuvas ou risco de deslizamento.”

O engenheiro Sergio Borger, de 45, é outro repatriado. Está animado com as possibilidades criadas por eventos como a Copa. “Queremos fazer  experimentos em estádios para ver como fornecer serviços de melhor qualidade.” Um dos focos é segurança. A IBM tem softwares que permitem identificar em  vídeo pessoas específicas no meio da torcida. “Mas não é só isso. O ingresso pode ser a informação biométrica do seu rosto, por exemplo: pessoal e  intransferível.”

Perfil. O matemático Claudio Pinhanez, de 47, que voltou ao Brasil em 2008 para ajudar a montar o centro da IBM, ficou  surpreso com a qualidade dos currículos recebidos, mas defende ajustes nos programas de doutorado. “O importante é trabalhar com universidade e governo para  formar doutores com perfil voltado para a indústria. Tem gente com essa característica que hoje não se sente atraída pelo doutorado, que diz: ‘Não quero dar  aula.’”

As parcerias com universidades pesaram na opção da americana DuPont por Paulínia (SP) como sede do seu Centro de Tecnologia e Inovação, inaugurado em 2009 – USP, Unicamp e Unesp estão num raio de 180 km do laboratório. Vinte pesquisadores trabalham no CTI. Eles buscam promover inovação e gerar patentes nas áreas de polímeros, blindagens e biotecnologia.

Natália Barros, de 26 anos, começou na empresa como estagiária, durante a graduação em Engenharia Química nas Faculdades Oswaldo Cruz. Foi estimulada  pela DuPont a entrar no mestrado – já iniciado, na Unicamp. “O tema da dissertação é ligado ao que faço aqui. Assim, agrego valor ao mestrado e contribuo com  a pesquisa da empresa”, afirma Natália, que desenvolve embalagens para alimentos. “O sonho de todo pesquisador é que sua ideia seja comprada por uma empresa  e aplicada.”

Natália Barros, mestranda e engenheira da DuPont

Aos 22 anos, o engenheiro químico Luiz Biazzi, recém-formado pela USP, já conseguiu realizar esse sonho. Está empolgado por ter seu nome no depósito da primeira patente desenvolvida integralmente no CTI – uma descoberta para o mercado sucroalcooleiro. “O trabalho na ciência é muito difícil. Há muita incerteza, pois você não sabe se vai der certo sua pesquisa”, diz.

Luiz Biazi, engenheiro da DuPont: ‘Quando os papéis da demanda de patente chegaram para eu assinar, fiquei muito orgulhoso’

Segunda maior empresa do Brasil, a Vale está criando centros de P&D para pensar como será a “mineração do futuro”. Vai instalar  laboratórios em Ouro Preto (MG), Belém (PA) e São José dos Campos (SP), cada um focado em uma área: mineração, desenvolvimento sustentável e energia,  respectivamente. Quer mudar o perfil de sua pesquisa, concentrada em atender a demandas imediatas das minas, como analisar o perfil do solo de um depósito de  minérios.

MIT. Quem está por trás da iniciativa é o ex-pró-reitor de Graduação da Unifesp, Luiz Eugênio Araújo de Moraes Mello, chamado em  2009 para dirigir o Instituto Tecnológico Vale. Para administrar as unidades, escolheu profissionais com doutorado no exterior. “A pesquisa a longo prazo  envolve risco muito maior e não é possível ser feita nas estruturas atuais da Vale”, diz Mello, que pretende montar cursos de pós nos novos centros, para qualificar a mão de obra da própria empresa. Enquanto não vem a aprovação da Capes, faz convênios com universidades do Brasil e do exterior, como o  Massachusetts Institute of Technology (MIT). “Sou ambicioso.”

Noutra frente, a Vale tem feito parcerias com as Fundações de Amparo à Pesquisa de São Paulo, Minas e Pará para apoiar projetos com bolsas. Um dos beneficiados é o aluno do doutorado em Engenharia Elétrica na Federal do Pará Marcos Seruffo, de 27, que investiga diferentes formas de comunicação de dados em ambientes industriais – ou seja, vai aplicar o que desenvolveu em laboratório no mundo real das minas de bauxita.

“Os resultados que obtenho são da Vale, pois ela é a fonte financiadora. Só podem ser utilizados com finalidade científica”, diz Marcos, que pretende perpetuar a parceria. “Ainda não sei o que vai acontecer depois do doutorado. Mas sei que farei parte de um pequeno contingente da população bastante assediado, tanto pela academia quanto pelas indústrias.”

24/03/2011 - 17:00h As lágrimas femininas

Fernando Reinach – O Estado de S.Paulo

Choro e lágrimas chegam juntas, sinalizam emoções fortes, geralmente tristeza. Animais sociais usam muitos métodos para informar seu estado mental a outros membros do grupo. Expressões faciais (um sorriso), ruídos (gritos e uivos), cheiros (como o de um gambá irritado) ou mesmo hormônios, como os secretados pelos insetos, são alguns exemplos. O surgimento da linguagem falada tornou menos importante esses meios de comunicação, mas nem por isso deixamos de sorrir, gritar e gesticular. As crianças, muito antes de aprenderem a falar, já possuem uma enorme e eficiente capacidade de se comunicar.

Foi Darwin quem sugeriu que esses métodos de comunicação surgiram antes da linguagem falada. Quando observamos a mímica de um macaco quase acreditamos saber o que se passa na sua mente. Darwin também sugeriu que antes dos animais desenvolverem cérebros sofisticados, capazes de interpretar sinais visuais e auditivos complexos, a comunicação entre animais sociais já deveria ocorrer por meio de substâncias químicas capazes de modificar o comportamento do animal que recebe o sinal. Feromônios capazes de modificar o comportamento sexual dos parceiros são comuns entre insetos e é o cheiro da fêmea no cio que atrai os cachorros machos.

Mas e as lágrimas, para que serviriam? Para sinalizar tristeza não bastaria uma mudança de expressão? A grande maioria dos mamíferos não produz lágrimas e sabemos que as produzidas para lubrificar o globo ocular têm uma composição diferente das que escorrem pela face quando a emoção é forte. Agora um grupo de cientistas resolveu investigar se as lágrimas não conteriam algum composto químico capaz de modificar o comportamento humano. Se você está com preguiça de ler o resto, a resposta é sim.

Um grupo de mulheres voluntárias concordou em assistir a filmes tristes. As lágrimas que rolaram pelas faces foram coletadas. Se o filme for bem escolhido, cada mulher é capaz de produzir um mililitro de lágrimas. O primeiro experimento tinha o objetivo de determinar se nosso olfato era capaz de distinguir o cheiro das lágrimas do cheiro de uma solução contendo somente sais minerais (salina). Vinte e quatro homens concordaram que fosse fixado no seu lábio superior, logo abaixo das narinas, um pequeno pedaço de papel que podia ser molhado com lágrimas de mulheres tristes ou com salina. Desse modo, eles poderiam absorver por via nasal qualquer molécula volátil que existisse nas lágrimas. Foi descoberto que somos incapazes de identificar se o que foi colocado no papel é uma gota de lágrima ou uma gota de salina. Assim, os voluntários não sabiam o que estavam recebendo quando foram submetidos a outros experimentos.

No experimentos seguinte, os dois grupos de voluntários (um cheirando salina e o outro, lágrimas) foram colocados na frente de fotos de faces de mulheres e foi pedido a eles que avaliassem o “sex appeal” de cada face. Foi observado que os homens que estavam cheirando lágrimas davam notas mais baixas para as faces, ou seja, achavam as mulheres menos atraentes.

No teste seguinte, a capacidade dos homens de ficarem sexualmente excitados ao observar fotos foi medida diretamente por meio da passagem de uma corrente elétrica pela pele. Já se sabe que as propriedades elétricas da pele se alteram quando ficamos excitados e o que se observou é que os homens que estavam sob efeito das lágrimas ficavam menos excitados que o grupo controle. Novamente as lágrimas pareciam inibir o instinto sexual.

Em dois outros experimentos foi possível demonstrar que a simples presença das lágrimas sob a narina reduz a produção de testosterona na saliva e diminui a ativação das áreas cerebrais relacionadas à excitação sexual. Como os efeitos foram obtidos sem que os homens observassem visualmente o ato da mulher chorando e sem que soubessem o que estava sob suas narinas, esses resultados demonstram que nas lágrimas femininas existe algum componente volátil capaz de inibir o instinto sexual dos machos da nossa espécie.

Agora os cientistas planejam repetir o estudo usando lágrimas masculinas, testar o efeito da lágrimas sobre o mesmo sexo e caracterizar essa substância. Como ela só atua a uma distância muito curta, os cientistas acreditam que o efeito das lágrimas só é obtido quando abraçamos uma mulher que esteja chorando, aproximando nossas narinas da face por onde escorrem as lágrimas.

A existência desse sinal químico, que inibe o instinto sexual, provavelmente facilita a tarefa dos homens de consolar suas mulheres. Sem esse inibidor, o ato de consolar pode levar à excitação sexual, o que geralmente irrita uma mulher triste. É importante lembrar que a existência dessa molécula não significa que esse mecanismo tenha um papel importante no nosso comportamento – ele pode ser simplesmente um vestígio de um mecanismo que foi importante para nossos antepassados distantes. De qualquer forma, vai ser interessante observar como a indústria de perfumes utilizará esse composto, afinal ele parece ser um potente antiafrodisíaco.

BIÓLOGO

MAIS INFORMAÇÕES: HUMAN TEARS CONTAIN A CHEMOSIGNAL. SCIENCE VOL. 331 PAG. 226 2011
(FERNANDO@REINACH.COM)

15/03/2011 - 17:30h Astrônomos medem expansão do universo com precisão de 3,3%

Teoria alternativa à matéria escura foi descartada depois que cientistas da Nasa recalcularam taxa com precisão sem precedentes

Estadão.com.br

Uma teoria alternativa à matéria escura foi descartada depois que astrônomos da Nasa recalcularam a taxa de expansão do universo com precisão sem precedentes usando o Telescópio Hubble da Nasa. As novas medições têm margem de erro de apenas 3,3%, enquanto as anteriores – apresentadas em 2009 – eram de até 30%. Os resultados serão publicados na revista Astrophysical Journal em abril.

Há tempos os cientistas tentam explicar a expansão do universo a taxas crescentes. Uma das teorias, a da matéria escura, explica que existe um tipo de matéria que não pode ser detectada, mas que tem efeito oposto ao da gravidade. Acredita-se que ela forme cerca de um quarto do universo.

A hipótese concorrente, descartada após este último estudo, postulava que uma “bolha” enorme de espaço relativamente vazio de oito bilhões de anos-luz rodeia nossa vizinhança galáctica. Se vivêssemos perto do centro desse vácuo, observações de galáxias sendo empurradas para fora a velocidades crescentes seriam uma ilusão.

Adam Riess, que liderou o estudo, conseguiu descartar essa última hipótese usando as observações do Hubble para uma melhor caracterização do comportamento da matéria escura. Os dados ajudaram a determinar um número muito mais preciso para a taxa de expansão do universo, o que ajudará os astrônomos a determinar questões como o formato do universo.

“Estamos usando a nova câmera instalada no Hubble como um radar de trânsito para pegar o universo ultrapassando a velocidade permitida”, afirmou Riess em nota divulgada pela Nasa. “Parece que é a matéria escura que está apertando o acelerador.”

Para a pesquisa, inicialmente a equipe teve que determinar com precisão as distâncias de galáxias próximas e distantes da Terra. Então, eles compararam essas distâncias com a velocidade a que as galáxias estão aparentemente diminuindo devido à expansão do Espaço. Eles usaram esses dois valores para calcular a “constante de Hubble”, número que relaciona a velocidade a que uma galáxia parece “diminuir” a sua distância da Via-Láctea.

Vale lembrar que os astrônomos não podem medir fisicamente a distância de uma galáxia até a Via-Láctea. Sendo assim, eles usam estrelas ou supernovas como pontos de referência confiáveis. Esses objetos têm um brilho intrínseco – seu brilho real, não diminuído pela distância, pela poeira ou pela atmosfera – e um brilho real – visto da Terra. Sua distância pode então ser medida de maneira confiável pela comparação desses dois brilhos.

27/02/2011 - 17:55h ”Não há profissões só para homens ou só para mulheres”

Pesquisadora aponta diferenças entre os cérebros masculino e feminino, mas afirma que dinamismo do sistema nervoso garante aptidão dos dois para qualquer atividade intelectual

Marcio Fernandes/AE
Marcio Fernandes/AE
Experiência. A italiana Marina Bentivoglio, uma das mais renomadas neurocientistas: ‘Mesmo na velhice nosso cérebro continua disposto a aprender’


Alexandre Gonçalves – O Estado de S.Paulo

Homens e mulheres utilizam estratégias distintas para resolver os mesmos problemas, um reflexo das particularidades dos cérebros masculino e feminino. Mas, para a médica italiana Marina Bentivoglio, as diferenças não privilegiam nenhum dos sexos e apontam para uma verdadeira complementaridade. Professora da Universidade de Verona, Marina é uma das mais importantes neurocientistas em atividade.

Na semana passada, ela veio ao Brasil para a 5.ª Escola Latino-Americana de Epilepsia, em Guarulhos. O evento, promovido pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), reuniu jovens médicos de diversos países latino-americanos e especialistas em neurociência e epilepsia de renome internacional. O encontro termina na terça-feira.

Quais as principais diferenças entre os cérebros feminino e masculino?

Há diferenças fisiológicas: a sensibilidade a determinados neurotransmissores, a distribuição de receptores, particularidades estruturais, o volume de sinapses… Mas o significado prático dessas diferenças ainda é motivo de controvérsia. Alguns fatos são evidentes. Na mulher, o cérebro prioriza funções relacionadas à maternidade e ao cuidado dos filhos, necessárias para a conservação da espécie. Mas, do ponto de vista da organização social, as diferenças nos cérebros de homens e mulheres são comparáveis às particularidades encontradas entre cérebros de pessoas do mesmo sexo. O cérebro feminino, por exemplo, é muito verbal, apto para a comunicação. Mas há homens que se comunicam bem e mulheres que não se comunicam tão bem. Natureza e sociedade exercem cada uma a sua influência.

Podemos diferenciar o que é construção social ou biologia na mente?

Não. É difícil diferenciar, pois o cérebro é dinâmico. A organização dos circuitos cerebrais influencia a experiência e a experiência modifica esses circuitos. Há um contínuo interagir entre natureza e educação, entre nossos circuitos cerebrais e a experiência concreta. Mesmo na velhice, nosso cérebro continua plástico, disposto a aprender, a se adaptar.

A monogamia, por exemplo, fundamenta-se na biologia ou na cultura?

Essa questão envolve também cultura, antropologia, sociologia… E eu não sou especialista nestas áreas. De qualquer forma, nós sabemos, por estudos com outros mamíferos, que o cérebro de um animal monógamo é diferente do cérebro de um promíscuo: há diferença na concentração e distribuição de determinadas substâncias. No caso dos humanos, convém lembrar dois dados. Nem todas as culturas humanas são monógamas: há culturas polígamas. Mas a monogamia tem sido privilegiada na nossa história evolutiva e na organização social. Mesmo assim, permanece aberta a questão: foi o cérebro que influenciou essa preferência ou foi essa preferência que influenciou a organização do cérebro? Sinceramente, não sei resposta. É provável que a regra da monogamia seja ditada pela experiência e a experiência molde o cérebro.

O cérebro feminino lida melhor com a linguagem e o masculino tem mais aptidão para processamento espacial. Mito ou realidade?

É o que aponta boa parte da literatura científica. Tais particularidades estão relacionadas ao processo de lateralização do cérebro (quando determinadas funções passam a ser controladas em larga medida por um dos hemisférios cerebrais – direito ou esquerdo). A lateralização aumenta a especialização para determinadas atividades. Acredita-se que o cérebro do homem é mais lateralizado. Mas, se é verdade que o cérebro da mulher é menos lateralizado, isso não significa que seja menos perfeito. Significa somente que é mais plástico. Provavelmente, na sua história evolutiva, as mulheres precisaram enfrentar e controlar um rol maior de situações no ambiente: coleta de alimentos, controle da prole… Um cérebro menos lateralizado – e, portanto, menos especializado – estaria pronto para um número maior de cenários.

E na resolução de problemas concretos? Há alguma diferença?

A opinião mais difundida é que em várias situações homens e mulheres utilizam estratégias diferentes para resolver problemas, embora essa não seja uma questão fechada. Poderíamos citar, como exemplo que confirma essa tese, as diferentes estratégias de aprendizado. Uma das coisas mais importantes para a nossa existência é o que conhecemos como mecanismo de recompensa: o prazer que o cérebro oferece quando realizamos atividades importantes para a manutenção da vida. E não tenho dúvidas de que esse mecanismo é diferente em homens e mulheres: ter um filho, por exemplo, oferece uma satisfação diferente para cada um. Mais uma vez, é difícil precisar qual é essa diferença – em parte cultural, em parte biológica. Mas a recompensa, por exemplo, que um menino e uma menina sentem por se comportarem bem é diferente. Do ponto de vista biológico, há diferença na distribuição dos receptores, na probabilidade de sinapses e em vários outros parâmetros do mecanismo de recompensa… Pequenas diferenças, mas importantes. E se a recompensa é diferente, as motivações e o desempenho também serão diferentes.

Há trabalhos em que as mulheres se sairiam necessariamente melhor do que os homens ou vice-versa?

Acredito que não. Naturalmente, nos trabalhos em que massa muscular é importante, os homens podem ter um desempenho melhor. Mas, do ponto de vista do cérebro, não creio que existam trabalhos mais adequados para homens ou mulheres. Convém lembrar que há uma grande variabilidade entre os indivíduos concretos. Nós somos 7 bilhões de pessoas no mundo. Não convém recorrer a categorias binárias. Você vai encontrar pessoas – homens e mulheres – com talento para algumas coisas e sem aptidão para outras. Mas não acredito que seja justificável uma separação dos trabalhos por gênero. Para qualquer um é uma questão de treino, de estímulo… Devemos procurar todos os dias novos estímulos: descobrir novos caminhos para voltar para casa, ler livros diferentes dos que estamos acostumados. Vale o princípio: use (o cérebro) para não perdê-lo. Sem dúvida, alguns contextos sociais podem fazer com que a mulher não se sinta estimulada a encarar desafios, diminuindo o seu desempenho intelectual. Mas isso também pode acontecer com homens. Não acredito que seja bom proteger esse ou aquele gênero. Sou mulher, mas gosto de trabalhar com homens. Por quê? Aprecio a diferença. É mais estimulante. Tenho homens e mulheres no meu laboratório. Acharia ruim se só houvesse mulheres. Quero diferentes abordagens para resolver os problemas. A natureza criou dois sexos e tenho certeza de que há uma ótima razão para isso.

Como o cérebro se adapta às mudanças no ambiente?

Mudar estruturas no cérebro leva milhões de anos. Por isso, as mudanças mais comuns são marginais: regulação de sinapses, interações entre neurônios e células não neuronais, etc… Ou seja, o hardware já está lá. Mas há algo como um software de modulação que atua de forma quase imediata para realizar a adaptação. Às vezes, em poucos minutos. Sua atuação depende do ambiente físico e cultural onde a pessoa está inserida. Por exemplo, uma mulher na savana e outra no norte da Europa têm diferentes prioridades e o cérebro se adapta a essas distintas prioridades. O hardware para os dois sexos é muito parecido. Mas alguns ajustes finos do software dependem das prioridades de cada indivíduo e tais prioridades dependem do gênero e do contexto social. Convém lembrar que os neurônios sempre atuam em conjunto. Nunca isolados. Se o estado de um neurônio muda, centenas ou milhares também mudam ao seu redor. Realmente funciona como um arranjo social. Essa modulação no estado dos neurônios ocorre a todo momento. Isso é, afinal, a essência da vida. O cérebro não é estático. Como a vida, ele se reorganiza sempre.

No mundo contemporâneo, o cérebro é submetido diariamente a uma avalanche de informações. O que você acha desse cenário?

Eu adoro. O problema não é a avalanche de informações, mas a seleção do mais importante. Realmente não sei se os jovens, hoje, conseguem diferenciar o lixo dos conhecimentos relevantes. O cérebro continua capaz de processar um volume imenso de informações. Mas precisamos decidir quais informações convêm processar. O pensamento crítico é mais importante do que nunca. Todo conteúdo que aprendi na escola está na internet misturado a muitas outras coisas. Você digita uma palavra no Google e aparecem milhões de bytes de informação. Como filtrá-la? Sou uma entusiasta do progresso. Mas ele traz consigo novos desafios.

Você também estuda o sono. Como a ciência vê o sono hoje?

No início da neurociência, os pesquisadores acreditavam que nosso cérebro permaneceria passivo durante o sono. Não é verdade. Ele trabalha muito. Cessa a comunicação com o ambiente externo, mas o ambiente interno continua ativo. É o momento em que se filtra e armazena o que aprendemos durante o dia. A expressão dos genes muda significativamente – cerca de 10% – durante o sono. E os genes mais utilizados no sono são justamente os relacionados à memória, ao aprendizado.



21/02/2011 - 17:00h Aprender segunda língua pode fortalecer funções cerebrais, diz estudo

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Bilíngues são melhores em priorizar tarefas e trabalhar em múltiplos projetos ao mesmo tempo

estadão.com.br

SÃO PAULO – Falar mais de uma língua pode fortalecer funções cerebrais, servindo uma espécie de ginástica cerebral, afirmaram pesquisadores durante a reunião anual da Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS) na sexta-feira, 18.

Pesquisas norte-americanas indicam que pessoas bilíngues podem ter uma melhor performance que aqueles que falam apenas uma língua em algumas habilidades como editar informações e se concentrar nas informações mais importantes. Essas habilidades tornam os bilíngues melhores em priorizar tarefas e trabalhar em múltiplos projetos ao mesmo tempo.

Segundo os pesquisadores, as descobertas contradizem pesquisas anteriores que afirmavam que o aprendizado de uma segunda língua dificultava o desenvolvimento cognitivo. Acreditava-se anteriormente que aprender duas línguas criava confusão, especialmente em crianças, fazendo com que as pessoas tivessem dificuldade em usar ambas as línguas.

Os cientistas encontraram como fonte dessa capacidade de lidar com múltiplas tarefas ao mesmo tempo a maneira como os bilíngues negociam mentalmente entre línguas, uma habilidade que chamaram de “malabarismo mental”, uma forma de exercício mental.

14/02/2011 - 08:49h Inovação deve ter foco, dizem analistas

Políticas públicas : Ideia não é abandonar a indústria, mas definir onde é possível avançar mais

Leo Pinheiro/Valor

Carlos Américo Pacheco, professor da Unicamp, sobre as escolhas do país: “Não vamos conseguir resolver todos os problemas sistêmicos no curto prazo”

Heloisa Magalhães | VALOR

A indústria brasileira vem perdendo espaço no mercado doméstico para os produtos importados e também perdeu competitividade para concorrer em outros países com produtos “made in China”, “made in Coreia”, “made in” algum país asiático. Embora o câmbio seja hoje apontado como o grande vilão da indústria brasileira, ele não é o único responsável pela perda de participação dos produtos brasileiros no consumo doméstico e também no de outros países. Para um grupo cada vez maior de especialistas, a recuperação da participação perdida e a conquista de novos espaços passa pela inovação. Mas o importante, insistem, é traçar uma rota de incentivo à inovação com foco nos segmentos onde o país tem capacitação e possa fazer diferença. A ideia, dizem, não é abandonar a indústria, mas fazer “escolhas” em setores nos quais o país pode dar um salto a médio e longo prazo.

Na última década, o país perdeu competitividade de tal forma que levou o professor Antonio Barros de Castro, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a caracterizar a indústria brasileira, com honrosas exceções, de “descartável do ponto de vista internacional”. Para Barros de Castro é preciso “um ativismo forte, mas não para manter, e sim para transformar”.

Ele e outros dois especialistas em política industrial – os professores David Kupfer, também da UFRJ, e Carlos Américo Pacheco, do Instituto de Economia da Unicamp – avaliam que há a necessidade de uma política científica e tecnológica diferente daquela que vem sendo realizada. “O foco da política tecnológica brasileira tem que ser para segmentos ou setores ou para parte de setores ou para um conjunto de setores similares. A questão de ciência e tecnologia é um desafio em qualquer lugar do mundo. O Brasil não é diferente”, avalia Kupfer.

Carlos Américo Pacheco destaca que o Brasil vai ter que fazer escolhas. “Não vamos conseguir resolver todos os problemas sistêmicos no curto prazo. Há falta de recursos humanos e de ação coordenada, e toda essa agenda é de médio e longo prazos. Temos que resolver questões de logística e de infraestrutura, e o problema cambial não vai ser solucionado de um dia para outro. Temos aí dois anos para equilibrar apenas as questões macroeconômicas e depois poderemos realmente avançar ” diz.

Tanto ele como Kupfer destacam áreas nas quais o país pode avançar e posicionar-se internacionalmente de uma forma mais competitiva e diferenciada, observando que esses segmentos “são até óbvios”, como lembra o professor da Unicamp. “Andar firme no agronegócio, em toda a cadeia que envolve o petróleo, com o pré-sal, manter a base de desenvolvimento científico no que diz respeito aos recursos da biodiversidade, energia, na aeronáutica, setor aerespacial que são indutores de tecnologia pelo mundo afora são setores que formariam um mapa interessante para serem depois completados com dimensões da economia do conhecimento”, lista Kupfer.

Ele avalia que todos os setores citados contam com bases bem constituídas, mas precisam continuar recebendo investimentos para abrir caminhos novos e acumular mais massa critica para avançar. “Não se deveria definir um número muito grande de áreas, mas algumas com margem ampla de ação de longo prazo, envolvendo recursos de empresas e governamentais”, diz o professor da UFRJ.

Kupfer lembra que não foi por acaso que o país avançou no agronegócio. “A ideia de celeiro do mundo não é porque temos terra e sol. Foi reflexo de décadas de um sistema de acumulação, inovação e pesquisa tecnológica. Na agropecuária recente, houve um puxão na ciência que deu oportunidade para descobertas na biologia e genética, e, do lado econômico, a questão do alimento ganhou uma difusão de teses de segurança alimentar. A bioenergia, por exemplo, poderá encontrar soluções na agropecuária. Trata-se de uma linha que podemos avançar muito e chegar o mais próximo da fronteira internacional”, diz ele.

O professor lembra que já existe toda uma cadeia voltada à inovação que, se exacerbada, tem tudo para avançar ainda mais. O amplo envolvimento de um setor trouxe resultados importantes para o país, lembra Carlos Américo Pacheco, citando o exemplo da indústria aeronáutica. Tudo começou nos anos 40, com a criação de órgãos e a formação de mão de obra no setor, que levaram à criação da Embraer, empresa com destaque no cenário internacional.

O professor da Unicamp lembra que as energias renováveis estão na agenda mundial e nessa agenda o Brasil está devendo ao mundo. “Os Estados Unidos estão buscando novas fronteiras na biotecnologia e a China também. Para sermos cada vez mais competitivos, é preciso recursos para termos uma biotecnologia de classe mundial”, afirma.

Na avaliação dos especialistas, o país tem uma “joia da coroa”, como define Kupfer ao se referir a tecnologia envolvendo o pré-sal. “É preciso concentrar toda a política pública nessa mina de ouro para potencializar o conhecimento que se transfere para a indústria eletrônica, mecânica, a robótica e a ligada à tecnologia do conhecimento que estará envolvida ao redor”, afirma o professor da UFRJ.

Ao tomar posse no fim de janeiro do comando da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), órgão do Ministério da Ciência e Tecnologia, Glauco Arbix, especialista em politica industrial e inovação, deu um sinal da razão de ter sido escolhido. Ele foi taxativo: “O Brasil precisa de um choque de inovação em todas as esferas e dimensões, na economia e na sociedade”, disse. Falou em “mobilizar o Brasil para inovação”, mas lembrou que “a inovação é uma combinação de processos, conclusões e síntese de eventos anteriores”. E reconheceu: “Não há varinha de condão. Há travessia, criação e uso intensivo de conhecimento processado por pessoas”, disse.

Em dez anos, investimento na área cresce 75%

Tarso Veloso | VALOR

De Brasília

A decisão do governo de promover avanços nas áreas de pesquisa e tecnologia no país, especialmente em inovação, está evidente desde a posse da presidente Dilma Rousseff. O assunto dominou os primeiros passos de pelo menos dois ministros, Aloizio Mercadante, da Ciência e Tecnologia, e Fernando Pimentel, do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Atualmente, os principais projetos de fomento ao setor estão ligados ao Ministério de Ciência e Tecnologia (MCT), cuja pasta será afetada pelos cortes no Orçamento de 2011.

São vários os programas de incentivo à inovação, entre os quais se destaca a Lei do Bem. Sancionada em 2006, ela oferece incentivos fiscais a empresas que realizam pesquisas tecnológicas e de informação. O Congresso discute alguns mecanismos para expansão da lei, mas ainda não estão claras as mudanças que os parlamentares pretendem fazer. No primeiro ano de vigência, em 2006, 130 empresas declararam investimentos de aproximadamente R$ 2,2 bilhões em pesquisa e inovação. O número saltou, em 2009, para 542 empresas e R$ 8,3 bilhões em investimentos. A contrapartida do governo em renúncias fiscais chegou a R$ 1,38 bilhão apenas em 2009. Na lista de empresas participantes existem desde pequenas fábricas até gigantes multinacionais como a Ambev e a Alcoa.

Os investimentos, por meio da Lei do Bem, ainda estão muito concentrados no Sudeste. Dos R$ 8,3 bilhões investidos em 2009 em pesquisa e desenvolvimento, R$ 7,2 bilhões foram aplicados nessa região. Das 542 empresas que investiram em 2010, 111 foram da área de mecânica e transportes, 53 de eletrônica, 47 da área química, 43 de metalurgia, e 40 de alimentação.

O ministro do MCT, Aloizio Mercadante, anunciou nos primeiros dias de sua gestão a intenção de avançar com os programas de incentivos à inovação para ganhar mais autonomia nos setores da indústria, aviação e automotivo. Dados do MCT indicam que o dispêndio total em pesquisa e desenvolvimento, no Brasil, cresceu de R$ 12 bilhões no ano 2000, correspondentes a R$ 25 bilhões corrigidos, para R$ 44,4 bilhões em 2010, um aumento real de 75%. Quanto à relação com o Produto Interno Bruto (PIB), o setor passou de 1,02% para uma estimativa de 1,25% em 2010.

Em seu discurso de posse, Mercadante chegou a dizer que o primeiro grande desafio do país é o da sustentabilidade ambiental e a obrigação de gerar baixos índices de emissão dos gases de efeito estufa e outros agentes poluidores. Esse, a seu ver, é um desafio importante para os cientistas envolvidos com a inovação.

Ainda de acordo com dados do ministério, até pouco tempo atrás havia poucas opções de financiamento para a pesquisa e inovação nas empresas. Recentemente, as duas áreas passaram a ser uma prioridade comum da Política de Desenvolvimento Produtivo (PDP) e do Plano de Ciência, Tecnologia e Inovação 2007-2010 (Pacti). O MCT firmou acordo com entidades empresariais, federações de indústrias, associações setoriais e o Sebrae para fomentar a inovação nas empresas nacionais.

Alguns dos primeiros novos programas anunciados pelo governo Dilma estão também ligados à inovação. Por exemplo, o aumento do acesso à internet rápida no país. O ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, disse, em janeiro, que o governo deverá investir na produção de um tablet (aparelho portátil com acesso à internet) nacional. Atualmente, com os impostos de importação, o valor dos aparelhos se torna impeditivo para a maioria da população.