07/11/2009 - 17:00h Diderot e Voltaire

“O deus dos cristãos é um pai que faz grande caso das suas maçãs, e pouco caso dos seus filhos”.
(Diderot, «Addition aux “Pensées philosophiques”»)

“Uma religião verdadeira, interessando a todos os homens em todos os tempos e em todos os lugares, deverá ser eterna, universal e encerrando toda a evidência. Nenhuma religião possui essas três características; todas são, portanto, três vezes falsas por demonstração”.
(Diderot, «Addition aux “Pensées philosophiques”»)

“Os factos em que se apoiam as religiões são antigos e maravilhosos, ou seja, são o mais suspeitos possível, para provarem as coisas mais inacreditáveis”.
(Diderot, «Addition aux “Pensées philosophiques”», 20)

“Porque é que os milagres de Jesus Cristo são verdadeiros; e os de Esculápio, Apolónio de Tiana e Maomé são falsos?”.
(Diderot, «Addition aux “Pensées philosophiques”», 24)

“A religião de Jesus Cristo, anunciada por ignorantes, originou os primeiros cristãos. A mesma religião, pregada hoje por sábios e doutores, só causa incredulidade”.
(Diderot, «Addition aux “Pensées philosophiques”», 31)


SUR LE FANATISME.

Voltaire

Charmante et sublime Emilie (1),

Amante de la Vérité,

Ta solide philosophie

T’a prouvé la Divinité.

Ton âme éclairée et profonde,

Franchissant les bornes du monde,

S’élance au sein de son auteur.

Tu parais son plus bel ouvrage ;

Et tu lui rends un digne hommage,

Exempt de faiblesse et d’erreur.

Mais si les traits de l’Athéisme

Sont repoussés par ta raison,

De la coupe du Fanatisme

Ta main renverse le poison :

Tu sers la justice éternelle,

Sans l’âcreté de ce faux zèle

De tant de dévots malfaisants (2),

Tel qu’un sujet sincère et juste

Sait approcher d’un trône auguste

Sans les vices des courtisans.

Ce Fanatisme sacrilège

Est sorti du sein des autels ;

Il les profane, il les assiége,

Il en écarte les mortels,

O Religion bienfaisante,

Ce farouche ennemi se vante

D’être né dans ton chaste flanc !

Mère tendre, mère adorable,

Croira-t-on qu’un fils si coupable

Ait été formé de ton sang ?

On a vu souvent des athées

Estimables dans leurs erreurs ;

Leurs opinions infectées

N’avaient point corrompu leurs mœurs.

Spinosa fut toujours fidèle

A la loi pure et naturelle

Du Dieu qu’il avait combattu ;

Et ce Desbarreaux qu’on outrage (3)

S’il n’eut pas les clartés du sage,

En eut le cœur et la vertu.

Je sentirais quelque indulgence

Pour un aveugle audacieux

Qui nierait l’utile existence

De l’astre qui brille à mes yeux.

Ignorer ton être suprême,

Grand Dieu ! C’est un moindre blasphème,

Et moins digne de ton courroux,

Que de te croire impitoyable,

De nos malheurs insatiable,

Jaloux, injuste comme nous.

Lorsqu’un dévot atrabilaire,

Nourri de superstition,

A, par cette affreuse chimère,

Corrompu sa religion,

Le voilà stupide et farouche ;

Le fiel découle de sa bouche,

Le fanatisme arme son bras ;

Et, dans sa piété profonde,

Sa rage immolerait le monde

A son Dieu, qu’il ne connaît pas.

Ce sénat proscrit dans la France,

Cette infâme Inquisition,

Ce tribunal où l’ignorance

Traîna si souvent la raison ;

Ces Midas en mitre, en soutane,

Au philosophe de Toscane

Sans rougir ont donné des fers.

Aux pieds de leur troupe aveuglée,

Abjurez, sage Galilée,

Le système de l’univers.

Ecoutez ce signal terrible

Qu’on vient de donner dans Paris ;

Regardez ce carnage horrible,

Entendez ces lugubres cris ;

Le frère est teint du sang du frère,

Le fils assassine son père,

La femme égorge son époux ;

Leurs bras sont armés par des prêtres.

O ciel ! Sont-ce là les ancêtres

De ce peuple léger et doux ?

Jansénistes et Molinistes,

Vous qui combattez aujourd’hui

Avec les raisons des sophistes,

Leurs traits, leur bile et leur ennui,

Tremblez qu’enfin votre querelle

Dans vos murs un jour ne rappelle

Ces temps de vertige et d’horreur ;

Craignez ce zèle qui vous presse :

On ne sent pas dans son ivresse

Jusqu’où peut aller sa fureur.

Malheureux, voulez-vous entendre

La loi de la religion ?

Dans Marseille il fallait l’apprendre

Au sein de la contagion,

Lorsque la tombe était ouverte,

Lorsque la Provence, couverte

Par les semences du trépas,

Pleurant ses villes désolées

Et ses campagnes dépeuplées,

Fit trembler tant d’autres Etats.

Belzunce (4), pasteur vénérable,

Sauvait son peuple périssant ;

Langeron, guerrier secourable,

Bravait un trépas renaissant ;

Tandis que vos lâches cabales

Dans la mollesse et les scandales

Occupaient votre oisiveté

De la dispute ridicule

Et sur Quesnel et sur la bulle (5),

Qu’oubliera la postérité.

Pour instruire la race humaine

Faut-il perdre l’humanité ?

Faut-il le flambeau de la Haine

Pour nous montrer la Vérité ?

Un ignorant, qui de son frère

Soulage en secret la misère,

Est mon exemple et mon docteur ;

Et l’esprit hautain qui dispute,

Qui condamne, qui persécute,

N’est qu’un détestable imposteur.

1 – Cette ode est de l’année 1732. Elle est adressée à l’illustre marquise du Châtelet, qui s’est rendue par son génie l’admiration de tous les vrais savants et de tous les bons esprits de l’Europe. (1748) − Quoi que dise ici Voltaire, cette ode doit être de 1736 ; car dans une lettre à Cideville, 30 mai de ladite année, il nous semble qu’il en parle comme d’une nouveauté. (G.A.)

2 – Faux dévots. (1742)

3 – Il était conseiller au parlement : il paya à des plaideurs les frais de leur procès qu’il avait trop différé de rapporter. (1742)

4 – M. de Belzunce, évêque de Marseille, et M. de Langeron, commandant, allaient porter eux-mêmes les secours et les remèdes aux pestiférés moribonds, dont les médecins et les prêtres n’osaient approcher. (1748)

5 – Bulle Unigenitus. (G.A.)


07/11/2009 - 15:26h O discreto charme de Buñuel

Jean-Claude Carrière relembra “Meu Último Suspiro”, livro de memórias de Luis Buñuel que elaborou e é reeditado

Divulgação

Catherine Deneuve e Luis Buñuel (1900-1983) nas filmagens de “Bela da Tarde” (67), longa coescrito por Jean-Claude Carrière


MARCOS STRECKER – FOLHA SP


DA REPORTAGEM LOCAL

Octavio Paz dizia que o livro “Meu Último Suspiro”, escrito em 1980, era o melhor “filme” de Luis Buñuel. E era mesmo. Mas não é só. Esse livro de difícil definição sobre o grande mestre do surrealismo, figura iconoclasta e iluminada que se confunde com a formação do cinema desde os anos 20 (”Um Cão Andaluz”, 1929) até a década de 70 (”Esse Obscuro Objeto do Desejo”, 1977), é também uma das melhores publicações sobre a sétima arte.
Só é comparável a “Hitchcock/ Truffaut – Entrevistas” (Cia. das Letras), de 1967, em que o “enfant terrible” da nouvelle vague faz uma minuciosa revisão da obra do diretor de “Psicose”. Os dois livros marcaram época e viraram clássicos.
No caso de “Meu Último Suspiro”, que agora ganha reedição (Cosac Naify/Mostra de Cinema de SP, 376 págs., R$ 55, trad. André Telles), o coautor é também um mestre do cinema, o roteirista francês Jean-Claude Carrière, 78, que coassinou várias obras essenciais de Buñuel (incluindo “Bela da Tarde” e “O Discreto Charme da Burguesia”), já trabalhou com Jean-Luc Godard e é parceiro do diretor Peter Brook.
Em entrevista, Carrière lembra que Buñuel não queria escrever um livro de memórias, então na moda. Para convencê-lo, escreveu um capítulo supostamente narrado pelo cineasta intitulado “Os Prazeres deste Mundo”, sobre bebidas, tabaco e bares. Buñuel gostou e o resultado é um livro de cinema que não analisa nenhum filme e mostra a personalidade fascinante de um dos grandes artistas do século 20.

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Luis Buñuel e imagem de seu filme A idade do ouro

“Luis Buñuel é maior do que sua obra”

Jean-Claude Carrière afirma que “Meu Último Suspiro” é “livro-retrato” e diz que Buñuel é “mais importante que Picasso”

“Não fiz um livro sobre os filmes, mas sobre Buñuel. Truffaut queria saber por que eu tinha mais interesse no homem do que na obra”

DA REPORTAGEM LOCAL

Leia entrevista com Jean-Claude Carrière, que comenta a edição de “Meu Último Suspiro”, que narra episódios na vida do cineasta Luis Buñuel, como a estreia de “Um Cão Andaluz”, a passagem por Hollywood e o exílio no México.
O francês está escrevendo um roteiro com o escritor Atiq Rahimi e acaba de lançar “N’Espérez pas Vous Débarrasser des Livres” (não ache que os livros serão descartados, ed. Grasset), entrevistas conjuntas com Umberto Eco. (MARCOS STRECKER)

FOLHA – “Meu Último Suspiro” é uma obra de Luis Buñuel ou de Jean-Claude Carrière?
JEAN-CLAUDE CARRIÈRE
– Nós escrevemos juntos, como se fosse um roteiro. Na época, tínhamos escrito um roteiro que não pôde ser filmado ["Agon"], pois ele já estava com 80 anos, muito cansado. Como convivi 20 anos com ele, tinha tomado notas sobre sua vida. Ele me contava muitas coisas durante as refeições e os aperitivos. Fiz os cálculos, almoçamos juntos mais de 2.000 vezes. Muitos casais não podem dizer isso… Como conhecia sua vida, propus fazer o livro. Ele disse que não queria, e que todos estavam escrevendo memórias… Para convencê-lo, escrevi eu mesmo o capítulo “Os Prazeres desse Mundo”. Narrei em primeira pessoa dizendo “eu, Buñuel….”. Ele disse: tenho a impressão que eu mesmo escrevi. O livro foi escrito em 1980, ele morreu em 1983. Teve a oportunidade de ver a edição espanhola e gostou.

FOLHA – O livro não é uma biografia no sentido comum. Como vocês chegaram a esse formato?
CARRIÈRE
– Eu o convenci a fazer não um livro de memórias, mas um livro-retrato, que se pareceria com ele. Comecei com “Os Prazeres desse Mundo” pois seria um capítulo curto, não teria a cara de um livro de memórias. Os que conheceram Buñuel dizem que o livro se parece muito com ele. Trabalhamos no México. De manhã ficávamos juntos, à tarde eu escrevia. Foi assim durante várias semanas, até chegarmos a uma versão que agradava aos dois.

FOLHA – Quem escolheu os temas?
CARRIÈRE
– Sugeri alguns capítulos e alguns temas. É o nosso livro, mas é a vida dele. Ele não teria feito o livro sem mim, porque não gostava de escrever, mas sem ele não teria conseguido redigir, porque é a vida dele. Ele não mudou quase nada. Há coisas que eu conhecia muito bem, como a parte surrealista. Mas havia passagens que não conhecia muito, como a Guerra Civil Espanhola. Aí o interroguei de maneira precisa.

FOLHA – É um livro sobre um cineasta que mal discute sua obra. Como foi recebido no seu lançamento?
CARRIÈRE
– Há um charme, que não consigo explicar. Às vezes pego o livro para reler. Ele foi rapidamente traduzido na Espanha, onde fez um enorme sucesso e se tornou um clássico. As pessoas falam muito desse livro, é reeditado com frequência. François Truffaut uma vez me convidou para jantar só para que conversássemos sobre o livro. Ele fez uma edição sobre Hitchcock ["Hitchcock/ Truffaut - Entrevistas"], eu sobre Buñuel. Discutimos como fizemos nossos livros. Ele escreveu sobre os filmes de Hitchcock. Não fiz um livro sobre os filmes, mas sobre Buñuel. Truffaut leu duas vezes o livro. Queria saber porque eu tinha mais interesse no homem do que na obra. Disse que Buñuel é que tinha feito essa escolha. Buñuel não gostava de falar de cinema. Estávamos de acordo que não falássemos de mim. É como se ele estivesse diante de um espelho, e eu estivesse segurando o espelho.

FOLHA – Havia assuntos que ele não queria abordar? Buñuel tinha zonas obscuras em sua vida?
CARRIÈRE
– Ele não gostava de falar de tragédias na sua vida. Não gostava de falar da morte de [Federico García] Lorca, que o marcou muito. Preferia falar dos bons momentos. Por exemplo: não gostava de falar do momento em que precisou pedir demissão do Museu de Arte Moderna de Nova York, episódio em que Salvador Dalí teve responsabilidade. Gostava de guardar os bons momentos com seus velhos amigos. Posso testemunhar que era um homem de grande bondade. É raro encontrar alguém tão generoso que ao mesmo tempo tenha um olhar impiedoso sobre as coisas e as pessoas.

FOLHA – Qual é a importância de Buñuel atualmente?
CARRIÈRE
– Hoje há duas visões. Uma é dizer que era um cineasta surrealista. Outra é a visão hispânica, de que Buñuel é o maior artista espanhol desde Goya. Para qualquer romancista, cineasta, pintor ou filósofo, há um momento em que é inevitável se defrontar Buñuel.
Ele é muito mais importante do que Picasso. Picasso é pintor, mas apenas pintor. Buñuel é um personagem maior do que sua obra, não se reduz a ela. Isso era claro para mim na época, como ainda é hoje.
Por isso o livro se tornou um clássico. Releio com frequência o último parágrafo, em que ele diz que “gostaria de poder se levantar dos mortos a cada dez anos, ir até uma banca e comprar alguns jornais; voltaria ao cemitério e leria sobre os desastres do mundo, antes de voltar a adormecer, sereno”.
Se eu escrevesse um livro sobre Buñuel hoje, o mostraria sobre a tumba. Diria como está o mundo atualmente, para saber o que ele acharia disso. Eu levaria os jornais para ele.

07/11/2009 - 14:19h Mostra de SP exibe favoritos hoje


“Carmo” e “Niguém Sabe dos Gatos Persas”, escolhidos pelo público e pela crítica, estão na programação extra do evento

Salas de cinema também exibem filmes elogiados por críticos da Folha, como “A Ressurreição de Adam” e “London River”


O filme brasileiro favorito do público na 33ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, anunciado anteontem, terá mais uma exibição hoje, na programação extra do festival, que vai até quarta-feira.
“Carmo”, longa de estreia de Murilo Pasta, conta a saga de um contrabandista espanhol paraplégico pelas fronteiras da América do Sul e tem pontas do ator Márcio Garcia e do cantor Seu Jorge, como uma dupla de bandoleiros improváveis.
“Ninguém Sabe dos Gatos Persas”, uma viagem musical pelo submundo de Teerã, também passa hoje. O filme do iraniano Bahman Ghobadi foi escolhido como o melhor do festival pela crítica -jornalistas e críticos de cinema que votam.
Outros dois destaques do dia são “A Ressurreição de Adam”, sobre o Holocausto, e “London River”, sobre uma mãe cristã e um pai muçulmano em busca de seus filhos desaparecidos em Londres, em 2005. Fonte Folha de São Paulo

NINGUÉM SABE DOS GATOS PERSAS
(Kasi Az Gorbehaye Irani Khabar Nadareh, Irã, 2009)

Bahman Ghobadi filma um falso documentário ao estilo de “Close-Up”, de Kiarostami, sobre a cena underground da música iraniana. As imagens acompanham dois jovens músicos, um homem e uma mulher, recém-saídos da prisão, que decidem formar uma banda. Juntos, eles andam pelo submundo de Teerã à procura de outros músicos. Por meio dessa busca, o público começa a conhecer a situação política e cultural do Irã, onde tudo é proibido – de ter vídeos de filmes americanos a ouvir música estrangeira. Mas os jovens iranianos não querem música árabe tradicional, então suas melodias encontram o jazz, o pop, o heavy metal e até o rap, em letras que se alternam entre o farsi e o proibido inglês. Eles nem sequer podem tocar, assim formar uma banda se torna um ato político, que os inspira a desafiar as autoridades tocando em lugares improvisados.

06/11/2009 - 22:00h Boa noite


Maxim Vengerov – Meditação de Thaís, de Massenet

06/11/2009 - 21:12h Sem tabu

Une femme éjacule…

Thisisthegirl_2

Il y a des femmes qui jouissent en giclant. Certaines coulent comme des robinets dès qu’on les touche. D’autres lâchent brusquement de longues gerbes liquides. Elles éjaculent. Ce soir, au Festival de films gays et lesbiens de Paris, This is the Girl, de Catherine Corringer dévoile avec jubilation cet aspect encore méconnu de la sexualité féminine.

Projeté samedi 17 novembre au cinéma Beverley à Paris, à 22h, This is the girl se définit comme un «film queer érotique et fantastique, mettant en scène une “sex heroïne boxer”, sa “rocky coach”, et un homme transformé en sex toy. Le film explore la puissance sexuelle de la femme, à travers la masturbation et l’éjaculation féminine.»

C’est un film sans trucages. Pendant de longues minutes, toute entière concentrée sur son plaisir, une jeune femme (Flozif) se masturbe. Ejacule. Se masturbe à nouveau. Ejacule encore. Se masturbe en troisième fois. Ejacule.

«La scène d’éjaculation féminine dans mon film est un plan “performance”, c’est à dire long et sans qu’il soit coupé, explique Catherine Corringer, la réalisatrice. Le film est un hommage à la puissance sexuelle de la femme. Le terme “éjaculation” induit un acte volontaire, alors que quand on dit “c’est une femme fontaine” on sous entend qu’elle “se répand” et non qu’elle “gicle”, ce qui est, à tous les points de vue très différent. Flozif éjacule dans le plan performance 3 fois de suite à environ 1 ou 2 minutes de distance entre. Ce qui est exceptionnel dans ce plan et sa performance, c’est qu’elle le fait assise et en se masturbant. La plupart des femmes ont besoin d’être pénétrées pour éjaculer et d’être allongée. Elle le fait assise et seule. Et c’est assez “insolent !”. Ce qui est beau, c’est de voir les multiples façons qu’à la femme de jouir.»

En France, de nombreuses personnes crient encore au canular et restent persuadées que l’éjaculation féminine n’existe pas. Qu’il s’agit d’urine.

Même les femmes qui éjaculent pensent avec angoisse qu’elles sont victimes de fuites, d’incontinence ou que sais-je…

Aux Etats-Unis, le phénomène de l’éjaculation féminine est quelque chose de bien connu. Depuis plus de vingt ans, des féministes pro-porn comme Annie Sprinkle ou Deborah Sundahl, parlent de ce phénomène, le filment, l’étudient et lui consacrent parfois même des ateliers aux titres loufoques : «Initiez-vous à l’éjaculation !», «Comment faire pour lui en mettre plein la vue !», etc.

Voici le témoignage d’Annie Sprinkle à ce sujet :«Bien qu’ayant éjaculé plusieurs fois – entre autres en 1981 lors d’une de mes prestations dans le film X Deep Inside Annie Sprinkle – je ne pouvais mettre de nom sur ce qui s’était produit. Tout comme mes amants, mes admirateurs ou mes consœurs, je n’avais aucune connaissance sur les effets engendrés par mon corps. C’était juste quelque chose qui apparaissait de temps à autre, quand je n’y pensais pas trop. Tout ce que je pouvais dire alors, c’est que c’était drôlement agréable ! (…) C’est à cette époque qu’est apparue la vidéo extraordinaire de Deborah Sundahl (alias Fanny fatale) How to female ejaculate : find your G spot (ejaculation féminine : trouvez votre point G). Elle fit sensation !»

Deborah Sundahl est une des plus grandes spécialistes de l’éjaculation féminine. Dans son livre —traduit en français et publié aux éditions Tabou (Tout savoir sur le Point G et l’éjaculation féminine)— elle explique : «Toutes les femmes possèdent l’anatomie nécessaire à l’éjaculation, mais toutes les femmes n’éjaculent pas et n’en ont d’ailleurs pas besoin pour avoir une vie sexuelle épanouie. Certaines éjaculent naturellement, d’autres ont appris à le faire. En faire une nécessité ou un objectif pour toutes les femmes serait idiot et même préjudiciable.»

Pour celles qui, malgré cette mise en garde, voudraient apprendre à éjaculer, Deborah fournit cependant un mode d’emploi. Deux chapitres illustrés de croquis pédagogiques, détaillent, étape par étape, les moyens de se faire gicler… Chapitre 4 : «Comment éjaculer sans orgasme». Chapitre 5 (plus intéressant) : «Comment éjaculer avec orgasme». La méthode, sensiblement la même, aboutit toujours au même résultat : il faut changer les draps du lit. Eponger le carrelage. Ou essorer l’édredon…

En dehors de ce côté bêtement technique (je me méfie toujours des «techniques» en amour), le livre de Deborah Sundahl est un trésor de documentation. Tout, tout, on y apprend tout sur l’éjaculation féminine. A commencer par sa composition, son origine et sa fonction.
Je cite, en vrac : «L’éjaculat féminin est un liquide translucide, d’une consistance proche de l’eau
«Son odeur et son goût semblent varier avec le cycle menstruel. Quelque fois il n’a strictement ni odeur ni goût ou, à l’inverse, est semblable par le goût et l’odeur à de l’urine.»
«Sa composition est strictement la même que l’éjaculat masculin, mis à part les spermatozoïdes : c’est du liquide prostatique, mélangé à du glucose
«En 1672, l’anatomiste néerlandais Regnier de Graaf a étudié de près la “prostatae” féminine et en a fait des croquis, remarquant la présence de plusieurs canaux éjaculatoires. Bien que de Graaf ait été le premier à reconnaître la prostate comme organe responsable de l’éjaculation chez la femme, c’est le professeur slovaque Milan Zaviavic, grâce à ses vingt années d’études approfondies sur le sujet, qui l’a reconnue pleinement en tant qu’organe féminin fonctionnel. Le terme médical – prostate féminine – fut rapidement adopté par le corps médical. »

Le site Doctissimo, qui confirme, ajoute que la «prostate féminine» est également désignée sous les noms de «glandes de Skène» ou «glandes para-urétrales». Mais qu’importe le flacon… Si vous voulez en savoir plus, vous savez ce qu’il vous reste à faire.

Samedi 17 novembre, à 22h
Séance Porn Lesbien : In search of the wild kingdom, de Shine Louise Huston (découvrez la sexualité vraie des vraies lesbiennes et arrêtez de croire qu’elles se lèchent du bout de la langue en poussant des petits cris de gorge), suivi de This is the girl, de Catherine Corringer.
Cinéma Beverley : 14 rue de la Ville Neuve, 75002 Paris. Métro : Bonne Nouvelle
Tarifs : 8 € (plein tarif ) / 7 € (tarif réduit )

Tout savoir sur le Point G et l’éjaculation féminine, de Deborah Sundahl, éd. Tabou.

Les testicules élémentaires

Il y a des hommes qui, à force de porter des poids aux testicules, finissent par les transformer en longs appendices. Ils pendent, comme d’étranges métronomes. Ou comme un pénis supplémentaire, passif, avec lequel ils peuvent exécuter des figures érotiques nouvelles.

Smooth

La réalisatrice parisienne Catherine Corringer s’intéresse à tout ce qui sort des normes corporelles. Elle a filmé une éjaculation féminine (This is the girl), comme un véritable geyser. Elle a aussi filmé une séance de SM gore (In Between), lente et implacable lacération-performance sur le corps d’un masochiste hard… Catherine Corringer aime les filles qui éjaculent et les garçons qui se laissent faire. Elle aime renverser les rôles. Aux femmes, elle prête la puissance. Aux hommes, la faiblesse, la vulnérabilité et la grâce. Ils font offrande de leur chair avec une douceur proche du masochisme. A travers eux, Catherine dévoile un “monde sexuel dans lequel le masculin est réinventé autrement, dans lequel le pénis en érection n’existe pas.” Il s’agit de déconstruire le système patriarcal, dit-elle.

Dans Smooth, dernier court-métrage de Catherine Corringer, un homme se donne lentement à la caméra, révélant par étape les mystères de sa sexualité atypique. C’est une sorte de fakir. Il a travaillé ses testicules au fil de longues années d’ascèse, s’imposant le port de cockrings en acier pesant, à l’aspect de poids en fonte. Il les a tellement travaillé, que ses testicules pendent entre ses cuisses. Quel intérêt? demanderez-vous. Je ne sais pas trop, mais l’homme s’amuse à faire un nœud avec ses organes génitaux. Il peut littéralement nouer son pénis avec ses testicules et l’exercice lui procure certainement du plaisir. Il s’amuse aussi à introduire ses testicules dans son anus, comme s’il se faisait l’amour à lui-même. C’est un mutant doté de deux pénis : un pénis qui peut entrer en érection et un qui ne peut pas. Un pénis pour pénétrer autrui et un pénis pour s’auto-sodomiser…

Surprise supplémentaire : cet homme a non seulement des testicules à rallonge mais un anus dilaté de telle sorte qu’il soit possible de le fister très profondément. Il accueille deux avant-bras. Catherine y plonge littéralement… D’abord une main, puis une deuxième. Ca glisse, ça aspire même. L’homme, couché sur le côté, immobile, les fesses offertes comme une jeune vierge, semble pouvoir prendre en lui toute la misère du monde. Il est le havre rectal, le nid douillet en lequel on s’enfonce, délicieusement… C’est un homme très féminin, d’une certaine manière. “Son corps absorbe, enveloppe” dit Catherine. En le fistant, on entre dans un univers qui évoque l’utérus : chaud, doux, moite, gluant. Une vraie matrice.

En Anglais, smooth signifie “doux”. Catherine Corringer a voulu filmer la douceur d’un homme. Son court-métrage n’est pas très excitant, mais il présente l’intérêt de représenter une relation sexuelle hétéro à l’envers. Une relation au cours de laquelle c’est la femme qui pénètre… à l’intérieur de l’homme, dans une sorte de régression utérine étrange. Ses mains enduites d’un lubrifiant blanc comme le sperme (le silk, dont j’ai déjà parlé) lui permettent de toucher du doigt, littéralement, la part féminine du corps masculin. Elle plonge dedans. “Mes films explorent une  autre carte du monde, dit Catherine, où le corps est une métaphore incarnée, où le génital n’est pas forcément mis en lien avec le plaisir.    C’est une forme de militantisme, c’est l’exploration d’un monde peu connu.”

Le 25 octobre 2009, Smooth a été primé meilleur court-métrage du dernier Porn Film festival de Berlin. Pour ceux qui n’étaient pas en Allemagne la semaine dernière, il y a une séance de rattrapage : Smooth va être diffusé mardi 17 novembre au Festival Gay et lesbien de Paris.

Smooth : mardi 17 nov, 18h30. Projection de courts-métrages “French touch”, salle 100 au Forum des Images : 2, rue du cinéma, 75001 Paris. Métro : Les Halles. Plein tarif : 8 euros. Tarif réduit : 7 euros.

Fonte Les 400 culs

06/11/2009 - 20:42h Viva la vida

kahlo_Vivalavida

Viva la vida – Frida Kahlo

06/11/2009 - 20:03h The língua e demais

©antónio melo

quando me comeste

quando me comeste
de uma forma como nunca em mim fizeste
ouvi no imperativo os verbos mais sagrados
vem  sobe  encaixa  mete  fode
despossuí-me das rédeas que trazia
no máximo fazia
o mínimo necessário
em ti me dissolvia
em ti me misturava
e tu senhora e ama
da cama e do momento
nos volteios que me impunha o teu desejo
deste-me à língua a tua pele
toda ela  toda líquida  toda nua
levaste as minhas mãos à cabeceira
e no transe hipnótico provocado
juro que senti as mãos atadas
pedias — ou mandavas — que eu gritasse
e eu de olhos fechados sussurrava
meu amor
à peça última que inútil te vestia
— um meia-taça já nos ombros derreado —
levaste à minha boca
e tal como crisálida
dele tu saíste
deixando-o em mim como mordaça
me abraça meu amor, disse, me abraça
subias e descias no compasso certo
sabias e dizias os verbos sagrados
vem  sobe  encaixa  mete  fode
e naquela vez  per la prima volta
chorei de gozo
quando me comeste

pêlos

Macia selva que o teu corpo tapeteia.
Fina ramagem onde o toque se aveluda.
Vaivém de vento que penteia e despenteia.
Sensível manta que te cobre e te desnuda.

Pouso de face — a tua face — em minha face,
passando, aos poucos, a carinhos circulares.
Corta o silêncio abafadiço roçar: dá-se
a sinfonia dos murmúrios capilares.

Miro a penugem que recobre a tua orelha,
e os meus ouvidos, feito dedos, passam leves.
Cílio teus cílios, sobrancelho a sobrancelha,
e um humm e um ai e um ai e um humm sussurram breves.

Plumagens raras — tua nuca envolta em rama.
O meu pescoço quer o teu e tu mo encostas.
Tu te declinas à maneira de quem chama.
Nas mãos reversas sei da relva em tuas costas.

O que me é tátil à minha boca ora transfiro,
visto que assim, se sei do toque, sei do gosto.
E mais eu sei se pela boca te respiro,
pois menos sei qual do teu pêlo me é posto.

Pêlos que eu gosto: os que cercam teus mamilos,
onde em percursos labiais circunavego.
Tal o prazer tê-los assim, assim senti-los,
que a minha boca no teu seio às vezes nego.

Pêlos que eu amo: os da barriga, feito seta,
que a boca assanha indo e vindo ao teu umbigo.
Como uma onda, o teu quadril se me projeta,
surfo teu ventre e nos teus pêlos eu prossigo.

Pêlos que eu quero: os teus pêlos inguinais,
onde, bem sei, se me demoro, tu te adias.
Desses eu passo a outros pêlos, capitais,
e em tais arranho a minha barba de dois dias.

shampoo

bastaria o movimento dos quadris
face à minha face
os teus joelhos abertos
tuas mãos em meus cabelos

bastaria sentir o teu sabor mais íntimo
o ir e vir e o vir e ir
da perfeita sincronia desencontrada
dos meus lábios
nos teus lábios

bastaria o postergar do ápice

o ver o transformar do teu sorriso
em outros risos que adoro, amo e quero

mas não

tinhas que vir com teus cabelos ainda úmidos
saídos da banheira a pétalas preparada
e tinhas que fazer dos fios — pura maldade —
o carrossel a girar em todo o rosto meu

: cheiro esse em que ainda permaneço.

missa

Vapor de incenso rente aos góticos das naves.
Uma mulher se abeira ao genuflexório.
Ao latinório o órgão junta os sons mais graves
e em contraponto ela inicia um responsório.

Em meio a preces a cerviz cede e se encurva,
e a fronte deita na rudez da mão constrita.
De vez em quando o seu pescoço se recurva,
mostrando a face lagrimada e mais contrita.

A impressão é de quem traz todo o pecado,
e de quem é a filha amada da desdita.
O choro e a reza em contubérnio consumado:
ao mesmo tempo que é perdão, lembra a vindita…

Mesmo de costas, no retábulo percebo
aquela imagem que em trejeitos se revolve
(um gosto amargo vem no vinho quando eu bebo,
e em minha mão o pão sagrado se dissolve…).

Do Altar-Mor desço os granitos da escada,
num sentimento que de culpa mais parece.
Chego ao transepto e o meu verbo não diz nada,
ela, surpresa, quer falar, mas se emudece.

Cessa do choro, cala a prece e se levanta,
e vindo a mim, ato contínuo, se ajoelha,
(olhos azuis, a pele branca, a tez de santa…)
e a minha mão ousa tocar sua guedelha.

Com o polegar enxugo as lágrimas do rosto,
e um arrepio me tomava e eu tinha medo…
Só pelo tato e pelo olhar senti seu gosto,
ao ver seus lábios à procura do meu dedo…

Me valho à prece enquanto toco a sua boca,
e nela eu faço a marcação da Cruz Sagrada,
quanto mais rezo, mais a fé de mim se apouca
(meu corpo em pé e a minha alma ajoelhada…).

A minha mão decai da boca ao seu pescoço,
quero parar, mas o pecado me prossegue.
Cedo ao instinto e da razão nada mais ouço,
o olhar cerrado, quer abrir, mas não consegue…

Um forte impulso ao seu encontro me impele.
Eu me ajoelho e fico à altura dos seus olhos.
Minha vontade é me queimar na sua pele.
Unto seus ombros derramando os Santos Óleos…

Eu desamarro o seu justilho, incontinente,
e as minhas vestes de ofício eu rasgo ao meio.
O óleo segue a deslizar, suavemente,
nas ogivais lactescentes dos seus seios…

Lembro da hóstia e uma força me sustém.
Não sei de mim, tanto desejo me treslouca…
em seus cabelos os meus dedos se detêm
(sagrado é o trigo que eu ponho em sua boca…).

As suas mãos eu levo à pia batismal,
sem esperar que alguma prece me concentre.
Me dessedento em meu pecado gutural,
bebendo o vinho do Sacrário do seu ventre…

Qual Pentecostes, misturei minh’alma à sua,
eu sussurrando as Ladainhas mais insanas,
e ela em responsos de suor da carne nua,
gemendo em gozo cada “Oh, Glória…” das Hosanas…

©pedro marques pereira

esse verbete de referência

(ou: porque fratura não se expõe impunemente)

não era Donne em versos indo para o leito,
tampouco Caetano ali cantava,
mas Ela, misturando os dois, dizendo:
“quando ele sobre mim e dentro dança lento”,
e eu, que já nem sei se lento ou não nela dançava,
sei que mais dentro (sob ou sobre?) me deixava.

ao lado a lingerie recém-comprada
e ainda não usada (olha a surpresa:
trazia entre os dentes e mais nada,
assim, só pele e poros, nua em pêlo),
ao lado, eu dizia, aquele mimo,
que a mão, à meia-luz, fiz que enxergasse,
lacei sua cintura e obediente
deixou (fez que deixou) que eu comandasse.
as ancas alternando ora espirais,
ora fluxos de um percurso sul e norte
— e ora tudo isso quando em 8.

sim, és linda e única e máxima e sem decência.
és meu verbete de referência,
disse.

e ela, de presente, a linda, fez
seu cabelo, todo ele em desalinho,
por campana em meu rosto:
a vida era ali dentro: cheiro e gosto.
o mundo era lá fora: burburinho.

poemas me acorriam, delirava.
sonetos nascituros declamava:

“amemo-nos do amor que mata e vive,
sem meias concessões, de tudo ou nada.
do amor do mais amado e mais amada,
que nunca, sei, tiveste e nem eu tive”.

mas, não.
ali era o poema em carne viva.
ali qualquer palavra soçobrava.
teus peitos, minha boca, teus cabelos,
meu corpo inteiro entregue, tuas coxas.

amei quando disseste erguendo o queixo:
pu…
(verbete meu e referência minha,
fratura não se expõe impunemente.)
…taquepariu.

então te chamo, abraço e beijo
e em mim tu dormes.

parede

o tempo é o momento. o instante é cada.
seria aquele agora o que viesse.
camisa sem botão no chão jogada
(rasgada a lingerie, sozinha desce).
decerto seguiria a caminhada,
se perto uma parede não houvesse.
desceu-me da cintura e já virada,
pediu que em suas costas me fizesse.
saía-lhe, a voz, rouca, abafada,
dizendo pra fazer o que eu quisesse.
a ordem não restou-me ignorada,
nem outra esperei que me dissesse.
com os pés, uma da outra separada,
um ângulo em suas pernas quis tivesse.
e cada uma das mãos quis espalmada,
e o rosto na parede se pusesse.
num beijo fiz-lhe a nuca devassada
(tingida de um rubor, logo azulece).
mexendo teu quadril, fêmea e suada,
teu peito na parede se intumesce.
e toda as tuas costas quis beijada,
na forma de beijar que me apetece:
pensar — embalde a boca em beijo dada —
que o beijo já de haver beijado esquece.
e a tua voz — se havia — foi calada
: teu uivo na parede se emudece.
banhou-te meu suor — tu já molhada
: de nós toda a parede se umedece.
as ancas quis de mim aproximada,
do jeito que o teu corpo bem conhece.
desci-me e, genuflexo, à mirada,
a língua quis que se sobrepusesse.
e o que se me mostrava resguardada,
aos poucos no lamber mais se elastece.
roçares… vaivéns… língua sugada…
sorvendo e sem que a sede detivesse.
a boca de contrastes consumada:
se o teu suor esfria, o mel aquece.
serias dessa forma vergastada,
se noutra, bem melhor, não conviesse:
subindo, vou sentindo na escalada,
que o gosto que eu trazia remanesce.
sussurro em teu ouvido: tu. mais nada.
sussurras à parede: não se apresse…
(ouvi, mas como fosse não falada,
tal foi a tua voz em quase prece.)
meu corpo colo ao teu — forma acoplada.
e o corpo, inda que dois, um só parece.
meu corpo invade o teu — breve estocada.
e em breves indo-e-vindo permanece.
queria-te de mim toda tomada,
e invadiria mais, se mais coubesse.
gemias de uma fala recortada,
da qual somente o corpo reconhece.
e em pleno evolver da cavalgada,
meu corpo, junto ao teu, treme e estremece.
(…)
se a hora se passou, não foi contada
(se se, talvez em si se desfizesse).
(…)
te volto para mim, quero-a abraçada,
e em canto, tal uma ária compusesse,
sussurro em tua boca: tu. mais nada.
deitemos, amor meu… já se amanhece.

*

entre, fora, sobre, embaixo
nas laterais e no centro
bico do peito no peito
beijo de boca epicentro
garapa tecido leito
coxas e pêlos riacho

cheiro de fêmea e de macho
gangorras no baricentro
ora largo e ora estreito
ora de longe, ora dentro
e o branco no novo efeito
do cobre ruivo do cacho

o teu senhor e capacho
o teu raio e circuncentro
o teu esquerdo e direito
manteiga, queijo e coentro
todo sabor, todo jeito
inteiro, de cima a baixo

©antónio sta.clara

the língua

pelo dedo
primeiro
do teu pé,
em curva
senoidal
de sobe e desce,
tocando
um a um
que se umedece,
falanges,
cinco unhas,
vante e ré,
solado,
metatarso,
calcanhar,
telúrico sabor,
salivo o pêlo
do contorno
de todo o
tornozelo
alternando
entre o
beijo e o
respirar…
lambuzo a
panturrilha
ondulada,
e encosto a
pele áspera
do rosto,
misturo
assim o
meu com o
teu gosto,
de boca e
de pele
já suada…
avanço
no joelho,
alcanço a
coxa,
mordidas
de mentira
em toda
parte,
o beijo a
pintar
obra-de-arte:
às vezes
nuvem
rubra,
às vezes
roxa…
(e as mãos e os
pés dos dois
rasgando a
colcha…)
subindo
pelo “S”
do quadril,
no rastro
salivar
chego ao
umbigo,
(de tão
pesados os
olhos,
só lobrigo…)
te ouço
sussurrar
um “não”
sem til…
na reta que
inicia-se
no ventre,
deslizo à
divisa
dos teus
seios,
no ritmo
pendular,
paro no
meio, e o
terno beijo
alterno
calmamente…
em todo o
teu pescoço
faço um giro,
molhando a
superfície
perfumada,
e após uma
descida
demorada,
eu cravo a
jugular,
feito vampiro…
adentro
umedecendo o
teu ouvido,
volteio,
vou e volto,
saio e entro,
penetro,
molho tudo,
fora e dentro,
(teus olhos,
como os meus,
calam franzidos…)
em torno
dos teus olhos
faço um 8
nariz,
maçã do rosto,
tudo beijo,
de tão extasiado,
não mais vejo,
e suga
minha boca
um beijo afoito…
encontram-se,
duelam-se,
se enroscam…
procuram-se,
encontram-se,
se tocam…
descansam,
brigam,
chupam-se,
se trocam…
de súbito
desço ao
vértice do “V”
que formam
tuas coxas
levantadas
e sorvo
e absorvo
em golfadas
o néctar que
me inunda
de você…

Antoniel Campos (1967, Pau dos Ferros, RN). Poeta, engenheiro civil, vive em Natal. Publicou Crepes e cendais (Ed. do autor, 1998), De cada poro um poema (Editora Sebo Vermelho, 2003) e A esfera (Plena Editora, 2005). Escreve o blogue Poros e Cendais. Mais aqui.

Fonte Germina Literatura

06/11/2009 - 19:38h Depuis le jour


Angela Gheorghiu na ária “Depuis le jour”, da ópera Louise de Charpentier

06/11/2009 - 19:00h Frida Kahlo


Frida, o filme


Frida, clipe com Chavela Vargas

Llorona

Salías del templo un día llorona cuando al pasar yo te vi,
Salías del templo un día llorona cuando al pasar yo te vi,
Hermoso Guipi llevabas llorona que la virgen te creí,
Hermoso Guipi llevabas llorona que la virgen te creí,

Hay de mi llorona, llorona, llorona de un campo lirio
Hay de mi llorona, llorona, de un campo lirio
El que no sabe de amores llorona, no sabe lo que es martirio
El que no sabe de amores llorona, no sabe lo que es martirio

(Música)

No se que tienen las flores llorona, las flores de un campo santo
No se que tienen las flores llorona, las flores de un campo santo
Que cuando las mueve el viento llorona, parece que están llorando
Que cuando las mueve el viento llorona, parece que están llorando

Hay de mi llorona, llorona, llévame al río
Hay de mi llorona, llorona, llévame al río
Tápame con tu reboso llorona, por que me muero de frío
Tápame con tu reboso llorona, por que me muero de frío

(Música)

Dos besos llevo en el alma llorona, que no se apartan de mí
Dos besos llevo en mi alma llorona, que no se apartan de mí
EL último de mi madre llorona y el primero que te di.
EL último de mi madre llorona y el primero que te di

06/11/2009 - 18:29h “entre aspas”

Arte Photographica


Man Ray, Rayography Film strip & sphere, 1922
© Man Ray Trust

O ajudante de farmácia pediu para falar com o senhor doutor, gostaria que o senhor doutor lhe dissesse se tinha, sobre a doença, uma opinião formada, Não creio que se lhe possa chamar, em sentido próprio, uma doença, começou por precisar o médico, e depois, simplificando muito, resumiu o que investigara nos livros antes de ter cegado. Algumas camas adiante, o motorista escutava com atenção, e quando o médico terminou o seu relato, disse de lá, Aposto que o que sucedeu foi terem-se entupido os canais que vão dos olhos até aos miolos, Forte besta, resmungou indignado o ajudante de farmácia, Quem sabe, o médico sorriu sem querer, na verdade os olhos não são mais do que umas lentes, umas objectivas, o cérebro é que realmente vê, tal como na película a imagem aparece (…)

Ensaio sobre a cegueira, José Saramago

05/11/2009 - 22:00h Boa noite


Nathan Milstein – ‘Paganiniana’

05/11/2009 - 20:36h Maneiras de ser feliz

A DEUSA

Comeu-o com muito gosto, estalando a língua e gemendo de prazer. Mas não o fez de maneira selvagem. Ao contrário, foi bastante cortês.

Comeu-o aos poucos, com requinte e sabedoria. Dispôs igualmente de todas as partes, sem rejeitar nenhum ossinho, por miúdo que fosse. Aproveitou tudo tudo, inclusive os dedos dos pés.

Sugou primeiro os lábios carnudos, suspirando delicado.

Quando mordiscava o lombo, gemeu alto. Ao chupar a coxa, quase perdeu a compostura.

Perdeu a compostura ao lamber as partes tenras. Sacrificou-o em grande estilo, arrancando-lhe as vísceras sem sombra de culpa ou tardio remorso. Mas o momento de gozo ela viveu ao devorar-lhe a cabeça.

Ele perdeu a pele, as carnes, ficou nu por fora e por dentro. Mas ela não teve dó. Arrebatara seu coração. Enfim.

DUAS MANEIRAS DE SER FELIZ

Esquizofrenizou-se às seis horas da tarde ao som da Ave-Maria, quando uns anjos lhe disseram que largasse tudo e fosse pro convento seduzir a pequena Flor-de-Liz, enquanto outros aconselharam que ela se dirigisse imediatamente ao shopping mais próximo e comprasse lingerie de cor vermelha — aquela com abertura coincidente com as aberturas de nascimento — e subisse lá pros altos da Avenida Afonso Pena que aí sim, ela estaria perto do céu.

Então Marilene deu dois passos pra frente, dois pra trás e ficou paralisada, ouvindo as vozes cada vez mais perto.

Belo Horizonte, 15/08/02

O SALVADOR

Então ele me tocou e eu fiquei curada.

O véu da cegueira se rasgou e eu vi: o tisnado da pele, o veludo dos olhos. A saturação do melado: rapadura batida e rebatida, em calor absoluto. Os lábios exatos — café claro e duas pitadas de chocolate.

Lembro antílopes e tigres e esquilos.

Meu sorriso rompe o gelo, já não dói.

Meus membros vencem a crosta de gesso, já não sou uma estátua.

Abro as vidraças.

Ensaio passos de uma nova dança, ouvindo uma música que nem mesmo sei se existe.

Porque ele me assiste.

Fevereiro, 2003

GOLPE DE NAJA

Eu nem perguntaria o nome dele.

Iria para um canto qualquer, um vão de escada e, na pressa, talvez fizesse em pedaços a camisa azul.

Minhas mãos aflitas procurariam o caminho e abririam o zíper enquanto eu esfregaria minhas tetas no corpo trêmulo e meteria a perna atrevida entre as pernas do homem, revolucionando os quadris.

Era o que eu pensava naquele carnaval, sentada com os outros em torno da imensa távola redonda, enquanto o macho ao lado, um perfeito estranho, corria a mão pela minha coxa e me lambia a cara com sua língua fogosa.

Não quis ver-lhe o rosto, não me virei, nada fiz. Apenas imaginava a cena e seus desdobramentos. O golpe de naja, o salto primitivo.

Então, num sobressalto, acordei.

Fevereiro ou março, 2003

LABORES

Ele, um touro de forte. Ela, mignonne, franzina, uma pluma. Criatura mínima, mas disposta, cheia de calores, um vulcão prestes a expelir salsa-ardente.

E assim foi: ele abre caminho na terra revolta e tenra.

Cavouca fundo, com precisão.

Cavouca calmo, mantendo o ritmo certo.

Vai quebrando resistências em meio aos ais, explora a mina, conquista reentrâncias.

Vai umedecendo o túnel estreito, enquanto o fogaréu pouco a pouco se alastra, do centro para outras glebas.

Eventualmente, ele desbloqueia a saída e respira a paisagem. Com volúpia, saboreia os arredores.

Até plantar a semente em jatos tensos, na justa hora.

O gozo germina e ela nunca mais esquece.

Belo Horizonte, 2003

[Do original "Visões do Paraíso"]

(imagens ©pedro paulo domingues)

Branca Maria de Paula (Aimorés-MG). Escritora, fotógrafa e roteirista. Premiada no 3º Concurso Nacional de Contos Eróticos da Revista Status, em 1978, teve o texto censurado na íntegra. Publicou seu primeiro livro — A Mulher Proibida — em 1980. Depois de várias obras direcionadas ao público infanto-juvenil, em 2005, lança Fundo Infinito — contos eróticos. Participa de diversas antologias. Entre elas, Intimidades (Dez contos eróticos de escritoras portuguesas e brasileiras). Vive em Belo Horizonte, Minas Gerais.

05/11/2009 - 20:00h Tango, uma forma de caminhar pela vida

Blog de Ariel Palacios

por Ariel Palacios, O Estado SP

piernas

A herança afro no tango argentino fica evidente pela sensualidade dos passos desta forma de “caminhar pela vida”


Um relatório elaborado por Cynthia Quiroga, psicóloga colombiana (o cantor Carlos Gardel morreu em 1935 na colombiana Medellín), integrante da Universidade de Frankfurt (Alemanha, terra onde foi inventado o bandonenón) afirma que o tango eleva o desejo sexual.
A Universidade recomenda o tango para casais com problemas de baixa testosterona
Sexo à parte, o tango – ritmo musical do rio da Prata (pois é praticado em ambas margens, a uruguaia e a argentina) – foi declarado Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco, no mês passado.

maozinhassd “O tango é uma dança que não é dorsal como o flamenco. O tango é postero-pélvico…sua representação é um simulacro erótico”. (do escritor espanhol Rafael Salillas em 1898)

“…Dança-se entre um homem e uma mulher, mas sem cópula”.(Salillas, 1898)

Para o escritor Jorge Luis Borges, o tango era “uma forma de caminhar pela vida”. Para o poeta Enrique Santos Discépolo, “um pensamento triste que pode ser dançado”. No exterior, o tango é a música emblemática que representa a Argentina, embora o mesmo gênero musical também seja símbolo do vizinho do outro lado do rio da Prata, o Uruguai. Os argentinos se ufanam da definição dada pelo filósofo americano Waldo Frank, que sustentou que o tango é “a dança popular mais profunda do mundo”.

A palavra tango talvez seja a mais associada à Argentina em todo o planeta. A crise econômica de dezembro de 2001 foi chamada de “efeito tango” pela imprensa mundial. O caráter fatalista e pessimista que muitos argentinos exercem diariamente sobre a política, a economia e suas próprias vidas pessoais também é apontado como “um tango”.

Mais do que triste, o tango é introvertido e introspectivo, ao contrário de outras danças populares que são extrovertidas e eufóricas. Para o escritor Ernesto Sábato, “somente um gringo pode fazer a palhaçada de aproveitar um tango para conversar e se divertir”. Segundo o autor, “um napolitano dança a tarantela para se divertir. O portenho dança um tango para meditar sobre seu destino”.

O tango é multifacético. Suas letras falam da mãe “santa”, da turma de amigos, das ruas do bairro e da pérfida – e perdida – mulher que os abandonou. Mas além disso, o tango também fala do hedonismo e da aparência, das divisões sociais e dos picaretas. Ele também é frequentemente satírico, com letras que disparam ácidas farpas contra tudo e contra todos.

NASCIMENTO
Na Argentina (no Uruguai a História é outra), mais do que ‘argentino’, o tango é portenho, já que o interior da Argentina seria melhor representado por outros ritmos, como o chamamé, o malambo e a zamba.

O bairro da Boca não foi o berço do tango, ao contrário do que indicam certas lendas, especialmente de guias turísticos estrangeiros.

mondongo
Tango nasceu no ‘barrio del Mondongo’, atual bairro de Montserrat. O bairro está marcado em vermelho nesse mapa antigo de Buenos Aires.


O tango surgiu ao redor de 1877 no bairro de Montserrat, situado entre a Casa Rosada e o atual Congresso Nacional. Na época, ali residiam os descendentes dos escravos negros que haviam sido liberados em 1813.
Em Montserrat, também chamado de “barrio del Mondongo”, os afro-argentinos organizaram-se em associações beneficentes, que de noite – em barracos de sapé – preparavam festas para angariar fundos.

Nesses eventos, tocavam batucadas lânguidas, que para os escandalizados vizinhos brancos da área eram danças “luxurientas” e “indecentes” na coreografia.

As reuniões em Monserrat-Mondongo muitas vezes acabavam subitamente com a intervenção da polícia, que aparecia para “colocar ordem” no lugar.

Na época de carnaval as associações de afro-argentinos saíam às ruas para dançar ao som da batucada, denominada na região do rio da Prata como “candombe”.

A rivalidade dos grupos – cada um queria mostrar que era melhor na coreografia – provocava confrontos sangrentos nas ruas. Por este motivo, depois de anos de incidentes, o governo ordenou a dissolução das associações.

Sem poder sair às ruas, os afro-portenhos organizaram lugares exclusivos de dança, os “tambos”. Com esta palavra começa a polêmica sobre a origem do tango. Para alguns “tangólogos”, “tango” viria de “tambo”. Para outros, vem de “Xango”, ou “Xangô”, deus africano da guerra.

A própria palavra “tango”, com essa grafia, apareceu em 1836 no “Diccionario Provincial de Voces Cubanas”. O livro define “tango” como “a reunião de negros para dançar ao som de seus tambores ou atabaques”. Outra teoria indica que “tango” vem de “tambor”.

A polêmica e a discussão são elementos altamente cotados na mesa dos argentinos. Portanto, abundam versões sobre o assunto. Uma teoria indica que “tango” vem de “tang”, palavra pertencente a um dialeto africano que poderia ser traduzida como “aproximar-se, tocar”.

tangopassos
Uma forma de caminhar pela vida com raízes africanas que posteriormente foram europeizadas


Curiosamente, outra versão sustenta que a palavra vem do latim “tangere”, que também significa “tocar”. No espanhol antigo, “tangir” equivale a tocar um instrumento.

Para complicar, no século XIX existia na Espanha um “tango andaluz”. E no México, no século XVIII, uma dança com o mesmo nome.
Nenhuma dessas teorias (há várias teorias adicionais sobre a origem da palavra) foi comprovada. Os argentinos continuam dançando este gênero sem se preocupar por sua etimologia.

Desta forma, os afro-portenhos tiveram que resignar-se a ficar dentro de seus “tambos”, dançando o embrião daquilo que em poucas décadas seria o tango tal como o conhecemos hoje em dia.

A forma de dançar era – de certa forma – vagamente similar ao samba brasileiro atual: dança solta, eventualmente segurando o/a parceiro/a, além de muito requebro.

Mas, nesse momento em que essa forma prototípica do tango está em plena ebulição nos lugares de encontros dos afro-argentinos, ocorre uma guinada que seria fundamental para o desenvolvimento do tango: o surgimento do “compadrito” nos “tambos”.

gabino
Gabino Ezeiza, um dos expoentes agro-argentinos do tango em seus primórdios


(Veremos o surgimento do compadrito no tango nos próximos dias e também a vida de Gabino Ezeiza)

maozonad

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readingw

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05/11/2009 - 19:26h Mahler – Bernstein – Hampson


Thomas Hampson e regência de Leonard Bernstein com a Orquestra Filarmônica de Viena

eines fahrenden Gesellen
Die zwei blauen
Augen von meinem Schatz
Gustav Mahler

05/11/2009 - 18:56h Morena provençal

http://weblogs.clarin.com/antilogicas/archives/Morocha%20durmiendo%20con%20espejo.jpeg

Dormindo com o espelho – André Hambourg (França, 1909-1999)

http://www.interencheres.com/medias/img_actu/_hambourg.jpg

André Hambourg (1909-1999) : « Saint-Rémy-de-Provence », 1947

05/11/2009 - 17:15h Império das coelhinhas vive crise, mas Hugh Hefner reina aos 83

http://henrilee.files.wordpress.com/2009/05/hughhefner.jpg

‘É uma das boas fases de minha vida’, diz o profeta do hedonismo, que já admite até vender sua revista


Brooks Barnes, THE NEW YORK TIMES, LOS ANGELES – O Estado SP

Hugh Hefner se reclina no surrado sofá de dois lugares no estúdio da sua famosa mansão e entrelaça os dedos por trás da cabeça. Um visitante fez uma pergunta – quase gritando, já que Hefner tem problemas de audição – sobre mortalidade. Aos 83 anos, ele pensa nisso? Numa palavra: não. O lendário fundador da Playboy, profeta do hedonismo, não acredita que seu fim esteja próximo. E também não age como se estivesse. Continua trabalhando em tempo integral na sua revista, voa para a Europa e Las Vegas, toma Viagra, frequenta boates com as três atuais namoradas com quem vive na sua mansão – com idades suficientes para serem suas bisnetas – e está trabalhando num filme com o produtor Brian Grazer. “Esta é uma melhores fases da minha vida”, diz, sorrindo, de pijama e chinelos. “Está ainda melhor, mais rica, do que as pessoas imaginam.”

http://www.spiegel.de/img/0,1020,86517,00.jpg

Você quer acreditar, mas é difícil ignorar as realidades da sua empresa. A Playboy Enterprises, afetada pelas mudanças que vêm ocorrendo nos veículos de comunicação, precisa de uma boa injeção de ânimo. Neste mês, a revista anunciou um corte na tiragem de 2,6 milhões para 1,5 milhão. A Playboy Magazine contabiliza prejuízos há sete trimestres consecutivos. E talvez o mais terrível seja que, no início do ano, a empresa tenha declarado que aceitaria ofertas de compra, algo que se acreditava impensável enquanto Hefner estivesse vivo.

Mas ele sabe que toda boa festa acaba e há muito tempo comprou uma cripta próxima à de Marilyn Monroe no cemitério de Los Angeles. Nas entrevistas concedidas com o passar dos anos, ele sempre disse que a vida não valeria a pena sem a Playboy. “Seu eu a vendesse, minha vida acabaria”, declara. Mas isso pode estar mudando. “Estou pensando mais seriamente no fato de que não tenho mais 30 anos. Preciso pensar na continuidade da revista.”

Amado ou odiado, ninguém duvida da influência de Hugh Hefner na história da cultura norte-americana. Como editor de revista, ele fez pelo sexo o que Ray Kroc fez pela comida de beira de estrada: tornou-o mais “limpo” para uma classe média emergente.

Como força cultural, contudo, Hugh Hefner ainda divide o país, e isso 56 anos depois da primeira edição da Playboy. Para seus defensores, ele é o grande libertador sexual que ajudou os americanos a se livrarem da neurose e do puritanismo. Para seus detratores, incluindo muitas feministas e conservadores, ele ajudou a desencadear uma revolução do comportamento sexual que transformou em simples objeto e vítima um número incontável de mulheres e promoveu uma visão imoral da vida, só de prazeres. Hugh Hefner reconhece que houve consequências funestas a partir do que ele ajudou a pôr em marcha, mas diz que “é um pequeno preço a pagar pela liberdade pessoal”.

A SÉRIE DE TV

“As pessoas nem sempre tomam boas decisões. As reais obscenidades neste planeta têm pouco a ver com sexo”, diz, acrescentando que “esta não é uma época romântica”. Considerando-se toda a pornografia agora disponível instantaneamente online e os programas de sexo ao vivo, incluindo a sua própria série na TV ,The Girls Next Door (As Garotas da Mansão da Playboy), esta é uma época que torna os ideais da Playboy parecerem antiquados.

Hefner usa a palavra “gato” para falar de si: “Sou o gato mais feliz do planeta.” E não valoriza muito o ambiente cultural moderno. “Acredito firmemente que a cultura pop hoje é um caldo diluído”, declara. “Costumava ser algo muito mais espesso e profundo.”

Mas, ao mesmo tempo, tenta participar ativamente desse ambiente. Embora a revista ainda seja editada quase toda em Chicago, é ele que aprova “cada Coelhinha, cada capa, os cartoons e as cartas”. Trabalhando a partir do seu escritório ou da sua cama, forrada por uma colcha de veludo e seda, Hefner é quem estimulou a recente decisão da revista de adquirir um trecho de 5.000 palavras do romance inacabado de Vladimir Nobokov, Laura, para uma futura edição.

Ele foi iniciado no Twitter por suas namoradas. Está ligadíssimo na série dramática da HBO, True Blood. E, recentemente, filmou um comercial de propaganda do Guitar Hero segurando o cachimbo que abandonou depois de sofrer um pequeno AVC em 1985.

VINGATIVAS

Hefner também sofreu algumas humilhações pessoais. Antigas namoradas que viveram com ele na mansão, incluindo as que apareceram na série As Garotas da Mansão da Playboy, o retrataram em entrevistas e num livro como um controlador fanático que impunha um toque de recolher às 9 horas da noite. A própria mansão já teve dias melhores. Durante uma visita em julho, a casa de jogos (a única com uma sala que tem um colchão como piso) cheirava mofo, enquanto que o viveiro de pássaros estava precisando de uma boa limpeza. A famosa gruta, com suas banheiras Jacuzzi de várias profundidades, parecia mais uma gruta fétida de zoológico do que um palácio do prazer (embora as prateleiras ao lado estivessem repletas de enormes frascos de óleo para bebê).

Em março, com o mercado imobiliário despencando, ele colocou à venda a casa da sua mulher, vizinha da Mansão da Playboy, por US$ 28 milhões. A casa foi vendida em agosto por US$ 18 milhões. Hefner, que se separou de Kimberly Conrad em 1998, entrou com pedido de divórcio no início de setembro; Kimberly está processando o ex-marido, alegando que ele lhe deve US$ 4 milhões, com base num acordo pré-nupcial e no produto da venda da casa.

O séquito de Hefner insiste que não há escassez de dinheiro, mas uma série de medidas adotadas parecem mostrar exatamente isso. O Los Angeles Business Journal reportou no ano passado que o número de funcionários da mansão foi reduzido. As pessoas agora pagam ingressos (até US$ 10.000 cada ) para as festas que antes eram só para convidados e que ainda hoje são uma parte vital da marca Playboy.

“Nem sempre é tão empolgante como as pessoas imaginam”, disse Holly Madison numa entrevista há alguns meses. Holly viveu com Hugh Hefner por sete anos como “namorada número 1″, até separar-se dele no fim do ano passado.

Richard Rosenzweig, que trabalha na Playboy desde 1958, pensa diferente. “Este é um lugar que todos desejam ver”, declarou numa entrevista. “Todo mundo quer vir aqui.” Quando o relacionamento de Hefner com Holly Madison terminou, ele disse ter recebido cartas de mulheres do mundo todo implorando para morar com ele. “Elas estavam saltando os portões”, conta, radiante. Hugh acabou escolhendo três novas namoradas para companhia na Mansão, Crystal Harris, de 23 anos, e as gêmeas Kristina e Karissa Shannon, de 20 anos.

Apesar da atitude jovial, Hefner claramente está preocupado com o seu legado. Ultimamente ele vem estudando cuidadosamente seus álbuns de recortes, que guarda desde a infância e hoje já somam dois mil volumes. Um material nunca visto que inclui seu primeiro cartão de biblioteca, histórias em quadrinhos que ele próprio desenhou e fotos – que devem constituir o núcleo de uma “biografia ilustrada” em seis volumes, de 3.506 páginas, da Taschen. Somente 1.500 edições dessa volumosa biografia serão vendidas, por US$ 1.300 cada, ainda antes do próximo Natal.

NO CINEMA

Pela primeira vez, ele também deu acesso total a uma produtora de documentários, Brigitte Berman, que concluiu recentemente o documentário Hugh Hefner: Playboy, Ativista e Rebelde, que estreou no Festival Internacional de Cinema de Toronto. E um importante realizador de filmes biográficos está acelerando o trabalho depois de uma longa espera. Brian Grazer reuniu-se recentemente com a roteirista Diablo Cody para discutir o projeto. Brett Ratner (conhecido pelo filme Hora do Rush, grande sucesso de bilheteria) deve dirigir o filme e Robert Downey Jr manifestou interesse em interpretar Hefner. “Ele é um grande intelecto que influenciou o espírito de uma época, e essa influência é subestimada”, disse Grazer.

Alguns dos antigos amigos estão muito inquietos, temendo que sejam perdidas algumas das realizações de Hefner que admiram – a criação de um ícone cultural (a coelhinha da Playboy), a derrubada de fronteiras raciais (pela inclusão de artistas negros em seus clubes)e o apoio a muitas causas feministas, incluindo o direito ao aborto e a Emenda pelos Direitos Iguais. Hefner também se preocupa. “Hoje vivemos, literalmente, num mundo muito diferente e eu ajudei a torná-lo assim”, diz. “Os jovens não têm nenhuma noção disso.” TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Em Suma:

Neste texto, você fica sabendo como anda a vida do poderoso magnata das comunicações Hugh Hefner, de 83 anos, dono de um império chamado Playboy Enterprises, que inclui a revista masculina Playboy, fundada por ele. Hefner está às voltas com filmes sobre sua vida (um deles pode ser estrelado por Robert Downey Jr.), a manutenção do seriado de TV As Garotas da Mansão da Playboy e a edição de uma biografia ilustrada em seis volumes, a sair antes do Natal. Por causa da crise em seu país, diminuiu o número de funcionários de sua empresa e de sua mansão e não se incomoda mais se tiver até de vender a revista.

05/11/2009 - 16:08h Na intimidade com Mario Cravo Neto

Mostra em homenagem ao artista destaca uma obra que vai muito além da linguagem fotográfica como forma de expressão

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White Mother I (1990) Mario Cravo Neto


Maria Hirszman – O Estado SP

Eternamente Agora, que será aberta hoje no Instituto Tomie Ohtake, é bem mais do que um merecido tributo a Mario Cravo Neto (1947-2009), um dos grandes nomes da fotografia contemporânea brasileira, que morreu precocemente em agosto. Concebida em parceria por Cristian Cravo, fotógrafo e filho do artista, e por Paulo Herkenhoff, a mostra indica – por meio de uma seleção enxuta, mas criteriosa de trabalhos – questões centrais em sua produção. Além de nexos estéticos e temáticos, a exposição se pauta pelo Herkenhoff define como “trama dos afetos”, privilegiando seu universo afetivo e deixando de lado o caráter mais mundano de sua produção.

http://noravr.blog.lemonde.fr/files/2009/08/mario-cravo-neto.1250194276.JPG

Dentre esses liames se destaca com grande força a intensa relação entre Mario Cravo Neto e seu pai, o escultor Mario Cravo Junior, presente a partir de obras, registros fotográficos (seu último trabalho, presente na mostra, era justamente para ilustrar um livro que idealizava realizar sobre a obra do pai) e um impressionante retrato. Familiares (modelos frequentes do artista) e a cena doméstica estão presentes, inclusive pela transposição para o espaço da exposição de um canto, com móveis e objetos da casa em que viveu.

Há também, fechando o ciclo, uma bela imagem de autoria de Cristian. De grandes dimensões e num pouco usual recorte vertical, a foto mostra um menino de costas, em posição de reverência diante de uma magnífica cachoeira. “Um ato de humildade diante de algo muito maior”, diz Cristian explicando por que escolheu essa imagem dentre tantas para a mostra. A exposição evidencia ainda uma forte relação existente entre o fotógrafo e Pierre Verger e não apenas pelo viés do fascínio compartilhado pela Bahia e pelo candomblé.

A maioria das obras selecionadas pertence a um universo fechado, de registro intimista em ateliê, de retratos de pessoas ou objetos, conciliando sólida busca formal com sensível apreensão poética e simbólica do mundo à sua volta. Mais conhecido pela obra fotográfica, Cravo Neto não se atinha a essa linguagem como forma de expressão, pelo menos até meados da década de 70, quando realiza e performances, posteriormente registradas em foto. A exposição traz uma delas, Câmaras Queimadas (1977), nas duas versões. Também é mostrado, em versão fotográfica e com toda sua materialidade física, o ninho feito com fiberglass que tanto fascinava o artista por sua situação ambígua e provocadora, entre a natureza e a artificialidade.

Aliás, a transitoriedade, a relação de choque e harmonia entre imagens distintas, o contraste entre a ação impactante da cor e a densidade da imagem em preto e branco, o jogo entre o real e a representação são elementos quase constantes na poética de Mario Cravo Junior. No tríptico A Flecha em Repouso, é explorada uma associação potente entre as simbologias míticas do candomblé e da iconografia cristã, ora tirando faíscas do choque entre as imagens e ora estabelecendo estranhas harmonias entre os elementos. A imagem central, que retrata a fachada de uma igreja parisiense, parece mergulhar no cinza escuro que lhe é bastante característico. No entanto, ao observar as pernas das imagens esculpidas, vê-se que isso é ilusório. Estamos, na verdade, diante de uma fotografia tão colorida quanto o prato do sacrifício do candomblé à esquerda ou a moça que dorme à direita. Mas foi necessária uma fricção, uma reação quase epidérmica para que os tons do metal brotassem. “Ele parece lidar com a carnalidade da fotografia”, sintetiza Herkenhoff.

Apesar do forte caráter barroco de sua obra, o curador parece interessado em abordar outro aspecto menos explorado da produção do artista: a relação com o minimalismo. Além da importância do movimento em sua formação (Cravo Neto vivia em Nova York no fim dos anos 60 e teve contato com a primeira grande publicação sobre o tema, editada em 1968 por Gregory Battcock), o que leva o curador a fazer essa aproximação é a redução poética e a economia formal fortemente presentes em seu trabalho. Obra essa que ainda tem muito a ser explorada. Cristian Cravo calcula que apenas 1% da obra do pai tenha sido ampliada até o momento e promete para breve a criação de um instituto para preservação e divulgação de sua obra, a instalar-se provavelmente em São Paulo.

04/11/2009 - 22:00h Boa noite


‘Chanson Russe’ (Canção Russa), de Stravinsky – Violino Christian Ferras

04/11/2009 - 20:25h eróticos & pornográficos

Germina Literatura


O texto é o mesmo
repetição
um beijo pousa
uma saudade decola
o amor sugere
a incerteza se instala
indiferente
o vento passa
o olhar procura
na fresta da roupa
a pele oculta da mulher.

PONTO DE FUGA

Que indagação faz
o umbigo feminino
quando aparece entre
uma peça e outra
da veste?
Intimidade
sensualidade.
Nem mesmo
a musicalidade dos pêlos
é maior que o apelo
da cicatriz do nascimento.

ENCONTRO

O olho caça
na mata
abaixo do umbigo
um abrigo
secreta pátria
a língua avista
bem no centro
do jardim de pêlos
o lugar
caverna
doce e úmida.

*

Na falta de um cigarro,
O beijo toma conta
dos lábios.
Da boca, renasce o desejo.
Na língua, a umidade
lubrifica o amor.
Começo de tarde, curto,
sem gosto de chocolate,
mas molhado
de chuva e volúpia.

*

Quando o rasgo da roupa
deixa florescer
uma essência oculta
sublime é a pele
que se mostra
gentil é a natureza
com a mulher
que passa
livre e solitária
provocando quem a olha.

O MODELO

Uma discreta marca de sol
repousa na pele clara
da mulher sem roupa
parada no atelier
do pintor que trabalha
fareja a beleza
desenha o que a luz
faz ver e sonhar.

Rebelde modelo
possuída pelo calor do sexo
foge e deixa a tela vazia
habitada por fantasmas.

A MULHER

Uma geografia
sempre a ser descoberta
obscura e secreta
como a solidão.

Em silêncio
a intimidade feminina
acende o mistério
que faz lembrar
o aroma dos devaneios
que transporta
o fim da tarde.

Almandrade (Antônio Luiz M. Andrade), artista plástico, arquiteto, mestre em desenho urbano e poeta. Participou de várias mostras coletivas, entre elas: XII, XIII e XVI Bienal de São Paulo; “Em Busca da Essência” — mostra especial da XIX Bienal de São Paulo; IV Salão Nacional; Universo do Futebol (MAM/Rio); Feira Nacional (S.Paulo); II Salão Paulista, I Exposição Internacional de Escultura Efêmeras (Fortaleza); I Salão Baiano; II Salão Nacional; Menção honrosa no I Salão Estudantil em 1972. Integrou coletivas de poemas visuais, multimeios e projetos de instalações no Brasil e exterior. Um dos criadores do Grupo de Estudos de Linguagem da Bahia que editou a revista “Semiótica” em 1974. Tem poemas publicados em revistas especializadas. Publicou Poemas (Ed. do autor, 1988), Suor Noturno (Ed. Fator, 1993), Arquitetura de Algodão (Ed. Letras da Bahia, 2000), Textos Sobre Arte (Ed. Museu de Arte Moderna da Bahia, 2000). Mais na Germina, no Expoart e no Prova de Artista.

(imagens ©jerry c.)

04/11/2009 - 19:27h Canções de um caminhante


Gustav Mahler (1860-1911)
Lieder eines fahrenden Gesellen (Songs of a Wayfarer)
Lieder cycle for voice and orchestra

Dietrich Fischer-Dieskau, baritono
NHK Symphony Orchestra
Paul Kletzki, regente
(Salle Pleyel, Paris, 1960 ao vivo)

m a h l e r
(1860-1911)

Gustav Mahler nasceu em Kalist (Boêmia) a 7 de junho de 1860. De modesta família judaica, freqüentou durante alguns anos a escola secundária e iniciou em 1875, no Conservatório de Viena, o estudo da música. Em 1880 escreveu a obra coral A canção triste, que tornou conhecido o seu nome.

Foi regente em teatros de pequenas cidades de província e, em 1887, em Leipzig, onde terminou a composição de sua primeira sinfonia. Em 1888 foi nomeado diretor da ópera de Budapeste e em 1891 regente da ópera de Hamburgo, onde suas encenações tiveram muito sucesso.

Em 1897, depois de ter se convertido ao catolicismo, foi nomeado diretor da Ópera Imperial em Viena e eleito regente dos concertos filarmônicos. Os anos seguintes foram um período de sucessos muito grandes, mas também de intrigas contra ele, inclusive da parte da orquestra, que não suportava os inúmeros ensaios a que o regente a submeteu.

Em 1907, Mahler foi forçado a demitir-se. Contratado pela Ópera Metropolitana em Nova Iorque, também foi muito aplaudido. Gravemente doente, do coração e dos nervos, voltou para Viena só para morrer, fato que ocorreu em 18 de maio de 1911.

Mahler foi regente de orquestra da mais alta categoria. Alguns consideram-no o maior regente de todos os tempos, pela dedicação fanática ao trabalho de ensaios e pela fidelidade, no entanto intensamente pessoal, da interpretação das obras. Ajudado por um elenco de grandes cantores e por excelentes cenógrafos, conseguiu representações de perfeição inédita das obras de Mozart e Wagner. As óperas de mestres menores foram apresentadas de tal maneira que pareciam novas obras-primas.

A fama de Mahler como regente eclipsou de longe, durante sua vida, a fama de suas próprias obras sinfônicas. Foram executadas com freqüência, mas sem muito sucesso, rejeitadas pelos conservadores. No entanto, é como compositor que Mahler atingiu a categoria de grande artista.

Em 1885 escreveu Mahler, para textos em estilo popular que ele próprio tinha redigido, as Canções de um caminhante, para uma voz e orquestra, de romantismo intenso quase mórbido. A Sinfonia n.º 1 em ré menor é denominada Titânica, não por ser ‘titânica’, mas conforme o título de um romance de Jean Paul. Ainda é muito romântica, wagneriana e bruckneriana, mas o conteúdo emocional já é outro, obra de um músico intelectualizado e angustiado.

As Canções da cornucópia de um garoto (1888-1899) têm, como textos, canções populares da coleção de Arnin e Brentano. É característica a síntese de melodias que parecem folclóricas, e de um acompanhamento orquestral requintado. Obra-prima é, enfim, a Sinfonia n.º 2 em dó menor (1894), com coro, que manifesta a profunda angústia religiosa do compositor. O ouvinte moderno pensaria em Unamuno.

Seguiram-se, como se fosse alcançada a redenção, a Sinfonia n.º 3 e n.º 4 em sol maior (1900), esta última com um solo com texto de canção popular infantil sobre o céu. Mas são, outra vez, terrivelmente sombrios as Canções sobre a morte da criança (1905), em que Mahler parece ter pressentido a morte, um ano depois, do seu filhinho.

A série das últimas obras começa com a Sinfonia n.º 6 em lá menor (1906), tecnicamente a mais complexa das obras orquestrais do mestre. Enfim, a Sinfonia n.º 8 em mi bemol maior (1907) não é a maior, mas a mais impressionante das obras de Mahler. Foi denominada ‘a sinfonia dos mil’, por que a execução exige várias orquestras e coros, mais de mil figuras. Não é propriamente uma sinfonia, mas antes uma gigantesca cantata. Servem como textos o hino Veni creator spiritus e o coro final da segunda parte do Fausto de Goethe. Nem todos acham que o resultado justifica os colossais recursos exigidos.

A grande obra-prima de Mahler é a Canção da terra (1908), cantata sinfônica sobre textos de Li T’ai Po e outros poetas chineses, na tradução alemã de Hans Bethge. Mahler foi homem de grande cultura literária e filosófica, e de uma intensa predileção pela música autenticamente popular, folclórica. Em sua alma lutaram uma permanente angústia religiosa e dúvidas torturante de intelectual. Tudo isso se manifesta na Canção da terra, que termina com uma comovente canção de despedida para sempre.

Mahler ainda escreveu, depois, a Sinfonia n.º 9 (1910) e a Sinfonia n.º 10 que ficou incompleta, obras de crise em que o compositor se aproxima das fronteiras do sistema tonal.

A grandeza de Mahler como compositor só foi reconhecida depois de sua morte, graças aos esforços de dois regentes que impuseram ao público suas obras: seu discípulo Bruno Walter e o holandês Willem Mengelberg. Seguiu-se curto período de eclipse, quando os nazistas proibiram a execução das obras do mestre de origem judaica. Hoje é Mahler incluído entre os grandes da música, no mundo inteiro.

Fonte Classicos do IG