07/11/2009 - 16:39h É hostil ao cristianismo a decisão da Corte Europeia que condenou crucifixo em escolas italianas?

TENDÊNCIAS/DEBATES – FOLHA SP

É hostil ao cristianismo a decisão da Corte Europeia que condenou crucifixo em escolas italianas?

http://www.sed.sc.gov.br/secretaria/images/stories/crucifixo.jpghttp://mp3.swissinfo.ch/xobix_media/images/sri/2005/sriimg20051125_6266508_0.jpg

NÃO

Igual liberdade religiosa para todos

ALDIR GUEDES SORIANO

A DECISÃO da Corte Europeia de Direitos Humanos concernente ao caso Lautsi v. Itália, contrária à exposição de crucifixos nas escolas públicas italianas, não pode ser considerada hostil à religião.
O julgamento foi totalmente embasado na Convenção Europeia dos Direitos Humanos (1950), que impõe aos Estados signatários, incluindo a Itália, a obrigação de respeitar o direito que os pais possuem de educar os filhos de acordo com suas próprias convicções religiosas e filosóficas.
Os dois filhos da senhora Lautsi frequentaram uma escola pública em que todas as salas de aula tinham um crucifixo na parede.
Incomodada com a influência diária que esse símbolo exercia na educação religiosa de suas crianças e com o argumento de que a situação feria o princípio da laicidade (secularismo) do Estado italiano, tentou solucionar o problema com a direção da escola.
Como a escola decidiu manter os crucifixos, levou, sem sucesso, o caso à Justiça italiana. Posteriormente, Lautsi buscou a jurisdição da Corte Europeia de Direitos Humanos, que condenou o Estado italiano a pagar 5.000 euros a título de indenização.
A corte entendeu que a exposição do crucifixo restringe o direito de alguns pais de educar suas crianças em conformidade com suas próprias convicções, bem como o direito das crianças de acreditar ou não acreditar. A presença do símbolo religioso atuaria nas crianças como sutil imposição da crença representada, levando-as ao constrangimento.
O julgamento, que foi levado a cabo por uma câmara de sete juízes da Corte de Estrasburgo, no último dia 3, tem o amparo da legislação internacional de direitos humanos.
Segundo o artigo 9º da Convenção Europeia dos Direitos Humanos, “qualquer pessoa tem o direito à liberdade de pensamento, de consciência e de religião”. Além disso, segundo o artigo 2º do protocolo nº 1 dessa mesma convenção, “o Estado deve respeitar o direito dos pais de garantir educação e ensinamentos em conformidade com suas próprias convicções religiosas e filosóficas”.
Por unanimidade, entenderam os juízes que houve, no caso concreto, a violação desses dois dispositivos daquela convenção. É importante observar que a decisão não proíbe o uso do crucifixo pelo cidadão, que é titular ativo do direito à liberdade religiosa. Este poderá usar seus emblemas religiosos nas escolas públicas italianas sem restrição.
Por outro lado, no contexto não confessional ou laico, o Estado não é titular ativo do direito à liberdade religiosa. Assim, a exposição de símbolos religiosos pelo próprio Estado viola sua neutralidade e a isonomia em relação à diversidade religiosa existente na sociedade. O Estado, em tese, não tem o direito de ostentar símbolos religiosos. Cabe a ele proteger os direitos e as liberdades do cidadão.
Ademais, a sentença da corte não alcança as escolas particulares de natureza confessional. A decisão da corte representa conquista histórica a favor da igual liberdade religiosa para todos os cidadãos.
Por certo, a exposição do símbolo de uma única religião em todas as salas de aula dessa escola pública da Itália não pode ser considerada direito, mas privilégio que viola a laicidade estatal e o princípio universal da liberdade religiosa.
Por isso, não se pode dizer que a decisão é hostil à religião. Na verdade, a Corte Europeia se posicionou a favor do ser humano, cujos direitos devem ser preservados.
Por fim, não há dúvidas de que essa importante decisão de Estrasburgo está em conformidade com o direito internacional e com o desafio constante de proteger os direitos e as liberdades fundamentais da pessoa humana e sua dignidade.


ALDIR GUEDES SORIANO , 47, advogado e membro da Comissão de Direito e Liberdade Religiosa da OAB-SP, é coordenador da obra coletiva “Direito à Liberdade Religiosa: Desafios e Perspectivas para o Século XXI”.

É hostil ao cristianismo a decisão da Corte Europeia que condenou crucifixo em escolas italianas?

SIM

A ditadura do laicismo

IVES GANDRA DA SILVA MARTINS

UMA ÚNICA senhora -que, certamente, no dia de comemoração do nascimento de Cristo, ofertará a seus filhos e familiares presentes natalinos- e a Corte Europeia de Direitos Humanos, constituída de juízes não italianos -e que também, em homenagem ao Natal, não funcionará no dia 25 de dezembro-, impuseram à nação italiana, berço do cristianismo universal, contra a opinião de dezenas de milhões de pessoas que lá vivem, a retirada dos crucifixos de suas escolas públicas.
Os próprios juízes daquela corte, que decidiram contra a presença dos crucifixos -símbolo integrante da cultura da esmagadora maioria dos cidadãos italianos-, certamente também festejarão as festas natalinas, presentearão familiares e amigos e comemorarão a data de confraternização mundial por excelência, talvez a mais importante para a difusão da paz e da fraternidade entre os povos.
A contradição hipócrita entre a eliminação dos crucifixos e a comemoração do Natal -signos que lembram a morte e o nascimento de Jesus Cristo- é evidente, demonstrando a falta de razoabilidade da decisão da Corte Europeia de Direitos Humanos, por impor aos italianos a vontade de uma única pessoa.
Não cogitou, entretanto, de instituir a proibição dos feriados natalinos a todos os países da Europa.
Esse e outros episódios que vão se multiplicando pelo mundo estão a atestar que os valores do cristianismo incomodam, hoje, como incomodaram, nos primeiros 300 anos, os detentores do poder no Império Romano, cujo padrão de comportamento moral não serviria de lição para nenhuma escola de governantes.
Para o referido órgão decisório, acostumado a condenar todos aqueles que, na sua preconceituosa visão laicista, ferem seu conceito amesquinhado de dignidade humana, realmente a figura do crucifixo deve perturbar, pois, como julgador, Cristo, na cruz, não só absolveu todos os que o condenaram mas também aquele criminoso (Dimas) que com ele foi crucificado. E, para essa corte, acostumada a condenar, a figura de um juiz que absolve é perturbadora, como lembra Américo Lacombe.
O certo é que há uma minoria, com forte influência política, que busca solapar os valores éticos e culturais do cristianismo a título de impor a ditadura do ateísmo, segundo a qual, num Estado laico, apenas os que não têm religião podem se manifestar, impor as suas regras e exigir que todos os que acreditam em Deus se submetam à tirania agnóstica.
A decisão, por outro lado, fere um princípio fundamental, o da subsidiariedade no direito europeu, pelo qual todas as questões que podem ser decididas de acordo com a tradição, os costumes e a legislação locais não devem ser levadas às cortes da comunidade, pois dizem respeito exclusivamente ao direito interno de cada país.
Bem por isso a decisão referida está recebendo fortes críticas, correndo sérios riscos de não ser cumprida em um país no qual até mesmo leis que contrariam seus costumes são de difícil cumprimento.
No Brasil, o Conselho Nacional de Justiça, em resolução tomada por 12 votos e uma abstenção, deliberou que, nos tribunais, caberá a cada magistrado decidir, de acordo com suas convicções, a manutenção ou não do crucifixo na sala de julgamentos. E uma tentativa do Ministério Público de retirar os crucifixos desses recintos foi rejeitada pelo Poder Judiciário.
Se a Turquia vier a ingressar na União Europeia -já estando avançadas as tratativas nesse sentido-, certamente a Corte Europeia não terá coragem de proibir, diante de possíveis reações “talebanísticas”, os símbolos da cultura e da crença islâmica nas sessões de julgamento.
Os valores do cristianismo sempre incomodaram. Embora sem a virulência dos tempos dos mártires do coliseu, a reação dos que querem impor sua maneira de ser é a mesma.
Trata-se de uma visão deturpada do Estado laico. Este não é um Estado sem Deus, mas um Estado em que a liberdade de pensar é plena e não pode reputar-se ameaçada pelo respeito às tradições do povo e do país. Numa democracia, é a maioria que deve decidir os seus destinos. E a maioria acredita em Deus.


IVES GANDRA DA SILVA MARTINS , 74, advogado, professor emérito da Universidade Mackenzie, da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército e da Escola Superior de Guerra, é presidente do Conselho Superior de Direito da Fecomercio.

06/11/2009 - 21:12h Sem tabu

Une femme éjacule…

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Il y a des femmes qui jouissent en giclant. Certaines coulent comme des robinets dès qu’on les touche. D’autres lâchent brusquement de longues gerbes liquides. Elles éjaculent. Ce soir, au Festival de films gays et lesbiens de Paris, This is the Girl, de Catherine Corringer dévoile avec jubilation cet aspect encore méconnu de la sexualité féminine.

Projeté samedi 17 novembre au cinéma Beverley à Paris, à 22h, This is the girl se définit comme un «film queer érotique et fantastique, mettant en scène une “sex heroïne boxer”, sa “rocky coach”, et un homme transformé en sex toy. Le film explore la puissance sexuelle de la femme, à travers la masturbation et l’éjaculation féminine.»

C’est un film sans trucages. Pendant de longues minutes, toute entière concentrée sur son plaisir, une jeune femme (Flozif) se masturbe. Ejacule. Se masturbe à nouveau. Ejacule encore. Se masturbe en troisième fois. Ejacule.

«La scène d’éjaculation féminine dans mon film est un plan “performance”, c’est à dire long et sans qu’il soit coupé, explique Catherine Corringer, la réalisatrice. Le film est un hommage à la puissance sexuelle de la femme. Le terme “éjaculation” induit un acte volontaire, alors que quand on dit “c’est une femme fontaine” on sous entend qu’elle “se répand” et non qu’elle “gicle”, ce qui est, à tous les points de vue très différent. Flozif éjacule dans le plan performance 3 fois de suite à environ 1 ou 2 minutes de distance entre. Ce qui est exceptionnel dans ce plan et sa performance, c’est qu’elle le fait assise et en se masturbant. La plupart des femmes ont besoin d’être pénétrées pour éjaculer et d’être allongée. Elle le fait assise et seule. Et c’est assez “insolent !”. Ce qui est beau, c’est de voir les multiples façons qu’à la femme de jouir.»

En France, de nombreuses personnes crient encore au canular et restent persuadées que l’éjaculation féminine n’existe pas. Qu’il s’agit d’urine.

Même les femmes qui éjaculent pensent avec angoisse qu’elles sont victimes de fuites, d’incontinence ou que sais-je…

Aux Etats-Unis, le phénomène de l’éjaculation féminine est quelque chose de bien connu. Depuis plus de vingt ans, des féministes pro-porn comme Annie Sprinkle ou Deborah Sundahl, parlent de ce phénomène, le filment, l’étudient et lui consacrent parfois même des ateliers aux titres loufoques : «Initiez-vous à l’éjaculation !», «Comment faire pour lui en mettre plein la vue !», etc.

Voici le témoignage d’Annie Sprinkle à ce sujet :«Bien qu’ayant éjaculé plusieurs fois – entre autres en 1981 lors d’une de mes prestations dans le film X Deep Inside Annie Sprinkle – je ne pouvais mettre de nom sur ce qui s’était produit. Tout comme mes amants, mes admirateurs ou mes consœurs, je n’avais aucune connaissance sur les effets engendrés par mon corps. C’était juste quelque chose qui apparaissait de temps à autre, quand je n’y pensais pas trop. Tout ce que je pouvais dire alors, c’est que c’était drôlement agréable ! (…) C’est à cette époque qu’est apparue la vidéo extraordinaire de Deborah Sundahl (alias Fanny fatale) How to female ejaculate : find your G spot (ejaculation féminine : trouvez votre point G). Elle fit sensation !»

Deborah Sundahl est une des plus grandes spécialistes de l’éjaculation féminine. Dans son livre —traduit en français et publié aux éditions Tabou (Tout savoir sur le Point G et l’éjaculation féminine)— elle explique : «Toutes les femmes possèdent l’anatomie nécessaire à l’éjaculation, mais toutes les femmes n’éjaculent pas et n’en ont d’ailleurs pas besoin pour avoir une vie sexuelle épanouie. Certaines éjaculent naturellement, d’autres ont appris à le faire. En faire une nécessité ou un objectif pour toutes les femmes serait idiot et même préjudiciable.»

Pour celles qui, malgré cette mise en garde, voudraient apprendre à éjaculer, Deborah fournit cependant un mode d’emploi. Deux chapitres illustrés de croquis pédagogiques, détaillent, étape par étape, les moyens de se faire gicler… Chapitre 4 : «Comment éjaculer sans orgasme». Chapitre 5 (plus intéressant) : «Comment éjaculer avec orgasme». La méthode, sensiblement la même, aboutit toujours au même résultat : il faut changer les draps du lit. Eponger le carrelage. Ou essorer l’édredon…

En dehors de ce côté bêtement technique (je me méfie toujours des «techniques» en amour), le livre de Deborah Sundahl est un trésor de documentation. Tout, tout, on y apprend tout sur l’éjaculation féminine. A commencer par sa composition, son origine et sa fonction.
Je cite, en vrac : «L’éjaculat féminin est un liquide translucide, d’une consistance proche de l’eau
«Son odeur et son goût semblent varier avec le cycle menstruel. Quelque fois il n’a strictement ni odeur ni goût ou, à l’inverse, est semblable par le goût et l’odeur à de l’urine.»
«Sa composition est strictement la même que l’éjaculat masculin, mis à part les spermatozoïdes : c’est du liquide prostatique, mélangé à du glucose
«En 1672, l’anatomiste néerlandais Regnier de Graaf a étudié de près la “prostatae” féminine et en a fait des croquis, remarquant la présence de plusieurs canaux éjaculatoires. Bien que de Graaf ait été le premier à reconnaître la prostate comme organe responsable de l’éjaculation chez la femme, c’est le professeur slovaque Milan Zaviavic, grâce à ses vingt années d’études approfondies sur le sujet, qui l’a reconnue pleinement en tant qu’organe féminin fonctionnel. Le terme médical – prostate féminine – fut rapidement adopté par le corps médical. »

Le site Doctissimo, qui confirme, ajoute que la «prostate féminine» est également désignée sous les noms de «glandes de Skène» ou «glandes para-urétrales». Mais qu’importe le flacon… Si vous voulez en savoir plus, vous savez ce qu’il vous reste à faire.

Samedi 17 novembre, à 22h
Séance Porn Lesbien : In search of the wild kingdom, de Shine Louise Huston (découvrez la sexualité vraie des vraies lesbiennes et arrêtez de croire qu’elles se lèchent du bout de la langue en poussant des petits cris de gorge), suivi de This is the girl, de Catherine Corringer.
Cinéma Beverley : 14 rue de la Ville Neuve, 75002 Paris. Métro : Bonne Nouvelle
Tarifs : 8 € (plein tarif ) / 7 € (tarif réduit )

Tout savoir sur le Point G et l’éjaculation féminine, de Deborah Sundahl, éd. Tabou.

Les testicules élémentaires

Il y a des hommes qui, à force de porter des poids aux testicules, finissent par les transformer en longs appendices. Ils pendent, comme d’étranges métronomes. Ou comme un pénis supplémentaire, passif, avec lequel ils peuvent exécuter des figures érotiques nouvelles.

Smooth

La réalisatrice parisienne Catherine Corringer s’intéresse à tout ce qui sort des normes corporelles. Elle a filmé une éjaculation féminine (This is the girl), comme un véritable geyser. Elle a aussi filmé une séance de SM gore (In Between), lente et implacable lacération-performance sur le corps d’un masochiste hard… Catherine Corringer aime les filles qui éjaculent et les garçons qui se laissent faire. Elle aime renverser les rôles. Aux femmes, elle prête la puissance. Aux hommes, la faiblesse, la vulnérabilité et la grâce. Ils font offrande de leur chair avec une douceur proche du masochisme. A travers eux, Catherine dévoile un “monde sexuel dans lequel le masculin est réinventé autrement, dans lequel le pénis en érection n’existe pas.” Il s’agit de déconstruire le système patriarcal, dit-elle.

Dans Smooth, dernier court-métrage de Catherine Corringer, un homme se donne lentement à la caméra, révélant par étape les mystères de sa sexualité atypique. C’est une sorte de fakir. Il a travaillé ses testicules au fil de longues années d’ascèse, s’imposant le port de cockrings en acier pesant, à l’aspect de poids en fonte. Il les a tellement travaillé, que ses testicules pendent entre ses cuisses. Quel intérêt? demanderez-vous. Je ne sais pas trop, mais l’homme s’amuse à faire un nœud avec ses organes génitaux. Il peut littéralement nouer son pénis avec ses testicules et l’exercice lui procure certainement du plaisir. Il s’amuse aussi à introduire ses testicules dans son anus, comme s’il se faisait l’amour à lui-même. C’est un mutant doté de deux pénis : un pénis qui peut entrer en érection et un qui ne peut pas. Un pénis pour pénétrer autrui et un pénis pour s’auto-sodomiser…

Surprise supplémentaire : cet homme a non seulement des testicules à rallonge mais un anus dilaté de telle sorte qu’il soit possible de le fister très profondément. Il accueille deux avant-bras. Catherine y plonge littéralement… D’abord une main, puis une deuxième. Ca glisse, ça aspire même. L’homme, couché sur le côté, immobile, les fesses offertes comme une jeune vierge, semble pouvoir prendre en lui toute la misère du monde. Il est le havre rectal, le nid douillet en lequel on s’enfonce, délicieusement… C’est un homme très féminin, d’une certaine manière. “Son corps absorbe, enveloppe” dit Catherine. En le fistant, on entre dans un univers qui évoque l’utérus : chaud, doux, moite, gluant. Une vraie matrice.

En Anglais, smooth signifie “doux”. Catherine Corringer a voulu filmer la douceur d’un homme. Son court-métrage n’est pas très excitant, mais il présente l’intérêt de représenter une relation sexuelle hétéro à l’envers. Une relation au cours de laquelle c’est la femme qui pénètre… à l’intérieur de l’homme, dans une sorte de régression utérine étrange. Ses mains enduites d’un lubrifiant blanc comme le sperme (le silk, dont j’ai déjà parlé) lui permettent de toucher du doigt, littéralement, la part féminine du corps masculin. Elle plonge dedans. “Mes films explorent une  autre carte du monde, dit Catherine, où le corps est une métaphore incarnée, où le génital n’est pas forcément mis en lien avec le plaisir.    C’est une forme de militantisme, c’est l’exploration d’un monde peu connu.”

Le 25 octobre 2009, Smooth a été primé meilleur court-métrage du dernier Porn Film festival de Berlin. Pour ceux qui n’étaient pas en Allemagne la semaine dernière, il y a une séance de rattrapage : Smooth va être diffusé mardi 17 novembre au Festival Gay et lesbien de Paris.

Smooth : mardi 17 nov, 18h30. Projection de courts-métrages “French touch”, salle 100 au Forum des Images : 2, rue du cinéma, 75001 Paris. Métro : Les Halles. Plein tarif : 8 euros. Tarif réduit : 7 euros.

Fonte Les 400 culs

05/11/2009 - 17:15h Império das coelhinhas vive crise, mas Hugh Hefner reina aos 83

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‘É uma das boas fases de minha vida’, diz o profeta do hedonismo, que já admite até vender sua revista


Brooks Barnes, THE NEW YORK TIMES, LOS ANGELES – O Estado SP

Hugh Hefner se reclina no surrado sofá de dois lugares no estúdio da sua famosa mansão e entrelaça os dedos por trás da cabeça. Um visitante fez uma pergunta – quase gritando, já que Hefner tem problemas de audição – sobre mortalidade. Aos 83 anos, ele pensa nisso? Numa palavra: não. O lendário fundador da Playboy, profeta do hedonismo, não acredita que seu fim esteja próximo. E também não age como se estivesse. Continua trabalhando em tempo integral na sua revista, voa para a Europa e Las Vegas, toma Viagra, frequenta boates com as três atuais namoradas com quem vive na sua mansão – com idades suficientes para serem suas bisnetas – e está trabalhando num filme com o produtor Brian Grazer. “Esta é uma melhores fases da minha vida”, diz, sorrindo, de pijama e chinelos. “Está ainda melhor, mais rica, do que as pessoas imaginam.”

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Você quer acreditar, mas é difícil ignorar as realidades da sua empresa. A Playboy Enterprises, afetada pelas mudanças que vêm ocorrendo nos veículos de comunicação, precisa de uma boa injeção de ânimo. Neste mês, a revista anunciou um corte na tiragem de 2,6 milhões para 1,5 milhão. A Playboy Magazine contabiliza prejuízos há sete trimestres consecutivos. E talvez o mais terrível seja que, no início do ano, a empresa tenha declarado que aceitaria ofertas de compra, algo que se acreditava impensável enquanto Hefner estivesse vivo.

Mas ele sabe que toda boa festa acaba e há muito tempo comprou uma cripta próxima à de Marilyn Monroe no cemitério de Los Angeles. Nas entrevistas concedidas com o passar dos anos, ele sempre disse que a vida não valeria a pena sem a Playboy. “Seu eu a vendesse, minha vida acabaria”, declara. Mas isso pode estar mudando. “Estou pensando mais seriamente no fato de que não tenho mais 30 anos. Preciso pensar na continuidade da revista.”

Amado ou odiado, ninguém duvida da influência de Hugh Hefner na história da cultura norte-americana. Como editor de revista, ele fez pelo sexo o que Ray Kroc fez pela comida de beira de estrada: tornou-o mais “limpo” para uma classe média emergente.

Como força cultural, contudo, Hugh Hefner ainda divide o país, e isso 56 anos depois da primeira edição da Playboy. Para seus defensores, ele é o grande libertador sexual que ajudou os americanos a se livrarem da neurose e do puritanismo. Para seus detratores, incluindo muitas feministas e conservadores, ele ajudou a desencadear uma revolução do comportamento sexual que transformou em simples objeto e vítima um número incontável de mulheres e promoveu uma visão imoral da vida, só de prazeres. Hugh Hefner reconhece que houve consequências funestas a partir do que ele ajudou a pôr em marcha, mas diz que “é um pequeno preço a pagar pela liberdade pessoal”.

A SÉRIE DE TV

“As pessoas nem sempre tomam boas decisões. As reais obscenidades neste planeta têm pouco a ver com sexo”, diz, acrescentando que “esta não é uma época romântica”. Considerando-se toda a pornografia agora disponível instantaneamente online e os programas de sexo ao vivo, incluindo a sua própria série na TV ,The Girls Next Door (As Garotas da Mansão da Playboy), esta é uma época que torna os ideais da Playboy parecerem antiquados.

Hefner usa a palavra “gato” para falar de si: “Sou o gato mais feliz do planeta.” E não valoriza muito o ambiente cultural moderno. “Acredito firmemente que a cultura pop hoje é um caldo diluído”, declara. “Costumava ser algo muito mais espesso e profundo.”

Mas, ao mesmo tempo, tenta participar ativamente desse ambiente. Embora a revista ainda seja editada quase toda em Chicago, é ele que aprova “cada Coelhinha, cada capa, os cartoons e as cartas”. Trabalhando a partir do seu escritório ou da sua cama, forrada por uma colcha de veludo e seda, Hefner é quem estimulou a recente decisão da revista de adquirir um trecho de 5.000 palavras do romance inacabado de Vladimir Nobokov, Laura, para uma futura edição.

Ele foi iniciado no Twitter por suas namoradas. Está ligadíssimo na série dramática da HBO, True Blood. E, recentemente, filmou um comercial de propaganda do Guitar Hero segurando o cachimbo que abandonou depois de sofrer um pequeno AVC em 1985.

VINGATIVAS

Hefner também sofreu algumas humilhações pessoais. Antigas namoradas que viveram com ele na mansão, incluindo as que apareceram na série As Garotas da Mansão da Playboy, o retrataram em entrevistas e num livro como um controlador fanático que impunha um toque de recolher às 9 horas da noite. A própria mansão já teve dias melhores. Durante uma visita em julho, a casa de jogos (a única com uma sala que tem um colchão como piso) cheirava mofo, enquanto que o viveiro de pássaros estava precisando de uma boa limpeza. A famosa gruta, com suas banheiras Jacuzzi de várias profundidades, parecia mais uma gruta fétida de zoológico do que um palácio do prazer (embora as prateleiras ao lado estivessem repletas de enormes frascos de óleo para bebê).

Em março, com o mercado imobiliário despencando, ele colocou à venda a casa da sua mulher, vizinha da Mansão da Playboy, por US$ 28 milhões. A casa foi vendida em agosto por US$ 18 milhões. Hefner, que se separou de Kimberly Conrad em 1998, entrou com pedido de divórcio no início de setembro; Kimberly está processando o ex-marido, alegando que ele lhe deve US$ 4 milhões, com base num acordo pré-nupcial e no produto da venda da casa.

O séquito de Hefner insiste que não há escassez de dinheiro, mas uma série de medidas adotadas parecem mostrar exatamente isso. O Los Angeles Business Journal reportou no ano passado que o número de funcionários da mansão foi reduzido. As pessoas agora pagam ingressos (até US$ 10.000 cada ) para as festas que antes eram só para convidados e que ainda hoje são uma parte vital da marca Playboy.

“Nem sempre é tão empolgante como as pessoas imaginam”, disse Holly Madison numa entrevista há alguns meses. Holly viveu com Hugh Hefner por sete anos como “namorada número 1″, até separar-se dele no fim do ano passado.

Richard Rosenzweig, que trabalha na Playboy desde 1958, pensa diferente. “Este é um lugar que todos desejam ver”, declarou numa entrevista. “Todo mundo quer vir aqui.” Quando o relacionamento de Hefner com Holly Madison terminou, ele disse ter recebido cartas de mulheres do mundo todo implorando para morar com ele. “Elas estavam saltando os portões”, conta, radiante. Hugh acabou escolhendo três novas namoradas para companhia na Mansão, Crystal Harris, de 23 anos, e as gêmeas Kristina e Karissa Shannon, de 20 anos.

Apesar da atitude jovial, Hefner claramente está preocupado com o seu legado. Ultimamente ele vem estudando cuidadosamente seus álbuns de recortes, que guarda desde a infância e hoje já somam dois mil volumes. Um material nunca visto que inclui seu primeiro cartão de biblioteca, histórias em quadrinhos que ele próprio desenhou e fotos – que devem constituir o núcleo de uma “biografia ilustrada” em seis volumes, de 3.506 páginas, da Taschen. Somente 1.500 edições dessa volumosa biografia serão vendidas, por US$ 1.300 cada, ainda antes do próximo Natal.

NO CINEMA

Pela primeira vez, ele também deu acesso total a uma produtora de documentários, Brigitte Berman, que concluiu recentemente o documentário Hugh Hefner: Playboy, Ativista e Rebelde, que estreou no Festival Internacional de Cinema de Toronto. E um importante realizador de filmes biográficos está acelerando o trabalho depois de uma longa espera. Brian Grazer reuniu-se recentemente com a roteirista Diablo Cody para discutir o projeto. Brett Ratner (conhecido pelo filme Hora do Rush, grande sucesso de bilheteria) deve dirigir o filme e Robert Downey Jr manifestou interesse em interpretar Hefner. “Ele é um grande intelecto que influenciou o espírito de uma época, e essa influência é subestimada”, disse Grazer.

Alguns dos antigos amigos estão muito inquietos, temendo que sejam perdidas algumas das realizações de Hefner que admiram – a criação de um ícone cultural (a coelhinha da Playboy), a derrubada de fronteiras raciais (pela inclusão de artistas negros em seus clubes)e o apoio a muitas causas feministas, incluindo o direito ao aborto e a Emenda pelos Direitos Iguais. Hefner também se preocupa. “Hoje vivemos, literalmente, num mundo muito diferente e eu ajudei a torná-lo assim”, diz. “Os jovens não têm nenhuma noção disso.” TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Em Suma:

Neste texto, você fica sabendo como anda a vida do poderoso magnata das comunicações Hugh Hefner, de 83 anos, dono de um império chamado Playboy Enterprises, que inclui a revista masculina Playboy, fundada por ele. Hefner está às voltas com filmes sobre sua vida (um deles pode ser estrelado por Robert Downey Jr.), a manutenção do seriado de TV As Garotas da Mansão da Playboy e a edição de uma biografia ilustrada em seis volumes, a sair antes do Natal. Por causa da crise em seu país, diminuiu o número de funcionários de sua empresa e de sua mansão e não se incomoda mais se tiver até de vender a revista.

05/11/2009 - 15:01h A turba da Uniban

CONTARDO CALLIGARIS – FOLHA SP


As turbas têm um ponto em comum: detestam a ideia de que a mulher tenha desejo próprio

NA SEMANA passada, em São Bernardo, uma estudante de primeiro ano do curso noturno de turismo da Uniban (Universidade Bandeirante de São Paulo) foi para a faculdade pronta para encontrar seu namorado depois das aulas: estava de minivestido rosa, saltos altos, maquiagem -uniforme de balada.
O resultado foi que 700 alunos da Uniban saíram das salas de aula e se aglomeraram numa turba: xingaram, tocaram, fotografaram e filmaram a moça. Com seus celulares ligados na mão, como tochas levantadas, eles pareciam uma ralé do século 16 querendo tocar fogo numa perigosa bruxa.
A história acabou com a jovem estudante trancada na sala de sua turma, com a multidão pressionando, por porta e janelas, pedindo explicitamente que ela fosse entregue para ser estuprada. Alguns colegas, funcionários e professores conseguiram proteger a moça até a chegada da PM, que a tirou da escola sob escolta, mas não pôde evitar que sua saída fosse acompanhada pelo coro dos boçais escandindo: “Pu-ta, pu-ta, pu-ta”.
Entre esses boçais, houve aqueles que explicaram o acontecido como um “justo” protesto contra a “inadequação” da roupa da colega. Difícil levá-los a sério, visto que uma boa metade deles saiu das salas de aula com seu chapéu cravado na cabeça.
Então, o que aconteceu? Para responder, demos uma volta pelos estádios de futebol ou pelas salas de estar das famílias na hora da transmissão de um jogo. Pois bem, nos estádios ou nas salas, todos (maiores ou menores) vocalizam sua opinião dos jogadores e da torcida do time adversário (assim como do árbitro, claro, sempre “vendido”) de duas maneiras fundamentais: “veados” e “filhos da puta”.
Esses insultos são invariavelmente escolhidos por serem, na opinião de ambas as torcidas, os que mais podem ferir os adversários. E o método da escolha é simples: a gente sempre acha que o pior insulto é o que mais nos ofenderia. Ou seja, “veados” e “filhos da puta” são os insultos que todos lançam porque são os que ninguém quer ouvir.
Cuidado: “veado”, nesse caso, não significa genericamente homossexual. Tanto assim que os ditos “veados”, por exemplo, são encorajados vivamente a pegar no sexo de quem os insulta ou a ficar de quatro para que possam ser “usados” por seus ofensores. “Veado”, nesse insulto, está mais para “bichinha”, “mulherzinha” ou, simplesmente, “mulher”.
Quanto a “filho da puta”, é óbvio que ninguém acredita que todas as mães da torcida adversa sejam profissionais do sexo. “Puta”, nesse caso (assim como no coro da Uniban), significa mulher licenciosa, mulher que poderia (pasme!) gostar de sexo.
Os membros das torcidas e os 700 da Uniban descobrem assim um terreno comum: é o ódio do feminino -não das mulheres como gênero, mas do feminino, ou seja, da ideia de que as mulheres tenham ou possam ter um desejo próprio.
O estupro é, para essas turbas, o grande remédio: punitivo e corretivo. Como assim? Simples: uma mulher se aventura a desejar? Ela tem a impudência de “querer”? Pois vamos lhe lembrar que sexo, para ela, deve permanecer um sofrimento imposto, uma violência sofrida -nunca uma iniciativa ou um prazer.
A violência e o desprezo aplicados coletivamente pelo grupo só servem para esconder a insuficiência de cada um, se ele tivesse que responder ao desejo e às expectativas de uma parceira, em vez de lhe impor uma transa forçada.
Espero que o Ministério Público persiga os membros da turba da Uniban que incitaram ao estupro. Espero que a jovem estudante encontre um advogado que a ajude a exigir da própria Uniban (incapaz de garantir a segurança de seus alunos) todos os danos morais aos quais ela tem direito. E espero que, com isso, a Uniban se interrogue com urgência sobre como agir contra a ignorância e a vulnerabilidade aos piores efeitos grupais de 700 de seus estudantes. Uma sugestão, só para começar: que tal uma sessão de “Zorba, o Grego”, com redação obrigatória no fim?
Agora, devo umas desculpas a todas as mulheres que militam ou militaram no feminismo. Ainda recentemente, pensei (e disse, numa entrevista) que, ao meu ver, o feminismo tinha chegado ao fim de sua tarefa histórica. Em particular, eu acreditava que, depois de 40 anos de luta feminista, ao menos um objetivo tivesse sido atingido: o reconhecimento pelos homens de que as mulheres (também) desejam. Pois é, os fatos provam que eu estava errado.

ccalligari@uol.com.br

04/11/2009 - 16:59h Ovos e galinhas

MARCELO COELHO – FOLHA SP

“O Naturalista da Economia” é um tesouro de surpresas, mas há algumas decepções


NUNCA REPAREI muito nos preços dos ovos de granja, mas fiquei sabendo por um livro recente (”O Naturalista da Economia”, de Robert Frank), que os de cor avermelhada custam mais caro do que os brancos, embora tenham o mesmo gosto e idêntico valor nutricional.
Pelo menos é assim nos Estados Unidos, onde há consumidores intrigados com o fenômeno. Qual seria a razão dessa diferença de preços?
A pergunta pareceu expressiva aos editores do livro, que se inspiraram nela para a ilustração da capa. Mas é só uma entre as dezenas de dúvidas para as quais o pensamento econômico, pelo menos na interpretação do autor, está pronto a dar resposta.
Alguns exemplos. Por que as baleias estão ameaçadas de extinção e isso não acontece com as galinhas?
Por que as roupas masculinas têm botões do lado direito, e as femininas, do esquerdo? Por que os bares cobram a água, mas oferecem amendoins de graça?
Esta última me pareceu bem fácil.
Afinal, amendoins aumentam a sede dos frequentadores. Mas Robert Frank acrescenta outro fator ao raciocínio. Quanto mais água o infeliz tomar, menor será o seu consumo de bebida alcoólica. Logo, é necessário cobrar pela água também.
A pergunta sobre os botões femininos não traz uma resposta tão economicista. A razão de ficarem do lado esquerdo é histórica. Antigamente, as grandes damas não se vestiam sozinhas. Ficavam de pé diante das mucamas, que, sendo na maioria destras, tiveram assim facilitado o seu trabalho, podendo abotoar as roupas com a mão direita.
Sobre os destinos diversos de baleias e galinhas, não sei se o que mais surpreende é a resposta ou a pergunta. Por que se imaginaria que as galinhas pudessem ser extintas?
Mas um bom economista tem a obrigação de nos surpreender sempre, argumentando a partir de poucas e invariáveis premissas. As baleias estão ameaçadas de extinção, diz Robert Frank, pelo simples motivo de que não têm proprietários… Fosse possível, sei lá, organizar uma fazenda de cetáceos ou pelo menos marcá-las a ferro como os bois das pradarias americanas, estaríamos logo tão fartos de baleias quanto de hamsters e chinchilas.
Não se pense que o autor seja um neoliberal de quatro costados. A alarmante elevação nos preços do caviar beluga se deve primordialmente, diz o livro, ao colapso da União Soviética.
É que o mar Cáspio passou a ser explorado por repúblicas rivais, mais propensas a burlar os concorrentes na obtenção de caviar do que a conformar-se com uma regulamentação comum.
A exemplo de seus predecessores no gênero, como “Freakonomics”, este livro é um tesouro de surpresas, entre as quais se escondem algumas decepções.
Uma pergunta que fica sem resposta, de todo modo, é a de por que, afinal, tantos livros desse tipo surgiram agora no mercado. Acho que fazem parte do mesmo veio da literatura neodarwinista. Por que os seres humanos riem?
Por que há pessoas que sacrificam a própria vida numa guerra, enquanto outras colecionam tampinhas de garrafa?
Uma resposta seria dizer apenas: porque são humanos, porque são pessoas. De alguma maneira, entretanto, isso não parece satisfatório hoje em dia.
Logo alguém invoca a existência de um gene qualquer, o do colecionismo, o do autossacrifício, o do riso. Ou, para não cair em tamanha vulgaridade científica, tenta-se apontar a vantagem evolutiva do comportamento A, que não exclui, por certo, a vantagem evolutiva do comportamento Z, seu oposto absoluto.
Rudyard Kipling escreveu um livro para crianças intitulado “Just So Stories” (algo como histórias que aconteceram assim mesmo ou histórias bem verdadeiras), em que dava explicações imaginosas e míticas para o pescoço das girafas ou a tromba dos elefantes.
Não discuto, é claro, a base científica das explicações econômicas ou biológicas. Mas, atrás de toda pergunta a respeito dos “porquês”, sempre existe, acho, uma psicologia próxima do pensamento mítico. A ciência, provavelmente, está mais interessada nas perguntas que começam com a expressão “em que medida…” do que nas perguntas que começam com “por que…?” Estas, aliás, começam, mas nunca acabam. Quer a prova?
Volto ao ovo, ao ovo vermelho, que custa mais que o branco. Robert Frank dá algumas explicações, mas no final registra, candidamente, um simples fato: as pessoas preferem que ele seja vermelho. Vai ver que é genético.

coelhofsp@uol.com.br

04/11/2009 - 10:34h Itália é condenada por ter crucifixo na sala de aula

Para a Corte Europeia de Direitos Humanos, símbolo perturbaria crianças não cristãs; integrantes do governo e da Igreja criticaram a decisão


Reuters, AP e Efe, ROMA – O Estado SP

A Corte Europeia de Direitos Humanos determinou ontem que os crucifixos, símbolos da religião cristã, sejam retirados das escolas públicas italianas, pois a sua presença poderia ser perturbadora para crianças de famílias que possuem outras crenças. A decisão causou indignação e raiva em autoridades italianas e na Igreja Católica, que classificou a sentença de “ideológica e parcial”. O governo do primeiro-ministro Silvio Berlusconi anunciou que pretende recorrer.

“Vergonhosa”, “ofensiva”, “absurda”, “inaceitável” e “pagã” foram alguns dos adjetivos incisivos usados por integrantes do governo ao comentar a decisão do tribunal.

Para a ministra da Educação, Mariastella Gelmini, a presença dos crucifixos nas salas de aula não significa uma aderência automática ao catolicismo e sim um símbolo de uma herança italiana. “A história da Itália está marcada por símbolos e se apagamos esses símbolos, apagamos partes de nós mesmos”, disse.

Rocco Buttiglione, um ex-ministro que ajudou a escrever encíclicas papais, afirmou que a “Itália tem sua cultura, suas tradições e sua história. Os que vivem entre nós devem entender e aceitar essa cultura e essa história”.

O país vem debatendo há tempos como lidar com a crescente população de imigrantes – a maioria vinda de países com maioria de muçulmanos – e é provável que a sentença da Corte Europeia de Direitos Humanos se converta em um outro grito de guerra para a política do governo de Berlusconi, de centro-direita, para restringir o número de recém-chegados.

O caso foi apresentado por uma cidadã italiana, Soile Lautsi, que se queixou do fato de que seus filhos tiveram de frequentar uma escola no norte do país que possuía crucifixos em todas as salas. Soile alegou que isso contrariava seu direito de dar a seus filhos uma educação secular e a corte decidiu a seu favor.

O ministro italiano de Relações Exteriores, Franco Frattini, afirmou que a corte desferiu um “golpe mortal a uma Europa de valores e direitos”, criando um mau precedente para outros países.

O porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi, disse que o crucifixo é símbolo da importância dos valores religiosos na história e na cultura italiana e um símbolo de união e aceitação para toda a humanidade. Para ele, a corte não tinha o direito de intervir em um tema profundamente italiano. “Parece que a corte ignora o papel do cristianismo na formação da identidade europeia, que era e continua sendo essencial.”

***

Tribunal europeu condena crucifixo em escola italiana

Corte de direitos humanos diz que símbolo pode perturbar crianças não cristãs

Governo e Vaticano criticam decisão, tomada a partir de denúncia feita por cidadã que considerou cruz uma afronta ao ensino laico

DA REDAÇÃO FOLHA SP

A Corte Europeia de Direitos Humanos condenou ontem a presença de crucifixos em escolas da Itália, alegando que os símbolos poderiam perturbar crianças não cristãs. A decisão causou protestos de italianos que consideram o crucifixo parte da cultura nacional. O governo Berlusconi prometeu recorrer da condenação.
O caso foi levado à Corte Europeia por uma cidadã italiana, Soile Lautsi, que se queixava de que seus filhos eram forçados a ir a uma escola pública com crucifixos em todas as salas de aula e que isso contrariava seu direito a uma educação laica.
A corte condenou o governo a pagar multa de 5.000 a Lautsi e, ainda que não tenha determinado explicitamente a remoção dos crucifixos, declarou em seu veredicto que “o Estado não deve impor crenças” em locais públicos e tem de manter “neutralidade na educação pública, que deve abrigar o pensamento crítico”.
O Vaticano expressou “choque” e “pesar” pela decisão, uma vez que vê o crucifixo como “símbolo do amor de Deus, de união”. “Lamento que seja considerado um símbolo de divisão ou limitação de liberdade”, disse o porta-voz da Santa Sé, Federico Lombardi.
A ministra da Educação, Mariastella Gelmini, disse que os crucifixos não significavam aderência ao cristianismo e que apenas simbolizam a tradição italiana. Parte da oposição ao governo direitista também criticou a decisão judicial, elogiada por grupos ateístas.
A Itália é um dos países europeus envoltos em debate sobre como lidar com um crescente número de imigrantes, muitos deles muçulmanos, e a proibição da corte europeia pode servir de bandeira para o governo conservador do premiê Silvio Berlusconi intensificar a restrição à imigração.
Na França, lei de 2004 proibiu o uso de símbolos religiosos ostensivos em todas as escolas públicas. É possível que a decisão judicial de ontem -que afeta uma lei dos anos 1920, época do governo fascista, que obriga as escolas italianas a ostentarem crucifixos- estimule medidas semelhantes em outras escolas públicas europeias.
A Corte Europeia de Direitos Humanos, em ação desde 1959 em Estrasburgo, França, foi criada para punir violações previstas na Convenção Europeia de Direitos Humanos, e suas decisões são vinculantes.
Antes de chegar ali, em 2006, o processo tramitou no Tribunal Constitucional italiano (que disse não ter jurisdição sobre o caso), num tribunal administrativo e no Conselho de Estado da Itália, que o rejeitou.


Com agências internacionais

31/10/2009 - 16:53h Macaron Ladurée : la recette très industrielle d’un symbole du chic

Par Colette Roos | Rue89 | 30/10/2009 | 11H20

Une boîte de macarons Ladurée (Louis Beche/Flickr)

Le luxe, c’est presque toujours pareil : ça commence par une belle histoire d’artisanat et ça finit par un ravissant emballage marketing. Et tant pis si l’âme du produit s’est perdue en cours de route…

Prenez Ladurée, le salon de thé de la rue Royale, au cœur du « triangle d’or » parisien. Des serveuses qui s’activent comme des abeilles dans une ruche pour naviguer entre des tables microscopiques, plateaux chargés et théières bouillantes à bout de bras. Des clientes japonaises idolâtres, qui photographient leur douceur avant de l’engloutir. Des vieilles biques qui poussent le snobisme jusqu’à ne commander qu’une eau minérale dans ce temple de la calorie. Le spectacle est dans la salle, et dans l’assiette aussi, où trône la star de l’endroit, le macaron.

Vous « ne pouvez pas ne pas connaître »

Les macarons Ladurée, vous les connaissez forcément. Si vous ne les avez pas goûté vous-même, vous avez au moins vu la « Marie Antoinette » de Sofia Coppola en manger jusqu’à l’écœurement.

Ou bien vous avez entendu Helmut Fritz (« Ça m’énerfffe ») expliquer à coup de faux accent teuton et de vrais beats de boîte de nuit bon marché que « tous ces gens qui font la queue chez Ladurée », ça lui tape sur le système ! Des gens qui font la queue, il y en a à Paris, Londres, Zürich et même à Dublin ou Nagoya, à en croire le site de la maison.

Ladurée, donc, ses couleurs pastel, ses salons de thé raffinés, ses pâtisseries divines. Tiens, ses pâtisseries divines, parlons-en.

laduréeLes éditions du Chêne viennent de sortir un livre baptisé sobrement « Sucré », qui ressemble à s’y méprendre à une boîte de macarons de la fameuse maison du VIIIe arrondissement de Paris.

Sous la belle couverture capitonnée vert amande, toutes les recettes qui ont fait le succès du salon de thé. « Même le célèbre macaron y livre ses secrets », promet la quatrième de couverture.

Epaississants, humectants, émulsifiants, conservateurs, stabilisateurs…

Le macaron au citron, par exemple, c’est tout simple, est élaboré à base de sucre semoule, de zeste râpé, de maïzena, d’œufs entiers, de jus de citron, de beurre, de poudre d’amandes, de sucre glace et d’un peu de colorant alimentaire, histoire d’identifier tout de suite les différents parfums.

Pour le macaron au chocolat ou à la framboise, c’est à peu près le même principe. Enfin, le macaron au chocolat ou celui à la framboise DU LIVRE. Parce que pour ceux de la boutique, il faudra compter avec une ribambelle de E (412, 415, 407, 220, 211, 422, 471, 1520…). Epaississants, humectants, émulsifiants, conservateurs, stabilisateurs se partagent la vedette sur l’étiquette collée sous la jolie boîte cartonnée*.

Si vous avez un peu de temps à tuer, vous pouvez jouer aux chiffres et aux lettres, et convertir tous ces mystérieux E en noms : gomme de guar, xanthane, benzoate de sodium, anhydride sulfureux, dioxyde de silicium, orthophosphate de calcium, tragacanthe, gomme arabique, propylène glycol, carraghénane

A 1,50 euros le macaron, il faut bien une centaine d’ingrédients

Vous pouvez aussi vous amuser à compter le nombre d’ingrédients. J’en ai dénombré une centaine, mais il est possible que je me sois un peu pris les pieds dans le tapis d’additifs.

Est-ce que, par exemple, les E412 et E415 qui se trouvent dans les « œufs entiers », j’ai bien fait de les compter, sachant qu’il y en a déjà dans les « blancs d’œuf » ? C’est un peu comme au Scrabble, on ne s’en sort plus avec les lettres compte double…

Tiens, au fait, pourquoi mettre de la gomme de guar et de la gomme xanthane dans de l’œuf ? Pour obtenir de l’œuf épaissi, bien sûr, où avais-je la tête…

La morale de l’histoire ? Quand on écoule chaque jour un stock de plusieurs milliers de macarons (à 1,50 euro pièce), on risque fort de s’éloigner des méthodes de production artisanale. C’est probablement ce qui arrive au groupe Holder, le propriétaire de Ladurée, et des boulangeries Paul.

Quant à vous, si vous voulez continuer à croire aux belles histoires, il vous reste les livres de pâtisserie.

Photo : une boîte de macarons Ladurée (Louis Beche/Flickr)

* Merci à Claude-Marie qui m’a donné sa boîte… vide.

31/10/2009 - 15:28h Fêmea de morcego da Ásia faz sexo oral, diz pesquisa. “Felação” ajuda a prolongar coito de mamíferos; ato só tinha sido registrado entre humanos e chimpanzés, e sua função ainda é nebulosa. (É isso mesmo, esta escrito nebulosa, não gostosa)

Grupo sino-britânico observou o comportamento filmando casais em cativeiro

Universidade de Bristol/Reprodução

Morcego da espécie “Cynopterus sphinx”



REINALDO JOSÉ LOPES – FOLHA SP

DA REPORTAGEM LOCAL

Não é todo dia que a palavra “felação” vai parar no título de um artigo científico, principalmente quando a prática é adotada não por humanos, mas por morcegos. Pesquisadores chineses e britânicos descobriram que as fêmeas do mamífero voador são adeptas do sexo oral -caso muito raro em espécies que não a humana.
A função do comportamento ainda não está clara, mas uma coisa é certa: os machos da espécie Cynopterus sphinx gostam. Tanto que, em experimentos, apareceu uma forte correlação entre o tempo que durava o ato sexual e a frequência da felação. Ou seja, quanto mais a fêmea se dedicava ao sexo oral, mais demorada era a relação entre o casal voador.
A pesquisa, coordenada por Libiao Zhang, do Instituto Entomológico de Guangdong, na China, está na revista científica de acesso livre “PLoS One”. O C. sphinx é um morcego comedor de frutas presente em várias regiões do sul da Ásia.
Já se sabia que os machos da espécie costumam construir pequenas tendas feitas de folhas, para as quais atraem as fêmeas que formarão seu harém.
Mais do que isso era difícil investigar, até porque os hábitos dos bichos, normalmente noturnos e tímidos, não ajudam muito. “É muito raro a gente conseguir algum vislumbre da cópula nas espécies aqui do Brasil”, conta a bióloga Susi Missel Pacheco, pesquisadora do Instituto Sauver (RS) e presidente da Sociedade Brasileira para o Estudo de Quirópteros (ou seja, morcegos).

Ninho de amor
A equipe sino-britânica resolveu dar privacidade e vida mansa aos casais de morcegos. Capturaram uma batelada dos bichos e excluíram filhotes, fêmeas grávidas ou em fase de amamentação, ficando apenas com 30 pares adultos.
Próximo passo: colocar cada casal em amplas jaulas, com folhas para os ninhos, água e banana a gosto. Câmeras digitais foram instaladas nos recintos, o que permitiu ao grupo monitorar os movimentos dos bichos sem perturbá-los demais.
E o que eles observaram seria digno de figurar num Kama Sutra dos morcegos. De ponta-cabeça, o macho abordava a fêmea por trás. Durante a penetração, ela se contorcia e lambia gentilmente o pênis do parceiro, repetidas vezes. Isso, ao menos, nos casos mais bem-sucedidos: se a fêmea passava 40 segundos lambendo o pênis do macho, o sexo se prolongava por mais de oito minutos.
Pacheco diz que o uso de “felação” para definir o comportamento talvez seja exagerado, e que a vida em cativeiro talvez tenha algum impacto sobre a cópula dos bichos. “Mesmo assim, é um trabalho muito intrigante, a começar pelo ineditismo e pelas curiosas semelhanças com primatas”, avalia.
De fato, a única coisa mais ou menos parecida foi registrada entre jovens bonobos ou chimpanzés-pigmeus (Pan paniscus). Entre morcegos do Brasil, diz Pacheco, havia registros de fêmeas que tomavam a iniciativa no começo da cópula.

30/10/2009 - 20:55h Mais où sont les putes d’antan ?

Agnès Giard

Filles de joie, pierreuses, lorettes, filles à soldats, marmites, filles publiques, hétaïres, radeuses, catins, péripatéticiennes, horizontales, grues, boucanières, paillasses, morues, gotons, pouffiasses, amazones, professionnelles, filles soumises, tapins, fleurs de macadam, belles de nuit, asphalteuses, marchandes d’amour, turfeuses, ménesses ou gagneuses… La plupart des noms qui désignaient les prostituées ne sont plus en usage de nos jours. On dit “pute”, et voilà tout. Il n’y en a pourtant pas moins qu’avant, peut-être même plus, mais il est devenu si mal vu de s’en “payer” une qu’on préfère passer ça sous silence. Aujourd’hui à Paris, une exposition rend hommage à ces femmes que le tout-Paris fréquentait gaiement jusque dans les années 40, dans des maisons closes de luxe classées par les guides touristiques au rang de “must-see”.

Expo-fev-06

Le “Chabanais”, le “One Two Two”, le “Sphinx” et tant d’autres: les maisons closes furent les hauts lieux du Paris de la Belle Époque et des Années folles. Univers de luxe et de volupté, de kitsch et de mondanités, ces maisons reflétaient un art de vivre et d’aimer nourri de tous les désirs et de toutes les excentricités.” La galerie Au Bonheur du Jour (située juste en face de l’illustre N°12 de la rue Chabanais, dont la loi Marthe Richard ferma les portes en 1946) vous invite à “redécouvrir ces mondes disparus, sur le mode d’une promenade coquine et nostalgique dans ces lieux mythiques, dont les somptueux décors faisaient voyager les filles et leurs clients de l’Inde au Japon, de la Chine à Venise. Elle permettra aux collectionneurs et amoureux des maisons d’illusion de découvrir et d’acquérir une collection unique de photographies signées Brassai, André Zucca, Atget, Gaston Paris, Doisneau, etc.

L’exposition dévoile l’intérieur du célèbre bordel du 30 de la rue Lepic (maison spécialisée dans les fessées), du 9 rue de Navarin (très connu pour ses fantaisies sado-masochistes) mais aussi de bordels masculins. Les photos de Tableaux vivants (reconstitutions de scènes érotiques par des prostituées) jouxtent celles de lingeries du fameux catalogue DIANA-SLIP, 1932, destiné aux maisons luxueuses. Des peintures réalisées pour orner les alcôves côtoient des objets inattendus: la canne-cravache du One Two Two portant le nom de la fouetteuse «Flora», une poignée de porte de bordel 1900 en bronze, un heurtoir de maison close pour hommes, une dague de défense, une ceinture de chasteté et une curieuse “visionneuse enfermant des «mirages», ainsi que des cravaches, badines et plaques décoratives en bois sculpté”.

Toutes ces photos, dessins, peintures et curiosités, illustrent la vie quotidienne dans ces maisons, scènes vénéneuses des amours tarifés, mais aussi théâtre d’une vie sociale brillante où le champagne coulait à flots, entre le frou-frou des élégantes et le va-et-vient des messieurs et le ballet des tenancières”. Créatrice de la galerie Au Bonheur du Jour, Nicole Canet fait elle-même figure d’œuvre d’art au milieu de ses collections érotiques. Cette ancienne danseuse de cabaret, reconvertie dans les curiosa, amasse depuis près de 30 ans les témoignages les plus extravagants de la vie sexuelle de nos arrière-grands-parents… Elle adore dévoiler ses trésors. Sa galerie est d’ailleurs aménagée en boudoir. On y entre comme dans un appartement de cocotte, saisi par le parfum qui imbibe les tentures et les toiles, les lourds catalogues reliés et les jolis meubles à bibelots, avec l’impression de faire un bond spatio-temporel en arrière. Ça fait rêver.

Bien malgré elles, les prostituées ont toujours fait rêver. En 2002, Régine Desforge rappelle que leur présence continue de hanter certains quartiers: il y a dans le Marais, “une rue au joli nom bien trompeur, la rue du Petit-Musc, qui en porta un autre avant que la morale bourgeoise ne s’en offusquât. C’était, au XIVe siècle, une petite artère où les prostituées exerçaient leur métier; d’où son nom d’alors, la Pute-y-muse…”. Le nom est joli, mais qu’on ne s’y trompe pas. Il cache une réalité souvent atroce. Les femmes qui se livrent à la prostitution sont –dans leur immense majorité– des esclaves sexuelles privées de tous les droits et contraintes de subir le martyre. “A Rome, rappelle Régine Desforge, les filles publiques portaient une mitre et une toge ouverte sur le devant. Leurs vêtements étaient jaunes, couleur de la honte et de la folie.” Dans l’occident chrétien, la prostituée reste un objet de répulsion.

Même le XIXe siècle, qui donne aux prostituées un statut de quasi-stars (les demi-mondaines deviennent des héroïnes d’opéras et de livres), les maintient cependant au rang de serpillères spermatiques. C’est “le siècle qui a le plus défendu la vertu, la féminité accomplie, et le plus institué la prostitution, avec les maisons closes, explique Bruno Remaury, anthropologue et auteur du Beau sexe faible. La féminité est toujours vue comme ambivalente: à la fois sublime, accomplie, parfaite; et malsaine, inquiétante, maléfique. Tout homme riche peut entretenir une femme destinée à son plaisir. Il a donc réellement à sa disposition les deux faces de la féminité: l’épouse vertueuse et la courtisane.” A la première échoit la mission de procréer de beaux enfants sains. A la seconde… celle de purger l’homme. “Le XIXe a de l’hérédité une vision primaire: on considère qu’un bandit aura des enfants bandits. Ainsi, la prostitution a du bon, au sens où, comme un évier, elle fait s’écouler les descendances bâtardes et dégénérées.

Voilà donc à quoi servaient les prostituées des bordels. Marthe Richard savait de quel enfer il s’agissait quand elle réclama la fermeture des maisons closes. Ancienne prostituée, avant de devenir conseillère de Paris à la Libération, elle déposa en 1945 un projet de loi prévoyant leur suppression. La loi fut adoptée le 9 avril 1946. Depuis, les femmes/les hommes qui s’adonnent à la prostitution n’ont plus que le trottoir pour lieu de travail. Ou leur clavier d’ordinateur. Avant, enfermées dans des maisons capitonnées, ils/elles faisaient rêver. Maintenant, jeté(e)s par la loi Marthe Richard dans la rue ou sur internet, ce sont des travailleuses du sexe. Leurs conditions de vie sont toujours aussi précaires. Sous prétexte d’améliorer leur sort, la loi n’a fait que les rendre invisibles. Les voilà maintenant vouées à la semi-clandestinité, à l’ombre, à la honte, au déni et au silence. On appelle ça le progrès.

Exposition Maisons Closes, du 28 octobre au 31 janvier 2010.
“Bordels de femmes. Bordels d’hommes. 1860-1946.”

Galerie au Bonheur du jour : 11 rue Chabanais – 75002 Paris. Tél. : 01 42 96 58 64.
Du mardi au samedi 14H30-19H30

Un livre Maisons closes 1860-1946 : 328 pages, 400 illustrations, couverture reliée, 17 rubriques et 5 sous-rubriques, avec les textes, et leur traduction en anglais. 1500 exemplaires dont 50 hors commerce dédicacés. Editions Nicole Canet.

Fonte Les 400 culs

Agnès Giard: Journaliste spécialisée dans les contre-cultures, le Japon et l’art déviant, correspondante pendant neuf ans de la revue japonaise S & M Sniper, je suis l’auteur du livre d’art Fetish Mode (éd. Wailea, Tokyo, 2003), (éd. Cherche-Midi, Paris 2004), L’Imaginaire érotique au Japon (éd. Albin Michel, Paris 2006), le Dictionnaire de l’Amour et du Plaisir au Japon (éd. Glénat, 2008), et Les Objets du désir au Japon (éd. Glénat, 2009).

Mon site personnel est : AgnesGiard.com


30/10/2009 - 12:44h Aluna é vítima de assédio em massa

Ela foi acuada em universidade em São Paulo por um grupo de estudantes por causa do vestido que usava


Ana Bizzotto – O Estado SP

Uma estudante do 1º ano de Turismo do período noturno do câmpus ABC da Universidade Bandeirantes de São Paulo (Uniban), em São Bernardo do Campo, foi xingada e acuada por um grupo expressivo de estudantes no prédio onde estuda por causa do comprimento do vestido que usava. O fato ocorreu no dia 22 e ganhou repercussão nesta semana pelo YouTube, onde foram publicados vídeos que registraram o episódio. O conteúdo foi retirado a pedido da universidade.

Segundo as cenas e os depoimentos de presentes, o tumulto começou quando a aluna subia por uma rampa até o terceiro andar e os alunos começaram a gritar. Ela ficou trancada em uma sala e, com a ajuda de um professor e colegas, chamou a polícia, que a escoltou até a saída da universidade. A estudante, de 20 anos, pediu para que seu nome não fosse divulgado.

“Costumo usar vestidos curtos e calças apertadas, assim como outras meninas. Naquele dia, tinha pegado ônibus, andado na rua e ninguém disse nada”, contou a estudante. “Eles estavam possuídos, fiquei com muito medo”, relatou.

A Uniban, em nota, disse que instaurou sindicância. “Alunos, professores, seguranças e também a aluna estão sendo ouvidos individualmente”, informou. A universidade “pretende aplicar medidas disciplinares aos causadores do tumulto, conforme o regimento interno”.

O comandante da 2ª Companhia do 6º Batalhão da PM, capitão Cotta, informou que a polícia foi chamada porque a estudante “estava sendo impedida de sair da sala”. Quando os policiais chegaram, a aluna já estava com um jaleco branco que tampava a roupa que usava. “Ela não quis registrar boletim de ocorrência nem ir à delegacia, só queria ser acompanhada até sua casa. A Uniban também não solicitou ocorrência.”

“Ela veio com um vestidinho rosa da pesada, daqueles que se usa com calça legging, só que sem a calça”, disse o estudante de Matemática Pedro Adair, de 23 anos. “Os três andares da faculdade subiram atrás dela. O pessoal parecia estar no tempo das cavernas, só faltou arrastá-la pelos cabelos”, completou Pedro, que considera que o episódio foi uma “brincadeira que passou dos limites”.

Uma estudante de Pedagogia que se identificou como Simone estava no prédio na hora. “Eles ficaram gritando “puta” para ela. Fui lá ver também e até tomei spray de pimenta que a polícia jogou”, contou.

VIOLÊNCIA DE GÊNERO

Especialistas ouvidos pela reportagem disseram que, se tivesse ficado nua, a estudante poderia ter cometido crime de atentado ao pudor. “Mas nada justifica a reação exagerada. Isso retrata violência de gênero, culpar a mulher pela agressão”, afirma a coordenadora executiva da ONG Rede Mulher de Educação, Vera Vieira.

De acordo com Charles Martins, assessor de educação da ONG Plan Brasil, que estuda a violência nas escolas do país, “ainda que a estudante tenha quebrado padrões de conduta, não pode ser aceitável a agressão como resposta”.

O episódio motivou a criação de fóruns na internet. Entre comentários, pessoas dizem que a aluna foi vítima de intolerância.

Alunos relataram ainda que no início do ano uma outra confusão aconteceu no mesmo câmpus. Uma aluna teria sido agredida por não ter aceitado participar de um protesto contra a mudança nas avaliação da universidade.

”Linchamento” da estudante reflete problemas sociais

Fernanda Aranda – O Estado SP

O “linchamento moral” sofrido pela estudante da Uniban reflete dois problemas sociais, avaliam especialistas. O primeiro é o machismo que justifica a agressão contra a mulher por uma suposta falha. O outro é a invasão da violência nas instituições de ensino.

“O episódio pode mostrar a bagagem que estes alunos trazem da fase escolar”, acredita Charles Martins, assessor de educação da Plan, entidade internacional que trabalha contra violência nas escolas. “Toda forma de violência tem histórico e o nosso mostra que a quebra de valores começa na escola.”

A coordenadora do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec), Eloísa de Lasis, também afirma que o caso da Uniban não pode ser encarado de forma isolada. “Enxergar e debater o ocorrido como um sintoma social pode nos ajudar a entender como um espaço de ensino se torna um espaço de violência”, conclui.

”Fiquei muito assustada, chorei, entrei em desespero”

Entrevista – Estudante, de 20 anos, do 1.º ano do curso de Turismo da Uniban

Afra Balazina – O Estado SP

O que aconteceu?

Eu estava com um vestido curto, que já havia usado outras vezes na aula. Sempre recebi elogios, nunca nada ofensivo. Quando estava na rampa e vi o pessoal assobiando e elogiando, fiquei com vergonha. Depois, quando fui ao banheiro, começou o tumulto. Cada vez chegava mais gente. Ameaçaram invadir a sala, chutaram a porta, quebraram a maçaneta. Tentaram passar a mão em mim, tiraram fotos e ficaram gritando que iam me pegar.

Como você se sentiu?

Fiquei muito assustada, chorei, entrei em desespero. Eles estavam possuídos. Fui ofendida por gente que nem me conhece e por meninas que moram perto de mim.

O que você pretende fazer agora?

Não estou indo à aula por medo, mas quero voltar – e de cabeça erguida. Quero ouvir o que a faculdade tem a dizer, porque eles não pensaram em nos proteger. Dependendo do que eles disserem, eu vou processá-los, sim.

21/10/2009 - 18:45h Arte e o medo da pedofilia

L’art rattrapé par la peur de la pédophilie

En 1975, le photographe publicitaire Garry Gross a réalisé plusieurs portraits de Brooke Shields nue à la demande de la mère de la fillette. Cette dernière est âgée de 10 ans, trois ans avant d'être la vedette du film de Louis Malle, "La Petite" (photo). | D.R.

D.R. – En 1975, le photographe publicitaire Garry Gross a réalisé plusieurs portraits de Brooke Shields nue à la demande de la mère de la fillette. Cette dernière est âgée de 10 ans, trois ans avant d’être la vedette du film de Louis Malle, “La Petite” (photo).


LE MONDE

L’amateur d’art qui entre dans la Tate Modern de Londres peut voir, jusqu’au 17 janvier, l’exposition “Pop Life”, dans laquelle figure un grand portrait photographique de l’actrice américaine Brooke Shields. Il est signé Richard Prince, un artiste bien coté, lui aussi américain. Ce dernier montre une femme sexy de 40 ans, portant un bikini, adossée à une moto rutilante, et qui sourit au visiteur.

Cette oeuvre de 2005 ne devait pas figurer dans l’exposition. Elle est venue remplacer, au dernier moment, une autre oeuvre : toujours un portrait de Brooke Shields, signé du même Richard Prince. Mais le modèle était âgé de 10 ans. Cet épisode traduit le climat actuel autour de la pédophilie, appliqué au monde de l’art.

Si le modèle est le même, si la similitude des poses saute aux yeux entre les deux photos, il existe une nuance de taille : la première version met en scène une Brooke Shields fillette et nue, la peau huilée, le corps émergeant d’une baignoire et de sa vapeur.

Quelques heures avant l’inauguration du 30 septembre, des policiers spécialisés dans la chasse aux publications obscènes (Metropolitan Police Service Obscene Publication Unit) sont venus constater ce qu’ils estiment être un délit, et ont déconseillé l’ouverture de l’exposition en l’état.

L’alternative était de l’interdire aux moins de 18 ans. “Ce qui ne résout rien, au contraire, cela en fait un aimant pour pédophiles”, avait réagi la responsable d’une association de protection de l’enfance, Michele Elliott, dans le Daily Telegraph. Les responsables de la Tate ont donc censuré l’oeuvre de Prince. Ils ont même interdit à la vente le catalogue, qui contient l’image ; une perte estimée par la Tate à 320 000 livres (348 000 €).

La photo de Brooke Shields à 10 ans figurait pourtant dans une salle fermée, interdite au moins de 18 ans, accessible après moult avertissements. Le paradoxe est qu’elle contient des oeuvres pour le coup strictement pornographiques, notamment une photo signée Jeff Koons qui le montre faisant l’amour avec la Cicciolina, ancienne star italienne du porno. Cette section interdite au moins de 18 ans vise à témoigner, comme toute l’exposition, de l’état de “l’art dans un monde de consommation” (”Art in a material world”).

Richard Prince a intitulé son oeuvre sur Brooke Shields à 10 ans Spiritual America. Mais il n’est pas l’auteur de la photo originelle. Ce dernier s’appelle Garry Gross. Alors connu à New York comme photographe publicitaire, Gross a réalisé en 1975 le portrait de Brooke Shields à la demande de la mère de la fillette. Cette dernière était mannequin chez Ford et sera, trois ans plus tard, la vedette du film sulfureux La Petite, de Louis Malle.

Dans les années 1980, Gross a gagné trois procès aux Etats-Unis contre Brooke Shields qui voulait lui interdire de commercialiser sa photo. Lors du troisième procès, rappelle Gross, 71 ans, le juge avait dit que l’image n’était “pas sexuellement suggestive, provocatrice ou pornographique”, qualifiant même la pose d’”innocente”.

Richard Prince a obtenu auprès de Gross, en 1992, le droit de tirer dix oeuvres de sa photo. Il a agrandi le format, opté pour des couleurs plus chaudes, et a donné un nouveau titre, Spiritual America IV. Cette oeuvre, avant d’être censurée à Londres, a été exposée dans le monde entier, sans faire de vagues. Un exemplaire s’est vendu 151 000 dollars chez Christie’s, en 1999. A la Foire de Bâle, il y a quatre ans, elle était mise en vente 1 million de dollars. Quant à la version de départ, celle de Gross, elle a été montrée à la Bibliothèque nationale de France, à Paris, en mars.

Descente de police

Mais le climat a changé. Depuis le 12 octobre, une loi britannique oblige tous ceux qui s’occupent d’enfants “de manière fréquente” ou “intensive” à s’inscrire auprès de l’Independent Safeguard Authority, qui vérifiera qu’ils ne sont pas suspectés de pédophilie ou de violence ; 11,3 millions de personnes sont concernées, de l’enseignant à l’infirmière. Il faut désormais ajouter les responsables de musées.

En France, l’affaire Roman Polanski, arrêté à Zurich trois jours avant l’ouverture de l’exposition de Londres, et celle de Frédéric Mitterrand, et sa “mauvaise vie” en Thaïlande, ont échauffé les esprits. Et l’on attend la date de l’audience du procès des trois responsables de l’exposition “Présumés innocents”, présentée à Bordeaux en 2000, accusés de “diffusion d’image de mineur à caractère pornographique”.

Ce nouveau climat pèse sur la Foire internationale d’art contemporain de Paris (FIAC), qui ouvre au public le 22 octobre. L’an dernier, une descente de police avait provoqué la saisie de photos présumées zoophiles du russe Oleg Kulik. Cette année, Martin Bethenod, directeur de la FIAC, a un temps envisagé d’interdire l’accès du Grand Palais aux mineurs. Il a finalement choisi de poster, aux frais de la FIAC, un garde devant chaque stand litigieux, qui sera chargé de vérifier l’âge des amateurs désireux d’entrer.
Harry Bellet (envoyé spécial à Londres) et Michel Guerrin

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Nova mostra da Tate Modern em Londres reflete sobre os artistas que se integraram na cultura de massas e no comércio

“A melhor arte é o bom negócio” disse Andy Warhol. A nova exposição da Tate Modern de Londres, que fica em cartaz de 1º de outubro de 2009 a 17 de janeiro de 2010, parte dessa premissa para reunir artistas que, a partir dos anos 80, não tiveram medo de unir comércio e mídia de massa para construir suas próprias “marcas”. A mostra Pop Life: Art in a Material World inclui Takashi Murakami, Keith Haring, Damien Hirst, Jeff Koons, Andy Warhol entre outros.

A lição mais radical de Andy Warhol reflete-se no trabalho de artistas subseqüentes que, ao invés de simplesmente representar ou comentar a cultura de massas, infiltraram-se na máquina de auto-promoção e no mercado. Energizando o poder da cultura das celebridades, expandindo seu espectro além do mundo das artes e entrando no mundo do comércio, esses artistas exploram canais que atraem público dentro e fora das galerias. A intersecção entre comércio e cultura é tradicionalmente vista como uma traição dos valores associados à arte moderna. Pop Life: Art in a Material World defende a idéia de que avançar este limite é fazer parte do mundo atual, aceitando suas condições.

No início da exposição há um foco no trabalho do final da carreira de Andy Warhol, examinando suas iniciativas como apresentador de TV, paparazzo e editor de revista. Estão ali trabalhos da controversa série Retrospectives onde ele reprisou seus retratos de ícones Pop dos anos 60, de uma maneira cínica.
Keith Haring tem reconstruída sua loja em N.York, a Pop Shop e ali na própria sala do Tate se podem comprar produtos de Haring. Inaugurada em 1986 na Lafayette Street, em Manhattan, a Pop Shop vendia produtos com as icônicas estampas de grafitti de Keith Haring, como camisetas, brinquedos e canecas.

Já a escultura Made In Heaven de Jeff Koons, apresentada primeiramente na Bienal de Veneza de 1990, imortalizou o casamento de Koons com a estrela pornô italiana Cicciolina. Takashi Murakami mostra um trabalho completamente inédito, uma instalação com vídeo e participação da atriz americana Kristen Dunst.

Uma sala dedicada aos novos artistas britânicos também faz parte da mostra Pop Life da Tate. Entre os artistas incluídos na exibição estão Tracey Emin e Sarah Lucas, que recriaram para a mostra sua loja de arte efêmera que, no começo dos anos 90, vendeu até mesmo cinza de cigarro. Na Tate Modern vai acontecer também uma reprise da performance Unfair, de Damien Hirst, mostrada pela primeira vez na feira de arte de Colônia, em 1992. Na performance gêmeos idênticos sentam-se no meio de duas pinturas do artista. O museu Tate Modern está pedindo que gêmeos participem da performance.

Antes mesmo da sua abertura a mostra Pop Life: Art in a Material World já está causando comoção. A Scotland Yard e a polícia de Londres pediram que fosse retirada uma obra da mostra. A obra em questão é de Richard Prince e contém um retrato de Brooke Shields, de Gary Gross, aos 10 anos, nua e toda maquiada.

Veja abaixo fotos de obras que estão em exposição na mostra Pop Life: Art in a Material World e, mais abaixo, uma matéria da agência espanhola EFE:

19/10/2009 - 16:34h Maçã verde

LÚCIA GUIMARÃES – NOVA YORK – O ESTADO SP

A moça do caixa me fez a pergunta antes de dar o troco e, em segundos, quase regredi à menina insegura do Colégio Santa Úrsula. Você precisa de sacola? “Não, Madre Superiora, quer dizer, não, é claro, cabe tudo na minha bolsa.”

Espera aí, não estava eu na maior rede de farmácias do país? A que mantém as lojas iluminadas à noite, o ar condicionado ou o aquecimento a toda? A corporação gigantesca estava patrulhando minhas pegadas de carbono?

No meu bairro, tradicionalmente democrata e politicamente correto, a mudança cultural é evidente.

Nos últimos anos, quando via um grupo de policiais na esquina, concluía, aos bocejos, que o banco havia sofrido mais um assalto relâmpago – geralmente um drogado solitário, fingindo ter uma arma sob a camiseta, levava o conteúdo de um caixa.

Na semana passada, dobrei a esquina e notei que a presença policial tinha atraído muita gente. Era horário de saída de um jardim de infância e as mães fotografavam a cena com seus celulares. Um caminhão de lixo havia estacionado e seu motorista muito nervoso confabulava com os policiais, que evitavam o olhar do público. E com razão. O inspetor municipal tinha surpreendido o dono da barraca de frutas e legumes ocupando mais espaço na calçada do que o permitido pela licença. E começou a despejar caixas e caixas de alimentos que foram devorados pelo caminhão de lixo. Um grupo de mulheres começou a gritar e chamou a polícia. Algumas discavam para as redações dos canais de TV locais. Saí fotografando, é claro, como alguém que imita os modos dos outros convidados num jantar de cerimônia. Uma desconhecida se aproximou de mim e disse: “Eu tenho um blog sobre comida orgânica, você me manda suas fotos? Nós vamos criar o maior caso.” Cada novo pedestre que perguntava o motivo da comoção ouvia um discurso ainda mais exaltado sobre o desperdício imperdoável.

Os Estados Unidos com menos de 5% da população mundial, consomem um quarto dos recursos de energia do planeta. Mas a cidade para onde me mudei, na década de 80, agora parece querer se penitenciar.

E como estamos num país fundado por puritanos, o ambientalismo vem com fortes doses de censura e culpa.

Numa festa de aniversário recente, notei um par de olhos fixos em mim enquanto lavava a louça. Em anos anteriores, a dona da casa me agradecia e dizia aos convidados ela ajuda sempre. Desta vez, a minha anfitriã não queria a minha ajuda. Explicou que era preciso enxaguar a louça no bacia colocada na pia e só abrir a torneira na hora de tirar o sabão. A crise de abastecimento é na Costa Oeste, pensei comigo mesma, enquanto aderia ao novos tempos.

Um comediante popular do canal HBO lidera uma campanha contra o golfe. Não porque seja um esporte cujo tédio desafia a minha compreensão. Mas porque os gramados consomem uma quantidade pornográfica de água em regiões secas.

Como ninguém há de se declarar contra o meio ambiente, a etiqueta ecologicamente correta, às vezes, desafia o bom senso. O prefeito Bloomberg prometeu designar 80 quilômetros de ciclovias por ano. Aplausos.

Mas já me juntei às estatísticas crescentes de atropelados por bicicletas. Enquanto esperava o roxo da perna desaparecer, comecei a ler sobre os acidentes em blogs e, só quando um executivo em sua bicicleta luxuosa matou um homeless no Central Park, pedalando a 60 km por hora, o desatino começou a ser mais bem documentado pela imprensa. Como trocar o carro pelo pedal é “do bem”, demoraram a entender que ignorar regras do tráfego urbano não é.

O virtuosismo ambientalista oferece um desafio especial neste país, em que o consumo é responsável por 70% da economia. Aqui se inventou a noção de shopping, comprar, como um fim e não um meio, uma atividade semelhante a jogar futebol ou ir ao cinema.

Na calçada da minha rua, em dias de coleta, dezenas de sacos de lixo selecionado por material para reciclagem convivem com mobília em perfeitas condições, já que o custo da mão de obra de transporte para vender ou doar equivale a comprar uma peça nova.

Nesta capital americana do consumismo, a experiência de assistir ao documentário No Impact Man é especial. O escritor Colin Beavan, autor do livro homônimo, recém-lançado com o filme, decidiu submeter sua família, mulher e filha de 2 anos a um ano de redução radical de suas pegadas de carbono. Passou os primeiros 6 meses sem eletricidade, subia e descia os nove andares de seu prédio no Village com a pequena Isabella nos ombros. Eles não andavam de carro, não faziam compras, só consumiam comida local e produtos de limpeza sem substâncias tóxicas. A experiência quase acabou com o casamento e Beavan foi acusado de atrair o ridículo para a causa ambientalista. Mas, ao servir de cobaia para um estilo de vida sustentável para o planeta a insustentável para a saúde mental da maioria, a família protagonizou uma narrativa fascinante. Ao contrário do zelo ecológico que frequentemente não se distingue de outros extremismos, Colin Beavan deixou pegadas de humanidade no caminho cheio de obstáculos de onde não podemos voltar.

18/10/2009 - 15:04h Um povo muito fofo

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BRASIL TRAIU O FUTURO CALMO E MESTIÇO DE ZWEIG PARA SURPREENDER O MUNDO COM PRÉ-SAL, COTAS E TV DE PLASMA PARA A CLASSE C

Austríaco fez esforço enorme para superar seus preconceitos, querendo gostar do que via

HERMANO VIANNA ESPECIAL PARA A FOLHA

Muitos livros antigos de ficção científica nos transmitem a sensação, acompanhada por tristeza leve e deslocada, de um futuro que poderia ter sido, mas que acabou escondido em alguma linha temporal paralela, situada a anos-luz de nosso tempo real.
Fiquei assim melancólico ao ler “Brasil – Um País do Futuro”, em pleno 2009, quando tanta gente insinua que nosso futuro chegará até antes da Olimpíada de 2016 -ou talvez já tenha chegado.
Lembrei de editorial recente da revista “Wallpaper” com decreto de quem está acostumado a ditar a moda: “É óbvio, eles [os Brics: Brasil, Rússia, Índia e China] não estão mais emergindo -eles já emergiram muito bem e de verdade, e em muitos aspectos podem agora ser chamados de “o novo establishment’”.
Establishment, nós? E agora, José Bonifácio de Andrada e Silva? Sim, o futuro anunciado por Stefan Zweig não se parece com nossa “pós-emergência” atual. Chegamos ao futuro por outro caminho, outra quebrada. Mesmo assim, de forma engraçada, a melancolia desencadeada pela leitura até me aproxima do brasileiro retratado por Zweig.
Naquela época, a visão do país como tristonho e pacífico (na verdade, preguiçoso) era lugar-comum. Mas então tivemos que passar pela alegria estridente e pela violência urbana para virar potência mundial? Traímos o futuro calmo, sentimental e mestiço anunciado em “Brasil -Um País do Futuro” e agora surpreendemos o planeta com novos tempos de pré-sal, cotas para afrodescendentes e consumo de TV de plasma pela classe C?
As voltas que o futuro nos dá… A “agenda” de Zweig era bem diferente da nossa. Seu livro era um manifesto pacifista, contra uma Europa destroçada por guerra e racismo. Esses males teriam sido causados também por um excesso de “dinamismo” e “veemência”.
Zweig precisava de um contraponto frugal para um mundo doente. Sua receita de cura era um desenvolvimento pacífico. E, fascinado primeiro pelo Rio -”não há cidade mais encantadora na Terra”-, quis encontrar no Brasil um “contentamento sereno”, longe da agitação do capitalismo guerreiro central.
Fico pensando se não foi Zweig um dos principais responsáveis pelo tal mito da democracia racial. Muitas de suas observações são ingênuas: “Tudo que é brutal repugna os brasileiros” ou “ao brasileiro é alheio tudo o que é violência”, “sem visível ódio e inveja entre raças e classes”.

Multidão obscura
Gilberto Freyre, que muitas vezes é acusado de ter uma visão doce das relações raciais no Brasil, nunca escreveu nada semelhante. “Casa-Grande e Senzala” é povoado por descrições horripilantes de violência de senhores contra escravos. Do seu lado, Zweig enxergava um país sem crueldade, onde vigorava a “expansão da cordialidade”. O brasileiro cordial do país do futuro era visto como apenas cordial, fofo, como se a crítica de Sérgio Buarque não tivesse existido.
Precisamos dar um desconto: para alguém que fugia do Holocausto e do ódio engendrados pelo mito da pureza/superioridade racial ariana, aportar onde “a palavra mestiço aqui não é um insulto” -”quem anda pelas ruas do Rio, vê numa hora mais tipos mesclados e, com efeito, já indeterminados, do que noutra cidade num ano”- deve ter parecido uma viagem para outro planeta, ou para um futuro desejado.
Por isso, Zweig precisava fazer um esforço gigantesco para superar seus próprios preconceitos, querendo gostar daquilo que via. Tanto que, em vários momentos, seu texto apresenta os tiques do etnocentrismo e do evolucionismo cultural, pré-”Tristes Trópicos” [1955]. Por exemplo: “Os elementos de sua civilização são em sua totalidade importados da Europa”. Tudo de africano era incivilizado. E Zweig nem identificava palavras de origem indígena em nossa fala.
Tem horas em que parece que o calor tropical o deixou surdo. Ele não ouviu algazarra nem na Festa da Penha. Ou teve a visão alucinada: encontrou gente lendo por toda parte, ou declarou: “Quase não existem mendigos”. Que futuro/passado estranho, alienígena! Outras previsões foram bem originais. Ao ter contato com pobres, identificou uma “multidão mais baixa”, “obscura”, sem “trabalho regulado”, como “uma das enormes reservas para o futuro”.
E não é que ele estava com a razão? Hoje essa gente deixou de ter sua vida “pouco influenciada pelo progresso da técnica” e virou mercado de consumo apontado até na “The Economist” como chave para a recuperação da economia mundial pós-crise. Uma gente dinâmica e barulhenta, acostumada tanto com o metralhar de AR-15 quanto com o subgrave do forró no som automotivo, vira garantia de futuro, muito além do fim da história e de qualquer choque de civilizações.

HERMANO VIANNA é antropólogo e pesquisador musical, autor de “O Mistério do Samba” (ed. Jorge Zahar), entre outros livros.

18/10/2009 - 14:14h “Brasil – Um país do futuro”: o mito estaria virando realidade?

Nem mito nem realidade

PUBLICADO EM SEIS LÍNGUAS EM 1941, “BRASIL – UM PAÍS DO FUTURO”, DE STEFAN ZWEIG, CRIOU UMA DAS MAIS PODEROSAS E DURADOURAS MITOLOGIAS SOBRE A NAÇÃO

Há um grande inimigo da vitória sobre o vira-latismo, a invasão do oba-obismo; nada está garantido

Bruno Domingos – 2.out.09/Reuters

Banhista toma sol na praia de Copacabana em 2 de outubro,
dia em que o Rio foi eleito sede da Olimpíada de 2016


JOSÉ MURILO DE CARVALHO – Caderno mais+ – FOLHA SP

ESPECIAL PARA A FOLHA

Nos dias que correm, não há como não nos lembrarmos de Stefan Zweig e de seu “Brasil – Um País do Futuro”, publicado em 1941. Como se sabe, Zweig, um judeu austríaco, conheceu o Rio de Janeiro em 1936 e voltou com a mulher quatro anos depois, fugindo dos nazistas e abandonando uma Europa envolvida em sangrenta guerra motivada em parte por ódios raciais.
O país o fascinara desde o primeiro encontro. Sobretudo, causou-lhe forte impressão a imensa salada étnica que viu nas ruas do Rio de Janeiro. Esse impacto inicial não esmoreceu até sua morte e a da mulher, em Petrópolis (RJ), em 1942. Ele refletiu-se com nitidez no apanhado que fez da história brasileira no primeiro capítulo do livro.
Os fatos são tirados dos manuais conhecidos. Mas o viés da narrativa é o mesmo do livro do conde Affonso Celso, “Por Que Me Ufano do Meu País”, publicado em 1900.
O povo brasileiro seria dotado de um caráter congênito em que sobressairiam a tolerância, sobretudo a racial, o espírito de conciliação, a tendência à solução pacífica dos conflitos internos e externos. A essas qualidades se acrescentava o dom de uma natureza rica e generosa. Com tais atributos, o Brasil estava, segundo ele, destinado a apresentar ao mundo, sobre os escombros da Europa, um novo modelo de civilização. O Brasil era o país do futuro.
O livro de Zweig inscreve-se em longa tradição nacional que vem alternando, em termos extremados, visões negativas e positivas de nosso povo. Os que só veem nele qualidades foram chamados de ufanistas, como Affonso Celso, ou, em linguagem popular, de “turma do oba-oba”. Os que nele só enxergam mazelas foram estigmatizados por Nelson Rodrigues como vítimas do complexo de vira-lata.
De fato, e para ficarmos apenas no período republicano, para cada Affonso Celso houve um Manuel Bomfim; para cada Oliveira Vianna ou Paulo Prado houve um Gilberto Freyre; para cada Raymundo Faoro houve um Darcy Ribeiro.
Em contraste, sobre a terra houve unanimidade desde Américo Vespúcio: é grande, rica e bonita por natureza. Nosso motivo de orgulho nacional, pesquisas o demonstraram, passou a ser a natureza.

Futebol e euforia
Criou-se um paradoxo e uma frustração: como é possível que, com uma terra dessas, não consigamos construir um grande país, uma grande potência, como fizeram os Estados Unidos? Numa terra radiosa, vive um povo triste, sentenciou Paulo Prado em “Retrato do Brasil”. O título do livro de Zweig transformou-se em ironia: somos, e seremos sempre, o país do futuro.
Houve de vez em quando em nossa história surtos de euforia. Para não ir longe, o mais óbvio, ainda vivo na memória de muitos, foi o dos “anos dourados” de Juscelino Kubitschek [1956-61]. Combinaram-se vários fatores positivos: a inspiração de um presidente democrático, altas taxas de crescimento, uma explosão de criatividade na literatura, no cinema, nas artes e, principalmente, uma taça Jules Rimet.
O que poderia ter sido o surto seguinte, nos anos 1970, com o alto crescimento, sonhos de Brasil grande potência e mais uma Copa do Mundo, foi abortado pela falta de liberdade. A seguir vieram longos anos de pessimismo, de vira-latismo.

Sem milagres
Desde o Plano Real vêm sendo construídas as condições para um novo surto. Trabalho e sorte acabaram por fazer ressurgirem os ingredientes clássicos: uma liderança presidencial inspiradora, uma economia em ordem, embora não tão dinâmica, um presente da natureza no pré-sal, uma Copa do Mundo em 2014, Jogos Olímpicos em 2016. Novos sonhos de Brasil grande, já adormecidos, renasceram na política externa. As condições internas e externas parecem mais favoráveis do que nunca para a decolagem.
Há, no entanto, um grande inimigo da vitória sobre o vira-latismo: a invasão do oba-obismo. Nada está garantido. O crescimento econômico pode não deslanchar, a Copa e a Olimpíada podem fracassar, a abundância de petróleo pode transformar-se em maldição. Apesar de todas as grandes melhoras recentes, o país continua sendo campeão de desigualdades, apresenta níveis vergonhosos de escolaridade, instituições pouco confiáveis, cidades dominadas pela violência, depredação da fantástica natureza.
Êxito mais duradouro desta vez dependerá de trabalho duro em todas as frentes reconhecidamente indispensáveis para a decolagem. Dependerá da ausência de oba-oba. Não haverá milagres. Nem pessimismo nem euforia levam a lugar nenhum. Melhor dito, levam apenas ao país do futuro. Não era certamente isso que Stefan Zweig pressagiava para nós.


JOSÉ MURILO DE CARVALHO é historiador, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro e autor de “A Construção da Ordem/Teatro de Sombras” (Civilização Brasileira).

Livro de Zweig inspira dossiê do jornal espanhol “El País”

DA REDAÇÃO

No domingo passado, o jornal “El País”, sediado em Madri e diário mais influente em língua espanhola, trouxe amplo dossiê sobre a crescente pujança econômica e geopolítica do Brasil -consolidada, segundo ele, com a eleição do país como sede da Copa de 2014 e do Rio como sede da Olimpíada de 2016.
Lembrando a obra de Stefan Zweig, o matutino diz que foi necessário esperar quase 70 anos para que a visão que teve o autor austríaco sobre o grande potencial brasileiro começasse a se tornar realidade.

16/10/2009 - 20:41h O erotismo antropomórfico

L’érotisme anthropomorphe

Agnès Giard – Les 400 culs

Voici enfin rééditée Omaha, danseuse féline, une bande dessinée peuplée uniquement de chattes strip-teaseuses et de matous bien membrés, qui tombent amoureux, posent dans des magazines pornos et parfois se mettent à déprimer. C’est dur d’être une bête de sexe.

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En 1896, H.G. Wells publie L’Ile du docteur Moreau, l’histoire d’un savant fou qui modifie des animaux sauvages et les transforme en créatures presqu’humaines, capables de penser, de marcher, de parler… et d’aimer. Avec sa zoophilie latente, le roman fait scandale. D’autres auteurs s’engagent alors dans la brèche. Dans La Femme changée en renard David Garnett, jeune Anglais bisexuel et provocateur, raconte l’histoire d’une femme-renarde qui fait découvrir à son mari les mystères de la sauvagerie. Quelques années plus tard, Abraham Merrit écrit La Femme-Renard, un roman de science fiction sulfureux qui ouvre la voie à toutes sortes de récits fantastiques peuplés de catwomen et d’hommes-panthères à la sexualité débridée… Omaha danseuse féline s’inscrit en droite ligne de ces récits qui accordent aux animaux un statut comparable à celui d’êtres humains: comme nous, ils sont capables d’avoir des sentiments. Et des envies.

On appelle ces animaux des furries : animaux anthropomorphes, c’est-à-dire dotés de caractéristiques humaines. Exemple historique: en 1928, Walt Disney invente une souris qui marche sur ses pattes arrières, qui porte des chaussures et fait la cour à sa dulcinée, une dénommée “Minnie”. Mickey lance la mode des furries. Très vite, ça dérape. Élevés en compagnie de peluches duveteuses, des générations d’adolescents font sur leurs jouets d’enfance une véritable fixation. En grandissant, loin d’abandonner leurs nounours, ils les déguisent: bas résille et cockrings. Les nostalgiques auto-batisés “furverts” (pervers de la fourrure) ou encore “furryphiles” (amis de furries) entretiennent avec les animaux de leurs rêves un rapport quasi-sexuel. Ce sont des fou(rrure)-furieux, qui forment à travers le monde une vaste communauté communiant dans l’amour des “plushies”, les peluches, et des “kitties”, les minous de dessins animés. Leur communauté se nomme elle-même “furry fandom”.

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Première caractéristique: leurs fantasmes s’inspirent directement des gentils héros niais, des lapins gnangnans, des écureuils affectueux ou des adooorables poneys aux grands yeux miroitants… Sur Internet, c’est la folie. Allant toujours plus loin dans la perversité, les furverts rivalisent de dessins cochons: leurs femmes-fennec et leur hommes-chevaux s’exhibent en bas résille et porte-jarretelles, le sexe moulé dans des tenues cuir et les fesses bien offertes à de violentes pénétrations anales ou vaginales… Gay ou straight, toujours hardcore, SM-fetish ou “vanille”, mais toujours sans tabous, leurs images détournent les icônes enfantines et dynamitent le côté mièvre des dessins animés. Un vrai jeu de massacre. Les furverts sont des terroristes. Ils fantasment sur d’innocentes créatures, métamorphosées en “bêtes de sexe”. Ils reprennent Pikachu à la sauce porno. Ils kidnappent Mickey pour le violer en gang bang. Ils s’amusent même à se masturber dans des peluches (sur le site Real Hamster, qui parodie le célèbre Real Doll) ou à copuler dans des poupées gonflables en forme de Bambi! D’autres encore s’achètent des déguisements en fourrure: sous le nom de “fursuiters”, ces fétichistes du nounours s’habillent en étalons déviant ou en lapins scabreux pour faire l’amour…

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“Je suis votre ourson” (I am your teddy bear), chantait Elvis Presley dans les années 50. C’était mignon. Dans les années 90, les Furverts reprennent en choeur “I want to be your dog”. C’est nettement plus sexuel. En bande dessinée, la plus célèbre des séries furries s’appelle Fritz the cat. Contestataire et sexuellement incorrect, Fritz le chat baise des “poules” (au propre comme au figuré) dans des baignoires de coke. Reprenant la tradition égyptienne des dieux zoomorphes, Bilal dessine dans la trilogie Nicopol d’étranges accouplements. Au Japon, Masamune Shirow invente dans Appleseed des mutantes en fourrure programmées pour le sexe… Tank Girl, icône des punkettes, s’éclate dans des décors à la Mad Max: son mec est un kangourou. C’est dire s’il a une grosse queue. Dans Omaha danseuse féline, on retrouve la même explosive énergie défoulatoire à l’oeuvre: c’est une histoire d’amour post-libération sexuelle, écrite et dessinée par un couple (le dessinateur Reed Waller et sa compagne scénariste Kate Worley). Une saga de 1000 pages interrompue tragiquement par la mort de Kate, et qui raconte – sur 20 ans – la vie inachevée d’une… chatte gourmande et tendre.

A ne pas rater : le graphiste japonais TwoTom dessine des hommes-lapins sado-masos qui échangent des gode-carottes dans des décors de conte de fée. Ses oeuvres sont exposées du mardi 13 au dimanche 18 octobre à la librairie OFR : 20 rue Du petit Thouars, 75003 Paris. Tél. : 01 42 45 72 88. Vernissage demain, mardi 13 oct, à partir de 18h30. L’exposition s’appelle : “Cinq illustratrices japonaises et un garçon nippon”.

Omaha, danseuse féline, de Reed Waller et Kate Worley, éd. Tabou.

15/10/2009 - 15:33h Arte X mudança climática

Civilización & Barbarie

Hoy es el Blog action day, el día en que los bloggers de todo el mundo que lo decidan, nos unimos para hablar sobre un tema en común.

Este año la consigna es alertar sobre los efectos del cambio climático.

Hace dos semanas Spencer Tunick, conocido fotógrafo que desnuda masas en espacios públicos, sumó su grano de arena al asunto al realizar una intervención con más de 700 personas en unos viñedos en la zona francesa de la Borgoña a pedido de Greenpeace.

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El objetivo de las personas que posaron y del célebre fotógrafo fue llamar la atención de la opinión pública y de los dirigentes políticos ante este fenómeno de cara a la cumbre mundial del Clima que se celebrará en diciembre en Copenhague.

“Si no actuamos aquí y ahora, el hombre y el conjunto de su patrimonio cultural están condenados”, alertó el director general de Greenpeace en Francia, Pascal Husting.

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El artista estadounidense, por su parte, alertó que además de los viñedos franceses, el cambio climático amenaza la agricultura y la naturaleza de todo el mundo.

Greenpeace instó a los líderes mundiales a que alcancen un acuerdo “ambicioso” en la cumbre de Copenhague, donde espera que los países industrializados se comprometan a reducir las emisiones de gases contaminantes en, al menos un 40 por ciento, de aquí al año 2020.

Otros años y otros artistas, llamaron la atención sobre este fenómeno en distintas muestras. Así sucedió en 2008 en Barcelona con la muestra El ambiente siempre está en el medio y con la muestra on line New climates.

Y aquí leé lo que los combloggers de Civilización&Barbarie proponen para la discusión sobre el cambio climático. Publicado por Cristina Civale

09/10/2009 - 20:37h Me mostra tua mulher, e te direi quem você é

Montre-moi ta femme, je te dirai qui tu es



Ma Photo

par Agnès Giard – Les 400 culs

Pour vivre heureux, il y a ceux qui préfèrent se cacher. Et puis il y a les autres qui ne conçoivent le bonheur que dans l’idée du partage, y compris érotique: ils exhibent leur conjoint(e). Parfois même ils le/la prêtent.

Roi-candaule

Dans son sens le plus restreint, le candaulisme se définit comme le fait de regarder son partenaire faire l’amour avec un autre homme ou une autre femme, voire avec plusieurs personnes. Pour s’exciter, certaines personnes demandent aussi à leur femme (compagnon) de porter des tenues très sexe ou de les enlever en public, le temps d’un strip-tease rapide, effectué pour le “plaisir des yeux”. Il s’agit parfois seulement de stimuler son goût du voyeurisme… Parfois, le voyeurisme va jusqu’à “livrer” sa compagne (son compagnon) à l’appétit d’autres mâles ou femelles. Bien qu’ils soient souvent associés, le candauliste n’a rien à voir avec le cuckold. Le fantasme de l’adultère (cuckold) repose en grande partie sur la mise en compétition, la jalousie et l’humiliation. La candaulisme, en revanche, est une forme extrême de générosité, dont le roi Candaule est devenu en Occident l’incarnation mythologique. La légende dit qu’il forçait sa reine à se déshabiller en public. En 1899, Gide lui consacre une pièce de théâtre que La Revue Blanche assimile à un “drame idéologique”.

Le Roi Candaule est un drame platonicien sur le bonheur, s’enthousiasme le critique dramatique. Candaule ne conçoit pas qu’on jouisse vraiment d’un bonheur qui n’est pas partagé ou au moins dont le détail et la qualité demeurent ignorés d’autrui. C’est en vertu de cette position philosophique, qui n’est d’ailleurs que la transposition idéologique d’un goût natif, d’une vocation spontanée, en un mot d’une manière d’être psychologique, qu’il dit par exemple à Pharnace: «Je croirais voler à tous le bien dont je reste seul à jouir» ; et à Nyssia, sa femme, dont il adore la beauté prestigieuse et qu’il a forcée à se dévoiler en public, précisément pour que tous connaissent le trésor dont s’enrichissent ses nuits d’amour: “Pour moi… Mon bonheur semble puiser sa force et sa violence en autrui. Il me semble parfois qu’il n’existe que dans la connaissance qu’en ont les autres et que je ne possède que lorsqu’on me sait posséder.”

Candaule est bon, généreux, accueillant à toute misère; il veut que son bonheur rayonne infiniment autour de lui et n’accepte pas d’être heureux seul, pas plus qu’il ne se satisfait d’être heureux pour lui-même. Il veut qu’on le sache heureux et il veut rendre heureux. C’est un homme raffiné, à qui répugne l’égoïsme naturel et qui se ravit d’être optimiste et s’exalte d’être compliqué et s’admire; car il s’admire profondément d’être bon, d’être rare, d’être compliqué, de ne pas croire en Dieu, d’avoir des idées exceptionnelles. «Admirable Candaule!» se dit-il !”. Même l’ivresse participe, à ses yeux, de cette philosophie du partage : elle fait sortir les gens de leur réserve, et les amène à dévoiler ce qu’ils sont. “L’ivresse ne manifeste en nous que ce que nous portons en nous-mêmes. Pourquoi craindrait celui qui n’a rien que de noble à montrer ? L’ivresse… fait rendre à chacun ce que souvent par excès de pudeur il cachait.

Au XVIe siècle, Baltazar Gracian disait la même chose dans son traité sur l’homme idéal qu’il appelle “el discreto“: soyez comme les paons, disait-il, les paons qui, tout en déployant leur beauté naturelle, penchent la tête humblement vers le sol et regardent leurs pieds. Le paon nous fait la grâce de sa séduction. Il le fait de telle sorte que nous ne nous sentions point jaloux, ni offensés, ni diminués par cette parade. Au contraire. Tel le paon, l’homme idéal doit donc faire profiter les autres de son intelligence, et le faire de telle sorte que chacun se sente lui-même plus intelligent à son contact, plus beau, plus noble ou plus courtois… Ainsi, le roi Candaule désire qu’à son contact, les gens se sentent plus aimés et plus aimables: il leur montre sa femme nue en geste d’offrande. Il leur tend, tel un miroir, cette vision d’un bonheur que chaque regard reflète et démultiplie. Plus vous serez nombreux à profiter de ma femme, plus vous aurez envie –vous-même– d’être comme moi: heureux en amour. Heureux en sexe.

Hélas. Le roi Candaule a des ennemis: il y a des êtres frustres qui ne supportent pas l’idée du partage. “A côté de ce roi trop civilisé, trop compliqué, trop optimiste sont Nyssia et Gygès, explique le critique de La Revue Blanche. Nyssia, sa femme, Gygès le pêcheur, deux êtres très simples, très élémentaires, très frustes, nécessairement égoïstes, sont très près de la nature, donc nécessairement partisans d’une conception inverse et adverse du bonheur, celle du bonheur pour soi, du bonheur à soi, bien à soi, rien qu’à soi.” La légende dit que Gygès, assassin de Candaule, fit monter au trône de Lydie la dynastie des Mermnades… avec l’aide de Nyssia. “Nyssia souffre violemment d’être montrée en public par Candaule. Elle ne le cède point à l’imprudent époux: «Il est certains bonheurs que l’on tue plutôt que de les pouvoir partager…» ; et, quand il lui pose cette question: “Que pensez-vous de mon bonheur ?” elle répond prophétiquement: «Qu’il est pareil à moi, mon seigneur… Je veux dire que je crains qu’il ne fane à rester découvert »

Aussi est-elle la vraie femme de Gygès, de ce Gygès qui tua d’instinct sa première femme, Trydo, parce qu’elle l’avait trompé et qui tuera Candaule son bienfaiteur et ami, parce qu’un ne peut pas être deux à posséder le même bien, parce qu’on ne partage pas le bonheur et que Nyssia n’est plus qu’à lui, dès l’heure où elle fut à lui. Aussi, dans un très beau geste final qui enveloppe toute la pièce et en ramasse le sens épars, à peine l’a-t-elle choisi pour époux-roi que Gygès ramène violemment sur le visage de Nyssia le voile gardien qu’en avait écarté la folie prodigue de Candaule: “Gygès (hostilement, vers Nyssia): “Ce visage si beau, madame, je croyais qu’il devait rester voilé?”. Nyssia (méprisante) : “Voilé pour vous, Gygès. Candaule a déchiré mon voile.” Gygès (très brutalement lui ramène un pan de vêtement sur le visage) : “Et bien ! recousez-le !”. La pièce de Gide s’achève ainsi de façon abrupte: sur une déclaration d’amour aux allures de conflit conjugal. Nyssia voulait un mâle exclusif? La voilà servie. Elle s’est condamnée elle-même à la prison, à la domination, à la répression sexuelle et aux travaux d’aiguilles. Il y a des femmes qui n’ont que ce qu’elles méritent.

PS : Je serai tentée d’ajouter: en l’occurrence, ces femmes ne méritent aucun respect. Le débat qui fait rage autour du voile me force cependant à tempérer mes ardeurs. Il faut lire le billet de Peggy Sastre sur son blog “féministe” -Ex Utero- du Nouvel Observateur pour compléter mon point de vue (trop radical peut-être). Il faut aussi lire le billet qu’Elizabeth Badinter a adressé “à celles qui portent volontairement la burqua” en septembre dernier: “Après que les plus hautes instances religieuses musulmanes ont déclaré que les vêtements qui couvrent la totalité du corps et du visage ne relèvent pas du commandement religieux mais de la tradition, wahhabite (Arabie Saoudite) pour l’un, pachtoune (Afghanistan-Pakistan) pour l’autre, allez-vous continuer à cacher l’intégralité de votre visage? Ainsi dissimulée au regard d’autrui, vous devez bien vous rendre compte que vous suscitez la défiance et la peut, des enfants comme des adultes. Sommes-nous à ce point méprisables et impurs à vos yeux, pour que vous refusiez tout contact, toute relation, et jusqu’à la connivence d’un sourire ? Dans une démocratie moderne, où l’on tente d’instaurer transparence et égalité des sexes, vous nous signifiez brutalement que tout ceci n’est pas votre affaire, que les relations avec les autres ne vous concernent pas et que nos combats ne sont pas les votres. Alors je m’interroge : pourquoi ne pas gagner les terres saoudiennes et afghanes où nul ne vous demandera de montrer votre visage, où vos filles seront voilées à leur tour, où votre époux pourra être polygame et vous répudier quand bon lui semble, ce qui fait tant souffrir nombre de femmes là-bas ? En vérité, vous utilisez les libertés démocratiques pour les retourner contre la démocratie. Subversion, provocation ou ignorance, le scandale est moins l’offence de votre rejet que la gifle que vous adressez à toutes vos soeurs opprimées qui, elles, risquent la mort pour jouir enfin des libertés que vous méprisez. C’est aujourd’hui votre choix, mais qui sait si demain vous ne serez pas heureuses de pouvoir en changer?. Elles ne le peuvent pas… Pensez-y”.

08/10/2009 - 11:45h Quem sabe faz a hora

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ColunistaHeloisa Magalhães – VALOR

O presidente Lula, a partir de sexta-feira passada, em Copenhague, ficou muito mais confortável com a afirmação de Barack Obama de que ele é “o cara”. Mas o grande vitorioso na disputa pela sede dos Jogos Olímpicos de 2016 não foi ele ou o Rio de Janeiro, mas o país.

O Brasil venceu. Apresentou proposta bem estruturada e convenceu ao apresentar as garantias dos investimentos necessários para realização dos jogos. E apresentou uma fotografia de uma nação confiável, com bons indicadores econômicos avançando no crescimento. Mas em meio a tantos bons propósitos o Brasil ainda está longe de saltar o fosso da desigualdade social. A pobreza urbana, aninhada nas grandes cidades, mostra um jovem, entre os de baixa renda, com pouca perspectiva de futuro e melhoria na qualidade de vida. A mobilidade social ainda é um privilégio de poucos. A maioria dos brasileiros que nasce pobre morre pobre.

Foi nesse calcanhar de Aquiles que o próprio presidente tocou em seu discurso na capital da Dinamarca. Certamente, a perspectiva de contribuir para mudar esse cenário pesou na decisão de trazer os jogos, pela primeira vez, para a América do Sul.

Lula mostrou que um evento da dimensão de uma Olimpíada, além da criação de novas oportunidades, tem todas as condições de instaurar um novo ambiente de esperança. Pode tornar-se uma das molas propulsoras para criar um movimento de formação de crianças e jovens a partir de novas oportunidades de educação, trabalho e esporte.

Para os cariocas, os ganhos com os investimentos com infraestrutura com viés ambiental são fundamentais. O Rio precisa despoluir a Baía da Guanabara, as lagoas, as praias, criar novo sistema de transportes. Com o esvaziamento econômico, a cidade ficou com áreas degradadas. A região portuária é um destaque. Ao recuperá-la, como propõe a prefeitura, e torná-la parte da sede do evento, crescem as perspectivas para revitalização de uma região que pode tanto voltar-se para habitação popular ou centro de negócios, turismo e lazer.

Para esses mesmos cariocas que convivem com o ambiente carente das favelas, com o banditismo presente no dia a dia, uma grande expectativa está sendo a da cidade beneficiar-se de forma ainda mais ampla do momento para antes e depois da Olimpíada. Além do benefício material, o intangível tem tudo para ser o maior legado dos jogos, não só no Rio como em todo Brasil, lembra Edson Menezes, ex-esportista e hoje presidente do Banco Prosper. Ele é o diretor-financeiro do comitê executivo do projeto pró-Rio 2016.

Anos atrás, Menezes defendia a criação de um espaço para crianças e jovens dedicarem-se ao esporte. Ajudou a montar a proposta do que é batizado de Centro Olímpico de Desenvolvimento de Talentos. Seria em Deodoro, subúrbio do Rio. Sem conseguir levantar os recursos, a área acabou abrigando o Estádio Olímpico João Havelange, popularizado como Engenhão. Construído para os Jogos Pan-americanos, em 2007, ficou sem uso. Está arrendado pelo Botafogo Futebol e Regatas.

Menezes diz que a ideia da proposta original agora tem tudo para ser recuperada. O Comitê Olímpico Brasileiro desenvolveu e o próprio Ministério do Esporte já aprovou projeto, que prevê investimentos de R$ 12 milhões e centro para treinar 2,5 mil crianças. A proposta é oferecer de oito a dez modalidades esportivas diferentes na área do Parque Aquático Maria Lenk, na Barra da Tijuca. Também construído para os Jogos Pan-americanos, hoje está subutilizado. Nestes dias, as piscinas, construídas há dois anos, estavam com vazamento. Agora recebem novos azulejos, pois precisam ficar prontas para uma competição.

Por que não replicar o modelo em áreas carentes do país? A questão é atuar para tirar proveito do momento que promete investimentos e ações, não só de governo, mas que também irão atrair a iniciativa privada. O economista Andre Urani, do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (IETS), lembra que teremos tempo para sincronizar ações das diferentes esferas de governo, do setor privado e da sociedade civil em torno de objetivos comuns.

“É importantíssimo aproveitar a onda positiva e ter foco, centrar no que interessa. O importante é eleger prioridades assimiladas e aceitas pela população para que sejam incorporadas por anos e anos”, diz. Estudioso da cidade, Urani há anos vem batendo na tecla que o Rio precisa buscar um processo de recuperação estruturado. “Barcelona deu um show, aprendeu a costurar ações de forma concatenada e foi capaz de repetir várias outras em diferentes momentos. A loucura de todas as grandes cidades de correr atrás da Olimpíada deve-se ao fato de poderem se expor para o mundo”, pondera.

Ele lembra que a maioria das grandes metrópolis, seja o Rio, seja Londres, a sede dos jogos de 2012, enfrentou esvaziamento com a descentralização industrial, o que “deixou um rastro de destruição, com desemprego e transformando os subúrbios em desertos industriais, com aparecimento da violência”, diz ele.

Londres está se renovando. A construção da infraestrutura da Olimpíada está sendo fundamentalmente na área degradada, no sudeste da cidade. “O que quero dizer é que os jogos são uma oportunidade de reinventar a razão de ser da cidade, revocacionar para o século 21. Precisamos analisar com cuidado as experiências que mudaram cidades como a de Barcelona, Turim e a própria Londres, onde os jogos ainda não aconteceram, mas o foco está sendo preparar para uma nova realidade”, diz.

Heloisa Magalhães é chefe da Redação no Rio

E-mail: heloisa.magalhaes@valor.com.br

06/10/2009 - 16:38h Dieta pode agir contra depressão

dieta_mediterranea

Pesquisa com 10.094 espanhóis mostrou que cardápio mediterrâneo tem efeito protetor no cérebro

De acordo com o estudo, os voluntários com maior adesão a essa dieta tinham risco cerca de 30% menor de desenvolver o distúrbio


JULLIANE SILVEIRA – FOLHA SP

DA REPORTAGEM LOCAL

Fortemente relacionada à redução de risco para doenças cardiovasculares, a dieta mediterrânea mostrou efeito protetor contra a depressão em um estudo realizado com 10.094 pessoas. O trabalho foi publicado na edição de outubro do “Archives of General Psychiatry”, um dos periódicos da Associação Médica Americana.
Pesquisadores das universidades de Las Palmas de Gran Canaria e de Navarra (ambas na Espanha) avaliaram dados desses espanhóis, que preencheram questionários de 1999 a 2005 sobre a própria ingestão alimentar. Eles calcularam a adesão à dieta mediterrânea baseados em nove itens: maior ingestão de gorduras monoinsaturadas em comparação às saturadas, consumo moderado de álcool e laticínios, baixa ingestão de carne vermelha e alto consumo de legumes, frutas, oleaginosas (como nozes e castanhas), cereais e peixes.
Após acompanharem os voluntários por cerca de quatro anos, identificaram 480 novos casos de depressão -a maioria (324 ocorrências) em mulheres. Os que seguiram a dieta apresentaram risco 30% menor de desenvolver depressão. Para chegar aos resultados, foram ajustados outros fatores influenciáveis, como estilo de vida, estado civil, doenças crônicas e uso de antidepressivos.
“Algumas variáveis, como os que não desenvolveram depressão serem mentalmente mais saudáveis e mais propensos a aderir a uma dieta mais saudável, não foram medidas. Mas é um estudo benfeito, com metodologia adequada”, pondera a psiquiatra Andrea Feijó de Mello, da Associação Brasileira de Psiquiatria e pesquisadora da Unifesp.
Trabalhos anteriores mostram que populações que consomem altas quantidades de peixes apresentam menores índices de depressão. Uma das explicações é que o ácido graxo ômega 3 (presente em peixes de água fria, como o salmão) influencia na estrutura do sistema nervoso central e no transporte de neurotransmissores.
Os ácidos graxos ajudam na formação da membrana celular, tornando-a mais fluida. A fluidez das membranas dos neurônios contribui para uma melhor plasticidade cerebral (capacidade de os neurônios se comunicarem), fator importante para o equilíbrio emocional do paciente.
“Quando há empobrecimento da comunicação, há prejuízos na memória, fluência verbal, criatividade e iniciativa, que são sintomas da depressão, fazendo a pessoa se tornar mais vulnerável à doença”, diz Renério Fráguas Jr., supervisor da residência médica do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo.

Vitaminas
A dieta mediterrânea também oferece bons teores de folato e vitamina B12 (presentes em vegetais, peixes e ovos), nutrientes que participam como cofatores na sintetização de serotonina no cérebro, neurotransmissor relacionado às alterações no humor.
Segundo Fráguas Jr., alguns estudos mostram resultados significativos da suplementação em pacientes que têm depressão e não apresentam melhora com medicamentos.
“É um dos mecanismos para explicar a associação entre questões nutricionais e depressão. Na prática, já oferecemos suplementos, principalmente para idosos que podem ter uma diminuição na absorção desses nutrientes e podem ser mais vulneráveis à depressão.”

06/10/2009 - 14:55h Agora, é a classe D que vai ao paraíso digital

Cenário: Fatias mais pobres da população compram PCs e serviços de internet no rastro aberto pela classe C


Gustavo Lourenção / Valor
Foto Destaque
Na Associação Santa Cruz, na favela do Jaguaré, em São Paulo, adolescente aprende a usar o computador com a professora Neide Martins; acesso às redes sociais é um do principais atrativos



Talita Moreira e André Borges, de São Paulo – VALOR

Vá até a favela do Jaguaré, na zona Oeste de São Paulo, suba pelas vielas que se abrem em meio aos barracos e entre em qualquer uma das salas de aula do centro cultural Santa Cruz. Pergunte aos alunos que frequentam os cursos de moda, informática ou gastronomia quantos têm computador em casa ou acesso à internet. O número de braços erguidos fica bem abaixo do percentual típico de uma escola de classe média, por exemplo, mas é surpreendentemente alto para o perfil socioeconômico dos moradores.

É uma situação comum a outros bolsões de pobreza das grandes cidades brasileiras. A despeito dos recursos financeiros limitados, essa fatia da população está encontrando maneiras de ganhar acesso a facilidades como o correio eletrônico, as redes sociais e as buscas na internet. Para muitos, o computador parcelado no crediário e a assinatura de um serviço de acesso à internet já não são mero sonho de consumo. Converteram-se em uma ferramenta de estudos e pesquisas para crianças, entretenimento para adolescentes e símbolo de orgulho para os adultos.

Depois da classe C, que nos últimos anos tornou-se um dos principais alvos de empresas dos mais diversos setores, o acesso aos bens de tecnologia da informação (TI) também começa a ser realidade para a classe D – famílias com renda mensal entre R$ 768 e R$ 1.114, segundo os critérios da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Foto Destaque

Os fatores que estão proporcionando esse acesso são basicamente os mesmos que deram impulso ao consumo da classe C: barateamento dos computadores, acesso mais fácil ao crédito e, acima de tudo, a percepção sobre a importância crescente dos PCs e da internet como ferramentas de estudo, trabalho e lazer.

Um ano atrás, o vigilante noturno João José Dias e a esposa, Vera Dias, compraram seu primeiro computador – um modelo da Positivo que custou R$ 1 mil e foi dividido em 15 prestações. O casal também apertou o orçamento para pagar R$ 90 mensais para ter acesso a uma conexão de internet com velocidade de 1 megabit por segundo (Mbps). “Cortamos gastos com roupas e coisas supérfluas”, afirma a dona de casa, que ajuda a bancar as contas da família fazendo artesanato.

O casal decidiu investir num computado de tanto que insistiu o filho mais velho, de dez anos. “É muito importante para fazer as pesquisas de escola”, afirma Vera. Mas ela e o marido também acabaram se interessando pela coisa: ambos se matricularam nas aulas de informática oferecidas no centro cultural. Foi ali, numa tarde de quarta-feira, que o Valor encontrou os dois – ambos carregando suas apostilas.

Histórias como a da família Dias têm são cada vez mais comuns e começam a chamar a atenção das empresas do setor.

“A entrada da classe D no setor de PCs é um movimento muito claro para nós”, afirma César Aymoré, diretor de marketing da Positivo Informática. Essa camada da população já representa entre 6% e 8% das vendas de micros de mesa da companhia, que é o maior fabricante de computadores do país. Grandes varejistas, como a Casas Bahia, também já notam que a movimentação desses consumidores começa a ter impacto nos negócios.

Na Telefônica, 10% das vendas de novas conexões do serviço de acesso Speedy são para a classe D – mais que o dobro do percentual apresentado no ano passado. “A internet está ganhando um papel central na vida das pessoas, na vida em comunidade. Não é uma questão de status”, afirma o diretor de clientes residenciais da operadora, Fabio Bruggioni.

Segundo o executivo, metade dos consumidores da classe D que têm uma conexão de banda larga da Telefônica assina planos com velocidade igual ou superior a 1 Mbps. É uma distribuição parecida com a que se encontra nas classes B e C.

A operadora também lançou, recentemente, um pacote que inclui telefone fixo residencial de uso ilimitado e acesso à internet por meio de uma linha discada dedicada por R$ 54,90 mensais. O produto foi desenhado para atrair clientes que estão começando a usar a web, mas ainda não têm dinheiro ou interesse em pagar por um acesso de banda larga. A Telefônica ainda tem um milhão de internautas adeptos da linha discada e, de acordo com Bruggioni, esse número tem se mantido constante nos últimos anos. Enquanto mais pessoas adquirem um computador e começam a navegar na internet, outras migram para as conexões de alta velocidade.

“O computador é o grande sonho da classe D”, afirma Renato Meirelles, sócio-diretor e analista do instituto de pesquisas Data Popular, especializado em estudos sobre o comportamento das classes C, D e E.

Segundo o pesquisador, os PCs têm uma importância prática, além de ser um objeto de desejo. “Em 73% das famílias da classe D, os filhos têm mais escolaridade que os pais. Com isso, o pai acaba não conseguindo ajudar o filho nas tarefas de escola. O computador é que acaba cumprindo esse papel.”

Por outro lado, os computadores e a internet permitem que jovens de todas as faixas de renda tenham acesso aos mesmos recursos de comunicação, como redes sociais, sites de buscas e programas de mensagens instantâneas.

O acesso à web, na verdade, é o grande propulsor das vendas de computadores. “Sabemos que a compra um PC é motivada pelo acesso à internet. Hoje, 70% das pessoas que compram nosso equipamento são usuários de algum tipo de serviço de banda larga, contra 45% de um ano atrás”, observa Aymoré, da Positivo.

Para incentivar esse processo – e indiretamente estimular suas vendas – a Positivo mantém um acordo com a Vivo. A promoção inclui a oferta gratuita de um modem para o acesso à internet por meio da rede de terceira geração (3G) da operadora de telefonia móvel. Se o consumidor fosse diretamente até a loja da Vivo, por exemplo, pagaria R$ 199 pelo equipamento no plano de 250 megabytes. O custo do serviço, diz Aymoré, é 30% inferior ao valor normal e, nos três primeiros meses, o usuário só paga metade do preço da assinatura.

Um ano atrás, a Positivo também lançou um micro para atender à demanda dos consumidores de menor renda. O “PC da Família” custa entre R$ 999 e R$ 1.299 e é configurado com serviços específicos. Há links para que os pais tenham acesso direto a notícias, oportunidades de emprego, elaboração de currículo e dicas sobre como educar o filho. Para as crianças, o PC traz conteúdo educacional, com dicionário e jogos. O negócio deu certo. “Hoje, é o modelo de desktop que mais vendemos”, afirma o executivo.

Com base nesse resultado, outro modelo voltado à classe D foi lançado há três meses. O “PC Fácil”, comenta Aymoré, é um micro didático. Ao ligar a máquina, o usuário tem informações sobre como navegar na internet, criar um e-mail etc.

A oferta de modelos com linguagem mais básica e a queda nos preços dos computadores têm sido fundamentais no processo de inclusão desses consumidores de baixíssima renda. Hoje, é possível encontrar micros de mesa por R$ 619, bem menos que o valor mínimo de R$ 750 disponível no fim de 2005. Nos notebooks, a redução nesse período foi ainda mais pronunciada, de 41%: o produto mais barato do mercado sai por R$ 815, segundo o site de comparação de preços Buscapé.

Mesmo com as reduções de preço, porém, o valor ainda é alto demais para pessoas como Fabiana Guandalim, moradora da favela do Jaguaré. Casada com um vigia que recebe pouco mais de um salário mínimo por mês e mãe de cinco filhos, não sobra dinheiro para a família adquirir um computador. Mas Fabiana sonha: “É o que eu mais quero, e eu vou conseguir”. Ela já se matriculou nas aulas de informática do centro cultural.